Capítulo 08 – Tremores

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Enquanto os milhares de olhos no piche negro observavam Aidan ser içado pela serpente metálica dos encouraçados, um misto de raiva e desespero inundou o peito de Abeô, fogo e gelo em suas entranhas. Queria gritar a cada vez que reparava na mancha de sangue que crescia a partir dos arpões na barriga do ruivo. Queria cair de joelhos e chorar quando não via mais as chamas ao redor do outro, e partir aquela máquina maldita em mil pedaços. Também xingava Aidan de todos os palavrões possíveis, em inglês e hausa. Por quê raios o ruivo tinha corrido para as serpentes de metal? Por que é que aquelas coisas explodiam tão fácil e com tanta força, varrendo a vida do rio e derrubando o negro? Por qual motivo estúpido Aidan tinha corrido para ele, dando as costas para o inimigo? Por quê merda de nojo o ruivo tinha desistido de lhe estender a mão para ajudá-lo a se erguer?

Se Aidan não tivesse percebido sua depravação, Abeô, talvez, tivesse conseguido tirá-lo do caminho dos arpões. Se Abeô não fosse um homem doente, aquele anormal com desejos anormais, talvez estivesse segurando a mão do ruivo naquele momento, e não vendo-o sangrar e ser arrastado para longe, rio acima, cada vez mais distante. Se a porra do piche não ficasse tão rígido embaixo d’água, talvez  ele tivesse alcançado o ruivo antes que a serpente o puxasse. Talvez seus esforços de correr em direção a Aidan tivessem chance de fazer alguma diferença.

Mesmo assim, Abeô continuava a empenhar todas as forças em correr rio acima. Mesmo pensando, por milhares de vezes, o que aquilo poderia significar para  Shanumi, mesmo vendo que as outras serpentes encouraçadas continuavam a nadar em sua direção, continuou. Não fosse sua doença, Aidan não estaria de costas para aquelas máquinas infernais quando os arpões foram disparados. Era culpa dele que o ruivo estava agora desacordado e provavelmente se afogando, naquele exato momento. O africano não fazia a mínima ideia de quanto tempo uma pessoa poderia ficar embaixo d´água, muito menos àquela profundidade. Além disso, ainda havia as feridas, duas, das costas à barriga, sangrando, muito.

A verdade era que, nos próximos minutos, independente dos esforços do negro, Aidan provavelmente estaria morto. Era uma verdade na qual Abeô tentava não pensar, mas que teimava em surgir e ressurgir em sua mente gritando, dentro de si, que algo também morreria junto com o ruivo. Era por isso que os milhares de olhos do piche mal enxergavam as outras serpentes aproximando-se, mal reparavam nos peixes mortos no caminho. Todos estavam colados, fixos, no homem que sangrava, inconsciente, arrastado pela serpente dos encouraçados.

Então, por um breve instante, as chamas reapareceram ao redor de Aidan. Foi algo breve, um lampejo apenas, seguido por um novo, pesado e sofrido estremecer do ruivo.

Antes que Abeô pudesse pensar no que aquilo significava, outras duas serpentes já tinham se aproximado o suficiente e dispararam arpões para ele. O africano desconfiava que o metal em si não iria feri-lo, mas sentia que havia algum outro perigo naquelas armas. Lembrou-se dos primeiros projetos que a mulher loira disparara, os que enegreceram sua visão e quase o derrubaram. Talvez os arpões fossem como aqueles dardos, mas com uma droga diferente, mais potente. Uma da qual o piche não pudesse protegê-lo. E se ele caísse, tanto sua irmã quanto Aidan não teriam qualquer tipo de socorro.

Levaria pouco mais de um segundo para aquelas coisas o atingirem. Restava muito pouco que pudesse fazer nesse tempo. Então, apesar de saber que logo em seguida seria um alvo fácil, Abeô jogou-se para o chão.

Por sorte, o primeiro par de arpões passou direto. Entretanto, antes mesmo que alcançasse o fundo do rio, Abeô viu e sentiu o outro par de projéteis, com seus fios metálicos, mergulhar no piche que cobria suas costas.

Como esperava, apenas a ponta dos arpões penetrou o piche. Felizmente, ao contrário dos dardos disparados pela loira, aquilo não o fez fraquejar nem escurecer a visão. Pelo menos não de imediato. Pouco depois, ele sentiu uma onda de tremor dolorido, rápido e intenso brotar dos arpões e inundar o piche. Pouco daquilo lhe alcançou a pele, mas já era desconfortável o bastante.

Até que não ficou mais desconfortável, de maneira alguma. O tremor continuava no piche, em ondas que iam e vinham dos arpões, mas não mais alcançava a pele do africano. Não doía mais. Em verdade, ele se sentia, de alguma forma, melhor. Nesse meio tempo, terminava o movimento que o africano fizera para chegar ao chão e livrar-se dos disparos. Instintivamente, moveu as mãos para o chão, para melhor aparar a própria queda, e para sua surpresa o movimento não foi tão lento. Erguer-se de novo não foi tão lento. Em verdade, o piche não estava mais tão rígido. Não permitia uma movimentação totalmente livre, mas estava mais fluido, um pouco mais parecido com o corportamento que tinha em terra.

Assim que Abeô se ergueu, sentiu que a serpente dos encouraçados aumentava a intensidade do tremor que injetava através dos arpões e, rapidamente, a outra disparou novamente contra ele. Ele ainda pensou se deveria ou não tentar se desviar. Talvez fosse aquele tremor que estivesse fazendo o piche funcionar melhor, ou talvez, com duas serpentes injetando os tremores, ele perdesse a consciência, como parecia acontecer com Aidan. Por fim, ele deixou-se ser atingido e, como previa, veio uma segunda e poderosa onda de tremores.

Foi dessa forma que ele teve certeza que era mesmo aquele estranho veneno das víboras que estava melhorando a fluidez do piche. A leve tontura que sentia desde que entrara na água desaparecera completamente e o melhor: nada dos tremores alcançava sua pele por baixo do piche. Mais serpentes se aproximaram disparando arpões, que perfuravam apenas a superfície do líquido negro ao redor dele. Cada uma delas injetava mais tremores através do arpão e, quanto mais isso acontecia, mais normal e desperto ele se sentia. Apesar do emaranhado de cabos metálicos presos entre as serpentes e o piche, ele já se preparava para correr rio acima.

Até que, novamente, Abeô avistou as chamas ressurgirem ao redor de Aidan, que dessa vez parecia despertar. Como da outra vez, quase imediatamente, ele retesou os músculos e estremeceu, voltando à inconsciência. O africano então compreendeu: as serpentes estavam tentando desacordá-lo. E assim que conseguissem, provavelmente o levariam para o mesmo lugar que o ruivo.

Era só um palpite, mas ele tentou. Soltou o corpo, deixou-se cair e, como previa, antes que atingisse o chão, as víboras mecânicas o ergueram, arrastando-o rio acima. O lado ruim foi que elas cessaram de injetar os tremores no piche, que já voltava, aos poucos, a ficar mais rígido. O lado bom é que havia mais daquelas máquinas carregando o africano, quatro para ser mais exato, enquanto apenas uma carregava Aidan. Outras três, que antes nadavam para Abeô, agora se dirigiam para o ruivo, o que, a princípio, deixou o africano apreensivo. Felizmente, elas não atiraram contra ele, apenas se aproximavam mais e mais perto de Aidan. O que fariam quando chegassem realmente perto era algo que Abeô preferia não descobrir, principalmente se estivesse com o piche ao redor enrijecido.

Havia, é claro, pelo menos mais seis serpentes que ele enxergava ao longe, através do piche. Elas agora nadavam contra a correnteza, mas era certo que, assim que ele agisse, elas desceriam para ajudar as outras.

Abeô ainda não tinha chegado à mesma altura do rio que Aidan, mas as serpentes que o carregavam já tinham ultrapassado o ruivo. O que significava que, se puxasse o próprio corpo através dos cabos metálicos, poderia ficar lado a lado com o outro antes que as outras víboras chegassem perto demais. E foi exatamente isso ele fez. Concentrou toda a força para, o mais rápido que a rigidez do piche lhe permitia, puxar os cabos que o prendiam à serpente mais próxima de Aidan.

A coisa toda deu mais certo do que ele esperava. Quanto mais ele encurtava o cabo, mais próximo de Aidan ele ficava. E quase imediatamente as serpentes voltaram a injetar tremores nele, o que só deixou seus movimentos mais livres. As outras três serpentes que nadavam para o ruivo deram meia volta e dispararam contra o africano, injetando no piche mais e mais daquele estranho veneno que, na verdade, o ajudava.

O que realmente surpreendeu Abeô foi que o piche caminhava através dos cabos, envolvendo-os. Se já era um pouco estranho enxergar em todas as direções, muito mais era sentir e enxergar metros de cabo metálico, de alguma forma, dentro de seu corpo. As máquinas, felizmente, não perceberam aquilo de imediato, mas quando o piche alcançou o corpo metálico da primeira serpente, as coisas começaram a dar errado.

Rapidamente, o piche envolveu cada um dos segmentos metálicos da coisa. E o pior: por dentro do líquido negro, Abeô enxergou quando a couraça metálica derreteu e o piche inundou o interior da serpente. Eram quinze anéis, cada um do tamanho de uma criança, com uma mistura de fios, plástico e sabe-se mais o quê. Tudo derretia rápido, tremores brotando de cada parte da máquina à medida que o líquido negro envolvia tudo. O ruim foi quando as outras serpentes, antes de serem alcançadas pelo piche, de alguma forma desconectaram os cabos que carregavam Abeô. Elas continuaram a nadar rio acima, carregando Aidan consigo enquanto o africano afundava rapidamente, como um bloco de pedra, impotente.

E quando parecia que nada mais podia dar errado, a serpente que o líquido negro engolira explodiu.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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