Capítulo 19 – Dance!

Autor: Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Rodrigo não demorou a abrir a porta. Como os outros homens do local, também trajava apenas toalha branca e chinelos. Tinha os cabelos molhados, forte hálito de álcool e um sorriso enorme nos lábios.

— Entra aí, negão gostoso do caralho! – exclamou assim que viu Abeô.

O cômodo em que o brasileiro estava era bem mais espaçoso que os anteriores. Pequenas lâmpadas alaranjadas o iluminavam com uma luz tremulante, dando a impressão de que a iluminação era feita por velas. Havia uma grande cama de casal no centro do quarto, armários, um banheiro ao fundo, uma televisão, pequenas caixas de som no teto e uma minúscula geladeira.

Abeô entrou sem saber direito o que fazer com as mãos. Postou-se ao lado da geladeira e esperou Rodrigo trancar a porta e se aproximar. Como sempre, o brasileiro caminhava com um rebolar muito evidente, mas dessa vez era mais lento, mais fluido, ao ritmo da música. Algo que realçava a multidão de músculos grandes e rijos das pernas e barriga. Os movimentos tornaram-se cada vez mais longos e amplos, tornando-se mais obviamente uma dança.  O africano observou, parado, enquanto o outro rodopiava, realçando músculos nas costas que Abeô nem sabia que existiam. Rodrigo agora dançava bem próximo ao negro, as nádegas extremamente empinadas para trás descrevendo círculos que alternavam entre lentos e rápidos, num ciclo que acompanhava a batida nas caixas de som. Puxou o negro pela mão, para a cama, e o fez sentar-se na beirada.

Ainda dançando, o capitão correu as mãos das coxas aos joelhos do outro, empurrando-os em seguida de forma a lhe abrir as pernas. Abeô não ofereceu qualquer resistência. Não tinha a menor ideia de como aquilo funcionava e definitivamente seria mesmo mais fácil deixar que o brasileiro conduzisse tudo. Mesmo quando ele se aproximou de costas e pareceu que ia sentar-se em seu colo, Abeô deixou-se levar. Afinal, não era tão ruim assim sentir as nádegas de Rodrigo massageando-lhe o membro sob a bermuda, mesmo quando sentiu-se inchar entre as pernas. Cada leve pressão tornava a área mais rígida, sensível e quente, com algo entre uma coceira e formigamento crescendo do fundo dos quadris até o final da genitália.

Rodrigo continuou aquele passo da dança por um bom tempo, emitindo pequenos e delicados gemidos, de vez em quando, que ficaram cada vez mais frequentes e altos até, num suspiro profundo, o brasileiro virar-se para o outro e dizer em inglês:

— <<Filho da puta! Quase me fez chegar lá agora!>>

Abeô não fazia a menor ideia de onde o outro quase tinha chegado, nem porque isso era motivo para xingá-lo. Ficou um tanto desconcertado, a ponto de desinchar um pouco dentro da cueca.  Contudo, deixou-o correr os dedos por sua barba e, por cima da camiseta, pelo peito e barriga. Ergueu-se quando o outro o puxou pelas mãos e dançou ao redor dele, mãos percorrendo-o por todos os ângulos. Até que o brasileiro se aproximou do ouvido dele (pelo menos o mais próximo que conseguia chegar, pela enorme diferença de altura) e murmurou:

— <<Dança! Dança comigo!>>

— <<Eu… eu não sei esses passos.>> – respondeu.

— <<Relaxe, homem. Essa dança é para cada um inventar seu jeito de dançar.>>

Abeô achou que aquilo podia ser interessante. Havia uma liberdade gostosa de dançar do jeito que preferisse. A música, calma mas com ritmo bem marcado, de fato dava espaço tanto para movimentos mais rápidos quanto mais lentos. Havia na música pelo menos três ritmos diferentes que poderia acompanhar, todos com aquela calmaria desperta, alerta e otimista que permeava a música inteira.

O africano fechou os olhos e começou por deixar as pernas acompanharem, de leve, um dos ritmos intermediários da música. Aquilo o lembrava de casa, das festas, os momentos da infância em que era só um menino mais cheinho que os outros, quando seus desejos eram bem mais simples, quando não temia ser descoberto. A próxima parte do corpo que acompanhou a música foi o tronco, a coluna serpenteando de alto abaixo, ombros e quadris. Finalmente, cabeça, mãos, braços e pés, agora já descalços, passaram a  mover-se acompanhando o ritmo mais frenético daquela mistura percussiva.

Fazia muito tempo que não dançava. Em verdade, na última vez ainda nem tinha engrossado a voz. Havia algo naquele gesto simples que o fazia sentir-se muito vivo, muito confiante do que conseguiria no futuro. Era como se dançasse para celebrar sua própria existência, sua capacidade de mover-se e sentir novas partes de si mesmo. Surpreso, ouviu o brasileiro soltar um longo “wow”, que o fez reabrir os olhos.

O capitão Rodrigo havia parado de dançar e se sentara na cama, boquiaberto. Surpreso, Abeô parou de dançar e estava pronto para perguntar se estava tudo bem, ao que o outro murmurou:

— <<Não pare, por favor! Continue dançando. Dance pra mim, bonitão!>>

O africano não estava exatamente à vontade no começo. Contudo, era interessante, além de sentir-se dançar, enxergar-se dançando. Abeô definitivamente gostava do que via, dos movimentos das mãos, dos pés, das coxas, da barriga redonda e macia, dos grandes peitorais tão fortes quanto macios. Pela primeira vez, em muito tempo, Abeô se sentia feliz. Era uma felicidade só sua e de mais ninguém. A verdade era que sabia que a irmã ainda corria sérios riscos, que os encouraçados ainda procuravam a Aidan e ele, que eram raros os homens que gostavam de homens redondos como ele, e que provavelmente não encontraria um gordinho para si. Sabia que Aidan continuaria lhe tirando o chão a cada vez que o visse, e que seus sentimentos nunca seriam correspondidos. Mesmo assim, aquele momento era dele. Aquela alegria, aquela satisfação, pelo menos por enquanto, lhe bastavam. E poderia voltar a ela quase sempre. Era só se mover.

Definitivamente, a partir dali, ele dançaria com muito mais frequência.

— <<Olhe pra mim.>> – pediu o brasileiro – <<Dance olhando nos meus olhos.>>

Aquelas palavras despertaram algum tipo de egoísmo em Abeô. Até então, aquele momento era só seu, e sentia como se fosse uma pena dividi-lo com outra pessoa. Encarar Rodrigo, entretanto, trouxe uma nova dimensão para sua dança. Era formidável ver como o outro o devorava com os olhos, como a atenção dele passeava por seu corpo, como conseguia conduzi-la conforme sua vontade. E o principal: mesmo que fosse o único, sabia que o brasileiro, naquele momento, desejava cada pedaço de seu corpo, as mesmas partes que celebrava em sua dança. Sabia exatamente, enquanto tirava a camisa e se aproximava do outro, como poderia provocá-lo naquele jogo de tocar sem tocar. Era uma linguagem toda nova que não invalidava sua alegria particular. Era algo que, definitivamente, o realizava. Era algo que queria fazer para sempre.

O corpo, entretanto, começava a demonstrar sinais de cansaço. O que fez Abeô pensar em como seria dançar coberto pelo piche. A ideia pareceu muito, muito boa, mas tinha por certo que o outro não lidaria muito bem com isso. Dançar com os sentidos e a resistência ampliados pelo piche, infelizmente, teria de ficar para depois. Naquele momento, o cansaço só lhe permitiria ir até certo ponto.

O africano aproveitou o momento em que uma música terminava num acorde dramático, seguido de silêncio. Caiu de joelhos no chão, entreabertos, levemente inclinado para trás, arfando. O brasileiro, ainda boquiaberto, começou com palmas pausadas e fortes, que logo progrediram para outras mais rápidas e afoitas, acompanhadas por pequenos urros e ovações. Devagar, Rodrigo levantou-se e fez a mão passear nos pelos molhados da barriga, peito e rosto do outro. Em seguida, aproximou o rosto da axila dele, inspirando profundamente enquanto lhe massageava o peitoral com uma mão e a barba com a outra. Depois fez a língua passear no mamilo de Abeô, subindo para o pescoço e a barba. Então parou a poucos milímetros do rosto dele, as respirações arfantes misturando-se enquanto se encaravam.

Aquilo fez o africano lembrar-se de outro momento, muito parecido, que vivera noutro contexto, com outra pessoa. Com um certo ruivo com o corpo totalmente tatuado. Aidan. Com o misterioso, calado e sério Aidan.

Então, naqueles segundos, Abeô entendeu parte do que o ruivo vivera. Era bom, muito bom se sentir desejado por Rodrigo, mas a recíproca não era, nem de longe, verdadeira. De qualquer forma, a ideia de beijar o capitão não despertava nojo ou revolta no africano. Apenas não era uma experiência tão animadora quanto seria com Aidan. E foi nesse momento que o africano decidiu colar os lábios aos do brasileiro.

No entanto, antes que o comando chegasse aos músculos de Abeô, uma série de estrondos foi ouvida nos corredores. Estrondos rápidos, amontoados, como os que ouvira em Manaus. Eram estrondos de balas. Centenas delas. Dentro do Thermopolis Dance Club.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    Haaaaaaaaaaaa :u

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