Golem – Cap 04 – Sob o rio

Capítulo 04 – Sob o rio

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco Bym

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Por mais que tentasse nadar, Abeô afundava rapidamente no rio Amazonas. Uma enorme quantidade de bolhas brotava entre o piche e a água ao seu redor, como se o rio fervesse ao tocá-lo. Ao mesmo tempo, precisava de cada vez mais força para se mover. A camada de líquido negro ao redor dele não parecia mais tão líquida assim, e sim sólida, cada vez mais rígida. Ao mesmo tempo, respirar através do piche ficava mais difícil a cada segundo. Fraqueza e tontura, pouco a pouco, tomavam corpo e mente do africano, aproximando-o perigosamente da inconsciência.

Contudo, antes que desmaiasse, sentiu o piche ao redor dos pés tocar o fundo do rio. Talvez não precisasse nadar afinal. Não tinha nem de longe todo o vigor que o piche lhe proporcionara na Catedral, nem de longe respirava com facilidade, mas não havia qualquer sinal de que fosse piorar. E o mais importante: tudo indicava que não estava sendo seguido. Afinal, seria difícil imaginar aquelas “patrolas” embaixo d’água.

Embora não precisasse, ao analisar a superfície das águas, virou o rosto para cima. Havia muita, muita água acima dele, o suficiente para que quase nenhuma luz o alcançasse. Através do piche, percebia que ainda era dia lá em cima e divisava, no fundo do rio, vultos de plantas e peixes dos mais variados tipos e tamanhos. Perguntava-se o que enxergaria quando anoitecesse, já que acender uma fogueira estava fora de questão.

As bolhas ao seu redor tinham praticamente cessado. Precisava decidir o que fazer. Certamente teria de sair da água em algum momento, mas o faria longe dali. Poderia terminar de atravessar o rio, para a margem oposta à cidade, mas dificilmente despistaria os encouraçados assim. Voltar para a cidade estava fora de questão, então restava-lhe decidir entre caminhar contra a correnteza ou a favor dela. Contra a correnteza, encontraria regiões menos habitadas, o que seria perfeito para despistar os que o perseguiam. Poderia passar o resto da vida no meio da mata, sem deixar qualquer sinal de que estava vivo. Entretanto, não conseguiria dinheiro para ajudar a irmã, o que lhe deixava como única opção seguir, com a correnteza, para o Atlântico, de preferência para uma área muito habitada, onde pudesse se esconder em meio à multidão.

Levou alguns minutos até ter certeza de para onde as algas se inclinavam. Mesmo zonzo e desorientado, caminhou. Bem mais lentamente do que fazia normalmente, mas caminhou. Meia hora depois, assustou-se com o som do motor de um barco que ia em direção contrária à sua. Enquanto retomava a caminhada, imaginou o que estaria acontecendo lá em cima. Quem eram aquela mulher e os encouraçados? O que queriam com ele, afinal, a ponto de estarem dispostos a sacrificar os brasileiros? Quantos tinham se machucado, ou pior, pago com suas vidas por causa dele?

Como um raio, a hipótese de que o ruivo estivesse entre os mortos. Abeô sentiu o coração disparar a ponto de doer fisicamente no peito. Imaginou, num flash, a mão coberta de pelos alaranjados sangrando sob os escombros da catedral. De repente, o universo esfriou muito mais que o fundo do rio, numa implosão gelada e escura de vazio.

O africano perdeu noção de quanto tempo ficou ali, parado, sob o rio, incapaz de pensar. Entretanto, aos poucos, a razão retornou. Aquela doença era muito mais séria do que imaginava. Sabia que era uma forma de insanidade gostar de homens, mas agora percebia como tudo fugia de qualquer lógica. Por quê se importava tanto com alguém que avistara por não mais que alguns segundos? Por que é que continuava a pensar nele? Por quê, mesmo reconhecendo a estranheza do que sentia, continuava a doer tanto, tanto, a ponto de não conseguir mover um músculo sequer?

Foi nesse ponto que percebeu a própria sombra projetar-se à frente. Antes mesmo de virar-se, sabia que algo brilhava atrás dele e que, a julgar pela claridade que chegava de cima, a fonte daquela luz estaria a menos de vinte metros. Poderia ser algum tipo de farol subaquático, o que o fazia em pensar em novas armas dos encouraçados, mas o que viu deixou-o bem mais confuso. Aquela luz vinha de chamas e, como se isso já não fosse estranho embaixo d’água, eram chamas com forma humana. Chamas que imitavam, inclusive, o correr de um adulto, aproximando-se assustadoramente rápidas.

Abeô não soube, a princípio, o que fazer. Seria algum tipo de espírito? Os pais, apesar de monoteístas, falavam a todo tempo de espíritos nas matas e águas africanas, mas nunca algo parecido com aquilo. Dos brasileiros nunca captara, do pouco que entendia de português, qualquer referência a uma criatura assim. O que também não significava que não fosse um espírito ou outra entidade sobrenatural.

A coisa freou a poucos metros dele e uma nuvem de lodo cobriu tudo ao redor. Mesmo incapaz de enxergar entre aquela poeira subaquática, o africano teve certeza absoluta que estava sendo observado. Sentiu um nó na garganta, o estômago apertado e as pernas bambas, mas não sabia identificar exatamente o porquê. Reconhecia aquilo como medo, o que era totalmente compreensível, mas não sentia nem o impulso de fugir nem o de lutar. De algum jeito aquilo era pior: era uma impotência absolutamente desorientadora.

Enquanto o lodo era arrastado rio abaixo, dissipando a nuvem, Abeô sentiu o coração disparar. Sob as chamas, ele reconheceu primeiro as tatuagens, depois o padrão dos pêlos no peito e finalmente a barba ruiva. Antes que seu coração batesse mais uma uma vez, reconheceu aqueles olhos sérios, quase raivosos, encarando-o por baixo das chamas, perscrutando-o de cima a baixo.

Contra todas as possibilidades, ali estava, à sua frente, o homem que teimava em não sair de seus pensamentos. E o pior: ele não parecia nada contente.

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.