Catarse na sua Vida: Rancho do Corvo Dourado

Uma paródia steampunk pós-apocalíptica do Sítio do Picapau Amarelo.

WOOF, Berds!
Olha a gente aqui de novo com mais uma coluna CATARSE NA SUA VIDA! Hoje a gente traz um projeto um pouco diferente do que a gente costuma mostrar, mas muito bacana e que merece a sua atenção e o seu apoio: O RANCHO DO CORVO DOURADO, capitaneado pela quadrinista CRIS CAMARGO. A gente conversou um pouco com ela sobre o projeto e, também, sobre alguns outros assuntos que interessam a todos nós, fãs LGBTS de quadrinhos. Vem comigo, Berd!

Oi, Cris! Em primeiro lugar, obrigado por conversar com a gente! Pra começar, fale um pouquinho de você – Quem é Cris Camargo?

Cris Camargo sempre gostou de desenhar e fazer fanzines desde criança, quando nem sabia que fanzine se chamava fanzine, mas desenhava os quadrinhos, a mãe costurava a folha dobrada no meio, e a baby Cris vendia na escola. Daí eu cresci e tive que pagar boleto, e fui trabalhar em coisas que nada tinham a ver com quadrinhos. Até que, quando mudei pra SP, tive contato com a cena HQBR independente e, motivada pela facilidade de divulgação da internet, resolvi voltar a fazer quadrinhos. Essa é a minha definição. Para outras pessoas, se você perguntar “quem é Cris Camargo?”, elas responderão que é “um canhão aleatório de ofensinha”. Mentira. Eu sou fofa.

foto: Cris Camargo

Você está com uma campanha no Catarse para publicação de uma reimaginação do Sítio do Pica-Pau Amarelo, chamada O Rancho do Corvo Dourado. Você pode nos falar um pouco sobre esse projeto?

Em 2018, quando soube que a obra do Monteiro Lobato entraria em domínio público, tive a ideia de fazer uma coletânea com uma paródia do Sítio, retrabalhando aqueles detalhes que nunca agradaram qualquer pessoa de bom senso: o racismo e a simpatia a regimes totalitários. Chamei o Juliano Sousa, e ele topou a empreitada, mesmo com receio de fazer parceria comigo. Ele só topou depois que falou em off com uma desafeta minha que, para minha surpresa, teve o bom senso de garantir a ele que sou uma pessoa que leva os projetos até o fim. (Oi Juliano, sei que você vai me matar por ter contado isso, mas eu não aguentei, desculpa. 😬)

Bom, daí chamamos uma galera super talentosa pra trabalhar com a gente: roteiristas, desenhistas, quadrinistas e o resultado são 110 páginas de ação, terror, aventura e humor com versões parodiadas dos personagens do Lobato combatendo o racismo e o fascismo. Estamos há mais de um ano em função desse projeto, e os custos de produção foram bem altos, por isso jogamos a meta lá no alto, para ver se conseguimos reaver parte desse investimento.

A obra do Monteiro Lobato tem passado, nos últimos anos, por uma reavaliação por parte da crítica e do público, devido principalmente às questões raciais. Na sua opinião, como devemos proceder com obras clássicas mas problemáticas? Abandoná-las? Acrescentar textos explicativos sobre o contexto original da obra ou as convicções do autor? E qual o papel das releituras, como o Rancho, nesse processo?

Como autora, sou particularmente contra a mutilação de textos originais. Acredito que a solução é acrescentar notas de rodapé contextualizando historicamente o uso de expressões pejorativas usadas no passado, como as que o Lobato usava para se referir à Tia Nastácia, e também o que aquilo diz sobre o histórico de quem escreveu. Acho que obras com esse tipo de conteúdo precisam ser debatidas em sala de aula. Paródias e adaptações como o Rancho têm o papel de atualizar e levar o universo criado pelo autor a outros públicos, através de outra linguagem e apresentando novas e diversas visões.

Isso não apenas garante que a obra do autor continue viva no imaginário popular, como também instiga novos leitores a buscarem a obra original, para conhecerem o que foi a fonte de inspiração destas paródias e adaptações. Cabe aqui lembrar, ainda, que essa coletânea, especificamente, NÃO É UMA OBRA INFANTIL, e terá classificação indicativa de 16 anos.

Você teve alguns problemas com a questão da obra ter entrado em domínio público, não foi? Poderia falar um pouco sobre isso?

Pesquisamos muito sobre isso antes de iniciar o projeto e não há nenhum problema. Sabíamos de antemão que não poderíamos usar os layouts da Globo, porque esses são registrados como marca. Até que o administrador dos direitos dos herdeiros do Lobato viu a arte de uma das histórias, com uma mistura de paródias entre a Emília e a Furiosa do Mad Max, e ficou pistola, dizendo que as cores remetiam a uma das versões da Globo, e que ele achava um acinte colocar uma personagem infantil portando armas, pois para ele “isso afronta a inocência da infância” ou algo assim. E que isso violava os Direitos Morais da obra – uma brecha na lei do domínio público que é MUITO subjetiva. Só que o ilustre cidadão em questão é APOIADOR DO BOLSONARO. Alguém me explica como alguém pode se ofender com uma personagem infantil armada, alegando que isso macula a “beleza e singeleza da infância”, e apóia uma criatura que pega uma criança de colo e a ensina publicamente a fazer sinal de arminha com a mão? Porque a coerência aí tá passando longe!

Enfim, como nossa intenção não é ofender nada nem ninguém, estendemos a paródia aos nomes dos personagens em algumas das histórias e fizemos pequenas alterações em alguns layouts que pudessem ser interpretados como referência aos designs da Globo. E só isso. O resto continua lá, e o projeto segue a mil.

Aproveitando esse gancho – A gente vive, atualmente, um período muito turbulento no Brasil, especialmente no tocante à produção artística e cultural. Temos visto claras tentativas de impor censura e limitar a produção cultural patrocinada por órgãos públicos dentro do viés ideológico do atual governo. Um caso recente foi o ataque ao gibi dos Vingadores na Bienal do Rio de Janeiro. Como mulher produtora de HQ, como você vê essa situação? O quão importante é dar a cara a tapa e insistir numa produção cultural variada e representativa?

Arte e política têm uma ligação intrínseca. A arte é uma ferramenta de protesto e de resistência, e qualquer artista que preze pela liberdade de expressão precisa se posicionar contra o que está aí, que se chama CENSURA. A direita é canalha: para eles, aparelhamento ideológico e violação às liberdades individuais e de expressão só existem quando vai contra as sandices que eles defendem. Não me lembro de ter visto algum governo de esquerda no Brasil pedindo recolhimento de obras em uma bienal. Não me lembro de ter visto a esquerda censurando peças de teatro. Repito: eles são CANALHAS, e são HIPÓCRITAS em caps lock. Como mulher e produtora de HQ eu tô MUITO pistola com tudo o que está acontecendo e sei que cabe a nós, que lidamos com arte e cultura, continuarmos produzindo e defendendo a liberdade de expressão.

Porque o que os imbecis que defendem essa corja acéfala e falso-moralista que está no poder não levam em consideração é que isso vai acabar se virando contra eles mesmos, mais cedo ou mais tarde, por mais chapa-branca que a produção de um artista seja. Mas chegar a essa conclusão exige meio por cento de capacidade de raciocínio, coisa que bolsonarista não tem.

Você já está a bastante tempo produzindo seus próprios quadrinhos – Sua série O Último Maranishi pode ser lida no Tapas, inclusive. Como é ser uma autora produzindo quadrinhos no Brasil, de forma independente?

É difícil quando você precisa de um day job para pagar as contas, pois infelizmente não temos um mercado que permita que alguém viva de produzir quadrinhos independentes. Produzo nas horas vagas, nos finais de semana, acordo mais cedo e dedico algumas horas à produção. Com isso, fica difícil produzir vários projetos ao mesmo tempo. Esse ano, por exemplo, não consegui lançar um novo número do Maranishi, porque me dediquei ao “Ser Artista Mulher é…” e ao “Rancho do Corvo Dourado”. Se eu pudesse me dedicar full time aos quadrinhos, já teria terminado a série do “O Último Maranishi”. Acho que até os 90 anos eu consigo, se viver até lá. 😬

Pra finalizar, tem mais alguma coisa que você gostaria de dizer sobre o projeto? Ou alguma mensagem em geral para os leitores?

Estamos nos últimos dias da campanha no Catarse. O projeto VAI ser impresso de qualquer jeito, pois é categoria Flex, então é uma pré-venda. Por apenas 30 reais, entregamos o seu gibi pessoalmente em qualquer evento que um dos 12 autores esteja, e por 35 reais nós enviamos pelo correio para qualquer lugar do Brasil. Confiram mais detalhes no link da campanha!

Então é isso por hoje, Berds! Corram lá no Catarse e apoiem O Rancho do Corvo Dourado! Até a próxima!

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