Capítulo 21 – De balas e sangue

Autor: Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Aquela pontada de alegria no coração de Abeô não durou quase nada. Antes mesmo de aproximar-se de Aidan e Rodrigo, notou que o primeiro tinha uma expressão ainda mais séria e raivosa que a de costume. Ele havia despido a camiseta, apertando-a contra a ferida do policial. E assim que o africano se aproximou, disparou palavras quase ininteligíveis de tão rápidas::

— <<Rápido, segure aqui!>> – disse o ruivo, puxando a mão do negro para a camiseta sobre o ferimento – <<Não deixe que durma, ele perdeu sangue demais!>>

Logo em seguida, o tatuado chutou a porta mais próxima à escada. Analisou o quartinho por menos de um segundo, então desceu a escada para a recepção, pulando todos os degraus de uma vez. Assim que ficaram sozinhos, Rodrigo sorriu para Abeô e sussurrou:

— <<Eu tinha dito para você ficar no quarto, moço teimoso!>>

O africano tentou sorrir de volta:

— <<Os tiros pararam. Então vim ajudar.>>

O sorriso do brasileiro desmanchou-se aos poucos, enquanto seus olhos perdiam foco e brilho. Imediatamente, o conselho de Aidan fez sentido. Ainda segurando a camiseta do colega, Abeô aplicou pequenos tapinhas no rosto do capitão:

— <<Ei! Você não pode dormir!>>

Rodrigo apertou os olhos com força e reabriu-os, um pouco mais atento. Repetiu o processo, tentando ganhar mais foco.

— <<Converse comigo. Qualquer coisa.>>

— <<Sobre o que você quer conversar?>> – perguntou o negro, retirando a camisa para apertar uma parte menos empapada contra a ferida. Isso lhe permitiu vislumbrar, por alguns segundos, a ferida de entrada da bala. Uma visão que o deixou transtornado.

Sim, já tinha visto pessoas machucadas antes. De tempos em tempos havia brigas entres os homens do garimpo em sua terra natal, com direito a faca e porretes. Nunca, entretanto, tinha sido ele a socorrer os feridos. Se é que eram socorridos em algum momento.

Enxergar uma ferida tão de perto, contudo, era bem diferente de ver de longe. Também era diferente do que passara vendo os ferimentos de Aidan sob a água. Não parecia certo ver um buraco daqueles no ombro de alguém, a pele aberta revelando um pouco do que parecia gordura e osso entre o sangue. Não parecia natural ver alguém por dentro, daquela forma. E não havia qualquer sinal de chamas curativas para fechar aquele rasgo. Ao que tudo indicava, aquilo continuaria aberto, permitindo que parte do que Rodrigo era escorresse para o chão.

— <<Está tão feio assim?>> – Rodrigo perguntou, avaliando a expressão no rosto de Abeô.

O africano tapou novamente a ferida, agora com uma parte mais seca da camiseta. Tentou sorrir e disse:

— <<É uma ferida pequena. Vai sarar logo.>>

— <<Você fica muito fofo tentando mentir.>>

O portão do muro estalou e o som das sirenes começou a chegar mais forte, junto com vozes de brasileiros. Entre elas, a voz gravíssima de Aidan ecoou por todos os corredores num português rápido demais para Abeô compreender qualquer palavra. Aparentemente ele pedia ajuda enquanto dezenas de passos ecoavam na escada abaixo da recepção.

Rodrigo novamente fechava os olhos quando o africano indagou:

— <<O que você quer fazer quando a ferida sarar?>>

O capitão pareceu um pouco assustado quando reabriu os olhos. Situou-se um pouco antes de responder:

— <<Quero te beijar. E ver você dançar de novo. E chupar seu imenso…>>

Abeô sentiu-se corar, o rosto quente e coberto de pontos latejantes. Felizmente, dois policiais e três outros homens vestindo macacões laranja chegaram e Rodrigo não terminou a frase. Os soldados iniciaram um diálogo rápido com o capitão enquanto os outros homens retiravam a camiseta da ferida, aplicavam unguentos e gazes na ferida e realizavam outros procedimentos da medicina ocidental. Com as vozes, homens de toalhas brancas e sandálias se aproximavam, tentando ver o que acontecia. Discretamente, o negro abriu caminho entre eles caminhando para a escada de serviço, e de lá para o banheiro perto do quartinho dos fundos.

Enquanto lavava o sangue das mãos, tentava entender o que tinha acontecido. Aqueles homens, com suas metralhadoras, obviamente não trabalhavam com os encouraçados. Nem tinham representado qualquer ameaça para ele, o que nem de longe era verdade para os colegas de trabalho e para Rodrigo. Poderiam ser ladrões, mas não imaginava porque atiraram contra os que trabalhavam ali. Não imaginava os rapazes do balcão resistindo a entregar-lhes o dinheiro da bilheteria, então não fazia sentido que os ladrões atirassem.

Pouco depois, Aidan entrou no pequeno banheiro, as mãos bem mais sujas de sangue que as do colega. Mesmo se repreendendo, foi impossível a Abeô não se perder um segundo naquelas tatuagens e pelos, nos braços tão largos, no peitoral robusto e na barriga deliciosamente peluda e volumosa. Até quando baixou os olhos para disfarçar, ainda viu as pernas roliças e fortes, os grandes pés, tatuados dedo a dedo. Ainda assim, afastou-se da pia, abrindo espaço para o ruivo, que começou a lavar as mãos e braços.

— <<Um dos atiradores acordou.>> – ele afirmou sem olhar para o negro, ensaboando as mãos – <<Ele teve três costelas quebradas, o que deixou os paramédicos realmente confusos.>>

Abeô começou a erguer os olhos em direção a Aidan, mas se arrependeu em seguida. Já tinha visto aquelas panturrilhas robustas dezenas de vezes, mas sempre se maravilhava. E as costas… Já fazia um tempo que não via aquelas tatuagens cobertas de pelos. Trazer a imagem delas de volta à mente era um deleite nos instantes antes de dormir. Vê-las se moverem enquanto o ruivo sacudia as mãos sobre a pia, contudo, revelava contornos que ainda durariam muito tempo na memória do negro.

“<Muito bem, Abeô!>”, pensou consigo mesmo em hausa, sua língua materna. “<O único homem que gosta de você está sangrando a caminho do hospital e você aqui, sem conseguir manter pensamentos respeitosos sobre o companheiro de armas que já mostrou o quanto fica enojado com tua doença>”

— <<Você podia ter tomado as metralhadoras e usado como tacapes contra eles. Talvez chamasse menos atenção.>> – resmungou Aidan, virando-se de costas para a pia e cruzando os braços à frente do corpo – <<Além dos atiradores, quem viu você coberto de piche?>>

— <<O capitão Rodrigo…>> – murmurou o negro – <<Mas ele me viu só de costas.>>

— <<Aconteça o que acontecer, não dê qualquer pista de que você esteve na recepção quando os bandidos estavam lá. Entendeu?>>

Abeô assentiu e os dois foram para o quartinho dos fundos. E enquanto Aidan vestia uma camiseta limpa, o africano perguntou:

— <<O que eles queriam? Os atiradores…?>>

O branco deitou-se no colchonete antes de responder:

— <<Oficialmente dinheiro. Na prática, estavam desesperados para manterem a frágil ilusão de suas masculinidades doentias.>>

O africano deitou-se também, pensativo. Em menos de um minuto, a respiração profunda e pausada de Aidan denunciava que já tinha adormecido. Abeô pensou consigo mesmo que o colega estava certo. Talvez tivessem só uns quarenta minutos antes que o senhor Albuquerque voltasse e distribuísse trabalho entre os funcionários. Mesmo assim, ainda passou um bom tempo remoendo aquelas últimas palavras do ruivo. Na prática, continuava não sentindo tanta necessidade de dormir. Com muitos pensamentos na cabeça, então, era quase impossível.

Sempre tinha pensado em sua atração por homens como doença. Mesmo com o próprio Aidan tendo afirmado que nada havia de errado com isso, mesmo com tudo que via no lugar em que trabalhava, ainda achava muito improvável que o ruivo estivesse certo. Contudo, agora as palavras “doença”, “masculinidade”, “frágil” e “ilusão” apareciam de uma forma que jamais esperaria.

Ser homem, parecer homem, era tudo que seu pai tinha lhe ensinado, era tudo o que perseguia desde a infância, principalmente depois que percebera suas estranhas atrações. Mesmo sendo, desde pequeno, um bocado mais forte e resistente do que os outros meninos, ainda morria de medo de parecer frágil. Podia ser um gesto, uma fala errada, ou um abraço mais demorado na mãe, um beijo mais carinhoso na irmã, um passo de dança, o gostar de uma música mais lenta. E mesmo quando achava que conseguia vigiar tudo em suas ações, os meninos da mina encontravam, em grupo, um jeito de fazê-lo se sentir delicado demais para ser macho.

Para Aidan, aparentemente, os sentimentos que reforçara durante a infância eram doença, fragilidade e ilusão, e não seus desejos inatos. Talvez, numa intensidade maior, fosse essa postura tão arduamente cultivada a responsável por levar aqueles homens a um desespero que só à base de balas e sangue poderiam aliviar.

Pouco antes de adormecer, Abeô, por um breve momento, sentiu como se um enorme peso lhe caísse dos ombros. Pela primeira vez na vida estava disposto a considerar, seriamente, a possibilidade de não ser um homem doente ou amaldiçoado. Talvez, no fim das contas, tivesse alguma chance de viver sem culpa.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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