Golem – Cap 07 – C4

 

Capítulo 07 – C4

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Por um breve instante, Abeô não soube o que fazer. Sua vontade primeira foi gritar para Aidan: “Como assim você me manda fugir?! Que tipo de covarde acha que sou?” No fundo, sabia que sua vontade de correr em direção às serpentes metálicas não tinha nada a ver com brio. A verdade era que temia pelo ruivo. Ele ter chegado ali era um presente do acaso, uma sorte sem tamanho que agora escorria, pelos dedos, a cada passo que o outro dava em direção a sabe-se lá que armas aquelas víboras carregavam. O africano definitivamente não conseguia se imaginar dando as costas e indo embora. Não depois de ter ouvido aquela voz grave por tanto tempo. Não quando não saberia nem se o outro continuaria vivo.

Entretanto, Abeô sabia bem o que aconteceria com Shanumi se ele entrasse naquela batalha e perdesse. Ele era a única chance da pequena. Ninguém mais no mundo sabia que ela era diferente. E quando descobrissem, ninguém mais se importaria se ela viveria ou morreria. Mentira: a boa gente das minas de estanho do vilarejo de Daffo, e até seus próprios pais, se importariam sim se Shanumi vivia ou morria. Mais precisamente: fariam de tudo para que morresse. O que significava que, pelo simples fato de permanecer ali parado enquanto as serpentes se aproximavam, Abeô poderia estar assinando a sentença de morte dela.

Os devaneios do africano pararam quando Aidan puxou os braços para trás, rosnando enquanto as labaredas ao redor dele se agitavam. Então, com um longo grito, o ruivo empurrou algo invisível em direção às serpentes. Imediatamente, um feixe de chamas brotou de suas mãos, crescendo lentamente em direção à cobra metálica mais próxima. Em dois segundos, as chamas a teriam acertado, mas o bicho se desviou com relativa facilidade. O ruivo, que ainda gritava enquanto mantinha os braços estendidos para a coisa, precisou redirecionar o feixe de labaredas por mais algumas vezes antes de acertar a coisa, já a menos de cem metros dele. Contudo, mal as chamas a acertaram, cada um de seus segmentos metálicos transformou-se numa imensa bolha de fogo, formando uma cadeia de explosões que já era grande o suficiente para engolir um carro. E ainda crescia.

Abeô não pensou: concentrou todas as forças em correr para Aidan. Sabia, com toda certeza, que levaria pelo menos dez segundos antes de alcançá-lo, mas continuou. O corpo podia não se mover tão rápido quanto gostaria, mas a mente voava como um raio entre as possibilidades. O fogo em si, provavelmente, não seria um perigo para o ruivo, então a grande preocupação do africano era com os estilhaços. Num piscar de olhos, imaginou pelo menos três vezes qual direção tomariam os fragmentos metálicos da explosão. Imaginou-os perfurando os peixes ao redor, como balas, e acertando Aidan. A grande questão era se as labaredas ao redor dele seriam suficientes para derreter o metal a tempo. O ruivo, naquele instante, havia parado de emitir o feixe de fogo e inspirava profundamente. Então, para desespero de Abeô, a camada de fogo ao redor dele diminuiu a ponto de quase desaparecer.

A explosão da serpente agora era grande o suficiente para engolir um ônibus, uma grande nuvem revolta e brilhante uns vinte metros acima do fundo do rio. Entretanto, para alívio de Abeô, esse foi o tamanho máximo que a explosão alcançou. Logo em seguida, a bolha de fogo foi comprimida em todas as direções, encolhendo rapidamente. E foi aí que Abeô avistou centenas de estilhaços metálicos brotarem de dentro da bolha da explosão, singrando as águas em todas as direções. Ao contrário do que imaginava, não foram nada longe. Perderam velocidade quase instantaneamente, mergulhando inertes para o fundo do rio. Nesse ponto, de alguma forma, a bolha da explosão tinha recuperado o brilho do fogo e voltava a crescer, mas não tanto quanto antes. Entretanto, o que foi realmente assustador foi a onda de morte que se alastrou entre os peixes.

Alguns dos peixes tinham sido mortos na explosão, outros tinham sido engolidos pelo crescimento da bolha de fogo, mas ainda havia uma boa quantidade em fuga quando a bolha de chamas encolheu da primeira vez. Entretanto, pareceu que, apesar da água ter vencido o fogo da explosão e a velocidade dos estilhaços metálicos, não venceu a morte que a arma carregava em si. Abeô demorou um pouco a perceber, mas todos os peixes ao redor de onde a bomba explodira morriam em sequência, primeiro os mais próximos à bomba e progressivamente os mais afastados dela. Sem explicação aparente e independente do tamanho, paravam de nadar e boiavam, manchas de sangue brotando de suas bocas. Era uma verdadeira onda de morte que crescia, rapidamente, para engolir primeiro Aidan e, logo em seguida, Abeô.

Mal o africano pensou em gritar para que o ruivo saísse de lá, ele rugiu alto, com todas as forças, enquanto as chamas criavam uma grande bolha ao seu redor, com quase dois metros de diâmetro. Quando a onda de morte passou por ele, a bolha, de alguma forma, deslocou-se, como se fosse acompanhar a onda. Por um momento Abeô até pensou que ela fosse se desfazer, mas isso não chegou a acontecer. A onda passou por Aidan e ainda crescia para engolir Abeô.

Quando aquela coisa passou por ele, o africano entendeu. A força com que a água chegava naquela onda era imensa, esmagadora. Era forte o bastante para estilhaçar cada osso de um homem adulto que mergulhasse ali perto. Não fosse o piche, teria sido esse o destino de Abeô. Apesar de sentir que o interior do tronco latejava, ainda estava vivo, e ao que tudo indicava, continuaria assim, Entretanto, enquanto a onda passava, ele foi jogado para trás, chegando a desequilibrar-se e cair.

Enquanto caía, o africano sentiu mais três ondas semelhantes passarem, cada vez mais fracas, a ponto de a última não chegar a arrastá-lo para trás. Quase imediatamente o rugido de Aidan cessou e ele gritou, correndo em sua direção, olhos arregalados:

— << Gigante!!! >>

Surpreso, Abeô tentou se levantar o mais rápido que conseguia. Aidan já tinha chegado perto dele e até iniciou o gesto de ajudar o outro a se erguer, mas desistiu, encolhendo a mão rapidamente, sério. De alguma forma, aquilo doeu no africano bem mais que a onda da explosão da serpente metálica. Pensou que o ruivo talvez soubesse de sua doença. Talvez tivesse percebido, de alguma forma, seus desejos doentios.

Aquilo, entretanto, perdeu importância quando Abeô percebeu, através dos milhares de olhos do piche, uma segunda serpente no ponto onde a outra tinha explodido. A má notícia, nesse caso, era que a serpente disparava, em direção a Aidan, dois arpões.

Mais uma vez, seu corpo movia-se muito mais lento que sua mente. Enquanto tentava apontar para os arpões e os fios prateados que traziam, por milhares de vezes ele gritou, mentalmente, para que o ruivo olhasse para trás. Entretanto, ainda na metade do movimento do africano, duas pontas com quatro ganchos cada brotaram da barriga dele.

Imediatamente, o ruivo começou a gritar e tremer, com os músculos do corpo tensos ao máximo. As chamas dele apagaram-se completamente e, sem aviso, os ganchos o puxaram com força em direção à serpente metálica.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    Acompanhando e curtindo mt <3 ^^