Capítulo 14 – Thermopolis Dance Club

Autor: Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Aidan passou algum tempo num telefone público, falando português em três ou quatro ligações. Abeô não entendeu quase nada do que outro dizia, mas preferiu não fazer perguntas, nem mesmo quando o carro amarelo chegou com seus vidros escurecidos. Espremeu-se no banco de trás, com o ruivo à esquerda, e ficou observando os números crescerem no mostrador luminoso do painel do carro.

Por mais ou menos meia hora, Abeô observou os prédios desfilarem nas janelas do veículo. Nunca tinha visto tantos juntos, nem tão altos ou com tantas janelas. E logo vieram os ônibus. E os carros. Um enxame de pessoas que iam e vinham de tantas direções para tantos lugares que era impossível ao africano não se sentir minúsculo e insignificante. Começava a entender o que Aidan queria dizer com esconder-se numa cidade realmente maior que Manaus.

Por três vezes o carro entrou em longos túneis, lugares onde a luz do dia não chegava. Foi impossível para Abeô não lembrar das minas onde trabalhara, do calor abafado, do cheiro de suor. Mesmo assim, era realmente diferente ver as pessoas pedalarem suas bicicletas por baixo dos morros. O subterrâneo, para elas, obviamente não tinha o mesmo peso que para o povo em sua vila.

Quando o carro parou, Aidan deu uma boa olhada ao redor antes de descerem. Abriu a porta de seu lado mas não desceu de imediato, nem mesmo após passar uma grande quantidade de dinheiro para o motorista. Entretanto, quando um ônibus parou do outro lado da rua, ele puxou Abeô para fora tão rápido que o africano chegou a pensar que estavam fugindo de alguém.

Chegaram a um muro alaranjado com portão preto, onde o ruivo apertou um botão azul num aparelho metálico enterrado no muro. E enquanto uma campainha soava lá dentro, ele instruiu Abeô:

— <<Continue olhando para frente, para o portão, ok? Depois eu explico tudo, mas agora você precisa fazer exatamente o que eu disser.>>

Uma voz, que o africano não soube identificar como masculina ou feminina, soou do aparelho do muro. Era um português mais lento, um pouco irritado até. A voz de Aidan soou ainda mais grave que o de costume, num tom tão aveludado que Abeô quase esqueceu de continuar olhando para frente. Depois de uma pausa, houve um estalo no portão, que abriu facilmente com um empurrão  do ruivo. Ele fez o africano entrar primeiro e os dois subiram escadas até o que parecia o balcão de um hotel. Exceto, é claro, pelas esculturas de torsos masculinos, de musculatura extremamente definida, e paredes repletas de pinturas de homens nus, igualmente musculosos, nas mais variadas posições.

No balcão estava o dono da voz no portão. Era um rapazote loiro de olhos escuros, todo sorridente, usando uma regata laranja que realçava o peitoral e os braços, lisos e definidos. O sorriso, entretanto, não durou muito: minguou ao ver a dupla subir as escadas. Aidan conversou pouco mais de um minuto com ele, em português, ao que o rapaz, numa discreta careta, apontou um conjunto de cadeiras curvilíneas que pareciam esculpidas em marfim. O ruivo sentou-se numa delas e indicou que Abeô sentasse ao lado.

— <<Que lugar é esse?>> – o africano sussurrou assim que sentou.

— <<É um lugar sem câmeras, onde poderemos trabalhar e juntar dinheiro.>> – respondeu Aidan, com um tornozelo sobre o joelho da outra perna, sem olhar para o colega. Aparentemente os detalhes do novo calçado eram bem mais interessantes.

— <<Câmeras?>> – Abeô insistiu.

— <<Sim, máquinas de vigilância que podem mandar nossas imagens para os militares.>>

— <<Foi por isso que você me mandou olhar só para frente lá fora?>>

O ruivo meneou um breve sim com a cabeça, olhos fixos no próprio sapato. Não esboçou qualquer outra reação quando o africano perguntou:

— <<E todo aquele dinheiro? E essas roupas? Como…?>>

— <<Fiz o que tinha que fazer para chegarmos aqui sem alertar o inimigo.>> – interrompeu Aidan, olhos perdidos no vazio – <<Mas não é algo que eu possa repetir vezes o suficiente para salvar sua irmã.>>

Abeô ruminou a resposta do outro por alguns instantes. Não gostava da culpa que os possíveis significados daquela resposta lhe trazia, mas aquele era, naquele momento, o menor pecado que se sentia cometer. Analisou novamente as obras de arte do lugar e tentou imaginar que tipo de hotel era aquele. Não havia janelas, nem hóspedes entrando ou saindo. Não havia TV nem sofá, mal havia espaço para as pernas.

A grande incógnita, na verdade, era o porquê do tema da decoração. Abeô sentia um certo êxtase em tudo aquilo, embora sempre se pegasse imaginando mais cheinhos aqueles homens musculosos. Talvez, na verdade, aquele fosse algum centro recreativo para mulheres, embora tivesse dificuldade de imaginar africanas, principalmente, as muçulmanas, frequentando um lugar como aquele. Contudo, pelo pouco tempo que vivera em Manaus, já conseguia imaginar o quanto as brasileiras eram diferentes.

Se isso fosse verdade, o gosto das brasileiras era um bocado diferente do seu. Além da musculatura extremamente definida, os homens retratados eram completamente lisos: sem barba, sem pelos no tronco, e até sem pelos pubianos. Quando outro rapaz, branco com cabelos pretos, passou carregando caixas de coca-cola, Abeô teve quase certeza sobre o que as brasileiras apreciavam. Como o moço da recepção, aquele vestia uma regata laranja, que deixava bem à mostra o peito e os braços torneados. Na verdade, a bermuda vermelha, curta, e o chinelos da mesma cor mostravam que não era só tronco e braços que o segundo rapaz tinha lisos e com músculos ressaltados. Isso deixou o africano preocupado. Se  houvesse um padrão físico para trabalhar naquele lugar, ambos estariam com problemas. Talvez, no fim, tivessem que sair e procurar emprego em outro lugar, o que seria bem complicado com as tais câmeras na rua.

— <<Acho que não vão gostar de nós.>> – murmurou para o ruivo – <<Talvez a gente devesse…>>

— <<Fique calmo.>> – o outro respondeu – <<Eu tenho uma carta na manga.>>

De alguma forma, aquilo não tranquilizou Abeô. Não parecia que pudessem oferecer qualquer vantagem para quem quer que chefiasse aqueles garotos. E mesmo que conseguissem emprego, qual seria exatamente o trabalho? Abeô sentia um certo desespero ao imaginar o que os funcionários faziam para entreter as mulheres brasileiras. Algo dizia que, se tentasse, as clientes não só ficariam insatisfeitas como descobririam a verdadeira natureza de seus desejos doentios.

Aidan, surpreendentemente, parecia dormir sentado, cabeça inclinada para trás, olhos fechados e respiração lenta, rosto relaxado e impassível. Quase uma hora depois, ainda não tinha se movido, exceto pelos olhos sob as pálpebras e pelas respirações profundas, compassadas. Apesar de se sentir um bocado culpado, o africano observou-o todo esse tempo. Era incrível como o outro lhe parecia perfeito. Cada fio de barba, de cabelo, o formato do nariz, o queixo, cada pequena sarda e cicatriz, os braços robustos, os dedos da mão, o peito e a barriga redondos, volumosos: tudo nele parecia belo demais, perfeito demais. Abeô tinha certeza que nunca tinha imaginado, em momento algum, alguém como ele, mas era como se, mesmo sem saber, tivesse sonhado a vida inteira com exatamente aquele rosto.

As coisas naquele lugar, entretanto, começaram a ficar mais agitadas. Meia dúzia de rapazes brancos com a mesma compleição física dos anteriores começaram a zanzar pelo corredor, indo e vindo com toda sorte de coisas, refrigerante, cerveja, sandálias, lençóis e até toalhas. Todos observavam os dois estrangeiros sentados, mas não se detinham. Até que um deles chegou com um pacote de revistas e colocou-as dentro de um cesto, ao lado de Abeô. Havia várias outras revistas antes, mas de alguma maneira o africano não as tinha percebido até então. A capa da revista que o rapaz deixara, no entanto, chamou muita atenção. Era um rapaz ruivo, liso, tão musculoso quanto as estátuas do lugar, num ringue de boxe, mãos enroladas em faixas sujas. Ao contrário do que se esperava de um atleta, entretanto, ele estava nu, exceto pela toalha de rosto dobrada sobre a corda à frente da sua virilha.

Por mais ou menos dez minutos, Abeô debateu-se. Além da culpa de alimentar a própria doença, sentia medo e vergonha. Aquelas revistas eram certamente para as clientes, e se o pegassem folheando poria tudo a perder. Os olhos, entretanto, mal conseguiam ficar longe da linha entre a toalha e a virilha do modelo. Era como se, no fundo, o africano torcesse para que aquela toalha caísse o cérebro a mil por hora tentando adivinhar o que havia atrás do tecido. Mesmo sem retirar a revista do cesto, ele a abriu parcialmente, espiando, na medida do possível, seu conteúdo. Ele teve tempo de ver apenas uma imagem. O que viu, contudo, deixou-o absolutamente desnorteado.

No canto inferior da página, havia dois homens brancos, também musculosos e lisos, se abraçando com uma certa violência, como se tentassem imobilizar um ao outro. O que realmente chamava atenção, no entanto, era o beijo que trocavam, bocas abertas ao máximo, lábios entrelaçados em fúria, como se ambos estivessem famintos e loucos para engolirem um ao outro.

Quase imediatamente, a campainha do lugar tocou e o estalo do portão foi ouvido. Mais que depressa, Abeô fechou a revista, o coração disparado. Nunca tinha visto dois homens se beijarem nem no rosto, quanto mais daquele jeito. E de repente se via com os lábios colados assim nos de outro homem. Alguém mais cheio, é claro, com mais barriga, mais barba, mais pelos. Alguém de pêlos alaranjados. Alguém como… Aidan.

Foi com um susto que o africano percebeu o homem com músculos super torneados à sua frente. Ao contrário dos funcionários do lugar, ele usava tênis coloridos, bermuda preta com listras azuis, uma regata vinho e uma faixa também vinho prendendo os cabelos loiros quase pelos ombros. Ele estudou Abeô e o ruivo por alguns instantes. Então, finalmente, disparou, em português:

— Mas afinal – perguntou, franzindo os lábios levemente, como se sentisse nojo de alguma coisa – o que é dois gordos como vocês vieram fazer aqui?!

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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