BN Tales – Golem – Capítulo 09

Capítulo 09 – Embaraços

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide esse link


Foram quinze explosões poderosas, barulhentas e doloridas. Mesmo àquela distância, o piche entre Abeô e as explosões transmitia cada sensação. Enquanto caía para o fundo do rio, o africano sentiu, como se dentro do próprio peito, as bolhas de fogo, som e estilhaços metálicos crescerem rápidas, esticando o líquido negro, tentando rompê-lo para ganhar a água e crescer.

Um pouco acima, no rio, Aidan ainda era carregado desacordado, dois arpões atravessados no ventre, sangrando. Já fazia quase um minuto que as chamas ao redor dele não se acendiam. E mesmo que acendessem, o tremor que as serpentes injetavam devolveria o ruivo à inconsciência. Sem ajuda, ele certamente seria levado aos encouraçados e à loira que atirara em Abeô. E o que quer que planejassem, algo lhe dizia que não seria nada bom.

As quinze bolhas de fogo ainda estavam contidas dentro do piche, mas agora tinham o tamanho de um homem adulto. O piche entre elas e o rio era apenas uma película semitransparente, doendo diretamente no cérebro. Tudo o que os reflexos de Abeô queriam era que o piche se rompesse, a pressão diminuísse, a dor passasse. Contudo, se lembrava do que uma explosão daquelas era capaz na água. A diferença era que, desta vez, Aidan não conseguiria criar uma bolha de chamas para se proteger. E o pior: com ferimentos tão sérios, o estrago da onda de impacto seria muito pior.

Então, pelos próximos vinte segundos, o africano berrou dentro do piche, forçando alguma coisa dentro de si para que a película não se rompesse, para que as explosões continuassem mergulhadas nele. Pareceu uma eternidade, as bolhas crescerem enquanto a  película de piche se tornava mais e mais fina. Até que, finalmente, as chamas começaram a perder força. Num piscar de olhos, o piche absorveu as labaredas, derreteu os estilhaços, os cabos metálicos, os arpões e retornou para Abeô.

Toda a dor tinha desaparecido. Em lugar dela, o africano sentia um vigor, uma força, uma euforia como da primeira vez em que o piche surgiu. O líquido negro estava novamente fluido, e ele se movia com liberdade. Correu então, mais que depressa, rio acima, em direção ao ruivo e às serpentes.

Logo nos primeiros metros, percebeu que aquela não era uma boa ideia. A mudança foi discreta para quem observasse, mas para ele foi nítida. A nova força era limitada e se dissipava rápido. Cada movimento deixava o piche mais rígido, cada pequeno gesto o empurrava de volta à quase paralisia. Se ainda quisesse salvar Aidan, precisava alcançá-lo antes que a energia desaparecesse.

Então ele concentrou toda força nas pernas e empurrou o chão, atirando-se como um míssil em direção ao ruivo.

No meio do caminho, contudo, se arrependeu. Primeiro, porque tinha calculado o pulo de forma a abraçar Aidan, mas como o outro era puxado pelas costas, sua cabeça, braços e pernas pendiam para trás, inertes. Quantos ossos aquele salto custaria ao ruivo? E o que aconteceria quando, em lugar de sustentar o peso dele, as feridas sustentassem também o peso do africano? Pior ainda: se o piche dissolvera completamente a serpente, o que faria quando tocasse Aidan?

Não havia mais tempo para mudar as coisas. Nem mesmo as víboras, que agora nadavam para ele, o alcançariam antes que acertasse Aidan. Mesmo sentindo que a água o desacelerava, Abeô viu-se aproximar-se rápido demais do ruivo. Aflito, tentou decidir o que seria pior. Deixar que seu tronco acertasse os membros do outro, talvez provocando largas queimaduras, ou o piche envolvendo Aidan, o que definitivamente seria desesperador. Por outro lado, poderia tentar agarrar uma das pernas, o que poderia resultar numa fratura ou, dependendo da velocidade, numa amputação.

Nenhuma das alternativas parecia boa ou segura o bastante. Até que, milésimos de segundo antes da chegada de Abeô, as chamas voltaram a brotar do ruivo. Como das outras vezes, mesmo inconsciente, a víbora dos encouraçados, através dos arpões, injetou os tremores em Aidan, fazendo as labaredas se dissiparem. A cena, entretanto, foi o suficiente para o africano pensar que, talvez o outro fosse à prova de fogo e o piche não o queimasse, desde que não ficassem perto tempo demais para que o líquido negro o envolvesse.

Abeô então abriu braços e torceu para que os membros do ruivo não afundassem no piche, nem se estilhaçassem com o impacto. Infelizmente, ele enxergou, de todas as direções e com os mínimos detalhes, quando a pele tatuada queimou-se ao contato com o líquido negro. Ouviu os ossos estalarem e viu as pernas dele adquirirem ângulos estranhos, mas não havia tempo para lamentar. O impacto com Aidan não tinha sido o suficiente para cessar o movimento, então agora os dois homens se aproximavam, rapidamente, da serpente metálica que os carregava, vários metros de cabo enrolando-se inertes entre eles.

O africano raciocinou que se as serpentes não iriam mais tentar arrastá-lo com os arpões e correr o risco de serem engolidas pelo piche, restava-lhes apenas explodir. E quando isso acontecesse, precisava que Aidan estivesse longe, o mais longe possível, se é que lhe restava alguma chance de sobreviver aos ferimentos. Ele alcançou o primeiro cabo que prendia o ruivo, e puxando-o entre as mãos o rompeu. Tentou alcançar o outro cabo, mas priorizou amortecer o impacto de Aidan contra a serpente. Nisso ele próprio bateu contra a máquina e rolaram os três rio acima e, logo em seguida, rio abaixo, emaranhados numa teia de cabos metálicos. Desse ponto em diante, a coisa só ficava mais complicada. A víbora tentava nadar de todas as maneiras, o que só emaranhava mais os cabos e dificultava o nado. Assim, girando em todas as direções, Abeô, Aidan e a serpente afundavam cada vez mais rápido.

Preocupado, o africano tentou desenrolar o ruivo e afastá-lo da máquina. Tinha certeza que era só questão de tempo até ela explodir, embora não tivesse qualquer ideia de como proteger Aidan se todas as outras serpentes se juntassem numa grande explosão. Assim que conseguiu afastar o ruivo um pouco mais, para sua surpresa, as serpentes dispararam uma chuva de arpões e cabos. Todos, claramente, mirando Aidan.

Abeô puxou o outro para junto de si rapidamente. Não que o piche tivesse chegado à mesma rigidez de antes, mas já não conseguia se mover normalmente. A princípio, apenas colocou-se entre ele as arpões, recebendo os projéteis nas costas, o que foi, no final das contas, de grande ajuda. Cada arpão injetava uma mega dose do estranho tremor das serpentes, que de alguma forma deixava o piche mais fluido e a movimentação mais livre. Assim, nos segundos seguintes, foi possível romper os cabos que ainda os prendiam e impedir que Aidan fosse acertado, principalmente quando voltaram ao fundo do rio.

A situação mudou, radicalmente, quando as serpentes mecânicas deram a volta, cercando-os por todos os lados. Abeô tentou bloquear os novos dardos que chegavam, mas a cada novo sucesso, pior a posição em que terminava, e mais difícil era equilibrar-se no próximo movimento. Nem vinte segundos para ele cair por cima do desacordado e ferido Aidan, que ainda sangrava muito pelas feridas dos arpões cravados no tronco.

Para o africano, foi a situação mais confusa que vivera até ali. Por respeito, mantinha alguns milímetros de distância do corpo do ruivo, imaginando o nojo e medo que o outro sentiria se acordasse naquele momento. Entretanto, apesar da chuva de dardos, dos sustos de cobrir e proteger o ruivo, apesar de ter de agarrar-se as raízes cada vez mais profundas para não ser levado pelas serpentes, os pensamentos doentios continuavam. Não conseguia parar de desejar encostar-se, mesmo que de leve, só por alguns instantes, naquela pele repleta de tatuagens, no corpo tão robusto quanto arredondado, como ele próprio. Em que outro momento estaria tão perto de Aidan assim? O frio na barriga subia e descia, subia e descia, o coração quase parava e disparava como não houvesse amanhã, retumbando com tanta força que doía no peito.

A única coisa que realmente fazia frente a esses sentimentos era o desespero, imenso e devastador, de pensar que, a cada instante que se passava, mais improvável era que Aidan acordasse de novo. Muito já havia se passado desde que as chamas tinham se acendido pela última vez. E ele agora, por culpa de Abeô, tinha várias queimaduras, ossos quebrados e sabe-se mais o quê. Talvez, no fim das contas, tudo que o africano fizera nos últimos instantes fosse em vão. Talvez fosse tarde demais e, mesmo que não fosse, era difícil acreditar que conseguiria levar o ruivo dali a tempo.

A única esperança era que as chamas voltassem sozinhas, como tinha acontecido antes e que, dessa vez, sem os tremores das serpentes, elas continuassem até ele acordar. Abeô não fazia a menor ideia do que as chamas fariam com o piche, temia que as chamas piorassem as feridas e fraturas, mas era a única e última chance. Restava ao africano se agarrar a ela, com toda força de vontade que tinha, uma força muito mais difícil do que a necessária para erguer uma geladeira cheia de lixo. Era a força de, na impossibilidade de falar, insistir em gritar, mentalmente, para que o outro acordasse.

As serpentes tinham parado de injetar tremores nos arpões, o que só deixaria as coisas mais difíceis nos instantes seguintes. Agora elas só puxavam os cabos, com força, em todas as direções. Pouco a pouco conseguiram arrancar do solo as raízes às quais Abeô se agarrava, espalhando uma nuvem de lama em todas as direções. Não demorou nada para o ruivo desaparecer na água suja.

Então, daquela lama, tímida, uma luz surgiu.

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Osiris Reis

zanzou da Medicina e a Mecatrônica antes de assumir que é tarado por Ficção Fantástica. Formado em Cinema, Rádio e TV pela UnB, é autor de Treze Milênios e dos contos Bandeiras, Madalena, Alma, Queda [Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja] e Companheiros de Armas [Fantástica Literatura Queer – Volume Verde].

É o baixo vocal do grupo Laugi, gestor de arquivo audiovisual na Comissão Nacional da Verdade, empreendedor, compositor, consultor de assuntos tecnológicos, cupido, ombro amigo e puxador de orelha quando necessário.