Golem – Cap 25 – O cara certo

Capítulo 25 – O cara certo

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Sexta à noite o Thermopolis estava pronto para reabrir as portas. Como das outras vezes, Abeô dirigiu-se ao banheiro e deu uma última limpada em tudo. Havia bem mais coisas a serem limpas. Pias, mictórios e vasos sanitários, agora, eram de aço inoxidável, que exigia bem mais tempo e cuidado para obter uma boa aparência. Qualquer contato mínimo com a pele, qualquer gotícula de líquido que secasse naturalmente era sinônimo de uma mancha embaçada. O senhor Albuquerque exigira que, de hora em hora, tudo estivesse limpíssimo e brilhante, principalmente os espelhos.

Agora havia dezenas deles. O maior era o que se estendia do primeiro ao último mictório, entre a parede e o teto. Esse, provavelmente, seria o único que bastaria ser limpo uma vez por noite. Em seguida, vinha outro do mesmo comprimento, porém mais estreito, na altura dos olhos dos usuários dos mictórios. Havia também os espelhos acima das pias, assim como os de corpo inteiro, nas faces interna e externa das portas dos vasos sanitários. As paredes e o chão, agora, eram de uma pedra negra, de brilho embaçado, que provavelmente seria limpa com muito mais facilidade que as demais peças.

Quando a música começou, Abeô sentou no banquinho e esperou. Como das outras vezes, o capitão Rodrigo foi o primeiro a entrar no banheiro, o sorriso imenso no rosto. Apesar do braço apoiado numa bandagem de tecido, abraçou o africano com força. Abeô, a princípio não soube exatamente o que fazer, mas decidiu-se por aplicar-lhe leves tapinhas nas costas e dizer:

— <<Estou trabalhando, capitão. É melhor você ir aproveitar a festa.>>

O brasileiro sorriu e lhe aplicou um rápido beijo nos lábios antes de sair. E por vários minutos, Abeô esteve só, pensativo. Não sabia bem como falaria para Rodrigo que não queria mais do que a amizade dele. Pensou em tentar se adaptar, em lutar para sentir-se mais atraído por ele, mas desistiu. Mesmo no abraço daquela noite, naquele beijo breve, sua imaginação não estava em Rodrigo. Cada carinho do brasileiro o fazia lembrar-se das fotos que Aidan lhe mostrara noites atrás. Chegara mesmo a imaginar que não eram os lábios do capitão que tocavam os seus, mas os de outro homem, mais cheio, mais peludo, mais gordinho, mais parrudo.

Pelo menos dessa vez não tinha se imaginado beijando Aidan. O que em si era um passo e tanto em direção ao homem certo, o homem de quem gostaria de verdade, e que também gostaria dele. Estava apaixonado por esse homem, e todos os outros eram apenas miragens, substitutos rápidos, paliativos para o que seu corpo, pele e coração realmente pediam.

O movimento no banheiro não estava lá essas coisas. Quando bipou o aparelhinho que o senhor Albuquerque lhe dera para guardar no bolso, nem um terço dos mictórios e das pias tinha sido usado. O africano não levou cinco minutos para lustrá-los novamente, deixando tudo impecável. E antes que desse por si, estava novamente no banquinho. Mesmo de olhos abertos, Abeô começou a imaginar como seria estar com o homem certo.

Com o homem certo não teria medo de seus desejos. Haveria uma eletricidade entre os dois e, sempre que se tocassem, haveria aquele calor gostoso e aquele arrepio se espalhando pelo corpo todo. Quando se aproximassem, sentiria na respiração e no olhar do outro a vontade de abraçá-lo apertado, de roçar a barba na dele, de fazer seus peitorais e barrigas se apertarem com aquela pressão tão macia quanto forte. E dançariam juntos, colados, o atrito entre barbas, pêlos, barrigas, genitais inchados aumentando progressivamente aquele calor rígido entre as pernas de ambos. Cada toque reverberaria na flexibilidade de suas carnes, massageando músculos por vários segundos a cada contato. Seria possível ver a pele dele dobrar-se e dançar sensualmente a cada movimento, pelos insinuando-se hipnóticos no ritmo da música. Seus corpos celebrariam um ao outro, num dueto de êxtase tão sublime quanto físico, carnal, magia e suor misturando-se para tentar fazer jus à mistura dos dois homens.

Abeô lembrou, então, que tinha prometido a si mesmo dançar mais vezes. Não havia mais ninguém no banheiro naquele momento, então, por pelo menos alguns segundos, ele se permitiu dançar.

Uma nova música acabara de começar. Enquanto o que pareciam gotas de água ecoavam entre flautas de alguma brisa distante, a voz de uma menina dizia:

Clique aqui para ouvir a música

 

“<<Hoje à noite, coisas mágicas vão acontecer.

Cada um de seus sonhos mais selvagens está prestes a se realizar.

Apenas tire um momento para se descomplicar

Deixe minha visão penetrar em você.>>”

 

Aquelas palavras acertaram Abeô em cheio. Era como se alguém tivesse, de alguma forma, profetizado que ele ouviria aquela música naquele momento e houvesse decidido lhe enviar, através daquela canção, exatamente o que ele precisava ouvir. Ele precisava aceitar seus desejos. Precisava se permitir desfazer as complicações que tinham lhe ensinado. Tinha que se abrir, de corpo e alma, para o que a música iria lhe dizer.

Quando a percussão da música começou, ele deixou os quadris acompanharem aquele ritmo leve. Deixou a coluna espiralar como se o homem certo, seu homem, estivesse ao mesmo tempo à frente e atrás, a barriga dele colada às suas costas e sua barriga colada às costas dele, massageando-se mutuamente. Então, quando a voz do cantor surgiu, fluida, calma e marcante como um rio tranquilo, mas irrefreável, Abeô deixou que as palavras o invadissem sem qualquer censura ou julgamento:

 

“<<Eu me sinto como o sol;

Eu me sinto como a chuva;

Eu sinto como se tivesse acabado de encontrar a razão para viver de novo.>>”

 

Abeô conhecia aquela sensação da música. Era o que tinha vivido na semana passada, no quarto vip, antes do tiroteio. Por aqueles breves instantes, ele tinha sido seu próprio sol, sua própria chuva, tudo que precisava para germinar e crescer. Tinha que lembrar-se que celebrar a si mesmo, com suas qualidades e defeitos, era razão mais do que suficiente para viver.

No começo, dançava olhando a porta do banheiro, preocupado. Estava pronto para, assim que o primeiro cliente aparecesse, parar e assumir a postura de funcionário sério. Entretanto, nesse ponto, aquilo não importava mais. Enquanto seu homem certo não chegava, mesmo que nunca chegasse, ele iria celebrar se celebrar e se amar. Seus dedos abriram os botões do macacão, acariciando os pelos do peito e da barriga em seguida, um prazer na ponta dos dedos, tanto literal quanto figurativamente. E olhar para a porta do banheiro era a coisa que menos lhe importava no momento.

O cantor continuou a entregar, palavra por palavra, a mensagem daquela  profecia antiga:

 

“<<Pois o que eu tenho sonhado, eu sei que é real;

Eu sei que simplesmente não há como mudar isso que sinto.

E tenho um segredo que eu acho que você deveria saber,

Eu sinto que simplesmente não dá pra esconder

E está fundo dentro de mim

E sei que está fora de controle.>>”

 

Mesmo dançando, Abeô sentiu uma lágrima lhe escorrer dos olhos. Isso o fez enxugar rapidamente o rosto e fechar os olhos, mergulhando em si mesmo. Encontrar o homem certo era um sonho real, e não adiantava lutar contra isso. Não tinha adiantado tentar namorar meninas na adolescência. Não adiantaria tentar gostar mais de Rodrigo. Não adiantava tentar não achar Aidan atraente. Nada arrancaria aqueles sentimentos fora, nada plantaria os sentimentos mais convenientes para o momento. Era algo tão profundamente enraizado nele que seria inútil lutar contra. Era ilusão pensar que controlava aquilo. Era inútil tentar esconder. Ele estava, na verdade, cansado de tentar esconder. Quase sem perceber, o africano despiu as mangas do macacão, amarrando-as em torno da cintura enquanto deixava a barriga e o peito nus. Foi quando a música cresceu, traduzindo, de alguma forma, a ânsia do cantor e também a de Abeô, que deixou o tronco e os braços girarem mais livres e rápidos, com força, como que para marcar, bem profundamente, sua decisão de não mais se esconder. E foi com esse sentimento e esses movimentos que começou a dançar o refrão da música:

 

“<<Você consegue enxergar minha visão

De um verão vermelho e quente, novo em folha,

Quando o amor era ‘O’ sentimento?

Não há indecisão,

Estávamos girando aquela chave lá dentro

Até você viver o momento.>>”

 

Sempre ouvira que Deus era amor. Sempre ouvira que o amor era algo belo, que trazia sentido à vida, que era fonte de felicidade e a força mais poderosa do universo, o sentimento mais sublime. Já havia tentado amar garotas e tentara, há pouco, amar o capitão Rodrigo. Sabia, agora, que não funcionaria, que não conseguiria, jamais, escolher por quem se apaixonar. Que quando tratava de estar ou não apaixonado, não havia meios termos, não havia o que ser decidido. Ou se estava ou não apaixonado, não há controle. Havia apenas os sentimentos das duas pessoas envolvidas e aquele frio na barriga, aquela dúvida, o momento do suspense, de colocar as cartas na mesa e saber se era correspondido ou não. E era hora de ligar o modo “foda-se”, a coragem de arriscar e assumir o que sentia.

Era hora de falar claramente, para Aidan, que estava apaixonado.

Foi nessa hora que ele ouviu as ovações ao redor, os aplausos, os assobios. Quando abriu os olhos, o banheiro estava repleto de homens, desde a entrada, curiosos, observando-o. Seu primeiro instinto foi parar de dançar, mas continuou. Não ia parar de se encontrar por causa de um bando de curiosos. Não ia mais se esconder. Ele era um homem que gostava de homens peludos e barbudos, com grandes barrigas, e dançava como se estivesse com um deles. E enquanto a música continuou, enquanto vários clientes se aproximavam serpenteando os quadris e mãos ao redor dele, ele viu o capitão Rodrigo, sorridente mas também visivelmente preocupado, na entrada do banheiro.

A conversa seria difícil, tanto com o brasileiro quanto com Aidan. Contudo, não deixaria o futuro lhe estragar o momento. Não era hora de se preocupar. A hora era de se encontrar, de celebrar a si mesmo, de dançar. E era isso, apenas isso, que faria por aqueles instantes.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    Put’s que turbilhão de sentimentos!! pqp o/ a cada destaque da letra um arrepio!! u.u” continue assim moço ❤