Golem – Cap 15 – O bar

Capítulo 15 – O bar

Autor: Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Abeô mal percebeu quando Aidan se levantou e anunciou, em português:

— Viemos conferir se você quer mesmo ganhar mais dinheiro.

O loiro revirou os olhos, resmungando:

— Eu já disse a milhares de caras iguais a vocês que nem dez milhões de dólares pagam a entrada do seu tipo aqui.

O africano entendia muito pouco da conversa, mas captou muito bem o faiscar nos olhos do ruivo quando respirou fundo e retrucou:

— E quem disse que estamos falando dessa ninharia?

Ninharia era uma palavra que Abeô não fazia a menor ideia do significava. Mas devia ser algo engraçado, a julgar pela gargalhada do loiro. A expressão de Aidan continuou inalterada.

— Vocês… vocês estão falando sério? – o estranho disparou, ainda risonho.

— Podemos conversar sobre isso no bar? – Aidan indagou.

— Dinheiro nenhum paga a reputação da Thermopolis!

— Eu estou falando em quintuplicar o faturamento dessa pocilga. E não, nós não somos clientes. Agora, se pedir profissionalismo não for demais… podemos continuar essa conversa no bar?

O loiro de cabelos compridos ergueu as sobrancelhas bem desenhadas, realmente surpreso. Estudou o ruivo e o negro por alguns instantes, analisando cada detalhe. Aquelas roupas não eram de magazine. Os sapatos deviam custar pelo menos dois mil dólares cada par. Embora seu estabelecimento fosse destinado à nata da sociedade carioca, só clientes vestidos daquela maneira umas duas vezes por ano. O negro, definitivamente, não ligava muito para postura, sempre encolhido, se bem que talvez fosse pelo enorme cabelo roçando o teto. Já o ruivo, apesar do visível excesso de peso, tinha uma postura tão absurdamente correta e equilibrada que certamente despertaria inveja em qualquer aristocrata.

Por fim, o dono do lugar fez um gesto em direção ao bar. O ruivo praticamente marchou para lá, seguido pelo surpreso negro e por ele próprio. O ruivo não precisou de maiores indicações sobre descer a escada para a pista de dança e o bar. O negro, por sua vez, desceu cada degrau lentamente, o olhar perplexo voando entre as estações dos gogoboys, o balcão de granito no bar, os painéis de nus masculinos e toda opulência do local. Era óbvio que não estava acostumado a nada daquilo. Foi necessário que o loiro pigarreasse para que o outro finalmente descesse.

Surpreso com a reclamação do loiro de cabelos compridos, Abeô continuou a descer as escadas. Entretanto, antes mesmo que terminasse de fazê-lo, ele e o dono do local pararam novamente. De alguma forma, Aidan cruzou o balcão num pulo, retirando uns vinte cilindros metálicos debaixo do móvel. Quando o loiro terminou de dizer “Que”, todos os cilindros metálicos giravam como peões sobre o granito. Enquanto ele pronunciava “merda”, o ruivo agarrou duas garrafas de diferentes bebidas e atirou-as no ar. Mal o “é” foi ouvido, Aidan sacou duas facas de sabe-se onde atrás do balcão e empunhou-as contra as garrafas, som de vidro cantando contra o metal. As garrafas giraram uma vez no ar, e a próxima coisa que Abeô e o loiro se lembraram foi que, por um breve instante, elas estavam apoiadas sobre o lado mais largo das lâminas e, logo em seguida, o metal as empurrou novamente para cima, com mais daquele ruído de vidro contra aço. O processo se repetiu mais duas vezes e, quando terminou, Aidan rapidamente pousou as garrafas sobre o balcão, puxou pedaços de plástico das bocas e atirou-os ao lixo. Em seguida, enquanto as lâminas giravam sobre a pia, o ruivo deslizou paralelamente à mesa de granito, girando as garrafas no ar como malabares. A cada giro, diferentes quantidades de líquido voavam em arcos no ar e, certamente, teriam se espalhado no balcão. No entanto, em frente a cada cilindro metálico em que deslizava, Aidan usava uma das mãos para conduzir o mesmo para coletar todo o líquido que saía das garrafas, devolvendo-o ao balcão em tempo de, novamente, atirar uma das garrafas ao ar.

Mal chegou ao final do balcão, o ruivo deslizou para o freezer e sacou uma incrível variedade de frutas e pequenas caixas de derivados de leite. Nada, entretanto, passava mais do que milésimos de segundo em suas mãos. Elas moviam-se loucamente, empurrando as frutas e caixinhas numa complexa e vertiginosa coreografia aérea. Logo, as facas da pia juntaram-se à dança, enquanto diferentes lascas de frutas e doses de leite condensado e creme de leite mergulhavam nos cilindros metálicos.

Abeô estava perplexo por vários motivos. Primeiro, porque nunca tinha sentido o aroma de tantas frutas ao mesmo tempo. Era algo absolutamente inebriante, e apesar de não ter durado nem meio minuto, foi mais que suficiente para fazer a saliva brotar abundante na boca. Segundo, porque aquilo que assistia, sob todos os pontos de vista, parecia impossível. A cada momento, surgia a certeza que algo de líquido ou fruta ou faca iria cair de forma errada e acabar com todo o espetáculo. Por outro lado, o africano sabia que para a maioria das pessoas era impossível acender chamas curativas, respirar dentro de piche ou enxergar através do mesmo. Talvez, no fim das contas, aquela fosse uma das outras “diferenças” de Aidan. Algo que, definitivamente, estava longe de poder ser classificado de maldição.

Nos segundos seguintes, o ruivo pousou as facas e as caixinhas na pia. Logo em seguida,  tirou debaixo do balcão outro conjunto de cilindros metálicos. Atirou-os para uma elevada altura, mas cada um deles caiu perfeitamente encaixado sobre um dos cilindros do balcão. Antes que o loiro conseguisse soltar um sonoro “puta que pariu”, Aidan já tinha lançado todos os vinte cilindros para o alto. A frenética dança deles durou uns dois minutos, ao final dos quais os vinte estavam perfeitamente alinhados no granito.

O loiro praticamente desabou, sentando-se na escada. Não tinham se passado nem quatro minutos desde que tinham chegado ao bar, o que era quase nada para tudo que tinha acontecido. Com a respiração incrivelmente calma, Aidan perguntou, em português:

— Onde estão as taças?

Ainda boquiaberto, o loiro apontou para uma das pequenas portas do recinto. Enquanto o ruivo caminhou para ela, o dono do lugar aproximou-se devagar, analisando o balcão. Surpreendentemente, não havia mais do que algumas gotas de frutas aqui e ali. Isso sem falar que o granito estava absolutamente intacto: em momento algum, nenhum objeto tinha acertado o mesmo com força suficiente para danificá-lo.

Abeô permaneceu na escada parado, observando o loiro de longe. O brasileiro parecia assombrado demais, de forma que o africano preferiu deixá-lo sozinho até que Aidan voltasse.

Logo em seguida, o ruivo voltou com uma bandeja e vinte longas taças com gelo. Colocou-as displicentemente ao lado dos cilindros.

— Isso é uma pequena amostra do meu repertório de drinks. – anunciou Aidan em português – Para algumas dessas bebidas, o ideal seria que o gelo já estivesse nas coqueteleiras durante o malabarismo, mas isso pode ser providenciado depois. Qual é mesmo o nome do senhor?

O homem loiro demorou a processar a pergunta, mas respondeu:

— Guilherme! Guilherme Albuquerque.

— Muito bem, senhor Albuquerque. – emendou o ruivo enquanto entregava a primeira coqueteleira, ainda fechada, ao brasileiro – Apresento-lhe o “Veludo Crepúsculo”.

O tal Guilherme abriu o cilindro meio desconfiado e despejou seu conteúdo na taça com gelo. Um mix leitoso do roxo ao laranja ajeitou-se entre o gelo, ao que Aidan mergulhou um pequeno tubo plástico na taça. O loiro deu uma última olhada no ruivo, abocanhou o canudo e sorveu um breve gole da mistura. Soltou um longo gemido, espremendo os olhos para arregalá-los logo depois. Ia sorver mais um bocado, mas parou, boquiaberto, quando Aidan murmurou:

— Tem certeza? Você ainda tem outros dezenove para experimentar.

Nos minutos seguintes, o brasileiro experimentou o “Orgasmo Mediterrâneo”, o “Beijo da Sereia”, a “Valsa Verde” e várias outras bebidas cujo nome Abeô também não conseguia entender. Quando provou o vigésimo drink, Guilherme tinha um enorme sorriso no rosto e disparou a falar rápido demais para o africano pescar qualquer palavra. Aidan observava silencioso o brasileiro gesticular ao redor do balcão, apontando para várias partes do salão enquanto, aparentemente, explicava um monte de novas ideias. Em determinado momento, pareceu a Abeô que os outros dois homens falavam em números, mas foi rápido demais para que entendesse. Pareceu também que o ruivo negociava estadia, alimentação e roupas, mas não tinha como ter certeza. Todavia, compreendeu bem quando o empresário virou-se para ele perguntou:

— E você, negão? O que você faz?

— Ele não fala português. – Aidan interviu, irritado – Mas é o homem mais forte que você vai conhecer na vida.

— Já contratei toda força que preciso. Então é melhor o balofo caçar emprego noutro lugar.

— O pacote é fechado, Albuquerque. Ou ficamos os dois ou nenhum. – retrucou o ruivo.

— Então vou descontar do teu salário o que o gordão aí gastar! Ele deve comer por uns cinco e não vou ficar no prejuízo nem a pau!

Aidan revirou os olhos e respondeu:

— Que seja.

— E ele também vai ter que trabalhar. Longe da vista dos clientes! E vai ter que tirar esse cabelo hor-ro-roso!

Cerca de uma hora depois, Abeô estava sentado no chão de um cômodo nos fundos do lugar. O ruivo estava em pé atrás dele, raspando-lhe o cabelo crespo com uma máquina. Enquanto sentia a vibração do aparelho, e o formigamento causado pelos dedos quentes de Aidan em sua cabeça e pescoço, o africano vivia um misto de medo, empolgação e culpa. Não sabia ainda o que esperar das semanas seguintes. Porém, sentia que, de alguma forma, aquele lugar mudaria muito mais do que apenas seu corte de cabelo.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Luiz Fernando Paganini

    Libera logo o capítulo 16! 🙏🏻😬😃

  • Vandson Carvalho

    *-* <3 <3