Capítulo 16 – O novo emprego

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Embora as trevas dominassem, faíscas dançavam por todo lugar. Abeô observou a multidão do mezanino por mais algum tempo. Havia uma mulher aqui e outra ali, a grande maioria dos convidados era de homens, quase todos sem camisa, pelos evidenciados quando as luzes passavam por eles. E havia os peitorais e as barrigas, grandes, redondos, fartos. Moviam-se num ritmo claramente eletrônico, mas que ainda assim lembrava muito sua terra natal. Talvez fosse por isso que o africano, de alguma forma, sentia uma tranquilidade que nunca experimentara antes.

Todos estavam cobertos de suor. Ainda assim, os homens se agarravam com diferentes graus de força e delicadeza. E se beijavam. Se beijavam como nos filmes, exceto que barbas roçavam barbas, pelos roçavam pelos, barrigas macias apertadas entre eles. Abeô, de alguma forma, começava a se acostumar àquela visão. Seu coração se aquecia e gelava a cada vez que presenciava um beijo daqueles. Não sabia se era certo ou errado, mas se fosse errado, pelo menos tinha esperança de não errar sozinho no futuro. Por outro lado, continuava sozinho. Era uma solidão dolorida, amarga. Era o sinal de que ninguém o olhava com aquele desejo, e que talvez ninguém nunca o fizesse. No fim, provavelmente era assim mesmo que as coisas funcionavam. Provavelmente seria sempre daquele jeito.

Foi quando o africano sentiu, na coluna lombar, o calor gostoso daquela barriga coberta de pelos macios. Quase ao mesmo tempo, sentiu os peitorais nos omoplatas e os braços fortes lhe envolverem o peito e a barriga. E enquanto a barba macia lhe roçava a nuca, a voz gravíssima murmurou-lhe perto do ouvido, em inglês:

— <<E aí, gostosão? Se divertindo?>>

Surpreso e com o coração disparado, Abeô virou-se. Mesmo nas trevas, reconheceu os cabelos e a barba ruiva, braços e tronco completamente tatuados. Contudo, antes que pudesse pensar, Aidan colou os lábios nos seus, sugando-lhe a língua com uma voracidade que deixou o africano meio perdido. O som da música pareceu desaparecer, foi como se o chão, as paredes e os convidados derretessem. Só aqueles lábios, língua, barba, pelos, barriga, braços tinham importância, e eram mais que suficientes para receber toda atenção de todos os sentidos de Abeô. Eram mais que suficientes para inundar o africano com aquela sensação cálida de que tudo era perfeito, de estar completo e realizado. Entretanto, havia também aquela fome gostosa, o calor e a pressão, inebriantes, crescendo entre as pernas dos dois como se, além do prolongado contato nos lábios, as virilhas também se beijassem.

Abeô não soube exatamente como teve a ideia, mas agora beijava o pescoço de Aidan, dali passando passando para o peitoral e a barriga. Os lábios retribuíam as carícias que recebiam dos pelos macios, a língua dançava sobre a pele alva, sugando sal e aquele outro cheiro, aquele outro tempero que só o ruivo tinha. Com o peitoral, o africano sentia a pulsação entre as pernas do outro, ao que ele soube, imediatamente, que precisava daquela pressão e calor nos lábios e na língua. Aidan não ofereceu qualquer resistência quando Abeô lhe abriu o zíper, baixou-lhe a cueca, enfiou-lhe o nariz na virilha e inspirou profundamente. A única reação foi o gemido abafado quando o negro lambeu os veios daquele vulcão vermelho, e outro não tão abafado quando os beijos e lambidas tornaram-se uma longa e faminta sucção.

O que o africano vivenciava era êxtase puro. Sentir entre a língua e o céu da boca aquele pedaço de Aidan, tão vivo, tão quente, fazia, de alguma forma, a pressão crescer entre as próprias pernas. Era como se o corpo inteiro acompanhasse a tensão e os gemidos crescentes do ruivo. Tanto que, quando o outro contraiu todos os músculos do corpo, estremecendo enquanto o membro crescia ainda mais rijo nos lábios de Abeô, ele sentiu aquela nova e intensa vibração, aquela contração poderosa na própria genitália.

Então veio o grito. E o negro sentiu o sangue de Aidan no rosto enquanto o arpão lhe brotava do ventre.

Abeô acordou num salto, arfando, o coração pequeno e dolorido. Deu-se alguns minutos para separar mentalmente sonho e realidade. Pela janela, percebeu que acabava de anoitecer, e que portanto precisava começar os trabalhos. Olhou para o colchão do outro lado do depósito, onde o ruivo respirava pausada e profundamente, adormecido. O ruivo sempre dormia de barriga para cima, sem travesseiro, com as pernas encolhidas. Nunca se movia, nem um milímetro, naquelas horas. E quando se levantava, fazia-o sem aviso e em tamanho silêncio que, frequentemente surpreendia o colega. Como naquele momento.

— <<Tudo bem, Abeô?>>

O negro passou os dedos na cabeça raspada, sentado no colchão, enquanto respondia:

— <<Estou sim. Foi só um sonho estranho.>>

O ruivo pareceu analisá-lo antes de pegar uma toalha no varal e caminhar para um pequeno banheiro no final do corredor.  Quando a luz do corredor foi acesa, Abeô levou um susto. Raramente dormia, mas já tinha se acostumado a acordar quase sempre com o pênis ereto e desconfortável dentro da cueca. Já tinha se acostumado a ajeitar o membro numa posição que deixasse tudo mais discreto quando acordava, mas não tinha dado certo daquela vez. E o pior: no topo da pirâmide que era a bermuda que vestia, havia uma grande mancha de algo molhado. Muito molhado.

Imediatamente, verificou os lençóis e o colchão que, felizmente, estavam secos. Se a mancha era urina, era em quantidade realmente pequena. Reacomodar a genitália, entretanto, trouxe outra surpresa. O líquido dentro da cueca era viscoso, talvez como aquele que os clientes deixavam nos pequenos sacos de látex no chão da sala escura. Abeô não sabia o que faziam naquele lugar, nem porque chamavam o cômodo daquela forma. Provavelmente porque o lugar era todo pintado de preto, o que sempre deixava tudo muito quente e abafado lá dentro, mas isso não tinha importância agora. Mais que depressa, ele encostou a porta do depósito e tirou a bermuda e a cueca. Colocou-as numa pequena sacola plástica, vestiu peças limpas e pegou a toalha. Minutos depois, quando Aidan saiu do banho, ele trancou-se no cubículo, e ligou o chuveiro. Encheu o balde de água e fechou o registro. Jogou um pouco de água sobre a roupa suja e esfregou com sabão, torcendo para que aquilo não manchasse. Enquanto esfregava, analisava as possibilidades de aquele líquido viscoso ser o mesmo que os clientes deixavam na sala escura. Sempre imaginava que era algo que compravam fora, junto com os tais saquinhos de látex, mas nunca tivera coragem de perguntar a ninguém. Também não entendia porque alguns dos saquinhos tinham fezes, mas isso também jamais perguntaria a ninguém.

Depois de tirar o sabão das roupas e pendurá-las, Abeô ligou o chuveiro novamente, encheu o balde e despejou três canecas de água no corpo. Esfregou-se com o sabonete e aquela minúscula esponja que os brasileiros usavam. Aidan lhe dissera que não havia necessidade de usar o balde, mas ainda achava que os ocidentais gastavam água demais. Verteu mais algumas canecas para tirar o principal da espuma antes de despejar o restante da água sobre si. Era um pequeno luxo que se permitia desde que chegara àquele lugar: sentir a água morna escorrer pela cabeça raspada. Era o ponto alto do dia.

O africano secou-se e vestiu a bermuda antes de sair do banheiro, as roupas molhadas na sacola plástica. Cruzou com Aidan no corredor, evitando ao máximo perder-se nos olhos dele. Mesmo assim, nas frações de segundo em que lhe fitava o rosto, sentia que, por trás da raiva afiada tão característica daquele olhar, havia uma tristeza, um nota de dor. Talvez estivesse imaginando coisas. Ou talvez o outro sentisse falta de companhia feminina. Talvez também se sentisse solitário.

Não podia pensar naquilo agora. Vestiu o macacão, calçou as botas, pegou o pano de chão, o rodo, as luvas de borracha e o balde. Colocou sacos plásticos novos nas lixeiras da pista de dança, da entrada, do salão de jogos, das varandas e do banheiro. Abaixado para não bater a testa nas lâmpadas, encheu de gelo os mictórios, checou os estoques de papel toalha e papel higiênico e completou o detergente dos dispensadores. Deu uma última olhada em tudo e, finalmente, encolheu-se no banquinho na parede oposta aos espelhos, esperando.

Minutos após a música começar, ele ouviu as primeiras gargalhadas. Três clientes entraram no banheiro logo em seguida, todos com roupas coladas que realçavam a musculatura bem definida. Dois se dirigiram aos mictórios, o terceiro postou-se diante do espelho, ajeitando meticulosamente os fios de cabelo. Dos clientes regulares, aquele era provavelmente o de gestual mais feminino. Passava a maior parte do tempo com o rosto a centímetros do espelho, o tronco dobrado acima da pia e a bunda projetada para trás. Era um rapaz branco com cabelos escuros, olhos de um cinza estranho e rosto liso. Aparecia todos os dias em que a pista de dança funcionava, no começo de quinta a domingo, e mais recentemente também na terça e quarta. Ia repetidas vezes ao banheiro, sempre retocando o cabelo naquela posição, alternando o equilíbrio entre uma perna e outra. Nunca, entretanto, ele tinha chegado tão cedo.

Abeô encolheu-se um pouco mais para dar livre passagem aos dois outros clientes, que já saíam. Repetiu o gesto quando o outro se aproximou, o que não teria sido muito diferente das outras vezes, exceto que dessa vez os dedos do rapaz passearam do ombro ao punho do africano. Surpreso, ele observou o cliente sair rebolando, queixo quase colado ao ombro enquanto o encarava, até entrar na pista de dança.

E foi assim que, pela primeira vez, Abeô entendeu que outro homem o desejava.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    Como sobreviver essa semana. Abeô <3

    • Vandson Carvalho

      U.u” no começo eu quase enfartei digo logo kkkk

  • Felipe

    e o coração “num guentaaa” ♥

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