Golem – Cap 05 – Aidan

Capítulo 05 – Aidan

Autor: Osíris Reis
Ilustração: James Figueiredo
Cores: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Por um breve instante, os dois permaneceram parados, encarando-se à distância. Abeô não sabia o que o deixava mais desorientado. Era ver novamente o ruivo ou as chamas que o cercavam mesmo sob as águas turvas do rio? Seria o olhar raivoso dele, os punhos cerrados na altura da cintura, o queixo baixo como se estivesse pronto a iniciar uma luta? Era imaginar o que o outro pensaria dele, coberto de piche? Ou era o fato de o estranho estar completamente nu?

Sim, o ruivo não vestia coisa alguma. E, naquele exato momento, o africano, além de perdido, sentia-se imensamente grato por poder enxergar através de todos os cantos do piche. Não fosse isso, seus olhos vagariam, famintos, entre o pênis e o saco volumosos, a barriga bem redonda e coberta de tatuagens e pelos vermelhos, os mamilos, o peitoral avantajado, os braços e pernas fortes, a barba alaranjada, os olhos de um verde profundo, tão ameaçadores quanto fascinantes.

Quando o ruivo começou a caminhar na direção dele, a genitália dançando hipnótica a cada passo, Abeô quis gritar para que o outro parasse. Sentia-se, mais do que nunca, como o depravado  doente e anormal que era. Como podia se deleitar com o que seus infinitos olhos captavam daquele homem que, inadvertidamente, se aproximava quando com certeza ficaria enojado se soubesse o efeito que tinha nele? O africano pensou em virar-se de costas, em colocar as mãos à frente dos olhos, mas não o fez. Sabia que continuaria a enxergá-lo exatamente do mesmo jeito. E não saberia como gritar para que o ruivo parasse. Na verdade, desde que fora coberto pelo piche, não tinha pronunciado uma palavra sequer. Sentira, desde o começo, a garganta tomada pelo líquido negro, mas só agora entendia o que isso significava para sua capacidade de falar.

Para piorar as coisas, começava a sentir aquele calor gostoso entre as pernas, que sabia bem o que significava. Fora do piche, aquele tipo de coisa, em público, era uma fonte inesgotável de vergonha. Dificilmente conseguia esconder o que acontecia sob as calças, o que levava a uma série de risos, apontamentos e piadinhas. Não conseguia imaginar o quanto o piche esconderia tudo, então não lhe restava opção além de tentar controlar os pensamentos e gritar, mentalmente, para que aquilo parasse.

O ruivo caminhou ao redor dele, a voz gravíssima murmurando exclamações num idioma que o outro jamais ouvira, a cabeça meneando negativas, as mãos cobrindo ora os olhos incrédulos ora a boca entreaberta em  perplexidade. O estranho era, com certeza, bem mais alto que os brasileiros. Mesmo assim, a linha de seus olhos chegava apenas até a altura do peitoral do outro. Então o estranho parou à frente dele e, olhando para cima, para o rosto de Abeô, fez algumas perguntas no que pareceu português e encarou-o, como se esperasse uma resposta. O africano ergueu os ombros e as virou as palmas para cima, como fazia com os brasileiros quando queria dizer que não entendia. Então o outro perguntou em inglês:

— << Então você consegue me ouvir mesmo embaixo d’água…>>

Surpreso, Abeô fez o sinal de positivo.

— << E pelo visto entende inglês. >> – o outro completou. – << Você é humano. Certo? E não é brasileiro.>>

O africano refez o sinal.

— <<Meu nome é Aidan. Aidan McNaught. Eu achava que era o ser humano mais estranho do mundo. Mas é bom saber que não estou sozinho.>>

Abeô não respondeu. Apenas baixou o rosto e lembrou-se da irmã, perguntando-se quantos mais, estranhos como eles, existiriam no mundo.

Aidan permaneceu em silêncio por alguns instantes, olhando o africano de cima abaixo, meneando pequenos nãos com a cabeça. Ainda parecia raivoso quando perguntou:

— <<Acho que você não fala embaixo d’água, se é que fala e se é que consegue ter uma aparência humana normal.>>

Abeô não fez qualquer gesto. Sabia que antes poderia passar despercebido entre as pessoas normais, mas sinceramente não sabia se poderia fazê-lo de novo, o que também significava que sabia se poderia falar de novo. Percebeu que tremia por dentro. Era um tremor mais ao fundo, visceral, que só ele percebia. Talvez fosse sua coluna que tremesse, como se a qualquer momento fosse desmaiar.

Desmaiar no fundo do rio, definitivamente,  não parecia uma boa ideia.

— <<Eu ia perguntar porque você está aqui embaixo, mas acho que deve ser ou porque você não consegue se misturar às outras pessoas ou porque algo lá em cima deu errado e precisou vir aqui para baixo.>> – o outro afirmou.

Aidan parecia um pouco mais calmo agora. Respirou profundamente (ao que o africano percebeu que, na verdade, ele estava respirando chamas) e estudou-lhe o rosto enquanto dizia, sério e formal:

— <<Sei que você não pode falar, mas está bem mais quieto que antes. Se estou deixando você desconfortável por qualquer motivo…>>

Abeô ergueu o rosto e gesticulou “nãos” com a mão. Aidan não pareceu se importar. Continuou:

— <<Talvez sejam as chamas. Ou o fato de eu estar nu… É que… >> – ele pigarreou – <<Nunca tive roupas que resistissem às minhas labaredas. Mas posso apenas caminhar atrás de você… Ou bem à frente se você preferir>>.

O africano gesticulava negativas cada vez mais amplas e rápidas. O ruivo continuava com o rosto inclinado para cima, encarando-o no que seriam os olhos enquanto dizia:

— <<Além disso, acredito que tem pessoas atrás de mim. Gente bem barra pesada. Me atacaram em Manaus. E não sei o que fariam se descobrissem você.>>

“Acho que já descobriram”, Abeô pensou consigo mesmo, mas não tinha como transmitir isso através de gestos. De qualquer forma, sentia-se ao mesmo tempo menos culpado e mais preocupado. Se os encouraçados tinham mesmo atacado Aidan, ele tinha outros motivos para manter-se perto dele que não os de sua doença e depravação. Podia se concentrar em protegê-lo caso fossem encontrados. Seria sua forma de desculpar-se. De fazer algum bem.

Ao mesmo tempo, temia que encontrassem Aidan justamente por estarem caminhando juntos. Talvez Abeô estivesse destinado a ser encontrado e o ruivo não. Nesse caso, Aidan estaria jogando fora, naquele momento, suas chances de escapar dos encouraçados.

A voz grave do outro interrompeu-lhe os pensamentos:

— <<Bem, estávamos ambos descendo o rio. Então, acho que a melhor ideia é você seguir na frente. Dessa forma você não precisa ficar caminhando com um esquisitão pelado e, caso meus inimigos me alcancem, você ainda poderá escapar.>>

O ruivo deu um passo para o lado, abrindo caminho enquanto estendia a mão à frente de Abeô. Repetiu o gesto quando o mesmo não se moveu:

— <<Pode ir na frente.>>

O africano imitou o gesto, indicando o caminho para o branco.

— <<Eu acho que não, gigante.>> – Aidan resmungou – <<Tenho quase certeza que meus inimigos vêm aí atrás. Além disso, você não vai querer passar o resto da caminhada com essa bunda branca e feia na sua frente.>>

Abeô arregalou os olhos e coçou a barba. Seu rosto pinicava como nunca. Tinha certeza que, se não estivesse coberto de piche, estaria vermelho, muito vermelho, de vergonha. Por mais que tentasse, desesperado, não imaginar em como seria a bunda do outro, o calor voltava a crescer entre suas pernas. O mais discretamente possível, colocou as mãos cruzadas sobre a genitália e tentou concentrar-se nas mulheres seminuas da madrugada de Manaus. Principalmente naquela que Aidan escolhera na noite passada.

— <<Tudo bem.>> – o ruivo rosnou enfim, dando o primeiro passo – <<Mas se me alcançarem, você foge, ok?>>

Abeô não se deu ao trabalho de tentar responder. Apenas correu para, ainda com as mãos cruzadas sobre a virilha, caminhar ao lado de Aidan. Caso as coisas dessem errado, já sabia o que faria. E definitivamente não seria o que o ruivo mandava.

Enquanto isso, num dos bairros mais chiques de Manaus, a mesma loira que atraíra Abeô para fora do mercado entrava, agora, às pressas, num velho armazém. Uns doze compatriotas digitavam, loucamente, comandos em notebooks enquanto um cronômetro avançava no canto de uma tela projetada na parede principal do cômodo. Quase uma hora se passara desde sua ativação. Ela, entretanto, não prestou atenção a nada disso.

— <<Eles já chegaram?>> – indagou, ofegante, sentando-se à frente de um dos notebooks disponíveis.

O mesmo norte-americano que na noite anterior falava ao celular, com um coronel do outro lado do continente, analisou-a de cima abaixo antes de arregalar os olhos e murmurar:

— <<Não foram tiros de 9 mm, agente. Bancar a durona não vai nos ajudar se você desmaiar aqui.>>

— <<Eles já chegaram?>> – ela insistiu.

— <<Chegaram.>> – ele respondeu, enfim – <<Você voltou bem a tempo do lançamento deles>>.

— <<E quanto tempo para a chegada do novo ativo?>> – ela indagou.

— <<T menos 5 horas e 12 minutos>> – respondeu um outro agente, sem tirar os olhos do próprio notebook.

A alguns quilômetros dali, um avião despejou dezesseis poliedros metálicos ao longo do rio Negro. Os efeitos daquilo não seriam sentidos de imediato pelos habitantes locais, mas chegariam, invariavelmente. Não que os responsáveis se importassem. As recompensas que os esperavam ofuscavam completamente qualquer sacrifício que eles ou outros precisassem fazer no meio do caminho.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Filipe

    T_T só semana que vem agora!
    Aidan ♥