Capítulo 18 – Flertes

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Depois de uns bons minutos recusando o convite do capitão Rodrigo, Abeô finalmente o tinha convencido a esperar no sofá perto do caixa. Mesmo que quisesse, mesmo que fosse só um homem normal, não poderia sair antes da pista de dança fechar, e ainda assim teria de informar ao patrão que estava deixando seu posto. Além disso, lá fora havia as tais câmeras que, segundo Aidan, poderiam avisar aos encouraçados sobre o esconderijo. E, pelo bem de Shanumi, tudo que não precisava era de ser obrigado a fugir novamente.

Havia outras questões também. Parte dele estava repleta de desejo, esperança e curiosidade. Pela primeira vez na vida, tinha uma chance real de estar com outro homem. Não conseguia deixar de tentar imaginar como seria abraçar e beijar o corpo do brasileiro, ou ter o sexo dele junto ao seu, ou até fazerem sexo, como quer que isso funcionasse entre homens. Por outro lado, o africano não tinha certeza se queria sair dali com Rodrigo. Tinha medo do quão frustrado poderia ficar com aquele corpo magro e liso, com todos aqueles músculos como pedras poucos milímetros abaixo da pele. Não teria aquele abraço macio com que sempre sonhara, não teria uma barba roçando a sua, nem pelos acariciando os seus. Sentia, de alguma forma, que teria uma experiência incompleta, como quando vira o mar pela primeira vez. Tinha visto e ouvido as ondas, além de sentir a brisa e o cheiro do oceano. No entanto, não pudera se dar ao luxo de mergulhar.

Acabou decidindo, afinal, que preferia uma experiência incompleta a experiência nenhuma. O que precisava, agora, era de uma forma segura de deixar o local. Assim, quando Aidan entrou no banheiro o africano já sabia o que fazer.

O ruivo chegou ao recinto retirando o lenço negro que lhe tapava todo o rosto, menos os olhos. Todas as noites, antes que o primeiro cliente entrasse, ele vestia aquela camisa negra de manga longa, luvas de couro que só deixavam os dedos de fora e aquele lenço. Abeô tinha visto pessoalmente como o colega tinha se tornado a sensação do local. Vários clientes capturavam, em seus celulares, as imagens das peripécias do ruivo e era por isso que ele cobria todas as tatuagens e nunca mostrava o rosto. Assim, logo que o último cliente deixava a pista de dança, Aidan corria para o banheiro, tirava a máscara e lavava o rosto, exatamente como fazia naquele momento.

— <<Preciso que você me ajude a ir dormir na casa de um dos clientes.>> – Abeô comentou.

O ruivo não respondeu nada. Continuou lavando o rosto, raspou o excesso de água e apoiou as mãos numa pia, cabeça baixa, pensativo.

— <<Não consigo pensar num jeito seguro pra isso.>> – respondeu com a voz cansada, ainda sem erguer o rosto – <<Não sem ele saber que você está evitando as câmeras.>>

O africano se sentou no banquinho, calado. Aidan abriu novamente a torneira e colocou a nuca sob a mesma. Lavou novamente o rosto e virou-se.

— <<Você tem direito a flertar e ficar com quem goste, meu amigo, mas precisa manter isso aqui, dentro desses muros.>>

Por um instante, Abeô se perdeu naqueles olhos sérios, quase tristes. Havia tantos detalhes fascinantes naquele verde, um caleidoscópio de formas de diferentes tons de verde. Foi quando, surpreso, ele percebeu o disco negro daqueles olhos crescer até tomar quase todo o verde. Cansaço e tristeza na expressão do ruivo se tornaram bem mais marcantes enquanto ele baixava os olhos e inspirava profundamente para continuar a falar:

— <<Diga para seu amigo alugar o quarto vip da sauna e te esperar lá. Quando o trabalho acabar, você vai ao encontro dele>>.

Aidan saiu logo em seguida, massageando os próprios ombros. O faxineiro permaneceu no banheiro ainda alguns minutos, esperando o encanto do olhar do outro passar. Saiu, então, para a pista de dança, subiu as escadas e foi para o caixa.

O capitão Rodrigo esperava no mesmo local que ele e o ruivo tinham se sentado semanas atrás. Assim que o viu, o brasileiro ergueu-se e abriu um largo sorriso, olhando-o de cima abaixo enquanto exclamava em português:

— Ô, papai! – o sorriso se tornou uma leve gargalhada quando percebeu a dúvida no rosto de Abeô, ao que emendou, em inglês – Oh, daddy! <<É o que dizemos em português quando vemos um cara gostoso e bonito como você.>>

Abeô sentiu o rosto pinicar, quente. Sentia-se feliz e triste ao mesmo tempo, surpreso e desanimado. Tentou não pensar naquilo. Coçou a barba espantando aqueles questionamentos e pediu:

— <<Você pode alugar o quarto vip da sauna e me esperar lá?>>

O sorriso do brasileiro se alargou enquanto ele meneava positivamente com a cabeça e caminhava para o caixa. O negro voltou para o banheiro da pista de dança e lavou as pias, cada um dos sanitários e mictórios e, finalmente, o chão. Pegou um saco de lixo, calçou luvas e foi para a sala escura. Catou todos plásticos, saquinhos de látex e guardanapos que havia, lavou tudo com desinfetante e secou. Voltou para o quarto para pegar roupas limpas e tomar um banho. Aidan já tinha se lavado, vestido uma bermuda folgada e agora estava sentado com as pernas entrelaçadas, olhos fechados e palmas voltadas para cima com leves chamas alaranjadas brotando de cada uma. Abeô não demorou ao pegar um conjunto de roupas limpas, a toalha e os acessórios de banho. Observou o ruivo por alguns instantes, tentando decidir se ele tinha ou não emagrecido um pouco. Tomou o caminho para o banheiro e, enquanto escovava os dentes, pensou em Rodrigo o esperando lá em cima. Revisou mentalmente cada possível resultado daquele encontro, desde o capitão Rodrigo prendê-lo ao descobrir sua conexão com os incidentes em Manaus até casar-se com o mesmo e, finalmente, conseguir trazer a irmã para junto de si.

Assim que voltou ao quarto, guardou suas coisas, vestiu a bermuda e a camiseta menos desgastadas que tinha e aproximou-se de Aidan. Contudo, antes que chamasse por ele, o ruivo abriu os olhos e fechou os punhos, apagando as chamas.

— <<É isso mesmo o que você quer, Abeô?>> – perguntou com aqueles olhos afiados perfurando os seus.

Não, não era bem o que ele queria, mas era o que tinha e provavelmente nunca teria tanto em toda vida.

— <<É o que preciso.>> – respondeu.

Aidan meneou um pequeno “sim” com a cabeça, vestiu uma camiseta e ergueu-se. Abriu a porta e postou-se ao lado dela, abrindo passagem para o negro. Tomou uma escada numa área que o aricano ainda não conhecia. Subiram três lances, passando por duas áreas, uma delas com um bar onde homens vestindo apenas chinelos e toalhas brancas conversavam. O último andar era um longo corredor iluminado em vermelho, com várias portas e pequenas caixas de som no teto, que tocavam uma música lenta e suave, embora ainda bastante percussiva. À medida em que caminhavam entre elas, Abeô reparou que todas davam para pequenas cabines, menores até que o quarto que ele e o ruivo dividiam. Todas tinham pequenas camas com colchonetes de couro, algumas com homens deitados, todos magros e musculosos em maior ou menor grau. Alguns massageavam os próprios membros rijos, outros estavam de bruços, nádegas empinadas para cima, cobrindo ou não a nudez com suas toalhas brancas.

No final do corredor, havia uma pequena escada circular, ao lado da qual o ruivo parou e estendeu um pequeno envelope de plástico para Abeô.

— <<Proteja-se. E divirta-se!>> – murmurou, forçando um sorriso sem graça.

O negro tomou o envelope e o analisou. Havia texto e desenhos de um dos lados, e ao reconhecer neles três representações de pênis Abeô engasgou de surpresa e vergonha. Ia perguntar alguma coisa, mas Aidan já tinha saído. Guardou o pacotinho no bolso da bermuda e subiu a escada em espiral, que terminava numa porta de madeira com vários entalhes.

O africano parou diante dela por alguns instantes, o coração disparado e o estômago gelado como os cubos que depositava nos mictórios. Estendeu a mão em direção à porta, mas recolheu-a. Voltou e começou a descer a escada, mas parou após poucos degraus. Retornou à porta, respirou fundo e deu três leves batidas na madeira.

Agora não tinha mais volta. E a única certeza era que o que quer que acontecesse, a partir daquele ponto, seria totalmente novo e, para o bem ou para o mal, radical e intenso.

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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