A Cruzada da Hipocrisia

No dia 5 de setembro, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella veio, através do seu twitter, anunciar que os exemplares à venda, na Bienal do Livro, do encadernado Vingadores – A Cruzada das Crianças fossem recolhidos das prateleiras. O volume faz parte da A Coleção Oficial De Graphic Novels Marvel, lançado originalmente em 2016 e à venda na Bienal do Rio juntos com diversos outros títulos da coleção a R$20,00.

A revista polêmica…

Um dia antes, o vereador do DEM, Alexandre Isquierdo, repudiou a venda do encadernado em uma sessão ordinária na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, alegando “Absurdo um livro que está sendo comercializado na Bienal do Livro: Vingadores – A Cruzada das Crianças, no qual o autor, que é assumidamente gay, coloca dois super-heróis em um relacionamento homossexual”. A manifestação ocorreu após uma mãe ter reclamado, no Twitter, de ter comprado o volume para o filho e descobrir que a obra mostra uma cena de um beijo entre dois personagens masculinos.

Vale dizer que, em janeiro, o mesmo vereador tentou polemizar em outro vídeo, em janeiro desse ano, criticando a venda de uma figura do Ken (aquele da Barbie), como um tritão, alegando uma covardia com as crianças e a desconstrução da figura masculinas e das “cores lgbt” do boneco.

A polêmica figura…

A prefeitura ainda havia argumentado que não iria recolher os exemplares de Cruzada das Crianças, mas recomendava que todos fossem lacrados num plástico preto com um aviso de conteúdo inapropriado para crianças.

No dia seguinte ao anúncio do prefeito, uma equipe de fiscais da prefeitura do Rio, acompanhados pelo subsecretário de operações da Secretária de Ordem Pública e ex-comandante da Polícia Militar, o coronel Woney Dias, foram à Bienal e visitaram diversos estandes, com a alegação de apurar uma denúncia de que livros impróprios estavam sendo vendidos no evento.

A Bienal entrou com um pedido de mandado de segurança preventivo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) para garantir o pleno funcionamento do evento, conseguindo uma liminar no início da noite do dia 6 impedindo a busca e apreensão das obras ditas como “impróprias”.

Porém, no dia 07, O presidente do TJ-RJ, desembargador Cláudio de Mello Tavares, suspende a liminar, permitindo o recolhimento das obras que não tivessem lacradas com a advertência para o conteúdo impróprio, sob pena de apreensão e cassação de licença .

Uma decisão do TJ-RJ, assinada pelo presidente do tribunal, desembargador Cláudio de Mello Tavares, manda recolher as obras da Bienal que tratem de temática LGBT voltadas para o público jovem e infantil, que não estejam com embalagem lacrada e com advertência para o conteúdo, sob pena de apreensão dos livros e cassação de licença.

A justificativa do desembargador é de que a decisão não traz “impedimento ou embaraço à liberdade de expressão, porquanto, em se tratando de obra de super-heróis, atrativa ao público infanto-juvenil, que aborda o tema da homossexualidade, é mister que os pais sejam devidamente alertados, com a finalidade de acessarem previamente informações a respeito do teor das publicações disponíveis no livre comércio, antes de decidirem se aquele texto se adequa ou não à sua visão de como educar seus filhos”.

Até que o Youtuber Felipe Neto entrou na briga:

Além da ação do Youtuber, que doou 14.000 livros com temática LGBT, houve uma manifestação no pavilhão verde do evento, em que se iniciou durante a mesa ‘Literatura Arco-Irís’. Alguns dos palestrantes já haviam falado sobre a nova entrada dos fiscais da prefeitura após a nova decisão do TJ-RJ, até a entrada do autor Michel Uchiha na mesa literária onde pediu a palavra e disse sobre ‘fiscais rodando o evento e olhando os estandes’. Com uma decisão conjunta dos presentes, houve o cancelamento da mesa e sessão de autógrafos que ocorreria na sequência para realizar o protesto na entrada da Bienal.

Os fiscais que haviam voltado no sábado a paisana, saíram de mãos vazias.

Felizmente, o STF derrubou a decisão do TJ-RJ, alegando censura. Fazendo o último dia da bienal seguir tranquilo.

Essa cruzada da hipocrisia terminou, com vitória da liberdade de expressão. Mas a luta está longe de terminar, infelizmente.

É MUITO importante ficarmos atentos e não descansar da vigília, por que as liberdades individuais de todos e, especialmente, dos cidadãos LGBTQ desse país, estão em perigo. Vivemos um momento de forte viés de extrema-direita conservadora e, num momento em que o atual governo vê sua popularidade cair, nos atacar é a maneira mais fácil de fazer cortina de fumaça e acenar à base eleitoral religiosa e retrógrada. PRECISAMOS NOS CUIDAR e fazer muito barulho e resistência. Sigamos!

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