Golem – Cap 06 – Serpentes

Capítulo 06 – Serpentes

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Já havia algumas horas que Abeô caminhava ao lado de Aidan. Se tivesse que apostar, diria que o ruivo não era de conversar muito. Passava vários minutos sem falar nada, apenas olhando para frente enquanto caminhava. Vez ou outra, quando o silêncio parecia ficar insuportável demais, ele comentava alguma coisa. Qualquer coisa, desde que coubesse em uma única frase e dissesse respeito ao “ecossistema” no qual caminhavam: a origem do nome científico de determinado peixe ou planta que avistavam; a profundidade do rio, quantos litros continha, o número de espécies que abrigava, entre outras informações que o africano jamais imaginara que fosse possível a qualquer ser humano saber. Ao que parecia, o outro era o que chamavam de cientista. Abeô conhecera um ou outro nas minas de sua terra natal, mas apenas de vista. Nunca tivera a chance de conversar com nenhum deles, apenas sabia do que ouvira de seu pai: eram homens que sabiam de muitas coisas e estavam lá para descobrir ainda mais. Talvez fosse por isso que Aidan estivesse no Brasil afinal: para descobrir mais do que já sabia sobre as plantas e peixes daquele rio.

De qualquer forma, o africano não mais precisava caminhar com as mãos cruzadas sobre a virilha. Mantendo-se exatamente ao lado do ruivo, conseguia não reparar tanto no pênis e saco do outro. Tentava olhá-lo apenas nos breves intervalos em que a perna direita dava um passo à frente e lhe tapava a genitália. Eram momentos muito muito breves, porém mais do que suficientes para apreender uma série de detalhes. O que mais chamava atenção, é claro, era como todo o corpo dele era tatuado. Em alguns pontos, em que os pêlos do corpo eram mais abundantes, as tatuagens quase desapareciam, mas era óbvio que se estendiam por baixo dos pêlos e até no couro cabeludo. E havia as cicatrizes: minúsculas, quase imperceptíveis, mas presentes em toda pele, mesmo no rosto. Eram, em sua maioria, fios mais ou menos longos, finíssimos, exceto por alguns pontos mais redondos e rosados, ao longo dos braços e pernas. Pareciam ter sido feitos pela mesma arma, além de serem visivelmente mais recentes que os demais. Havia também as pequenas sardas e as veias robustas nos pés, mãos e braços. Dava para supor que Aidan era um homem acostumado, de alguma forma, a fazer força com o corpo todo. Por quê um cientista precisaria desse tipo de esforço era uma incógnita para Abeô. Pelo que tinha entendido, uma das grandes diferenças entre trabalhadores como ele e os tais dos cientistas era que os mesmos eram pagos por seu conhecimento, e não pelo esforço físico.

Esconder a própria doença, é claro, ficava bem mais fácil quando o ruivo falava alguma coisa.  Abeô podia voltar sua atenção para o animal ou planta de que o outro falava, remoendo as informações pelo máximo de tempo possível. Às vezes até memorizava o que ouvira, mantendo os “olhos” do piche fixos no animal ou planta até perdê-los de vista.

Entretanto, enquanto observava um boto rosa, um Inia geoffrensis, se afastar, reparou que as águas naquela direção eram mais alaranjadas. Não demorou a perceber que a luz das chamas de Aidan penetrava o rio de maneiras diferentes naquele momento. Havia partes mais escuras da água, que projetavam sombras nas outras, mais douradas. Logo o africano entendeu que, na verdade, as águas mais escuras estavam à esquerda e as mais claras à direita, e que caminhavam na zona em que se misturavam.

— <<É o encontro dos rios Negro e Solimões.>> – a voz gravíssima do ruivo soou enquanto apontava, respectivamente, para as águas escuras da esquerda e as amareladas da direita.

Abeô pôde passar um bom tempo admirando as variadas interações entre a luz das chamas de Aidan e a mistura das águas dos dois rios. Eram espirais que nasciam e se dissolviam ao redor deles, sombra e luz dourada dançando em todas as direções. No entanto, embora não estivesse com o rosto voltado naquela direção, sua visão através do piche revelou ao longe, da direção de que tinham vindo, uma espiral brilhante que se aproximava.

Ao prestar melhor atenção ao objeto, o africano percebeu que era algum tipo de serpente. Abeô já tinha visto serpentes antes, e apesar de ser bem mais forte e resistente que o normal, nunca se sentia à vontade perto delas. Entretanto, o jeito como aquele bicho prateado espiralava o próprio corpo para singrar rapidamente as águas era especialmente assustador. Principalmente quando ele percebeu que a criatura emitia feixes de luz em todas as direções.

Aquilo fez o africano parar exatamente onde estava. Não foi necessário nem um segundo para ouvir Aidan perguntar:

— <<O que foi?>>

Abeô apontou na direção da serpente e esperou. Aidan deu alguns passos naquela direção, olhos encolhidos, tentando discernir qualquer coisa. Aos poucos, seus olhos se arregalaram enquanto falava:

— <<A gente precisa se apressar.>>

Na medida do possível, o africano obedeceu. Embora não se sentisse piorar com o passar das horas, desde que caíra no rio, respirar através do piche estava bem mais difícil. Havia aquela tontura, aquela fraqueza sempre presentes. A chegada do ruivo, de alguma forma, o fizera parar de prestar atenção àqueles desconfortos, mas continuava tudo ali: a respiração difícil, a fraqueza e a tontura, nem piorando nem melhorando. Além disso, cada passo, cada gesto embaixo d’água, levava o dobro do tempo e demandava umas vinte vezes mais força física que em terra. Era como se o piche estivesse mais rígido, como se Abeô tivesse vestido uma armadura de argila e cola.

Já Aidan caminhava mais rápido e com bem mais facilidade, mas parava, de tempos em tempos, até ser alcançado. Ele olhava para trás com cada vez mais frequência e, a cada vez, ficava mais apreensivo. Abeô não precisava virar o rosto naquela direção para saber o porquê. Avistava agora, com facilidade, pelo menos mais oito serpentes como aquela, espiralando, aproximando-se rápidas como falcões.

Agora que estavam mais próximas, o africano percebia que as serpentes não eram apenas prateadas: eram metálicas de fato. Eram máquinas como jamais tinha visto, uma série de peças metálicas interligadas por anéis de borracha sanfonada. Cada segmento tinha mais ou menos o tamanho de uma saca de arroz e era dotado, em cada direção, de um feixe de luz difusa, branca, e outros dois feixes de luz vermelha, bem concentrada. Embora fosse impossível qualquer certeza,  era difícil olhar para aquelas cobras e não pensar nos encouraçados, não imaginar que novas ameaças estariam chegando com aquelas coisas.

Num dado momento, Aidan parou e olhou, fixamente, para o africano.

— <<Essa luta não é sua. Aconteça o que acontecer, continue correndo e não olhe para trás>>.

E antes que o negro pudesse fazer qualquer gesto, o ruivo correu em direção às serpentes.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.