Capítulo 10 – Chamas

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Enquanto a luz crescia, rápida, diante de seus olhos, Abeô tentava decidir o que faria a seguir. Por um lado, sentia uma onda de esperança. A lama não deixava que tivesse certeza, mas sabia que, entre ele e o solo, Aidan, mesmo inconsciente, acendia uma labareda. Se outras viriam e salvariam a vida do ruivo era outra história.

A questão para o africano, naqueles milésimos de segundo, era se devia se deixar levar pelas serpentes que o puxavam ou se ficaria ali, perto de Aidan, o máximo de tempo que conseguisse. Agora que a luz sob a lama esboçava mais claramente a forma e o movimento das chamas, era impossível não lembrar dos mísseis que os aviões tinham atirado contra ele. Ainda lembrava bem das explosões nas costas, do calor se espalhando pelo piche, cercando-o por todos os lados, dolorido como o inferno. Tinha sobrevivido a um desses ataques, mas desconfiava que o fogo de Aidan, capaz de manter-se mesmo no fundo do rio, seria muito, muito mais quente.

Ao mesmo tempo, sabia que assim que se afastasse, as máquinas que o puxavam atirariam contra o ruivo e injetariam seu estranho veneno, novamente apagando as chamas. E mesmo que o ruivo estivesse totalmente consciente, com as labaredas ao máximo, acreditava que os arpões ainda seriam capazes de atingi-lo. Foi esse raciocínio que fez Abeô tomar sua decisão. Podia morrer ao insistir em proteger o estranho, mas não conseguiria conviver consigo mesmo se não o tentasse ao máximo.

Só queria que, de alguma forma, o outro soubesse do verdadeiro motivo daquele ato sem se sentir enojado. Queria poder falar embaixo d’água para contar-lhe sobre a irmã, pedir que a salvasse, que a ajudasse a…

Velozmente, as chamas sob a lama assumiram a forma do corpo de Aidan, expulsando a lama e revelando o rosto inconsciente dele. Quase ao mesmo tempo, as labaredas tocaram Abeô. E, para sua surpresa, num piscar de olhos, espalharam-se por todo o piche.

Ao contrário do que esperava, o calor que sentiu não foi mais intenso que o dos mísseis. Sentia-o, sem dúvida, espalhando-se ao seu redor, mas era mais como um abraço quente, como os que Shanumi lhe dava, aqueles abraços que faziam-no esquecer de todos os problemas e tornavam tudo mais leve. E embora as labaredas distorcessem um pouco a visão dos milhares de olhos do africano, ele percebeu, surpreso, quando os arpões na barriga do ruivo derreteram e as feridas se fecharam expulsando boa quantidade de metal liquefeito. Assistiu, perplexo, as queimaduras sararem e os estranhos ângulos nas pernas se desfazerem enquanto Aidan voltava a respirar.

— <<Ai.>> – foi a primeira coisa que ele disse, ainda de olhos fechados.

Abeô não conseguiu fechar o largo sorriso, mesmo quando o ruivo abriu os olhos e fitou-o surpreso. Sentia uma vergonha imensa por estar praticamente deitado sobre o outro, mas estava irremediavelmente feliz. Pelo menos até perceber que as raízes às quais se segurava, no fundo do rio, já tinham se transformado em carvão e agora cediam à força das serpentes e seus arpões.

Puxado pelas serpentes metálicas, foi muito rápida a subida do africano. Aidan, no entanto, foi ainda mais rápido. Agarrou-se ao outro com braços e pernas, subindo junto com ele. Prendeu a respiração e cerrou os olhos com força, rugindo enquanto as chamas ao redor dos dois cresciam.

Uma onda de arrepio e tremor percorreu o piche e o corpo de Abeô. Apesar do perigo e da necessidade de lutar, era a primeira vez que sentia o corpo de um homem realmente colado ao seu. Como podia se sentir tão bem com algo tão errado? Por que se sentia tão completo com as carnes entre as pernas do ruivo coladas ao seu umbigo, com a barba dele colada à sua?

As imagens que seus milhões de olhos captaram naquele momento ficariam muito tempo em sua memória.

O êxtase deu lugar ao sentido de alerta quando os cabos que os conectavam às serpentes metálicas derreteram. Os dois homens caíram de volta ao fundo do rio, como se estivessem no ar e não na água, o que de imediato fez o africano preparar-se para o impacto. Ele aparou a queda e correu rio abaixo, levando Aidan consigo, as labaredas brotando do ruivo e de todo o piche.

Sim, Abeô corria. Não tinha percebido ainda, mas novamente o líquido ao seu redor tornava-se fluido, obedecendo rapidamente a cada movimento seu. E ao contrário do que acontecia com o veneno das víboras metálicas, aquilo não diminuía com os movimentos, mesmo quando aplicava mais força. A própria água ao redor deles parecia se desfazer abrindo passagem, como se nem existisse. Não demorou para que o africano percebesse que podia aplicar muito mais força em cada passo, transformando a corrida numa sequência de longos saltos que, rapidamente, os afastou dali.

Levou apenas alguns instantes para as serpentes os seguirem. Alcançá-los demorou um pouco mais, mas quando aconteceu, ao invés de atacarem de imediato, ultrapassaram os dois. Três delas esticaram-se diante de Abeô enquanto ainda estava no ápice de um salto, tornando impossível que se desviasse. O africano não demorou a entender a estratégia daquelas coisas e, imediatamente, preparou um soco contra a primeira, torcendo para que aquilo a afastasse a tempo. Entretanto, antes que chegasse perto demais, cada anel da máquina explodiu.

Ao contrário das explosões anteriores, nessa eles mergulhavam sem qualquer possibilidade de se desviarem. Apesar do excesso de luz, Abeô percebeu, através do piche, a força com que os estilhaços da máquina eram expulsos em todas direções. Sabia que, eventualmente, a água os pararia, mas que ainda estava longe disso acontecer. Sabia também que o ruivo poderia se curar caso os pedaços de metal o ferissem, mas não se estivesse inconsciente. Então, pouco antes de entrar na bolha da explosão, ele apoiou a nuca do outro com as duas mãos, juntando os cotovelos atrás das costas do mesmo.

Como previa, os estilhaços os acertaram com a força de balas. Atravessaram os braços e pernas de Aidan, mas não a cabeça nem o peito, o que certamente lhe permitiria continuar queimando e curar-se nos próximos instantes. O que ele não previa era que a explosão iria quase parar seu movimento, nem que tantos arpões viessem de tantas direções. A sorte realmente foi enxergar de todos os lados. Isso permitiu-lhe aparar os dardos antes que acertassem Aidan.

Assim que seus pés voltaram ao solo, Abeô voltou a correr, dessa vez com pulos mais curtos, voltados mais para frente que para o alto. Acabava se movendo de forma mais lenta, mas pelo menos podia se desviar das outras serpentes que se colocavam à frente apenas para explodir em seguida.

Uma a uma, as máquinas tentaram engoli-los em explosões suicidas. De cada uma delas, Abeô desviou-se. E assim, com o piche banhado pelas chamas de Aidan, nas horas seguintes afastaram-se algumas centenas de quilômetros de Manaus.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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