Golem – Cap 02 – Ela

Capítulo 02 – Ela

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Obs: Péra! Pára tudo! Você ainda não conhece Golem, a saga super megalomaníaca que mistura literatura, tesão ursino e toda uma reconstrução imaginativa do mundo, do universo e tudo mais? Ficou sem ler algum dos capítulos da primeira temporada? Então não perca tempo: clique AQUI , visite nosso ÍNDICE e comece a aproveitar  (eu disse ) essa história que já está dando muito o que falar entre os ursinhos aqui do Bearnerd. Você pode ler tanto aqui no Bearnerd (desde que você nos ajude compartilhando, pelo pagsocial,  que você está lendo Golem) ou pode adquirir o seu único e exclusivo pdf (com a primeira temporada completinha), todo formatado para ler no celular, pela bagatela de R$ 3,95 , na lojinha deste autor que vos fala (que também tem outros livros meus, impressos, para seu deleite).

Obs2: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Abeô ainda tentava decidir se preferia a noite ou o dia em Manaus. À noite, o clima era um pouco mais agradável, mas o trabalho era bem mais desconfortável. Além de caminhar muito mais, demorava para o nariz se acostumar aos odores da atividade. Já de dia, o nariz não raramente passava por desconforto, mas o calor era algo com o que ainda não se acostumara. Nas terras em que crescera, aquele ar úmido e quente só aparecia muito no fundo das minas de estanho, onde definitivamente não havia vento. Vento morno como o do Brasil era algo que jamais imaginaria antes.

Calor à parte, tinha que continuar o trabalho. Mochila nas costas, carregava caixas de verduras e frutas dos caminhões para as barracas das feiras, o que exigia ainda menor concentração que o trabalho noturno. Num dia normal isso já não era bom: a mente costumava ficar remoendo o quase linchamento nas minas, o olhar de reprovação do pai, o pavor da mãe. Era isso ou imaginar como seria quando a irmãzinha sangrasse pela primeira vez. Pobres como eram, a pequena Shanumi seria com certeza leiloada e…

Naquele dia, entretanto, eram outras as cenas que rodavam em seu cérebro. Por mais que se esforçasse, a visão daquela barba vermelho alaranjada voltava. As tatuagens no pescoço, os pelos por baixo da camisa de seda, as coxas e até o volume entre elas. E os olhos. Tudo acontecera distante demais e num lugar escuro demais para identificar a cor, mas a lembrança deles continuava ali, fresca, nítida. Não era a primeira vez que algo assim acontecia, mas estava cada vez mais frequente desde que viera para o Brasil e nunca tinha sido tão forte, a ponto de fazê-lo sentir-se como se o chão tivesse desaparecido. Era… medo? Sim. Um medo profundo de que nunca mais sentisse nada parecido de novo, por ninguém. Ele também sabia que não queria mais ninguém, e reconhecia que era absolutamente burro de sua parte. As chances de rever aquele homem eram baixas, muito baixas, e mesmo que houvesse uma mínima chance de reencontrá-lo, à distância, naquele mesmo lugar, seria só para novamente vê-lo abraçado a uma das mulheres que passavam as noites com os seios de fora.

O africano perguntou-se que expectativas nutria, afinal. Se encontrasse aquele estranho cara a cara, o que faria? Ou melhor: o que teria vontade de fazer? Entre uma caixa e outra de bananas, viu-se abraçar o ruivo apertado, procurando pelo cheiro daquela barba, do pescoço, do peito repleto de pelos. Queria sentir aquela pele tatuada, os músculos, as coxas, o… O volume. Queria massageá-lo, sentir se de fato era quente como imaginava. Queria…

Não se atrevia mais a imaginar o que queria. Também não havia por quê. Sabia bem o que qualquer homem faria se ele agisse assim. E por mais que soubesse que dificilmente o ruivo conseguiria machucá-lo, a simples ideia da repulsa que o outro sentiria era muito mais dolorida do que qualquer coisa.

Enquanto a mente ia e vinha nesses pensamentos, o corpo também ia e vinha entre os caminhões e as barracas, caixas e caixas carregadas com os olhos baixos, pensativos. Pelo menos até enxergar em seu caminho um par de pés brancos, em sandálias, com unhas pintadas de branco. A princípio isso não lhe chamaria atenção, mas assim que deu um passo para a direita, para desviar-se, os pés fizeram o mesmo. E quando voltou para a esquerda, novamente tentando desviar-se, os pés acompanharam o movimento, novamente bloqueando.

Não havia muito a fazer além de erguer os olhos, um pouco. O que viu foi uma mulher branca, com cabelos loiros longos e soltos, num vestido curto e folgado.

— <<Olá, grandão>>! – ela cumprimentou num inglês cristalino. Como ele apenas tentou desviar-se, ela novamente bloqueou-lhe o caminho e cruzou os braços em frente ao corpo, revelando um grande chapéu branco e os óculos escuros que carregava. E indagou:

— <<E então? Qual é seu nome?>>

— <<Abeô. Desculpa, moça, eu preciso continuar trabalhando.>>

— <<Quanto você ganha nesse trabalho, Abeô? Carregando caixas pra lá e pra cá?>>

— <<Eu… eu não sei direito. Dez… dez reais… eu acho.>>

— <<Pois eu conheço um trabalho no qual você vai ganhar muito, muito mais.>>

Aquilo definitivamente chamou atenção do africano.

— <<E o que eu tenho que fazer?>> – perguntou.

— <<Bom… isso eu não posso dizer aqui.>> – ela respondeu com um sorriso.

Abeô analisou o olhar raivoso do chefe no final do corredor. Estava demorando muito naquela conversa.

— <<Bem, dona… tenho que continuar trabalhando. Meu chefe já está ficando irritado.>>

— <<Pois eu garanto que, se vier comigo, você vai ganhar muito mais dinheiro do que com seu chefe.>>

— <<Mas e depois?>>

— <<Depois o quê?>>

— <<Eu trabalho com ele todos os dias. E preciso juntar dinheiro todos os dias.>>

— <<Quanto você precisa juntar?>> – ela indagou.

Aquele era um número que Abeô nunca esquecia. E talvez… talvez pudesse ter esperança:

— <<Trinta mil. Trinta mil reais.>>

A mulher abriu um novo sorriso e respondeu:

— <<Trabalhando pra mim você ganha isso em três semanas.>>

O africano sentiu o peito gelar. Aquilo estava realmente acontecendo?

— <<E o que tenho mesmo que fazer?>>

— <<Pra começar, largar essa caixa e me seguir.>>

— <<Não é nenhum trabalho criminoso? Não vou ter problemas com a polícia?>>

— <<Não, não é nada criminoso.>> – a mulher sorriu e colocou os óculos e o chapéu, se afastando. Como ele não a seguiu de imediato, ela voltou-se para ele e insistiu – <<E então? Você vem?>

Abeô correu com a caixa até o antigo patrão, pediu desculpas em inglês e hausa, deixou a caixa no chão e correu para alcançar a loira. Seguiu-a entre a multidão até uma das ruas menos cheias do centro, ao lado da catedral. Aproximaram-se de um luxuoso carro prateado. Ela abriu a porta do motorista e lhe indicou, com um movimento da cabeça, a porta do outro lado.

O africano já tinha aberto a porta do carro quando ouviu uivos e assobios vindo da feira, pessoas se amontoando ao redor de alguma coisa. Sem entender exatamente por quê, ele parou, o coração pequeno e gelado, observando aquilo.

— <<Vamos?>> – a moça insistiu.

— < O que está acontecendo?> – ele balbuciou para si mesmo, em hausa.

Como se entendesse, ela respondeu, mas em inglês, enquanto ligava o carro:

— <<Deve ser uma briguinha de brasileiros. Eles adoram ver gente brigando. E então, garotão? Vamos?>>

Ele olhou novamente para o alvoroço. O coração acelerava, as mãos suavam, frias. Estava… com medo? Se estava, por que é que nem lhe passava pela cabeça sair dali?

Então, na multidão, algumas pessoas começaram a gritar e fugir, em pânico. Abeô só percebeu que caminhava para a confusão, deixando o carro para trás, quando a loira buzinou e gritou seu nome.

— <<A gente tem que ir agora!>> – ela insistiu.

Ele parou e observou-a por instantes, boquiaberto. Sabia que não fazia o menor sentido, mas tinha que descobrir o que estava acontecendo no mercado. Ia começar a gaguejar desculpas, quando ela sacou uma pistola, e apontou para ele, descarregando todo o conteúdo.

Os treze projéteis acertaram Abeô no peito, pescoço e ombro. Não eram balas. Eram dardos minúsculos, pouco maiores que sementes de melancia, mas perfuraram a pele do africano. Rapidamente, a visão escureceu, as pernas fraquejaram e ele caiu de joelhos.

Tudo em seguida aconteceu muito rápido. Ao mesmo tempo em que a visão tornou-se nítida e repleta de detalhes, uma onda de força inundou seu peito, coluna, pernas e braços. Ele nem tentou retirar os dardos, queria apenas correr para longe dali. Afinal, não tinha sido incapacitado ainda, mas também não iria esperar para saber o efeito de uma nova saraivada daquelas coisas.

Antes mesmo que conseguisse se erguer, a confusão da feira já havia alcançado a catedral. Em meio aos gritos dos passantes, a loira gritou algo sobre encouraçados enquanto saía do carro e colocava outro pente na pistola. Novamente ela descarregou a arma, mas dessa vez eram balas, não dardos. Cada tiro foi um ribombar ensurdecedor que fez a multidão, em pânico, abrir espaço entre Abeô e a mulher. As cargas acertaram-no como poderosos coices, doloridas como o inferno quando lhe perfuraram a pele, mas não chegaram a derrubá-lo. Assim como os projéteis, ficaram presas exatamente onde acertaram, mas diferente deles, não fizeram o africano ficar tonto. Ele continuou a se erguer e virou-se para a feira, quando viu cinco tratores caírem do céu, abrindo crateras no asfalto. Então, rapidamente, ele entendeu: tratores tinham rodas, não pernas e braços como aquelas coisas. E principalmente, não tinham armas acopladas como aquelas tantas que apontavam para ele agora.

 

 

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