Golem – Cap 24 – O famoso golem

Capítulo 24 – O famoso golem

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Os dias seguintes foram pra lá de movimentados. Três pedreiros taparam todos os buracos de bala que encontraram na Thermopolis. Uma dúzia de pintores lixou todo o lugar por dentro, pintando tudo num tom alaranjado bem claro, quase branco. Vidraceiros trocaram as molduras de alguns quadros e instalaram também outros novos, e entregadores carregaram um novo conjunto de estátuas de homens nus, de musculatura excessivamente definida. Houve também um grupo de trabalhadores que trocou as paredes e portas das cabines individuais (que Abeô, surpreso, percebeu serem de um papelão plastificado), e outro que trocou todos os azulejos e louças dos banheiros. Uma equipe colou uma camada de borracha preta em toda sala escura e instalou três aparelhos nas paredes. O que mais chamou atenção, entretanto, foi que, na recepção, instalaram uma parede de vidro, uma porta giratória e uma outra máquina grande que Abeô ficou um bom tempo tentando imaginar para que servia.

O pequeno quartinho dos dois “diferentes” também sofreu uma pequena mudança. Por conta das negociações de Aidan com o senhor Albuquerque, no final das investigações, agora havia uma televisão de uns quarenta centímetros na horizontal, daquelas com tela plana. Abeô nunca tinha chegado perto de uma daquelas. Nas minas, onde crescera, todos assistiam a mesma grande televisão de cores desbotadas, daquelas em forma de cubo, que só pegava um canal. No começo da semana o ruivo tinha lhe ensinado a usar o controle remoto para ligar, desligar, aumentar e diminuir o som e trocar entre os vinte canais disponíveis. Tinha se tornado comum que, nas refeições, os dois se sentassem nos seus respectivos colchões e ficassem trocando canais até encontrarem algo interessante na TV. Exceto pelos filmes de bandas, quase não havia programas em inglês. Então, na maior parte do tempo, Aidan tentava traduzir as falas em tempo real. Ou pelo menos metade delas.

Foi no jantar de quinta-feira que, trocando canais, Aidan parou num jornal local e, embasbacado, começou a praguejar naquele misterioso idioma, provavelmente sua língua materna. A princípio, Abeô não entendeu o que se passava, mas então percebeu a frase “Golem in Rio?” atrás do apresentador. E enquanto surgia um repórter entrevistando um homem algemado e cabisbaixo, o africano perguntou:

— <<O que é Golem?>>

— <<É uma lenda judaica.>> – respondeu o outro, sério.

— <<E por que uma lenda deixou você com tanta raiva?>>

Na televisão, o prisioneiro falava algo sobre um golem. Aidan permaneceu em silêncio enquanto um desenho a lápis era feito em alta velocidade na tela. Primeiro, fizeram uma réplica do rapaz preso, com uma metralhadora na mão. À frente dele, desenharam um ser cujo peitoral começava na altura do topo da cabeça do entrevistado. A criatura tinha forma humana, mas parecia coberta de lama, com cabelos compridos, barba farta e olhos alaranjados brilhantes.

— <<É sobre mim que estão falando…>> – murmurou Abeô – <<Eu sou o golem do Rio.?>>

Aidan exclamou com um pouco mais de raiva do que deveria:

— <<Você não é um golem!>>

No desenho, as balas sumiam no corpo da criatura. O africano lembrou-se das balas que faltavam na contagem do capitão Rodrigo. E indagou:

— <<Como pode ter certeza, Aidan?>>

— <<Na lenda, golens são esculpidos no barro, por homens “santos”…>> – o ruivo fez as aspas com as mãos, mesmo que o outro entendesse bem o que aquele gesto significava – <<… que imitam o deus judaico-cristão ao soprar vida nesses bonecos. Golens são fabricados. Não têm irmãs pequenas para salvar.>>

Abeô lembrava, vagamente, de que Deus teria criado o homem dessa forma. Talvez, então, o que ele conseguia era voltar, temporariamente, ao estado de barro dos primeiros momentos da existência do homem.

— <<Será que Adão também conseguia voltar a ser barro, como eu?>>

Aidan arregalou os olhos, surpreso. Um tanto impaciente, resmungou:

— <<A humanidade não veio do barro, Abeô, não literalmente! E não houve um primeiro homem chamado Adão!>>

— <<Mas minha mãe e o pastor…>>

— <<Eles aprenderam errado e te ensinaram errado!>>

— <<O pastor dizia que era verdade, porque está na bíblia! E a bíblia é a palavra de Deus, e Deus não mente!>>

— <<Pois esse deus da bíblia sempre mentiu! Descaradamente!>>

Abeô ficou chocado. Jamais pensaria em alguém falando assim de Deus.

— <<Você não devia falar assim dEle!>> – argumentou, preocupado.

— <<Por quê? Ele vai me punir?!>>

— <<Sim, ele…>>

— <<Deixe ele tentar! Deixe ele continuar tentando!>> – gritou o ruivo.

A expressão no rosto do africano pareceu pegar Aidan de surpresa. Ele respirou fundo e escondeu a face com as mãos, tentando se acalmar. Demorou um pouco antes de olhar novamente o colega e murmurar:

— <<Desculpa, Abeô. Essa história toda sempre me deixa… emputecido.>>

— <<Mas… por quê…?>>

— <<É melhor mudarmos de assunto. Por favor.>>

Abeô franziu a testa, surpreso. Ainda tinha muito que queria perguntar sobre aquele assunto, então o pedido do ruivo não lhe agradava. Contudo, ainda podia satisfazer outras curiosidades:

— <<O que você sabe sobre… nossas diferenças em relação às outras pessoas?>>

Aidan fez uma careta antes de um resmungo em seu idioma estranho. Depois indagou:

— <<O que você quer saber?>>

— <<Por que nós somos diferentes dos outros?>>

— <<Nós nascemos assim.>> – Aidan respondeu voltando a comer.

— <<E?>>

— <<E de onde vieram essas diferenças? Por que conseguimos fazer coisas tão diferentes das pessoas normais? Você conhece outros como nós?>>

O ruivo deixou o prato de lado antes de prosseguir:

— <<Por que algumas pessoas têm olhos azuis, outras olhos escuros ou verdes? Por quê existem negros, brancos, asiáticos? Por que algumas pessoas têm cabelos crespos e outras cabelos lisos?>>

— <<Você está dizendo que eu e minha irmã… herdamos isso dos nossos pais?>>

— <<Sim, e não. Nem sempre alguém de olhos azuis tem pais com olhos azuis, mas ter alguém com olhos azuis na família aumenta as chances de cada novo bebê nascer com olhos azuis.>>

Abeô realmente não tinha como dizer se sim ou não. Não conhecia muitas pessoas com olhos azuis, muito menos suas famílias. Contudo, o argumento combinava com o fato de Shanumi também não ser uma pessoa comum. Aquilo explicava, pelo menos parcialmente, de onde vinham as diferenças. Ainda havia muito mais dúvidas do que respostas, e foi isso que o negro tentou explicar:

— <<Tá, você respondeu de onde essas diferenças vieram. Falta dizer por quê, como é que conseguimos fazer o que fazemos.>>

Aidan pensou um pouco antes de responder:

— <<Você já ouviu falar em coisas microscópicas?>>

— <<Coisas tão pequenas que não conseguimos enxergar? Como germes?>>

— <<Sim. Agora pense que há coisas tão mais pequenas que nem os germes conseguiriam enxergar. Pense em coisas um bilhão, um trilhão de vezes menores do que germes.>>

O ruivo deu alguns segundos para o outro tentar imaginar aquilo. E continuou:

— <<Agora pense que as leis naturais que governam o comportamento dessas coisas um trilhão de vezes menores do que germes é muito, muito diferente das leis que governam o mundo que enxergamos. É por isso que existe todo um ramo da ciência chamado de física quântica.>>

Abeô já tinha há muito largado seu prato. Quase nunca comia e, numa situação como aquelas, a curiosidade era muito maior do que a fome.

— <<Agora imagine…>> – continuou o ruivo, pegando um bife do prato com a mão – <<… que certas coisas são difíceis ou quase impossíveis para meus dedos, como fazer um corte reto nesse bife. Isso porque meus dedos são grandes e desajeitados demais para fazer força numa área tão pequena para fazer um corte, e não um rasgo.>>

O ruivo rasgou o bife com as duas mãos, deixou-o de volta no prato e lambeu os dedos antes de continuar:

— <<No entanto, meus dedos podem manipular algo com um lado maior… >> – aqui ele mostrou os cabos dos talheres que usava – <<… e outro lado menor…>> – e em seguida mostrou o fio da faca e as pontas do garfo – <<… para fazer um corte bem mais preciso.>>

Enquanto Aidan mastigava o pedaço de carne que acabara de cortar, Abeô indagou:

— <<E como tudo isso explica o que conseguimos fazer?>>

— <<A maioria das pessoas nasce produzindo substâncias e células capazes de alterar o mundo dos germes.>> – o branco falou, cutucando o bife com os dedos – <<Outras, mais raras, nascem produzindo uma ou outra substância capaz de alterar o mundo quântico…>> – aqui ele cutucou o bife com uma faca –  <<… mas com uma variedade insuficiente para fazer algo que percebam como incomum. Seria como ter só o garfo ou só a faca.>>

Abeô nunca tinha ouvido falar em “células”, exceto relacionadas à telefonia. “Substância” era uma palavra que tinha ouvido umas três vezes na vida, todas relacionadas a saúde. Na época imaginava que fosse algum tipo de extrato de plantas ou animais. Pelo visto, humanos também produziam substâncias, provavelmente em enorme variedade dentro de um único ser humano, e bem diferentes de humano para humano. De qualquer forma, as coisas começavam a se encaixar.

— <<Então, minha mãe produz substâncias que seriam a faca, e meu pai outras que seriam o garfo. No entanto, isso não tem utilidade para eles separadamente…>>

— <<… mas você herdou deles um conjunto completo, e sua irmã nasceu com outro conjunto, que permitem a vocês alterarem o mundo quanticamente, cada um à sua maneira.>>

— <<E você conhece outros como nós?>>

— <<Conheci uns três além de você, mas já morreram há muito tempo. Provavelmente existem umas dez vezes mais no mundo.>>

— <<E além dos encouraçados, outros sabem sobre nós?>>

Aidan pareceu surpreso quando o negro pronunciou o nome que dera aos inimigos de Manaus. Contudo, limitou-se a responder:

–– <<Pequenos grupos de cientistas aqui e ali. Alguns nos chamam de quanticamente ativos. Outros de catalisadores quânticos, ou anormalidades quânticas. O encouraçados nos chamam de autônomos quânticos, já que temos um conjunto de substâncias para ações quânticas completas. Todos, no geral, nos chamam de alguma coisa quânticos. Ou apenas quânticos.>>

— <<E por quê os encouraçados nos perseguem? E como você sabe tanto sobre isso?>>

Aidan ergueu-se, prato na mão, e dirigiu-se à porta, dizendo:

— <<Desculpa, Abeô, isso vai ter que ficar para outro dia. Minha comida já esfriou e preciso separar e lavar um monte de frutas na cozinha antes de dormir. Vai terminar de comer? Quer que reaqueça seu jantar?>>

O africano meneou uma pequena negativa com a cabeça, engoliu o pouco de comida que restava e entregou o prato vazio ao colega. Enquanto ele saía, Abeô deu uma última olhada na televisão. O apresentador, agora, tinha atrás de si uma fotografia do preso que, apesar de ainda tentar manter a cabeça baixa, tinha boca e olhos congelados no meio de um movimento, numa posição estranha. O jornalista falava algo sobre drogas e alucinações, mas Abeô sabia a verdade.

Ele era um Golem. Um Golem quântico. E, pela primeira vez na vida, compreendia um pouco mais do que isso significava.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    puts, deu um arrepio quando li “quanticamente ativos” u.u” <3

    • Osíris Reis

      eheheheeheheh por quê?

      • Vandson Carvalho

        Não sei, me deu um calafrio bom, tipo, não sei kkkk triste que não tenho criatividade pra nomes.