Capítulo 17 – Um certo capitão Rodrigo

Autor: Osíris Reis
Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link


Abeô passou o restante da noite sem saber direito o que fazer. Claro, sabia que deveria continuar passando o pano no chão do banheiro de quarenta em quarenta minutos, trocando e esvaziando as lixeiras, higienizando os sanitários, limpando o vômito de algum cliente que passasse mal na pista. O que o deixava completamente perdido era pensar nos dedos do cliente lhe percorrendo o braço. Nem sabia o nome do estranho, mas achava provável que estivesse de volta em instantes. Afinal, ele costumava passar várias vezes no banheiro.

A questão que realmente deixava o africano com um frio na barriga era: como reagir quando ele voltasse? Imaginava que ficaria pra lá de envergonhado. Talvez o estranho repetisse o gesto, puxasse assunto ou o tocasse de forma ainda mais ousada. Talvez tentasse beijá-lo na boca, como alguns casais de homens que via nas poucas vezes que deixava seu posto no banheiro. Na verdade, não sabia se tinha gostado ou não da carícia dele. Não que fosse feio, de maneira alguma, mas… Abeô o achava meio sem graça. Mesmo com os músculos evidentes, faltava-lhe corpo, carnes, barriga. E, a julgar pelos descamisados que via nos banheiros, a moda no Brasil era raspar tudo. Nunca tinha visto aquele cliente específico sem camisa, mas ele provavelmente também seguia essa moda.

Contudo, pelo tipo físico dos frequentadores do lugar, pelas obras de arte, havia duas coisas quase certas. Primeiro que os homens que gostavam de homens certamente preferiam, em sua maioria, homens mais magros, lisos e com músculos bem definidos. E já que estava fora desses padrões, certamente seria considerado um homem bem feio. Quanto aos pelos e à barba, poderia, no dia seguinte, pedir a Aidan que lhe raspasse. A barriga e os músculos bem definidos já eram outra história. Em seu país, sabia que tinham mais corpo e barriga os que se alimentavam melhor, mais especificamente os ricos. Ele, entretanto, desde pequeno, comia pouco. Na infância era comum a mãe brigar que precisava comer mais, e mesmo quando comia com colegas de trabalho, comia muito menos que eles. Diziam que, na verdade, ele engordava por ter acesso à comida dos ricos, e que pelo mesmo motivo não comia a dos pobres. Sabia, entretanto, quão equivocada aquela ideia era. Houve uma época em que jejuara semanas a fio, sem qualquer alteração no peso. Naquela época, a questão era só evitar hostilidades dos colegas. Agora, no entanto, a consequência disso era que, por mais que se esforçasse, teria que reconhecer que seriam raros os homens que gostariam dele. E, provavelmente, aquele cliente específico seria o único homem a gostar dele.

A outra certeza que tinha era que, com todos homens que gostavam de homens preferindo tipos mais magros e musculosos, dificilmente ele encontraria exemplares mais cheinhos. Afinal, aparentemente todos deviam já ter se adaptado àquela moda. Cruzar com alguém que realmente achasse interessante e que também gostasse de homens poderia ser, no fim das contas, como encontrar um diamante numa mina de carvão.

Outra preocupação era como o senhor Albuquerque reagiria se o descobrisse flertando no horário de trabalho. Ok que as habilidades de Aidan com as bebidas dava ao patrão um bom motivo para que permanecessem ali. Agora, o quanto uma relação do africano poderia influenciar na permissão era realmente um mistério. Não tinha nem como saber se seria permitido.

Ao contrário do que Abeô supunha, três horas depois, o cliente de olhos cinzentos não tinha voltado ao banheiro. E, para o bem e para o mal, ninguém vomitou na pista, então ele não teve motivo para sair de seu posto. Continuou ali, vendo os fregueses entrarem e saírem cada vez mais embriagados, notas eletrônicas e tambores cada vez mais poderosos na pista de dança. Aos poucos o movimento diminuiu. Agora, só havia dois homens no banheiro, sinal de que a noite estava quase no fim.

Foi nesse momento que o tal cliente entrou. Entretanto, diferente de tudo que Abeô lembrava das noites anteriores, o rapaz estava bêbado como um gambá. Caminhava com dificuldade, embora ainda tentasse rebolar. Foi até a pia e lavou o rosto, empapando a camiseta colada. Respirou fundo e virou-se para o africano, queixo baixo e lábios encolhidos enquanto o observava. Então, para confusão do negro, caminhou até a frente dele e parou, mãos na cintura, peso sobre apenas uma das pernas enquanto a outra mantinha-se esticada levemente para a direita. E disparou em português:

— E aí, bofe? Tudo bom?

A voz era claramente masculina, já a entonação, mesmo para estrangeiros, era descaradamente feminina. Num primeiro momento, aquilo deixou o Abeô desconcertado, talvez até um pouco desapontado. Nunca tinha formulado dessa forma, mas sempre que pensava em homens de que gostava, os imaginava fortes, viris, másculos, guerreiros.  Não que houvesse alguma relação entre voz e força. Na verdade, o africano nunca tinha parado para pensar em algum motivo para sempre, ao pensar em beleza masculina, imaginar um guerreiro. Talvez porque todo mundo imaginava que o homem perfeito seria um grande guerreiro. No fundo, ninguém imaginava um grande guerreiro sentindo-se atraído por outra pessoa do sexo masculino. No fundo, seus pais o tinham treinado para ser um grande guerreiro, ou pelo menos para parecer ser um, mesmo que nunca houvesse guerra, para conquistar uma boa mulher, para provar que poderia protegê-la. No fundo, Abeô não tinha interesse em conquistar nenhuma mulher, então talvez não precisasse fingir. E talvez, no fundo, aquele rapaz apenas tivesse cansado de fingir ser algo que nunca precisaria de fato ser.

— Eo nã-o falo portoguês. – ele tentou pronunciar o que Aidan lhe ensinara.

— Que voz linda, gatão! Posso te chamar de gatão, né? – o outro respondeu e, quando Abeô se mostrou confuso, ele emendou, num inglês confuso – <<Você falha inglês, docinhu?>>

— <<Falo sim.>>

— <<Você é tããão grandi, docinho!!!>> – o estranho interrompeu-se com um soluço antes dar tapinhas nos braços e pernas de Abeô – <<Braços grandi! Perna grandi! Peito grandi! Posso ti chamar di docinhu? Não vai brigar cumigo?>>

O negro meneou um “não” com a cabeça. O outro abriu um largo sorriso, soluçou e perguntou:

— <<E qual o seu nome, docinho?>>

— <<Abeô. Abeô Bankole.>>

— <<Muitu prazer, Abiô. Meu nomi é Rodrigo.>> – então de repente ele juntou as pernas, ficou perfeitamente reto e fez algum tipo de saudação – <<Capitão Rodrigo!>>

O tal Capitão Rodrigo caiu na gargalhada, voltando à postura de bêbado. Aproximou-se ainda mais do africano e, com os dedos imitando passinhos da perna à virilha dele, perguntou:

— <<Então… você é todu grandi, Abiô.>>

Enquanto o negro tentava, desesperado, decidir o que fazer, os dedos do brasileiro, rapidamente, chegaram ao que seria o zíper do macacão. E sem cerimônia, a mão inteira começou a massageá-lo ali.

Muito rápida também foi a forma como aquele calor gostoso cresceu na região. Antes que o faxineiro se desse conta, aquela pirâmide característica formou-se entre as pernas, sob o tecido.

— <<Oh-meo-Deos!!!> – exclamou o brasileiro, olhos arregalados e fixos entre as pernas do outro, com um enorme sorriso nos lábios. Os outros dois clientes, que ainda lavavam as mãos no banheiro, viraram-se imediatamente, com a mesma expressão de Rodrigo.

O capitão soltou um longo gemido, dentes mordendo o lábio inferior. E perguntou:

— <<Quer dormir na minha casa?>>

Bem ao norte do continente, um menino de oito anos de idade tentava dormir. A posição, entretanto, não era nada boa. Tinha de ficar sempre de joelhos, palma direita virada para baixo, braço colado ao que seria uma mesa metálica do tamanho exato de seu antebraço. O que o obrigava a permanecer naquela posição, entretanto, não eram amarras. Eram fios metálicos espiralados que, após passarem por roldanas na mesa, lhe perfuravam a parte superior do antebraço, percorriam uma polegada por baixo da pele e novamente saíam para as roldanas da mesa. O sangue era abundante, mas já havia coagulado há muito. O que restava era só a mistura de agonia e cansaço no rosto dele.

Entretanto, quando um grupo de homens magros, de túnicas, capuzes e barbas brancos, entrou no recinto, a expressão do garoto mudou para puro desespero. Ele começou a gritar o mais alto que podia, incessantemente, tentando de alguma forma, apesar dos fios de sangue que brotaram, libertar o braço dos fios. Os homens formaram um círculo ao redor do garoto, exceto pelo mais velho, que se colocou diante do mesmo.

Enquanto o grupo entoava uma canção em árabe, o ancião segurou cada um dos dedos do garoto, mergulhando-os em tinta vermelha. Em seguida, começou a girar uma roda dentada a três passos do pequeno. Imediatamente, uma esteira de linho branco começou a se mover sob os dedos do menino. E ao mesmo tempo, os fios metálicos começaram a mover-se entre as roldanas, entrando e saindo da pele do mesmo.

Instantes depois, o mesmo ancião, agora sem a roupa cerimonial, analisava as marcas vermelhas no linho branco. Ergueu os olhos quando uma mulher de longos cabelos loiros adentrou o recinto.

— <<Ele continua no Brasil>> – o ancião murmurou em inglês, voltando a analisar as marcas – <<Houve alguns avistamentos mais ao sul, mas a camuflagem ainda está forte demais para sabermos mais que isso.>>

A mulher sentou-se numa cadeira em frente do outro lado da mesa e indagou:

— <<E quanto tempo ainda temos para capturá-lo?>>

— <<Três meses. Seis no máximo.>>

A mulher sacou o celular, esperou um pouco e disse:

— <<Focalizem as buscas nas capitais litorâneas ao sul de Fernando de Noronha. O tempo dele está acabando, e o nosso também!>>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    u.u” <3 esperava mais pimenta mas ta ótimo kkkkk

    • Osíris Reis

      Eheheeheheheheh cada coisa a seu tempo, pequeno padawan! eheheheehhe

      • Vandson Carvalho

        Huehue :3