Capítulo 02 – Ela

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Abeô ainda tentava decidir se preferia a noite ou o dia em Manaus. À noite, o clima era um pouco mais agradável, mas o trabalho era bem mais desconfortável. Além de caminhar muito mais, demorava para o nariz se acostumar aos odores da atividade. Já de dia, o nariz não raramente passava por desconforto, mas o calor era algo com o que ainda não se acostumara. Nas terras em que crescera, aquele ar úmido e quente só aparecia muito no fundo das minas de estanho, onde definitivamente não havia vento. Vento morno como o do Brasil era algo que jamais imaginaria antes.

Calor à parte, tinha que continuar o trabalho. Mochila nas costas, carregava caixas de verduras e frutas dos caminhões para as barracas das feiras, o que exigia ainda menor concentração que o trabalho noturno. Num dia normal isso já não era bom: a mente costumava ficar remoendo o quase linchamento nas minas, o olhar de reprovação do pai, o pavor da mãe. Era isso ou imaginar como seria quando a irmãzinha sangrasse pela primeira vez. Pobres como eram, a pequena Shanumi seria com certeza leiloada e…

Naquele dia, entretanto, eram outras as cenas que rodavam em seu cérebro. Por mais que se esforçasse, a visão daquela barba vermelho alaranjada voltava. As tatuagens no pescoço, os pelos por baixo da camisa de seda, as coxas e até o volume entre elas. E os olhos. Tudo acontecera distante demais e num lugar escuro demais para identificar a cor, mas a lembrança deles continuava ali, fresca, nítida. Não era a primeira vez que algo assim acontecia, mas estava cada vez mais frequente desde que viera para o Brasil e nunca tinha sido tão forte, a ponto de fazê-lo sentir-se como se o chão tivesse desaparecido. Era… medo? Sim. Um medo profundo de que nunca mais sentisse nada parecido de novo, por ninguém. Ele também sabia que não queria mais ninguém, e reconhecia que era absolutamente burro de sua parte. As chances de rever aquele homem eram baixas, muito baixas, e mesmo que houvesse uma mínima chance de reencontrá-lo, à distância, naquele mesmo lugar, seria só para novamente vê-lo abraçado a uma das mulheres que passavam as noites com os seios de fora.

O africano perguntou-se que expectativas nutria, afinal. Se encontrasse aquele estranho cara a cara, o que faria? Ou melhor: o que teria vontade de fazer? Entre uma caixa e outra de bananas, viu-se abraçar o ruivo apertado, procurando pelo cheiro daquela barba, do pescoço, do peito repleto de pelos. Queria sentir aquela pele tatuada, os músculos, as coxas, o… O volume. Queria massageá-lo, sentir se de fato era quente como imaginava. Queria…

Não se atrevia mais a imaginar o que queria. Também não havia por quê. Sabia bem o que qualquer homem faria se ele agisse assim. E por mais que soubesse que dificilmente o ruivo conseguiria machucá-lo, a simples ideia da repulsa que o outro sentiria era muito mais dolorida do que qualquer coisa.

Enquanto a mente ia e vinha nesses pensamentos, o corpo também ia e vinha entre os caminhões e as barracas, caixas e caixas carregadas com os olhos baixos, pensativos. Pelo menos até enxergar em seu caminho um par de pés brancos, em sandálias, com unhas pintadas de branco. A princípio isso não lhe chamaria atenção, mas assim que deu um passo para a direita, para desviar-se, os pés fizeram o mesmo. E quando voltou para a esquerda, novamente tentando desviar-se, os pés acompanharam o movimento, novamente bloqueando.

Não havia muito a fazer além de erguer os olhos, um pouco. O que viu foi uma mulher branca, com cabelos loiros longos e soltos, num vestido curto e folgado.

— <<Olá, grandão>>! – ela cumprimentou num inglês cristalino. Como ele apenas tentou desviar-se, ela novamente bloqueou-lhe o caminho e cruzou os braços em frente ao corpo, revelando um grande chapéu branco e os óculos escuros que carregava. E indagou:

— <<E então? Qual é seu nome?>>

— <<Abeô. Desculpa, moça, eu preciso continuar trabalhando.>>

— <<Quanto você ganha nesse trabalho, Abeô? Carregando caixas pra lá e pra cá?>>

— <<Eu… eu não sei direito. Dez… dez reais… eu acho.>>

— <<Pois eu conheço um trabalho no qual você vai ganhar muito, muito mais.>>

Aquilo definitivamente chamou atenção do africano.

— <<E o que eu tenho que fazer?>> – perguntou.

— <<Bom… isso eu não posso dizer aqui.>> – ela respondeu com um sorriso.

Abeô analisou o olhar raivoso do chefe no final do corredor. Estava demorando muito naquela conversa.

— <<Bem, dona… tenho que continuar trabalhando. Meu chefe já está ficando irritado.>>

— <<Pois eu garanto que, se vier comigo, você vai ganhar muito mais dinheiro do que com seu chefe.>>

— <<Mas e depois?>>

— <<Depois o quê?>>

— <<Eu trabalho com ele todos os dias. E preciso juntar dinheiro todos os dias.>>

— <<Quanto você precisa juntar?>> – ela indagou.

Aquele era um número que Abeô nunca esquecia. E talvez… talvez pudesse ter esperança:

— <<Trinta mil. Trinta mil reais.>>

A mulher abriu um novo sorriso e respondeu:

— <<Trabalhando pra mim você ganha isso em três semanas.>>

O africano sentiu o peito gelar. Aquilo estava realmente acontecendo?

— <<E o que tenho mesmo que fazer?>>

— <<Pra começar, largar essa caixa e me seguir.>>

— <<Não é nenhum trabalho criminoso? Não vou ter problemas com a polícia?>>

— <<Não, não é nada criminoso.>> – a mulher sorriu e colocou os óculos e o chapéu, se afastando. Como ele não a seguiu de imediato, ela voltou-se para ele e insistiu – <<E então? Você vem?>

Abeô correu com a caixa até o antigo patrão, pediu desculpas em inglês e hausa, deixou a caixa no chão e correu para alcançar a loira. Seguiu-a entre a multidão até uma das ruas menos cheias do centro, ao lado da catedral. Aproximaram-se de um luxuoso carro prateado. Ela abriu a porta do motorista e lhe indicou, com um movimento da cabeça, a porta do outro lado.

O africano já tinha aberto a porta do carro quando ouviu uivos e assobios vindo da feira, pessoas se amontoando ao redor de alguma coisa. Sem entender exatamente por quê, ele parou, o coração pequeno e gelado, observando aquilo.

— <<Vamos?>> – a moça insistiu.

— < O que está acontecendo?> – ele balbuciou para si mesmo, em hausa.

Como se entendesse, ela respondeu, mas em inglês, enquanto ligava o carro:

— <<Deve ser uma briguinha de brasileiros. Eles adoram ver gente brigando. E então, garotão? Vamos?>>

Ele olhou novamente para o alvoroço. O coração acelerava, as mãos suavam, frias. Estava… com medo? Se estava, por que é que nem lhe passava pela cabeça sair dali?

Então, na multidão, algumas pessoas começaram a gritar e fugir, em pânico. Abeô só percebeu que caminhava para a confusão, deixando o carro para trás, quando a loira buzinou e gritou seu nome.

— <<A gente tem que ir agora!>> – ela insistiu.

Ele parou e observou-a por instantes, boquiaberto. Sabia que não fazia o menor sentido, mas tinha que descobrir o que estava acontecendo no mercado. Ia começar a gaguejar desculpas, quando ela sacou uma pistola, e apontou para ele, descarregando todo o conteúdo.

Os treze projéteis acertaram Abeô no peito, pescoço e ombro. Não eram balas. Eram dardos minúsculos, pouco maiores que sementes de melancia, mas perfuraram a pele do africano. Rapidamente, a visão escureceu, as pernas fraquejaram e ele caiu de joelhos.

Tudo em seguida aconteceu muito rápido. Ao mesmo tempo em que a visão tornou-se nítida e repleta de detalhes, uma onda de força inundou seu peito, coluna, pernas e braços. Ele nem tentou retirar os dardos, queria apenas correr para longe dali. Afinal, não tinha sido incapacitado ainda, mas também não iria esperar para saber o efeito de uma nova saraivada daquelas coisas.

Antes mesmo que conseguisse se erguer, a confusão da feira já havia alcançado a catedral. Em meio aos gritos dos passantes, a loira gritou algo sobre encouraçados enquanto saía do carro e colocava outro pente na pistola. Novamente ela descarregou a arma, mas dessa vez eram balas, não dardos. Cada tiro foi um ribombar ensurdecedor que fez a multidão, em pânico, abrir espaço entre Abeô e a mulher. As cargas acertaram-no como poderosos coices, doloridas como o inferno quando lhe perfuraram a pele, mas não chegaram a derrubá-lo. Assim como os projéteis, ficaram presas exatamente onde acertaram, mas diferente deles, não fizeram o africano ficar tonto. Ele continuou a se erguer e virou-se para a feira, quando viu cinco tratores caírem do céu, abrindo crateras no asfalto. Então, rapidamente, ele entendeu: tratores tinham rodas, não pernas e braços como aquelas coisas. E principalmente, não tinham armas acopladas como aquelas tantas que apontavam para ele agora.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.