E hoje, no BN Tales, temos a estréia da série Golem, escrita por Osíris Reis. É um romance seriado de ficção científica ursina que acompanha Abeô, um urso nigeriano que fugiu para o Brasil após escapar de um linchamento. Entre novos inimigos e paixões, seu primeiro desafio será juntar dinheiro para salvar a vida da irmã pequena de um destino cruel.

Golem será publicada todas as terças e quintas, aqui no Bear Nerd.

Capítulo 01 – Ele

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Manaus ainda dormia em trevas mornas e úmidas, suor, ventiladores e muito ar condicionado. Numa das vias do Centro, um homem negro caminhava na rua. Extremamente alto e largo, carregava no ombro esquerdo uma caixa metálica quase do tamanho de uma pessoa. Parou numa lixeira, juntou as sacolas ali e atirou-as dentro da caixa. Fazia aquilo há meses, as mãos não precisavam mais de ordens do cérebro. A mente viajava na antiga vida: as minas da Nigéria, a família que deixara para trás, o quase linchamento. Só voltou ao presente ao ouvir o motor do caminhão, as notas ruidosas e o locutor anunciar em português:

— Você ouviu na sua Madrugada Manauara, Love hurts. E antes, Pássaro de fogo, com Paula Fernandes. Agora são 04:37, e nós vamos de…

Aquilo pareceu alarmar o homem. Mais que depressa, ainda com a grande caixa metálica no ombro, correu entre as outras lixeiras do quarteirão e repetiu o processo. Voltou ao começo da rua pouco antes do caminhão de lixo passar. Não precisou erguer a caixa metálica quase nada para despejar, devagar, o conteúdo fétido na caçamba de madeira. Sobre ela, outro homem, uniformizado e bem menor, começou a usar uma enxada para esparramar o lixo recém despejado. E enquanto o grandão corria para a próxima rua com a grande caixa metálica nas costas, dois manauaras, também uniformizados, caminhavam atrás do veículo e conversavam tranquilamente:

— Tu ainda vai na zona hoje, Jackson?

— Tô duro dimais, sô!

— Mas é pra amulecê que existe a zona, diacho!

— Pra amulecê a rola e endurecê o borso, só se fô.

De cima da caçamba, o da enxada indagou, gargalhando:

— Sério mesmo que ocêis vai gastá o salário tudo com buceta e cachaça de novo?

— E tem coisa mió, ô, Joziel? – respondeu um dos que estava embaixo, pedindo aprovação do que estava ao lado..

— Ajudá os cumpanheiro até os final da noite? – devolveu o de cima.

— Ajudá pra quê, Juélcio? Com essa geladera véia nas costas, o negão ali dá conta do serviço por nóis tudo! – comentou um deles, apontando com o queixo na direção do grandão, que já voltava.

O “negão” tinha nome: Abeô Bankole. Encabulado, ele tentava adivinhar o que diziam. Podiam estar falando de suas roupas velhas, sujas e rasgadas, ou do cabelo e barba crespos, desgrenhados, que mais pareciam uma grande juba. Nunca na vida ele tinha ficado tão parecido com um bicho, nem mesmo quando trabalhava nas minas.

Podiam também, é claro, estar comentando sobre como ele era grande e desajeitado demais, praticamente um aleijado. Aliás, era assim que o chamavam em sua terra natal. Que outra explicação teriam? O máximo que um homem normal lhe alcançaria seria o queixo, e só se estivesse na ponta dos pés. E havia a barriga: grande e volumosa, como se fosse um músculo à parte. Os mineiros, na Nigéria, diziam às vezes que aquilo era fruto do verme dos caramujos. Noutras, quando estavam mais revoltados, acusavam-no de roubar rações e cerveja da despensa.

O homem da enxada gargalhou

— Cêis é uns fi duma égua, isso sim!

De dentro da cabine, o motorista gritou:

— Vem cum essa não, Juélcio! Dispois que o preto intrô tu num desce mais da caçamba, que eu sei, visse?

Um dos outros lixeiros, o Jackson, correu até perto do motorista, empoleirou-se na escadinha perto da porta e murmurou:

— Tu tá com a grana, Osmar? Nóis vai ficá aqui na zona.

— Tu esqueceu aqueles adiantamento, foi?

— Quelas mixaria? Já num tá tudo quite, não?

— Só daqui duas semana.

Jackson olhou rapidamente para o africano, que se afastava para outra rua, antes de sussurrar para Osmar:

— Tá, intão me passa aí metade da semana do Abeô.

— Tá maluco, home?

— Eu que arranjei esse bico pra ele, sô. Pra mim ele impresta essa grana tranquilo, moço. Tu sabe como o gringo é mosca morta.

Pouco depois, enquanto Abeó voltava para o caminhão, geladeira cheia de sacolas, Jackson passou por ele, dinheiro na mão, acompanhando Joziel. Gritou, já se afastando:

— Thank iul, Abeô. I now use my parte of giving you worky.

Surpreso, o africano observou-os se afastarem do caminhão, tomarem pela mão duas das várias mulheres seminuas que esperavam na esquina e, gargalhando, entrarem num bar. Ficou alguns instantes ali, parado, sem saber o que pensar. Não falava inglês com tanta frequência, e ainda por cima o brasileiro falava o idioma muito mal. Ele dissera que estava pegando a parte dele por lhe dar trabalho?

Todos esses pensamentos, entretanto, evaporaram quando um outro homem apareceu no final da rua. Havia algo no olhar dele que fez Abeô congelar, prendendo a respiração. Eram olhos sérios, quase raivosos, mas também belos, afiados e profundos. Algo que fez o africano ter vergonha do que o estranho poderia ler em sua alma, se continuasse a observá-lo por tempo demais. Então, instintivamente, o catador de lixo baixou os olhos.

Queria tê-los fechado, mas não conseguiu. Seu olhar percorreu o bigode, a boca e a barba do estranho, vermelhos como fogo. No  pescoço robusto, contrastando com a pele clara, uma série de tatuagens negras descia pelo peitoral e se escondia sob uma generosa quantidade de pelos ruivos, pelo menos até o ponto em que a camisa de seda estampada, semi-aberta, deixava revelar. Em seguida vinham as coxas, fortes como as dos mais robustos jogadores de futebol e entre elas, coberto pelo jeans, aquele grande volume de carne que, por algum motivo, Abeô imaginou como sendo quente e apetitoso.

O africano levou um susto quando o caminhão buzinou. Olhou para trás, para Juélcio, que acenava para ele de cima da caçamba, e soube que tinha de correr para terminar o trabalho. Mesmo assim, deu uma última olhada em direção ao ruivo, em tempo de vê-lo puxar, pela cintura, uma das mulheres seminuas e caminhar com ela, sério, para o bar. Um vazio gelado cresceu no estômago de Abeô. Mesmo que não admitisse direito para si mesmo, sabia o porquê daquela cena doer tanto para ele.

Era um lembrete de que, no fundo, estava destinado a viver sozinho, como a aberração que era. Para todo o restante podia inventar desculpas, mas não para isso. Tanto pela religião do pai quanto pela da mãe, sua vida estava condenada neste mundo e no próximo.

O caminhão buzinou de novo e Abeô correu para ele, geladeira nas costas. Tinha que se concentrar. A última coisa que precisava era que os brasileiros percebessem sua depravação, ou pior, que o ruivo percebesse. Se já recebia menos que os outros lixeiros, se descobrissem sobre ele então. Uma indignação surgiu em sua mente ao lembrar-se de Jackson. E era justamente disso que precisava para parar de pensar no ruivo. A pequena Shanumi dependia do dinheiro que estava juntando. Não podia deixar que Jackson continuasse com aquilo, ou levaria meses para ter o suficiente. E ela não tinha meses.

Quando o dia clareou, Abeô recebeu do motorista um pouco de dinheiro e um pão enrolado numa sacola plástica. Guardou o dinheiro na velha mochila, foi até a margem do rio e lavou-se às pressas. Enquanto corria para o outro trabalho, tentava adivinhar quanto cobravam por aquele pedaço de pão e se realmente precisava dele. Todavia, entre esses raciocínios, o que volta e meia lhe retornava à mente, num misto explosivo de esperança e tristeza, era se, por qualquer motivo, voltaria a avistar, mesmo que de relance, o ruivo e suas tatuagens.

Enquanto Abeô começava o segundo emprego, perto dali um norte-americano recebia ordens pelo celular:

— <<É, de fato, uma oportunidade única, coronel.>> – dizia a voz do outro lado do continente – <<Quais as chances de dois alvos tão valiosos estarem novamente na mesma cidade?>>

— <<Então o senhor entende a importância de…>>

— <<Claro. Vou falar com o presidente assim que amanhecer. Mas aconteça o que acontecer, não deixe que os alvos escapem. Não os perca de vista, entendeu?>>

O norte americano desligou o celular e tentou, em vão, aumentar o ar condicionado do hotel. Com alguma sorte, eles iriam matar dois coelhos com uma cacetada só.

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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