Capítulo 12 – Meu nome é Abeô

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco Bym

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Aidan tomou a dianteira, nadando para um conjunto de pedras na parte direita da praia. Abeô fez o possível para segui-lo de perto, mas, sem as chamas, o piche voltara a deixá-lo lento. Ainda estava na metade do caminho quando o ruivo começou a escalar as pedras. O africano, mais que depressa, buscou concentrar seus milhares de olhos nas luzes da praia, mas não pôde deixar de reparar que Aidan era, de fato, totalmente tatuado.

O lugar, felizmente, estava vazio. Mesmo assim, Aidan continuou agachado, escondendo a nudez com as próprias pernas dobradas. Enquanto esperava pelo africano olhava, rapidamente, em todas as direções, apreensivo. Mal Abeô começou a escalar as pedras, ele colocou-se entre o mesmo e a praia, murmurando:

— <<Tente ficar o mais abaixado possível. Siga em frente na mata, passe pela estradinha e continue reto.>>

O africano obedeceu sem grandes delongas. Fora da água, recobrava a agilidade normal, como se não estivesse com o piche ao redor. Avançou entre as pequenas árvores, subindo a encosta até uma estradinha de cimento. Enquanto observava que Aidan o seguia de perto, cruzou a estradinha e novamente entrou na mata, com árvores cada vez maiores. Em determinado momento, o ruivo parou e sussurrou:

— <<Bem… pelo menos esse seu líquido negro não deixa rastros>>

Ainda abaixando, Abeô parou e avaliou o caminho que tinham percorrido. Não tinha prestado atenção, até então, mas de fato não deixava pegadas de piche. De alguma forma, a hipótese lhe parecia estranha demais, como se fosse abandonar parte de seus olhos a cada passo.

— <<Então…>> – Aidan continuou – <<…Consegue se passar por humano?>>

O africano observou as próprias mãos e braços, tentando imaginar um jeito de tirar o piche fora. Sabia que aquela coisa era forte e resistente, mas que também o deixava se mover livremente. A questão era se deixaria, por exemplo, que seu polegar e indicador humanos se tocassem por baixo daquela camada negra. E foi isso que ele decidiu tentar.

Mal Abeô pensou nessa possibilidade, o piche abriu caminho entre seus dedos, permitindo que se tocassem de fato. Quase imediatamente, sentiu sua pele humana sugar, de alguma forma, todo o líquido negro. E antes que se desse conta, estava novamente enxergando apenas com dois olhos.

— <<Incrível!>> – murmurou Aidan com assombro.

O africano imediatamente voltou os olhos para o chão, para os jeans esfarrapados e a barriga coberta pela camisa suja e rasgada. Ajeitou a mochila com o dinheiro nas costas, pra ter certeza que ainda estava lá. Tudo que vestia continuava com ele, dentro do piche, mesmo que não tivesse percebido. O surpreendente era que, apesar de ter sido atingido milhares de vezes, não restava nenhuma bala ou arpão depois que o piche desaparecera.

— <<Qual o seu nome?>> – O ruivo indagou.

— <<Abeô. Meu nome é Abeô.>> – respondeu sem tirar os olhos do chão. Ouviu Aidan inspirar mais fundo, como se tivesse levado um susto ou fosse falar alguma coisa e tivesse desistido.

— <<E há quanto tempo você sabe que é diferente, Abeô?>>

Surpreso, o africano analisou rapidamente a expressão do homem agachado à sua frente. Nunca tinha pensado em usar aquela palavra para descrever suas maldições. No mundo em que crescera, tudo vinha ou de Deus ou dos demônios. E como sabia, desde pequeno, que Deus o odiava… Isso sem falar, é claro, dos feiticeiros das tribos vizinhas. Sempre ouvira que a magia negra era capaz de fechar o corpo das pessoas contra quase todos os males. O preço, é claro, era a alma da vítima, o que explicava, para Abeô, o fato de só ter interesse em homens.

— <<Desde pequeno.>> – respondeu enfim.

— <<E os militares já tinham te atacado antes?>> – continuou Aidan – <<Por isso você estava em Manaus?>>

— <<Não. Eu estava juntando dinheiro. Para salvar minha irmã pequena.>>

— <<De quê?>>

Mesmo com o rosto voltado para o chão, Abeô quase sentia o calor dos olhos de Aidan avaliando-o.

— <<Ela é como nós. E quando descobrirem…>> – o africano interrompeu-se. Nunca tinha falado sobre nada daquilo em voz alta. Temia que, de alguma forma, suas palavras atraíssem má sorte.

No silêncio que se seguiu, o calor dos olhos do ruivo continuava, nítido, sobre a cabeça de Abeô. Até a voz grave soar à frente dele, séria:

— <<Qual a idade dela?>>

— <<Sete. Oito daqui três meses.>>

Aidan estalou a língua em desaprovação, ao que o africano ergueu o rosto, surpreso. Observou que o ruivo agora tinha a cabeça baixa, meneando pequenas negativas com a cabeça enquanto pensava.

— <<Tem certeza que ainda quer trazer uma criança para cá, com o risco dos militares aparecerem a qualquer momento?>>

Num piscar de olhos, Abeô imaginou os encouraçados disparando contra Shanumi. Ela não tinha uma camada de piche que a protegesse, nem labaredas curativas caso fosse ferida. Sem perceber, o africano começou a respirar cada vez mais rápida e superficialmente, os pensamentos dançando entre os possíveis destinos da irmã. Não havia escolha boa. Havia apenas a morte certa ou o risco de vida.

O africano prendeu a respiração quando sentiu a mão quente e macia de Aidan pousar sobre seu ombro enquanto a voz gravíssima balbuciava:

— <<Tudo… tudo bem… Nós… Nós vamos trazê-la…>>

Uma onda de tremores nasceu no ponto em que o ruivo lhe tocara e, rapidamente, espalhou-se por todo o corpo, eriçando cada pelo e poro. O coração começou a chutar, com força, para fora do peito, rápido, pesado e dolorido como o galopar de um milhão de cavalos. Surpreso, ele ergueu o rosto e os olhos apenas para perdê-los no verde profundo dos de Aidan, que também estava obviamente surpreso. E enquanto sentia o fôlego morno do ruivo misturar-se ao seu, Abeô percebeu a surpresa no rosto do outro transformar-se, rapidamente, em indignação e raiva. Ainda assim não conseguiu parar de fitar aqueles olhos, mesmo quando ele retirou a mão tatuada de seu ombro e ergueu-se, dando-lhe as costas enquanto rosnava:

— <<É melhor você ficar aqui!>>

Então, perplexo e assustado, Abeô observou Aidan se afastar até desaparecer no meio da mata.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.