Golem – Cap 20 – Fique aqui

Capítulo 20 – Fique aqui

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco Bym

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Abeô e Rodrigo sussurraram quase ao mesmo tempo, em inglês:

— <<Fique aqui!>>

A surpresa de ambos também foi simultânea. Porém em seguida Abeô falou baixinho:

— <<Não, você espera aqui e eu vou lá fora ver o que está acontecendo!>>

Novos gritos e tiros foram ouvidos lá embaixo. Rodrigo correu para o armário e, ao deixar cair a toalha, revelou sua nudez. Vestiu cueca, tirou os chinelos e puxou uma pistola e uma pochete do armário. E enquanto caminhava decidido para a porta, anunciou com inflexões bem menos delicadas na voz:

— <<Sou treinado para isso, é o meu trabalho. Então, a não ser que você seja policial, você fica aqui.>>

— <<Essa sua arma é muito pouco contra…>>

— <<Em quantos tiroteios você já esteve?>> – o brasileiro o interrompeu.

Abeô gaguejou, tentando decidir. O que aconteceria se dissesse: “Ei, já atiraram contra mim em pelo menos quatro momentos diferentes! E estou aqui, firme, forte, dançante e serelepe porque nenhuma bala ou arpão atravessa minha pele. Então, a não ser que você seja a prova de balas, fique aqui e me deixe ver o que está acontecendo lá embaixo!”?  Seria impossível prever a reação do brasileiro. Poderia dar uma gargalhada e sair pela porta do mesmo jeito, ou mandar prender o africano num hospício. Na remota hipótese de acreditar no africano, poderia ser tomado pelo assombro e descarregar a arma contra ele ou até mandar prendê-lo. Nada disso, entretanto, mudava o fato de que, naquele exato momento, os encouraçados podiam estar invadindo o local à procura dele e Aidan. E se bem os conhecia, não dariam a mínima se matassem dezenas de brasileiros no processo.

Abeô ia argumentar alguma coisa, mas Rodrigo já tinha aberto a porta. Ele ainda pensou correr e fechá-la antes que o outro saísse. Sem dúvida teria força para isso, mas provavelmente faria um grande barulho e atrairia os encouraçados direto para si. Além, é claro, de revelar suas maldições para o brasileiro. Assim, murmurou apenas um “Tome cuidado” e deixou Rodrigo sair.

O negro contou até trinta e abriu a porta, descendo apenas os degraus suficientes para analisar o corredor. O brasileiro já não estava mais visível, o que era uma notícia ao mesmo tempo boa e má, principalmente quando os tiros esporáticos passaram a se alternar com as rajadas de explosões. Ouvindo os disparos mais lentos foi que o africano tomou consciência de que, naquele momento, a única pessoa que se sentia atraída por ele poderia estar morrendo. Por outro lado, o sensato seria não se preocupar com aquilo, pelo menos não de imediato. O correto, pelo bem de Shanumi, seria achar o ruivo tatuado o mais rápido possível. Afinal, se precisasse fugir novamente para o mar, seriam as chamas do outro que fariam toda a diferença.

Havia também, embora tentasse não pensar nisso, um desespero ao imaginar que o ruivo poderia estar sozinho quando os atiradores o encontrassem. Já tinha visto outras vezes o ruivo perfurado por balas e sabia que, caso atingido, ele acenderia suas chamas e se curaria. Sabia também que Aidan não sentia o mesmo que Rodrigo, e que o que recebia do brasileiro jamais receberia do ruivo. Ainda assim, de alguma forma, cada fibra sua gritava que não deixasse o ruivo se ferir novamente. E foi por isso que ele correu para as escadas de serviço.

Mal descera os primeiros degraus, encontrou Aidan no sentido oposto.

— <<São os encouraçados?>> – o africano disparou imediatamente.

— <<Não, acho que não. Depois do nosso último confronto duvido que…>>

O ruivo calou-se ao ouvir uma salva especialmente longa de disparos. Não esperou uma pausa dos tiros para emendar:

— <<Precisamos passar despercebidos!>>

O africano arregalou os olhos, surpreso:

— <<Como assim? Vamos deixar os outros…?>>

Aidan não o deixou terminar a pergunta:

— <<Você não faz ideia do que está em jogo aqui!>>

— <<Vai morrer um monte de gente se não fizermos nada!>>

— <<Garanto que vai ser muito pior se descobrirem sobre nós!>>

— <<O capitão Rodrigo vai morrer!>> – retrucou o africano com a voz embargada.

Aquilo fez Aidan se calar. Por duas vezes, ia argumentar alguma coisa, mas desistiu. Bufou o mais silenciosamente possível e, mesmo a contragosto, anunciou:

— <<Tudo bem, tudo bem! Vamos parar esses tiros. Mas vai ter que ser do meu jeito, entendeu?>>

Abeô assentiu com a cabeça, ao que o ruivo anunciou:

— <<Ok, o primeiro passo é você se cobrir com seu piche.>>

— <<Eu… eu não sei como!>>

Aidan resmungou alguns xingamentos antes de passar por ele e puxá-lo pelo braço. Novamente surgiu o formigamento, aquele tremor, aquele arrepio gostoso, a partir do local que o ruivo tocava. Tentando não pensar na mão grande e quente do colega, o africano seguiu-o até um dos cantos mais reservados do lugar, onde se abaixaram e Aidan indagou:

— <<Muito bem: o que exatamente você sentia e pensava, imediatamente antes do piche te envolver pela primeira vez?>>

— <<Eu… eu estava apanhando. Muito!>>

O tiroteio cessou por alguns segundos, mas recomeçou logo em seguida, agora claramente mais próximo.

— <<Então você sentia dor. E o que mais?>>

— <<Eu… eu estava quase desmaiando.>>

— <<Certo, e o que você pensava, o que você sentia?>>

Abeô calou-se, envergonhado. Uma das coisas que pensara era que morreria naquele momento. Era um medo bem palpável, mas não o que surgira imediatamente antes do piche. O maior medo que o tomara, naqueles segundos em Manaus, era o de nunca mais veria o ruivo e suas tatuagens. Isso, entretanto, era algo que jamais contaria a Aidan.

Quase imediatamente, o africano sentiu as palmas das mãos molhadas. Sentiu algo escorrer-lhe dos olhos e ouvidos, aquele líquido denso que logo lhe brotava de cada poro. Em questão de segundos, estava totalmente coberto pelo líquido negro, enxergando, em todas as direções, cores que normalmente não enxergava.

— <<Seu cabelo cresceu de novo!>> – balbuciou o ruivo, surpreso.

De fato, a quantidade de piche ao redor da cabeça de Abeô era bem maior do que no restante do corpo. Aquilo, no entanto, não tomou mais do que alguns segundos da atenção dos dois.

— <<Você desce e tenta resolver a situação.>> – instruiu o branco – <<Vou estar observando à distância, então caso sejam nossos inimigos, você corre de volta e fugimos para o mar. Caso não sejam, assim que vencê-los você corre para o quarto do Rodrigo e retira o piche. Vou cuidar para que ninguém te siga, ok?>>

Abeô concordou com a cabeça e começou a caminhar para os quartos. Parou e voltou-se para Aidan, quando ele acrescentou:

— <<E aconteça o que acontecer, não deixe que ninguém te aponte o celular, ok?>>

Enquanto caminhava em direção ao tiroteiro, o africano ainda analisou o que o ruivo acabara de dizer. Achava que, no meio das balas, ninguém tentaria capturar sua imagem, mas tinha que admitir que era possível. E, nesse contexto, celulares seriam, de fato, bem mais perigosos do que armas de fogo.

Assim que virou uma esquina do corredor, Abeô viu o capitão Rodrigo com as costas coladas à parede. Sangue lhe escorria do ombro, mas o brasileiro ainda empunhava a pistola com uma mão enquanto, com a outra, puxava um bastão de dentro da pochete e o inseria no cabo da arma. Na beirada da parede contra a qual se apoiava, dezenas de tiros arrancavam lascas de cimento enquanto uma voz lá embaixo gritava ordens em português.

Por um segundo, o africano pensou no que deveria fazer. Se o piche não queimasse, talvez pudesse puxar o capitão para longe das balas, deixá-lo num local seguro. Claro, o brasileiro levaria um baita susto, talvez até atirasse contra ele. Porém, num segundo momento, principalmente quando percebesse que estava sendo ajudado, analisaria as feições de Abeô. E isso não seria nada bom.

Assim, o africano optou por uma abordagem mais rápida. Passou correndo por Rodrigo e pulou para as escadas que davam para a recepção. Felizmente já estava de costas quando o brasileiro notou sua  presença, embora tenha visto, através de seus milhares de olhos, a expressão de espanto do outro. Espantados ficaram também os quatro homens com metralhadoras, na recepção. Por um breve instante, pararam de atirar, mas logo em seguida concentraram os disparos contra o gigante de piche. Não que isso fizesse muita diferença. As balas que usavam eram bem mais leves que as dos encouraçados. Pareciam mais com as que a loira disparara contra ele, pouco maiores que grãos de feijão. Com o piche, nem chegavam a incomodar, de forma que, rapidamente, Abeô pode dirigir-se ao primeiro criminoso, que vestia na cabeça um saco de tecido fino e justo. O africano até pensou em quebrar a metralhadora, mas logo em seguida pensou em que explicações as pessoas dariam para as armas partidas ao meio. Decidiu apenas empurrar o homem com alguma força. O suficiente para desacordá-lo, mas não para quebrar-lhe ossos.

Abeô espalmou a mão contra o peito do estranho, arremessando-o por alguns metros. Através do piche, ouviu os ossos do homem estalarem quando se chocaram contra a parede, o que não era um bom sinal. Pelo menos o homem ficou desacordado, o que era bem seu objetivo.

O africano ainda nocauteou outro dos atiradores, ao que, imediatamente, os outros dois fugiram. Foi nesse ponto que Abeô pôde analisar, com mais calma, a situação ao redor. Havia muito sangue no chão, além de respingos na parede atrás do balcão. Do outro lado do balcão, o piche captava o som de um homem tentando respirar, provavelmente afogando-se no próprio sangue. Do corredor que dava para a pista de dança, chegava o som abafado de dois homens chorando, enquanto um terceiro parecia falar ao telefone, em português.

Foi nesse momento que Abeô ouviu as sirenes, do outro lado do muro, na rua. Imediatamente, correu escada acima, pensando em quão ferrado estaria se a polícia entrasse na recepção enquanto estava ali. Quando passou por Rodrigo, viu Aidan, ao lado dele, tapando-lhe a ferida. O capitão estava desacordado, mas o africano não se deteve, não com o ruivo gesticulando, insistentemente, para que sumisse dali.

Abeô continuou correndo até virar o corredor que dava para o quarto vip. Tentou acalmar-se e, como em sua chegada ao Rio de Janeiro, fazer seu polegar e indicador humanos se tocarem sob o piche. E como da outra vez, o piche desapareceu rapidamente, como que sugado por sua pele.

O africano passou as mãos da cabeça raspada à barba, incrédulo. E enquanto corria para perto de Rodrigo e Aidan, sentia-se, de alguma forma, exultante, tanto quanto quando dançara para o brasileiro. Era a primeira vez que sua diferença salvara tantas vidas. E, pelo menos daquela vez, ninguém tentaria linchá-lo por isso.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Krory Vermillion

    Osiris sinto muito por não comentar antes mas, só gostaria de parabenizar por esse excelente trabalho que a cada novo capitulo prende a atenção e nos faz querer mais e mais. Que não te falte inspiração e criatividade para continuar com não apenas com esse trabalho mas, com todos os outros e lhe desejo sucesso meu querido…Ganhou mais um fã….

    • Osíris Reis

      Valeuzão, moço! Que bom que está gostando… E obrigado pelos votos de inspiração e criatividade. Super bem vindos! ^_^

      Abração e até breve!

  • Vandson Carvalho

    :3 eu nem sei pq comentar, so posso dizer que a cada semana gosto mais e mais dessa obra <3

    • Osíris Reis

      o/ Valeuzão, Vandson! Espero que continue gostando dos próximos capítulos. Abração!