Capítulo 03 – Encouraçados

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Quando a tempestade de balas começou, Abeô protegeu a cabeça como pôde. Aqueles projéteis eram bem mais pesados do que os anteriores. Cada pancada doía no fundo dos ossos. Mesmo assim, ficavam presos na pele, sem penetrar o suficiente para sangrar. Atiraram até os braços, tronco e pernas do africano ficarem cobertos de pepitas metálicas, balas acertando balas, de forma que os tiros agora caíam ao redor.

Mal percebeu isso, Abeô avistou uma dúzia de projéteis mais lentos voarem em sua direção. Maiores, deixavam um rastro de fumaça e, ao contrário das balas normais, descreviam curvas no ar. Acertaram-no num piscar de olhos, mas não se cravaram em sua pele: explodiram, abrindo um grande buraco no chão e atirando Abeô dezenas de metros para trás.

Quando as explosões o arremessaram, sentiu várias coisas quebrarem dolorosamente contra si. Apesar de ter uma miríade de materiais cravados na pele, nada o perfurara mais que um centímetro. Não que fizesse diferença quando os cinco “tratores” chegaram onde tinha caído. Abeô permaneceu parado, olhos entreabertos. Se julgassem que estava morto, talvez parassem de atacá-lo.

Um leque de luz brotou de uma das máquinas e varreu o corpo do africano de cima a baixo por algumas vezes. Abeô ouviu abafadas, dentro delas, vozes em inglês, quase indiscerníveis exceto por uma palavra ou outra. Não eram tratores afinal. Pelo que via entre as frestas das pálpebras, eram mais como roupas, armaduras que cobriam completamente o usuário. E pelo inglês que falavam ele entendia que trabalhavam com a mulher que atirara nele. Era por eles que ela chamara. Eram eles os tais encouraçados.

O leque de luz não durou mais do que instantes. Novamente sussurros dentro dos encouraçados e um deles pulou para Abeô. Teria pisado na cabeça se não tivesse rolado fora, mas aquela coisa lhe alcançou a perna e atirou-o para trás como um boneco de pano.

Antes mesmo que voltasse ao chão, outro dos encouraçados o golpeou, pesadamente, em direção ao solo. Mal sentiu nas costas a pancada do asfalto e outro desferiu uma sequência de socos que o pegou totalmente desprevenido. Uma chuva de pancadas que fez Abeô afundar, progressivamente, no solo, o retumbar dos murros acompanhado pelo rachar do concreto e dos ossos do africano.

Nunca, em toda vida, havia se machucado. Jamais sentira tanta dor, sequer imaginava que fosse possível. Não tinha tempo para revidar, soco após soco após soco, carne e ossos latejando cada vez mais no rosto e tronco. Quando uma daquelas coisas o agarrou pelo pescoço e pulou para frente, empurrando-lhe a nuca contra o asfalto, soube que iria morrer naquele momento. Soube que nunca mais veria o ruivo e suas tatuagens, e nunca mais veria Shanumi. Teve certeza que, quando ela sangrasse pela primeira vez, seria leiloada. Seria descoberta e linchada, amaldiçoada pelos mineiros como cria do demônio, uma aberração. Mas era ele a aberração, não ela. Era ele quem merecia morrer, ele é que era odiado por Deus e Alá desde a mais tenra infância. De chamas ou mármore, o inferno o esperava, a eternidade de punição por tentações não naturais. Pecados não consumados, abraços que nunca daria, lábios que jamais tocaria, a barba cor de fogo, os pelos naquela camisa entreaberta, as coxas, o volume entre as pernas.

O encouraçado terminou seu impulso, rasgando o asfalto com a nuca de Abeô. Ergueu-o e golpeou-o contra o chão mais algumas vezes, antes de atirá-lo em direção a um companheiro que, num salto, segurou o africano pela nuca e empurrou-lhe o rosto em direção ao punho do anterior. Por um breve instante, os braços tentaram alcançar a garra metálica que o prendia, mas só até outros “tratores” lhe imobilizarem os membros. Por um minuto inteiro, sua cabeça foi golpeada entre os punhos daquelas coisas, em agonia crescente, a consciência por um fio. Abeô mal percebeu quando começou a implorar, internamente, para ver o ruivo de novo, mesmo que à distância. Não sabia a quem implorava nem por quê, já que as divindades o detestavam por tais desejos. O que o surpreendeu, todavia, era que sua última prece, em lugar de ser que a irmã sobrevivesse, era para ver, apenas ver, o estranho e suas tatuagens uma última vez.

Foi quando começou a sentir um líquido nas áreas em que lhe golpeavam e também na pele, por baixo das balas. Surpreso, mas ainda imobilizado, fitou o punho metálico que ia e vinha. Veria o próprio sangue pela primeira vez?

A sensação do líquido era bem clara agora. Logo avistou-o no punho que o golpeava, mas não era vermelho. Era preto como piche, e fumaçava ao contato com o metal. De repente, os encouraçados o soltaram, murmúrios surpresos. Abeô caiu de joelhos, visão embaçada, membros desfalecidos. Mesmo assim, observou o líquido escuro que lhe brotava entre os projéteis nos braços. Não escorria para a terra. Espalhava-se por cima de tudo que lhe tinha perfurado e por sobre o pouco de pele que permanecera nua. Aquele piche continuou a envolvê-lo e agora lhe brotava também das pálpebras, nariz e boca. Pensou que fosse sufocar, mas mesmo quando suas vias aéreas foram tomadas não sentiu qualquer desconforto. Estava estranhamente revigorado, as dores fugindo dos ossos enquanto o líquido o envolvia numa camada mais e mais espessa. Cobriu-lhe o que restava das roupas, os cabelos, a barba e até os olhos. Contudo, ainda enxergava. Na verdade, melhor do que antes. Era como se cada gota daquele piche lhe servisse de olhos, ouvidos, olfato. Enxergava em todas as direções ao mesmo tempo, numa mistura das cores reais com outras que jamais imaginara.

Os encouraçados lançaram-lhe outra saraivada de balas, mas dessa vez elas não incomodaram. Através do piche, Abeô viu cada projétil se aproximar e até penetrar o líquido sobre a pele, e ser logo engolido, desaparecendo completamente.

Num primeiro momento, os inimigos não pareciam reagir. Entretanto, com a nova audição, o africano compreendeu o que diziam dentro das máquinas:

— <<Não podemos mais atacá-lo frontalmente, senhor! Solicitando suporte aéreo!>>

— <<Ataque agora, sargento! Isso é uma ordem!>> – uma voz mais metalizada respondia – <<Não podemos deixar que mais esse…>>

Abeô decidiu não esperar. Não entendia porque o atacavam, mas sabia que o fariam novamente, de formas que preferia não descobrir. Ergueu uma das mãos e correu para o encouraçado entre ele e o centro da cidade. A intenção era de apenas abrir passagem, mas mesmo ele se surpreendeu quando a máquina foi arremessada meia dúzia de ruas adiante.

As vozes dentro dos encouraçados cessaram e Abeô não esperou que retornassem. Correu pelas ruas já desertas de Manaus, quando percebeu, pelo piche às suas costas, um avião aproximar-se em alta velocidade. Quando os mísseis foram lançados decidiu que, por mais que a munição dos encouraçados não mais incomodasse, não iria arriscar-se com novas armas. Virou uma esquina, torcendo para os foguetes passarem reto, mas não teve sorte. Seguiram-no na nova rua, ladeira acima, agora já bem mais próximos.

Abeô sentia que corria mais rápido agora, mas não o suficiente. Os dois mísseis acertaram-no nas costas, com explosões que derrubaram várias casas ao redor. O africano foi jogado para o final da rua, a força da explosão retumbando por todo piche, dolorida, quente como o inferno. Os sentidos não chegaram a falhar, mas ficou claro que estava longe de estar seguro. E o pior: aquelas pessoas, quem quer que fossem, não ligavam nada para os brasileiros. Era impossível saber quantos tinham se machucado naquela luta, e se fosse para o centro da cidade, seria ainda pior.

Enquanto o avião fazia a volta, Abeô ergueu-se e correu em direção ao rio. Não fazia a menor ideia se conseguiria nadar envolvido pelo piche, nem qual o efeito da água sobre o mesmo. Contudo, tinha que tentar. O rio era o local mais deserto que encontraria naquela situação.

Os mísseis disparados dessa vez eram ainda maiores. Não acertaram o africano, mas as explosões lançaram-no longe, em direção ao rio, bem além do cais. E por mais que tentasse nadar, assim que caiu na água, Abeô afundou como se fosse de pedra, uma grande nuvem de vapor erguendo-se do ponto em que caiu.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.