BN Tales – Golem – Capítulo 13

Capítulo 13 – O cara errado

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco Bym

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Amanhecia quando Abeô conseguiu se erguer. Desde que Aidan desaparecera na mata, ele revisava aqueles últimos instantes em sua mente, de novo e de novo e de novo. Procurava, desesperado, por alguma chance de que o ruivo não tivesse percebido seu desejo doentio, por algum outro motivo para a indignação e a raiva que inundaram aqueles olhos verdes nos últimos instantes. Talvez se não o tivesse encarado tão descaradamente, ou se não tivesse tentado sorver aquele hálito como se fosse sua própria vida…

Enfim, talvez fosse melhor assim. Precisava mesmo aceitar que nunca teria aquele tipo de amor em sua vida, que era um ser deformado e errado. Precisava entender, de uma vez por todas, que aqueles segundos de êxtase que experimentara eram pura repulsa para Aidan ou para qualquer outra pessoa por quem se interessasse no futuro. Tinha que se concentrar em cumprir o único propósito nobre em sua existência: salvar a vida de Shanumi. E quando ela estivesse a salvo e crescida o bastante para cuidar de si, talvez pudesse finalmente livrar o mundo da imundície que reinava em seu peito.

O africano enxugou as lágrimas que escorriam no rosto e socou a própria fronte algumas vezes. Precisava se recompor. Tinha que criar coragem e sair dali, misturar-se às pessoas da cidade, conseguir um emprego, juntar dinheiro. E não conseguiria nada disso parado ali, esperando sabe-se lá o quê. Talvez que a esperança voltasse. Talvez que pudesse recuperar aquela esperança, aquele calor no peito que sentia a cada vez que olhava para Aidan. Mas não, não tinha perdido nada com a partida de Aidan, porque não tinha conquistado nada em momento algum. Tudo não passava de ilusões na cabeça de um condenado, nada mais. Era hora de abraçar a realidade e reconhecer que ele não voltaria. Era hora de lutar pela vida da irmã, sozinho, como sempre fizera até então.

Ele pensava que o primeiro passo seria o mais difícil, mas estava enganado. Quanto mais se afastava daquele local mais real se tornava o fato de que não veria mais Aidan. E essa era uma possibilidade que, contra qualquer bom senso, sua alma se recusava a aceitar. Tudo que queria era voltar e sentar naquele lugar até criar raízes, ou o ruivo voltar. Olhava repetidas vezes para o local onde o tinha visto pela última vez. Mesmo assim, continuou caminhando até voltar à estradinha de cimento da noite anterior. E o que viu ao chegar nela quase o fez congelar de novo.

Assim que saiu da mata para a estradinha, Abeô olhou para os dois lados. Primeiro para a esquerda, depois para a direita. À  esquerda nada havia além do céu violeta entre as árvores. À direita, entretanto, um vulto caminhava em sua direção, mas parou e virou-se de costas para ele. Abeô pensou que estava alucinando quando ouviu a voz gravíssima resmungar, em inglês:

— <<Eu tinha dito que era melhor você ficar na mata.>>

— <<Des… desculpe.>> – foi o que conseguiu responder.

O vulto pareceu tirar um saco dos ombros, largando-o no chão enquanto dizia:

— <<Vista essas roupas novas, jogue as antigas fora. Te espero no final da estrada.>>

Abeô observou o outro caminhar até desaparecer numa curva da estrada. Só então se aproximou do que tinha sido largado no chão. Era uma mochila, nova em folha, com roupas masculinas dentro, limpas como nunca tinha visto na vida. Calça, camisa, cueca e sapatos, grandes o bastante para serem usados pelo africano. Enquanto despia as antigas roupas e vestia as novas, os pensamentos lhe fervilhavam na mente. Jamais esperava ganhar roupas novas, muito menos de Aidan. Ele as estava levando para a mata, para ele? Eram roupas grandes demais para qualquer outro. Por quê, então, o ruivo não lhe entregara a mochila em mãos, saindo de perto sem nem olhar para ele direito?

Abeô passou o dinheiro da mochila velha para a nova. Dobrou as roupas antigas e colocou-as dentro da mochila antiga, escondendo-a no mato. Enquanto caminhava para o final da estrada, tomou uma decisão. Tinha que respeitar Aidan, deixar muito muito clara a sua doença. Devia isso a ele. Era o mínimo que podia fazer.

A estradinha cimentada desembocava num portão com um pequeno muro ao lado, onde o ruivo estava sentado olhando a praia. Enquanto se aproximava, Abeô reparou que agora ele também vestia calça jeans, sapatos e uma camisa de manga longa que cobria quase todas as tatuagens. No breve instante em que Aidan o analisou, o africano pôde ler, nitidamente, a raiva na mandíbula cerrada, o cenho fechado, os olhos faiscantes repletos de veios vermelhos.

— <<Eu sou um homem muito doente, Aidan McNaught.>> – disparou antes que perdesse a coragem.

Os olhos do ruivo, verdes e rubros, arregalaram-se por um breve instante, analisando o africano de cima a baixo.

— <<Você não é doente.>> – retrucou – <<Só me pegou de surpresa, foi isso.>>

— <<Meus desejos são deturpados, imundos.>> – Abeô respondeu – <<Seria melhor você…>>

Aidan interrompeu-o, praguejando em meia dúzia de idiomas desconhecidos antes de voltar ao inglês:

— <<Não há nada de errado com seus desejos, gigante! Eu apenas sou o cara errado para eles.>>

— <<Mas…>>

— <<Não tem ‘mas’! Tudo que te ensinaram sobre homens que gostam de homens é mentira, uma mentira sem tamanho criada por motivos tão mesquinhos e vis que você nem consegue começar a imaginar!>>

Foi a vez de Abeô arregalar os olhos. Não esperava que o outro usasse a expressão no plural: “homens que gostam de homens”. Havia outros? Aidan conhecia outros?

O ruivo ergueu-se e atravessou o portão. Parou poucos metros depois, virando-se de leve para enxergar o africano com o canto do olho.

— <<Você vem ou não?>> – indagou – <<Acho que sei um jeito de matar dois coelhos com uma cajadada só.>>

O africano não fazia ideia do que era uma cajadada, mas seguiu o ruivo. Ainda estava confuso e desorientado, ainda se sentia imundo e amaldiçoado. Contudo, pela primeira vez, alguém sabia de seus segredos. E apesar da indignação e repulsa, não parecia que esse alguém iria tentar matá-lo por causa disso. Não parecia alguém prestes a sumir do mapa, fugindo de Abeô e sua doença como o diabo foge da cruz. Parecia alguém que, de alguma forma, talvez se importasse com ele, alguém disposto a ajudar de verdade. E que, pela primeira vez na vida, apesar de seus defeitos e desvios, Abeô tinha um verdadeiro aliado, alguém que sabia toda a verdade e ainda assim o ajudaria. E isso, por si só, já era muito mais do que ele podia esperar.

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Osiris Reis

zanzou da Medicina e a Mecatrônica antes de assumir que é tarado por Ficção Fantástica. Formado em Cinema, Rádio e TV pela UnB, é autor de Treze Milênios e dos contos Bandeiras, Madalena, Alma, Queda [Fantástica Literatura Queer – Volume Laranja] e Companheiros de Armas [Fantástica Literatura Queer – Volume Verde].

É o baixo vocal do grupo Laugi, gestor de arquivo audiovisual na Comissão Nacional da Verdade, empreendedor, compositor, consultor de assuntos tecnológicos, cupido, ombro amigo e puxador de orelha quando necessário.

  • Vandson Carvalho

    a cada cap um tiro !!! <3

    • Osíris Reis

      Vou tomar como elogio! eheheeheheh Valeuzão, Vandson!