Golem – Cap 11 – Para onde você quer ir?

Capítulo 11 – Para onde você quer ir?

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Abeô carregou Aidan, correndo, por pelo menos quatro horas, rio abaixo. Não que tivesse percebido isso. Desde a batalha com as serpentes, havia perdido totalmente a noção do tempo. A mente continuava na batalha, remoendo cada detalhe. E eram muitos detalhes que ele tinha gravado. Tantos que, às vezes, tinha impressão de que, em lugar de segundos, aquele episódio representasse um mês inteiro de sua vida.

O ruivo permanecia calado, agarrado ao tronco do outro com braços e pernas. Suas feridas e queimaduras não passavam, agora, de minúsculas cicatrizes, o que levava o africano a perguntar-se quais ferimentos tinham provocado as outras. Eram minúsculas e discretas, mas muitas, quase tão abundantes quanto as tatuagens. Por fim Abeô considerou que, talvez, o outro já tivesse sido capturado pelos encouraçados. E aquelas marcas seriam a prova de que o cativeiro quase o tinha matado.

Em determinado momento, Aidan afastou-se um pouco do africano, só o suficiente para olhá-lo e dizer:

— <<Preciso que você pare um pouco.>>

Abeô atendeu e o outro desvencilhou-se devagar, com movimentos curtos. Forçou os braços para trás, como se espreguiçasse, agachou-se e levantou algumas vezes, e mesmo em pé abraçou um joelho de cada vez. Enquanto as chamas no piche se apagavam, o africano fingia olhar para frente, sério. Entretanto, com sua nova visão, observava cada movimento, músculo e detalhe do outro, fascinado.

— <<Para onde você quer ir?>> – Aidan perguntou.

O africano abriu as mãos para as laterais, num gesto de “Não sei”. O ruivo agora puxava um cotovelo para debaixo do queixo enquanto dizia:

— <<Eu já estou fugindo há mais tempo que você. Tinha conseguido despistá-los há algumas semanas, mas de alguma forma me encontraram muito fácil.>>

Ele esticou os braços para cima e para os lados, enquanto Abeô ouvia dezenas de ossos estalarem. O outro continuou:

— <<Até ontem eu diria que precisávamos ir para o lugar mais deserto possível, mas desta vez não levaram nem uma semana para me encontrar. E o único jeito para isso é se tiverem desenvolvido alguma forma de rastrear minha habilidade. E é bem provável que também consigam rastrear a sua. O que significa que ficar num lugar com pouca gente é pedir para ser encontrado.>>

Aidan olhou rio abaixo, respirou fundo e continuou:

— <<Se continuarmos juntos e você puder manter o ritmo, o mais seguro será continuarmos na água até chegar a uma cidade realmente populosa. Pelo menos por enquanto eles não desenvolveram uma arma aquática mais eficiente do que aquelas coisas, mas é só questão de tempo.>>

Abeô sentiu calafrios em pensar no que poderia ser pior que as serpentes metálicas. Aidan cruzou os braços, fixou o olhar no rosto do africano e falou mais baixo e grave do que normalmente fazia:

— <<Nós formamos uma boa equipe. Se você puder se misturar às pessoas, acho que vale a pena continuarmos juntos por mais um tempo, um protegendo o outro. O que me diz?>>

O africano não tinha certeza se conseguiria fazer o piche desaparecer, mas também nada dizia o contrário. Meneou um sim com a cabeça, ao que Aidan esboçou um sorriso quase imperceptível. Ele olhou novamente rio abaixo e apontou para a direita:

— <<A megalópole mais próxima fica a uns 7 500 km, mais ao sul. Haverá outras cidades realmente grandes no caminho, mas são apenas um pouco maiores do que Manaus. Precisamos de uma bem maior se quisermos nos esconder melhor.>>

Abeô não fazia ideia de quanto tempo levariam para chegar lá, mas imaginava que seria muito tempo, provavelmente meses. Era um tempo que Shanumi não tinha.

Por outro lado, tentar esconder-se numa cidade mais próxima apenas para ser encontrado em uma semana também não ajudaria sua irmã. Precisava juntar mais dinheiro e depois ainda esperar uma semana até que a trouxessem. E não poderia fazer isso se estivesse sempre lutando e fugindo.

Precisavam partir logo, mas também precisava ter certeza que Aidan seria capaz de manter acesas as chamas que deixavam o piche mais mole dentro da água. Ele então perguntou, com um gesto, se o outro estava com fome.

O ruivo franziu o cenho e perguntou:

— <<Você está com fome?>>

Surpreso, Abeô respondeu que não. Em verdade, durante toda a vida, nunca tinha realmente tido fome. A mãe praticamente o obrigava a comer, mas sempre que podia ele dava sua comida para a irmã. E, definitivamente, naquelas últimas horas, comer não estava entre suas preocupações.

Ele então apontou para Aidan antes de repetir o gesto de comer.

— <<Não, surpreendentemente não estou com fome. Pra falar a verdade, nunca tinha passado tanto tempo com minhas chamas acesas. Acho que, de alguma forma, elas estão me alimentando.>>

Aquilo era realmente inesperado, mas bastante útil. Se as chamas curavam o ruivo, era bem provável que também o alimentassem e impedissem que se cansasse, como o piche fazia com ele. Se fosse, isso seria bem útil. Talvez, em lugar de levar meses para chegar à tal cidade, levassem semanas. O africano passou à frente do ruivo e ajoelhou-se, dando um pequeno tapa no próprio ombro. Aidan pareceu entender e, em silêncio, usou pernas e braços para agarrar-se às costas do outro.

Nas vinte e quatro horas que se seguiram, Abeô empenhou toda a força em impulsioná-los para frente. Fazia-o com braços e pernas, peito rente ao fundo do rio. Não sentiu fome, sede, cansaço, ou sono. Aidan, apesar de sempre calado, também não parecia ter necessidade dessas coisas, embora tenha pedido, por quatro vezes, para parar enquanto esticava e estalava os ossos.

No final daquela tarde, o leito do rio desapareceu. A água agora tinha uma corrente contrária, e parecia mais grossa, mais pesada. O ruivo lhe disse que era o mar, e que precisavam ir para a direita, mantendo uma distância em que ainda enxergassem a costa.

Os dois viajaram mais alguns dias naquela direção, sempre mantendo a costa visível. Com seus milhares de olhos, Abeô reparou na imensa variedade de cores e formas do mar. Era uma beleza que o distraía da beleza que enxergava no homem às suas costas. Era uma forma de esquecer, pelo menos por aquelas horas, sua doença, a necessidade desesperadora de juntar dinheiro antes que sua irmã fosse descoberta, os encouraçados e a mulher loira. Ali ele era apenas um ser humano admirando, mesmo que de passagem, a beleza pela beleza.

Três dias depois, Aidan começou a pedir-lhe, de tempos em tempos, que o arremessasse para cima. Da primeira vez que isso aconteceu, o africano não entendeu muito bem, mas obedeceu. Assistiu o ruivo subir algumas centenas de metros antes de apagar as próprias chamas, nadando o restante do caminho até a superfície. Então, acendia novamente as chamas, alternando-as entre quase desaparecer e voltar ao normal. Era sua forma de controlar a velocidade de descida.

Várias horas após anoitecer, Aidan subiu à superfície e voltou dizendo que tinham chegado. Enquanto caminhavam rumo à costa, Abeô comemorava. Tinha certeza que nem uma semana havia se passado. Talvez conseguisse juntar dinheiro a tempo afinal.

Assim que sua cabeça saiu da água, ele avistou, ao fundo, no alto de um cume, a imensa estátua iluminada de um homem de túnica e braços abertos. Enquanto a admirava, Aidan, já com as chamas apagadas, murmurou:

— <<Bem vindo, gigante, ao Rio de Janeiro!>>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.