Capítulo 23 – Massagem

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


O capitão Rodrigo ainda beijou Abeô por alguns minutos, antes de se afastar e dizer:

— <<Bem, por mim eu passaria a noite toda beijando você, moço, mas o dever me chama.>>

O africano ainda pensou em limpar o excesso de saliva com as costas da mão, mas desistiu. Provavelmente seria mais educado limpar os lábios com a língua.

— <<Você viu buracos de bala nas paredes?>> – indagou o brasileiro – <<Eu preciso recontar todos.>>

Contar buracos de bala? Ou melhor: recontar? A ideia parecia demasiado estranha, mas o africano pensou consigo mesmo que não lhe cabia julgar. Contudo, deve ter transparecido no rosto a confusão, já que o capitão emendou, sem graça:

— <<É uma questão pessoal. Geralmente não damos tanta importância para encontrar todas as balas de um tiroteio, mas… dessa vez faltaram mais de cinquenta. Quer dizer… contando as cápsulas que foram encontradas.>>

Abeô prendeu a respiração. Sabia muito bem o que tinha acontecido com os projéteis desaparecidos. E, principalmente, sabia que nem Rodrigo nem ninguém os encontraria.

— <<Eu mal acreditei quando vi o relatório da perícia.>> – continuou Rodrigo – <<Balas não desaparecem tão fácil assim. A não ser que…>>

— <<Bem, a gente deve achá-las por aí.>> – o africano interrompeu. Preferia não ouvir as teorias do outro. Se alguma delas se aproximasse da verdade, não sabia se conseguiria esconder o nervosismo. E isso não seria nada bom.

Rodrigo e Abeô passaram mais um bom tempo vasculhando as paredes, teto e chão da recepção e escadas. E, como o negro temia, não encontraram nenhuma bala, nenhuma perfuração que já não constasse no relatório que o brasileiro trazia. Ele, entretanto, não prestou atenção só às marcas de tiros. Passou também um bom tempo analisando as rachaduras no reboco, na parte onde os bandidos tinham chocado as costas contra a parede.

— <<Você viu algo estranho naquela noite? Algo… diferente?>> – perguntou Rodrigo.

— <<Como o quê?>> – devolveu Abeô, tentando disfarçar o nervosismo.

— <<Não sei… alguma coisa grande. Algo que eu pudesse ter confundido… com um… com um golem.>>

— <<O que é um…?>> – o negro começava a indagar quando Aidan voltou para a recepção e o interrompeu:

— <<Precisamos continuar a limpeza, Abeô. O senhor Albuquerque não é exatamente um homem razoável>>.                                                                                                                                                                                                     

Rodrigo suspirou e olhou ao redor uma última vez. Meneou negativas com a cabeça antes de aplicar mais um beijo nos lábios do africano e dizer:

— <<Desculpe tomar seu tempo, Abeô. Eu… tudo ficou muito confuso aquela noite, e eu acabei arriscando muito pra pegar esses desgraçados. E é frustrante que não esteja tudo nos conformes.>>

O negro não tinha a mínima ideia do que dizer. Tentou esboçar um sorriso e murmurar que estava tudo bem, mas desistiu. Nada estava bem. Havia aquele nó na garganta, aquele frio na barriga, aquela vontade de sair dali. E não era só o medo de que o brasileiro fizesse mais alguma pergunta perigosa, ou pior, descobrisse, de alguma forma, o que tinha acontecido naquele tiroteio. Era algo mais profundo, mais incômodo ainda. E o pior: era algo que não conseguia identificar.

O brasileiro deu mais uma bitoca no africano, massageou-lhe levemente a virilha e saiu, seguindo Aidan escada abaixo. Quando o ruivo subiu, Abeô estava exatamente no mesmo ponto de quando tinham saído. Tinha, entretanto, sentado no chão, e um joelho erguido servia de apoio para braços e cabeça. Aidan estudou o colega um pouco e indagou:

— <<Você está bem?>>

A voz do ruivo fez algo dentro do africano pular. A última coisa que queria era preocupar Aidan de alguma forma, então respondeu, já erguendo o tronco:

— <<Estou bem, estou bem sim.>>

A expressão de Aidan era algo entre dura e preocupada, principalmente quando se colocou atrás do negro e pousou-lhe a mão no ombro, impedindo-o de se erguer. Murmurou:

— <<Você não parece nada bem, Abeô. Vai acabar tendo uma torção muscular assim.>>

A mão grande, quente e macia do ruivo pareceu derreter o negro por dentro. Num piscar de olhos, sentiu-se pequeno e sozinho, cansado de mentir e fugir. Sentia cada pedacinho seu gritar, implorar, para que aquele toque se transformasse num abraço apertado, espalhando o calor macio por toda pele. Contudo, sabia que não devia nem pensar nisso. E que se Aidan soubesse daquele seu desejo, nem aquele toque teria mais, ou nem mesmo a presença do outro. Restava-lhe apenas calar aquele grito dentro de si, a garganta dolorida, como se estivesse engolindo uma colherada de areia seca.

— <<Você precisa relaxar, moço.>> – comentou Aidan, já com a segunda mão no outro ombro de Abeô, apertando o trapézio profundamente, com muita força – <<Vamos, relaxe esses ombros!>>

As idas e vindas da pressão quase fizeram o africano desfalecer. A dor espalhou-se no fundo dos músculos, minando a força e a vontade de lutar. Num piscar de olhos, surgiu aquela vontade de chorar pesadamente, de xingar a vida de todos os nomes possíveis e imagináveis, de confessar que não queria mais ver o capitão Rodrigo. Queria gritar que não aguentava mais as mãos do brasileiro em seu corpo, que não suportaria mais a saliva dele em seus lábios, nem o contato das pedras rijas e magras que ele carregava entre a pele e os ossos. Queria, precisava, desesperadamente, do abraço de Aidan, da pele e  do cheiro de Aidan, da saliva dele em sua língua. E tinha certeza absoluta que não poderia ser feliz tendo apenas uma imitação disso.

— <<Caramba, Abeô!>> – a voz gravíssima do ruivo soou preocupada – <<Por que você está tão tenso? O que te incomoda tanto?>>

O africano quis erguer-se, afastar-se, parar o que Aidan lhe fazia nos músculos do ombro. Doía ficar ali, parado, ganhando migalhas daquilo que realmente desejava, mas sabia que doeria muito mais abandonar aquele pouco que tinha. Era algo tão desejado e desesperador quanto caminhar sete dias no deserto e encontrar, no final, algumas gotas de água e nada mais. Era tortura. Uma tortura viciante, da qual jamais conseguiria se livrar.

Abeô mal percebeu quando começou a soluçar. Aflito, escondeu os olhos entre o bíceps e o antebraço, tentando aprisionar todo e qualquer som que lutava para lhe sair da garganta.

Surpreso, Aidan parou a massagem, calado. Passou para a frente do colega, indeciso sobre tocá-lo ou não, falar alguma coisa ou não. A voz lhe saiu estranhamente rouca quando murmurou:

— <<Tenta falar, Abeô! Fala qualquer coisa, caralho!>>

Por um tempo, até os soluços se dissolveram no silêncio. Até o ruivo pousar a mão sobre a cabeça raspada do africano num leve afago, que não durou mais que o tempo necessário para ele insistir:

— <<Fala alguma coisa, Abeô!>>

— <<Eu não quero mais…>> – o negro deixou escapar enfim – <<Não quero mais ver o capitão Rodrigo. Eu não aguento mais…>>

— <<Ele…Ele fez alguma coisa?>> – a voz de Aidan soou tão raivosa quanto surpresa – <<Ele tentou te obrigar a…>>

— <<Não… >> – ele enxugou as lágrimas na manga da camisa antes de olhar para Aidan e responder – <<Não… eu… apenas não me sinto bem quando ele me toca… quando me beija.>>

— <<Você se sente culpado?>>

— <<Não, apenas não é o que eu queria… mas também…>> – Abeô virou o rosto para o mais longe possível de Aidan, voltando a soluçar.

— <<Mas também?>>

— <<Mas também não vou achar outro homem que goste de mim.>>

Surpreendentemente, o ruivo segurou a barba do negro dos dois lados do rosto, obrigando-o o encará-lo enquanto rosnava, revoltado:

— <<Isso é mentira, Abeô! Mentira! Existem todos os tipos de pessoas gostando de todos os tipos de pessoas. Você não precisa ficar com Rodrigo se não gosta dele. Você vai achar um cara de quem você gosta de verdade e que gosta de você também!>>

— <<Só tem gente magra aqui, Aidan! Como é que…>>

— <<Você disse certo, Abeô! Aqui! Em outros lugares há homens gays de todos os formatos, cores e corpos. Não é porque o senhor Albuquerque só quer homens magros aqui que os mais gordinhos deixam de existir ou de serem desejados.>>

O africano soltou-se e baixou o rosto. O ruivo respirou fundo e foi para trás do balcão. Puxou alguns fios, apertou um botão e o som abafado de um ventilador começou. Pouco depois, o som de dezenas de botões foi ouvido enquanto Aidan dizia:

— <<O mundo é muito grande, Abeô. Não tem a menor necessidade de você ficar com o cara errado.>>

O som dos pequenos botões cessou e algo foi arrastado no balcão. O ruivo assobiou, tentando chamar a atenção do colega. Mesmo a contragosto, o negro ergueu os olhos. A tela do computador estava virada para ele, exibindo o que parecia a fotografia de uma festa, com palavras em inglês. “Festa do Urso”, escritas em letras garrafais, “Venha libertar seu urro”.

Os detalhes da foto, entretanto, é que fizeram o coração de Abeô se aquecer. Havia centenas de homens descamisados na pista de dança, como numa noite de casa cheia na Thermopolis Dance Club. Entretanto, naquela festa, mais da metade dos convidados era de homens mais redondos, cheinhos, peludos, barbudos, negros, brancos, mulatos, amarelos, vermelhos. Havia algumas mulheres e alguns homens mais magros, outros mais musculosos, mas a grande maioria tinha mais carne entre os ossos e a pele, apertando-se em abraços macios e beijos profundos, apaixonados.

— <<Você tem todas as chances de encontrar o cara certo, Abeô.>> – emendou o ruivo quando os olhos do negro pousaram na tela do computador – <<Só precisamos trazer essa balada pro Thermopolis.>>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    u.u” tantos feels

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