Golem – Cap 22 – Beijo

Capítulo 22 – Beijo

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Já havia quatro dias que o Thermopolis Dance Club tinha sido atacado. Nesse período, vários policiais haviam zanzado pelas instalações, coletando e fotografando toda a sorte de miudezas. Ao contrário do que Abeô supunha, o senhor Albuquerque não mandou que limpassem a recepção no mesmo dia. No fim das contas, as instruções que receberam foi para evitar, ao máximo, passar onde o tiroteio tinha acontecido. Segundo Aidan, era algo sobre não “contaminarem a cena do crime”.

Naqueles dias, o dono do lugar estava absolutamente irritado. Frequentemente discutia, primeiro com os funcionários. Depois, quando foi obrigado a dar folga a eles,  passou a se desentender com os policiais. O africano até tinha aprendido uma nova frase em português, repetida constantemente pelo brasileiro:

— Eu tô perdendo dinheiro, porra! – resmungava Guilherme Albuquerque, de meia em meia hora, às vezes para algum dos policiais, às vezes sozinho.

Houve também o momento em que Guilherme passou no quartinho e mandou que fossem, um de cada vez, ao bar da pista de dança para responder perguntas dos policiais. Aidan se ofereceu para ir primeiro, o que foi um alívio temporário para Abeô. Sabia muito bem o quanto era desajeitado para mentir. Se perguntassem, por exemplo, se tinha visto o tiroteio pessoalmente, estaria em maus lençóis.

Nem cinco minutos depois, Aidan já tinha voltado. O africano ainda tinha tentado perguntar o que deveria dizer, mas o ruivo apenas insistira que tudo ficaria bem. E, para surpresa do negro, realmente ficou. Os policiais mal olharam para ele. Apenas perguntaram, num inglês dificílimo de entender, se tinha reparado em clientes ou outros funcionários com algum comportamento suspeito dias antes do incidente. Depois, um deles lhe pediu o passaporte, ao que foi puxado pelo outro e, após ouvir algumas palavras em português e olhar uma anotação que o colega lhe apontou, arregalou os olhos, pediu desculpas pelo incômodo e dispensou o africano.

Abeô voltou para o quartinho confuso, mas absolutamente tranquilo. Provavelmente, o capitão Rodrigo tinha intervindo em seu favor e até de Aidan, o que merecia um efusivo obrigado assim que o reencontrasse.

Ao anoitecer do quarto dia, Albuquerque reapareceu no quartinho e disparou:

— Os tiras foram embora, então podem começar a limpar tudo lá em cima.

O brasileiro já tinha dado as costas quando o ruivo retrucou:

— Não vou nem falar sobre o meu acordo contigo dizer respeito ao bar. Vou só perguntar porque o Abeô precisa começar a trabalhar, ainda hoje à noite, quando os outros ainda estão de folga.

— Porque eu tô perdendo dinheiro, porra! – devolveu o brasileiro.

— Correção: você está com o risco de ganhar dinheiro menos rápido do que ganharia antes dos atiradores. – respondeu Aidan, já de pé com os braços cruzados – Isso não é a mesma coisa que perder dinheiro.

Abeô tentava ao máximo entender o que conversavam em português, mas parecia que falavam cada vez mais rápido.

— E desde quando são vocês que definem o que é perder dinheiro pra mim? – ironizou o brasileiro.

— Não somos nós, mas também não é você. É lógica e bom senso.

— Vocês são empregados! Fazem o que mando e ponto final!

— Ok, vamos fazer de conta que somos empregados. – foi a vez de Aidan ironizar – Mas não somos escravos. Temos um acordo amigável, que vai ser mantido enquanto for vantajoso para ambas as partes.

— Vocês não têm pra onde ir! – rosnou o brasileiro.

— Pode até ser, mas quer apostar seus preciosos lucros nisso? Quer se arriscar a me ver trabalhando para a concorrência?

Albuquerque primeiro arregalou os olhos, depois cerrou os dentes e saiu pisando duro do quarto. Logo em seguida, voltou e indagou, quase sussurrando:

— Tá bom, o que vocês querem?

— Nada injusto. – respondeu o ruivo – Ou esperamos os outros funcionários amanhã, ou você paga horas extras por trabalharmos hoje à noite.

— Ok. Vocês folgam depois o que trabalharem agora.

— Você sabe que não teremos como folgar depois, sr. Albuquerque. – retrucou Aidan – Não é algo que esteja em seus planos. Então, ou dinheiro ou uma boa noite de sono agora. Você decide.

O brasileiro coçou a cabeça antes de falar em números. O ruivo contra-argumentou ainda algumas vezes, mas no final das contas ficou acertado uma metade de uma noite de trabalho para ambos e mais alguma coisa que Abeô não entendeu imediatamente.

Minutos depois, os dois estrangeiros levavam vassouras e pás para a área onde Abeô tinha visto Rodrigo por último, perto das cabines. Varreram os cacos de parede e madeira, recolheram o lixo das cabines (que tinha quase tantos saquinhos de látex quanto a sala escura da pista de dança), lavaram e secaram o chão, inclusive a mancha de sangue perto da escada. No andar de baixo, na recepção, havia bem mais sangue. Havia também riscos de giz com a forma de dois homens, atrás do balcão. Os quadros e esculturas, que tanto tinham chamado atenção de Abeô no primeiro dia, agora estavam imprestáveis. Parecia, na verdade, que os invasores tinham dedicado um bom tempo para atirar especificamente contra elas. Se estivessem preocupados apenas com dinheiro, não perderiam tempo em atirar contra quadros e estátuas. Eles queriam destruir, e não só os objetos ou as pessoas. Queriam destruir ideias. Queriam exorcizar alguma coisa.

Foi nesse ponto que Abeô se lembrou das palavras de Aidan alguns dias atrás. Os atiradores estavam desesperados, percebia isso claramente agora. No que, entretanto, aquele ato ajudava a manter, como dissera o ruivo, a “frágil ilusão das masculinidades doentias” dos atiradores?

Foi nesse ponto que a campainha do portão tocou. Enquanto o africano observava, Aidan pegou uma das chaves atrás do balcão e desceu para o portão. Pouco depois subia novamente as escadas, com o capitão Rodrigo logo atrás de si.

O brasileiro estava cansado, mas parecia bem. Vestia camiseta polo e jeans um pouco menos justos que aqueles com que frequentava a pista de dança, e com cores bem mais sisudas. Um dos braços estava preso e apoiado a uma faixa de pano, imobilizado. Mesmo assim, abriu um largo sorriso ao ver o negro:

— <<Abeô! Que bom rever você!>> – e aproximou-se rapidamente dele, puxando-lhe o rosto para baixo, em direção ao seu. E colou os lábios aos dele.

Aquilo pegou o africano um pouco de surpresa, mas não totalmente. Poderia ter resistido se quisesse, mas não o fez. Deixou o capitão conduzi-lo, mesmo quando sentiu a língua dele tocar a sua, o hálito mentolado e doce lhe inundando o paladar. Veio também o abraço forte, quase desesperado, que Abeô não retribuiu por medo de machucá-lo. Mesmo assim, sentiu o corpo magro e musculoso do outro colar-se ao seu em toda a extensão Sentiu nitidamente quando, em poucos segundos, o volume entre as pernas dele cresceu, queimando e pulsando contra sua coxa. Sentiu-o puxar-lhe a virilha com força contra o plexo, o calor concentrando-se aos poucos ali.

Aquilo foi gostoso, sem dúvida. Contudo, diferente do sonho, o negro não sentiu o chão sumir. Não sentiu o coração acelerar loucamente, nem teve aquela sensação quentinha de que tudo era perfeito, de que gostaria de passar o resto da vida fazendo aquilo.

Rodrigo só se afastou um pouco quando Aidan tossiu atrás deles e murmurou em inglês, sem graça:

— <<Bem… er… vou deixar… vocês sozinhos um pouco. Se… se quiser sair um pouco… pode deixar que continuo quando voltar, Abeô.>>

Com um sorriso forçado, o ruivo encostou a vassoura na parede e caminhou em direção à pista de dança. Desceu as escadas rapidamente, dirigindo-se ao banheiro. Por alguns segundos, fitou os próprios olhos no espelho enquanto um leve tremor nasceu-lhe leve no lábio inferior, gotas grossas descendo-lhe dos olhos ao bigode.

Então, cerrou os olhos com firmeza e abriu a boca com força, como se gritasse. O tremor espalhou-se por todo o corpo, nada discreto. Não houve nenhum som por alguns segundos. Mesmo depois, quando os soluços começaram, só alguém que estivesse muito perto ouviria qualquer coisa.

Menos de um minuto depois, Aidan fitou no espelho os olhos inundados de vermelho, a garganta tensa, ainda com o grito rebelde, lutando para sair. Muito mais rápido do que realizava as acrobacias no bar, golpeou os nós dos dedos contra o próprio peito e pescoço em uns treze pontos diferentes. Foram golpes pesados, profundos, provavelmente sentidos diretamente nos nervos e ossos. Muito rapidamente, os tremores cessaram. Os soluços minguaram quase completamente e o rosto assumiu uma expressão bem mais tranquila. Então, novamente, aplicou mais treze golpes, exatamente nos mesmos pontos, com muito mais força. A expressão agora estava impassível, exceto pelos rastros úmidos entre os olhos muito vermelhos e a barba.

Calmamente, o ruivo lavou o rosto e secou-se. Olhou-se uma vez mais no espelho e subiu as escadas para a recepção. Entretanto, assim que ouviu as vozes de Abeô e Rodrigo, sentou-se num dos degraus e esperou. Cruzou os dedos sob o queixo e murmurou em picto:

— <<<Seja feliz, Abeô. Seja muito, muito feliz.>>>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Felipe

    :O comassim. ai dls ele gosta do abeo tbm :OOO #ocoraçãonumguenta
    olha, ui, to toda me tremendo #hahaha
    Bym seu loko ♥ produz um HQ desse conto(livro, num sei) pra gnt. #Aidan♥

    • Osíris Reis

      Eheheheeheheheheh Contentão aqui, Felipe! Que bom que está achando emocionante! E obrigado pelo pedido para o Bym produzir uma HQ do romance. Quem sabe no futuro?

  • Vandson Carvalho

    Haaaaaaaaa…. Eu não imaginavaaa. Torcia com toda certeza mas … Mds… To me tremendo. U.u”

    • Osíris Reis

      Ehehehehehe Que bom que não imaginava, moço, sinal de que estou fazendo um bom trabalho. Espero que continue gostando!