Capítulo 37 – Timing

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Para ler os capítulos anteriores, acesse http://www.bearnerd.com.br/series/golem.


Gentilmente, Abeô puxou o urso de pele clara e barba escura pelos corredores e escadas do Thermopolis. Sentia uma estranha mistura de alívio e ansiedade. Por um lado, finalmente tinha conseguido levantar o dinheiro para trazer a irmã para perto de si, e isso lhe dava vontade de pular e comemorar. Entretanto, havia ainda aquele estranho aperto no peito, como se algo estivesse errado, como se uma coisa muito ruim estivesse prestes a acontecer. Mais inquietante ainda era não ter a mínima ideia de onde vinha aquela sensação. Os pensamentos zuniam loucos vasculhando cada canto do cérebro, verificando tudo repetidamente, tentando identificar o que o incomodava.

Sim, o dinheiro estava disponível, mas e se fosse tarde demais? E se Shanumi estivesse sendo vendida naquele exato momento? E se já estivesse morta? No fim das contas, ela não tinha tempo. Talvez as horas que ele passaria com aquele urso charmoso fossem as últimas da irmã pequena. Ou não, não havia como saber. A única certeza era que, se ela ainda estivesse viva, cada minuto contava para salvá-la.

E foi assim que Abeô decidiu, assim que chegou à última escada antes da suíte VIP, beijar a mão do cliente e murmurar no melhor português que conseguia:

— Eu telefone rápido. Sobe. Eu volta rápido.

O urso de pele clara abriu um sorriso bonito e beijou a mão de Abeô. Murmurou um “não demore” e subiu para a suíte. O africano observou-o até a porta se fechar. Queria correr, mas não sabia se as roupas e sapatos aguentariam, então limitou-se a caminhar, apressado, pelos corredores. Desceu alguns lances de escada e, com alívio, percebeu que as luzes  do escritório do senhor Albuquerque estavam acesas.

Bateu à porta e, antes mesmo da resposta, abriu-a. O empresário, que separava pacotes de dinheiro, fitou-o surpreso antes de perguntar:

— <<Que diabos você está fazendo aqui? Volta já para lá e…>>

— <<Preciso fazer um telefonema. É urgente.>>

O brasileiro fez uma careta e apontou o aparelho. Abeô retirou o fone do gancho e observou as teclas um instante, nervoso. Nunca tinha feito aquilo antes e temia que não fosse tão fácil quanto tinha visto na velha televisão das minas. Pelo menos, embora não soubesse ler, reconhecia os números nos botões negros. Certamente, era ali que colocaria a sequência que tinha decorado assim que chegara ao Brasil.

Tinha começado a apertar os botões quando Albuquerque lhe tomou o fone da mão, levou-o ao ouvido e anunciou enquanto apertava algumas vezes uma lingueta no suporte do fone:

— <<A linha caiu, Abeô. Comece de novo.>>

O gogobear obedeceu e, com um nó na garganta, recebeu o fone das mãos do brasileiro e levou à orelha. Havia uma série de bips longos, que o africano ouviu sem saber o que fazer. Pouco depois, uma voz masculina soou do outro lado da linha:

— Alô?

— <<Alô.>> – respondeu o negro – <<Preciso falar com o Lobo Africano.>>

— <<Não tem lobo nenhum aqui!>> – disparou o interlocutor entre gargalhadas de mulheres ao fundo.

Abeô sentiu-se desfalecer um pouco. Não, não tinha esquecido os números, não havia como ter esquecido. Na verdade, a voz do homem lhe parecia familiar, mas o africano não conseguia entender porque o outro agia daquela forma. Até se lembrar do que realmente precisava falar:

— <<Mas tem o pelagem dourada da primeira viagem ao Senegal.>>

Houve silêncio do outro lado da linha. Então Abeô ouviu os passos do homem se afastarem do aparelho e o ranger de uma porta fechando. As gargalhadas desapareceram, os passos retornaram e o homem perguntou:

— <<Qual o seu nome?>>

— <<Abeô. Abeô Bankole.>>

— <<Certo, achei o seu vídeo aqui. É para uma garota na Nigéria, certo? Shanumi?>>

— <<Sim, Shanumi Bankole.>>

— <<O preço agora é trinta e seis mil.>>

O africano agradeceu internamente ter mais do que aquilo disponível. A resposta saiu quase automática:

— <<Tudo bem. Pode mandar buscá-la ainda essa noite?>>

— <<Claro, assim que você transferir metade do dinheiro.>>

— <<Mas eu estou no Rio!>> – Abeô falava cada vez mais rápido – <<Vai demorar dias para eu levar o dinheiro até você!>>

— <<Eu falei em transferir, não em entregar.>> – respondeu o tal Lobo Africano – <<Anote aí os dados.>>

O gogobear coçou a barba e pediu que o outro esperasse. Não havia muitas opções, não quando o tempo da irmã se esgotava. Encarou Albuquerque e pediu:

— <<Preciso que você transfira, o quanto antes, a metade de trinta e seis mil para os números que o homem do telefone vai dizer. Por favor, você pode fazer isso?>>

Primeiro, o brasileiro retorceu o cenho, incrédulo. Depois estendeu a mão em direção ao fone e disse:

— <<Ok, eu faço isso. Mas volte agora para a suíte. Agora mesmo.>>

Abeô entregou o aparelho para o empresário e saiu do escritório. Viu acesas as luzes do quartinho e imaginou que Aidan devia estar terminando os preparativos para dormir. No entanto, não se deteve. Subiu o primeiro lance de escadas e caminhou entre as cabines de luz avermelhada, vazias. Caminhava para seu futuro? Para seu namorado, talvez? Lembrou-se das palavras do ruivo minutos atrás: “As coisas vão dar certo agora, Abeô. Você vai conseguir trazer sua irmã. Vai conseguir viver tranquilo com ela, talvez até com o cara com quem você ficar hoje à noite(…).”

Quando chegou ao fundo do corredor, um detalhe lhe saltou à atenção. Quando disse que as coisas dariam certo, Aidan havia falado de Shanumi, de Abeô e do cliente, mas não havia falado nada de si. Talvez não fosse nada, talvez fosse só a bebida falando. Ou talvez, justamente por estar embriagado, o ruivo tivesse deixado escapar que, no fundo, preferia não mais conviver com ele. Era razoável pensar que o barman tinha percebido seu interesse e, desconfortável com a situação, tivesse decidido ajudá-lo apenas até trazer a irmã pequena ao Brasil.

Se fosse isso, seria algo com o que realmente ficaria triste, mas ainda tinha muito que agradecer ao ruivo. Não fosse por ele, naquela noite estaria fazendo sexo com dezenas de homens diferentes em lugar de um só. Ou pior: estaria caminhando para o mesmo quarto com Miguel e seu namorado magrelo, sendo obrigado a fingir que estava tudo bem e que nunca tinha encontrado o grisalho antes.

Mais uma vez, as palavras de Aidan lhe voltaram à mente, repetidas diversas vezes a cada passo: “Você pode perfeitamente escolher passar a noite com o delicioso urso de pele clara e barba negra(…). Principalmente se o riquinho magrelo disser que quer que o Miguel também participe (…).”

Abeô subia as escadas para a suíte quando a possibilidade insinuou-se em sua mente: como é que o ruivo saberia que o urso dos 49 mil era “delicioso”? Como é que saberia que o contraste da pele clara com a barba escura era o que deixava o cliente tão charmoso? E por que ele falara em “riquinho magrelo”? Poderia ter falado em “riquinho mimado”, “riquinho chato”, “riquinho metido” ou “riquinho” apenas. Porque diabos tinha falado em “magrelo”?

O africano sentiu os pés grudados aos degraus. Tinha medo. Medo de ter esperanças tolas e mais uma vez se frustrar, mas também medo de terminar de subir as escadas e, ao voltar ao quartinho, não mais encontrar o ruivo. Medo de que aquela bebedeira significasse algo mais, de passar o resto da vida imaginando se Aidan gostava ou não de ursos, como ele.

Já tinha deixado o brasileiro sozinho por um bom tempo. Era absolutamente irresponsável, rude até, deixá-lo esperando mais. Entretanto, conseguiria abraçar e beijar aquela pele clara de pelos escuros com tanta coisa rodando na cabeça?

Aquele aperto no peito só piorava, mesmo quando ele refez o caminho até o escritório onde fizera o telefonema. De lá, olhou uma última vez para a minúscula janela do quartinho. A luz ainda estava acesa, mas estava tudo quieto, muito quieto. Talvez o ruivo tivesse adormecido sem perceber, como fazia tantas vezes quando trabalhava muito. Por isso, Abeô aproximou-se devagar, com passos suaves em contraste ao peso imenso, amargo, no peito e na garganta.

A porta estava com uma minúscula fresta, o que não era comum. De repente, Abeô teve certeza de que nunca mais veria Aidan, uma certeza gelada, assustadora, que inundou o mundo e derreteu o chão. O africano se preparava para dar meia volta e nunca mais entrar naquele quarto quando ouviu soluços abafados. E com o coração em disparada estendeu a mão para a porta. Devagar, empurrou-a e vislumbrou o ruivo, mochila nas costas, abaixado ao lado do colchão em que ele, Abeô, dormia todas as noites. E mesmo sem querer acreditar, ele teve certeza que era sua a camiseta que o outro tinha na mão, a peça que ele aproximava do nariz antes de puxar o ar com força, longamente, como se tentasse roubar do tecido um pouco do próprio gogobear.

Quase imediatamente, Aidan enxugou as lágrimas e ergueu-se rápido, virando-se para a porta com o olhar duro e sério. E assim que seus olhos cruzaram com os de Abeô, toda aquela rigidez desmoronou. Principalmente quando as lágrimas começaram a descer nas bochechas negras e o africano perguntou:

— <<Eu não vou perguntar há quanto tempo você está mentindo pra mim. Não vou perguntar o que você está fazendo com essa mochila nas costas. Mas eu garanto que eu não saio daqui enquanto você não responder a uma pergunta muito curta e simples…>>

E enquanto Aidan baixava o rosto, trêmulo, os lábios de Abeô pronunciaram:

— <<Por quê?>>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Krory Vermillion

    Esperava por isso, na verdade pedia por esse desfecho mas, a maneira como você fez ele acontecer me tirou o ar quando li cada palavra, obrigado por cada capitulo, pela paixão que estou sentindo por cada um e pelo aperto no peito em aguardar ate a próxima publicação.

    • Osíris Reis

      Bem, de nada! Bom saber que o esforço está valendo a pena….

  • Vandson Carvalho

    porquê ? porquê? ai meu coração <3

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