Golem – Cap 26 – Primeiras confissões

Capítulo 26 – Primeiras confissões

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM e Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Guilherme Albuquerque passou o resto da noite na área VIP, incrédulo quanto às surpresas da noite. Sim, imaginava que o assalto fosse prejudicar os negócios, mas não que a bilheteria caísse tão abaixo da metade. Tinha feito toda uma campanha para divulgar, nas redes sociais, as novas medidas de segurança e as melhorias do clube. Falara das câmeras apontadas para a rua, daquelas na entrada, as da bilheteria, as do novo estacionamento privativo. Contara dos novos banheiros espelhados, do novo bar, das jacuzzi na sauna, do calabouço erótico, do cinema pornô 3D, e das novas cabines de espelho falso dos gogoboys. Sabia que precisaria também conter os burburinhos negativos, por isso havia comprado o silêncio dos poucos familiares dos funcionários mortos, e nenhum cliente tinha se ferido, exceto, é claro, pelo policial. Tinha financiado, principalmente, a discrição da mídia, e até contratado um hacker para controlar as informações na rede. Sob orientação do mesmo, permitira apenas os diálogos em redes sociais fechadas “para os clientes não se sentirem censurados”, mas agora já estava arrependido. Devia realmente ter seguido o próprio instinto e ter mandado varrer a história toda da internet.

Brincar de big brother, daquela forma, mais as reformas, tinha lhe custado todas as economias. O que era frustrante, já que via o tal Aidan preparar bem poucos drinks e a pista de dança praticamente vazia, com os gogo boys murchos pela falta de público. O calabouço também estava vazio, o mesmo servia para as saunas, as cabines, as salas escuras e até o cinema. E foi quando voltava dele para a pista de dança que um pequeno alvoroço lhe chamou atenção.

Parecia que todos os clientes tinham se aglomerado no banheiro. Mais que isso: urravam e aplaudiam no ritmo da música, o que significava que não era apenas a decoração espelhada que chamava atenção deles. Enquanto abria, com dificuldade, espaço entre os clientes, o empresário pensava que ali havia uma oportunidade que, definitivamente, não podia se dar ao luxo de perder. Se fosse apenas o ambiente, foda-se, transformaria toda a pista de dança num grande banheiro espelhado. Se, contudo, a dança de alguém fosse o centro das atenções naquele momento, Guilherme não deixaria opção para esse alguém além de tornar-se gogoboy residente no Thermopolis.

Quando, finalmente, conseguiu abrir espaço e enxergar alguma coisa, seu queixo caiu. Todos os convidados orbitavam ao redor do amigo negro e gorducho do barman. Tá, tinha que admitir que o negro sabia dançar, e muito, e que aquele macacão com as mangas amarradas ao redor da cintura ficava muito bem no africano. Até a camiseta enrolada no punho ficava bem! E havia uma alegria simples e serena em seu rosto, absolutamente contagiante, que dava todo um novo sentido à música do DJ. Os movimentos dos braços, quadris e pernas eram diferentes de qualquer coisa que já tinha visto numa boate. Eram primais, intensos, mas ainda assim despretensiosos do erotismo escrachado que costumava ver nos gogoboys. No lugar disso, havia uma sensualidade hipnótica naqueles movimentos que, à primeira vista, pareciam puramente lúdicos. Havia algo no jeito daquela barriga volumosa vibrar a cada passo, que lhe fazia desejar tocar, morder e…

Ok, tinha que admitir que, por mais estranho que fosse, o tal Abeô estava absolutamente gostoso dançando daquele jeito. E se conseguia fazer os clientes dançarem com ele, como moscas ao redor do mel, faria dele o novo gogoboy da Thermopolis, por mais estranha que a ideia fosse.

A noite seguiu divertida para todos ali no banheiro. A galera dançou praticamente sem parar junto a Abeô. De vez em quando um ou outro saía, tomava algum drink, mas logo voltava, louco para continuar de onde tinha parado. Abeô foi o único que não parou de dançar. Como na suíte VIP, seus músculos doíam e, mais no final, até queriam tremer de cansaço. Por várias vezes, chegou a sentir o piche tentando brotar de sua pele, mas se conteve. Cobrir-se de piche, cercado por desconhecidos, estava totalmente fora de questão. Mesmo assim, não queria parar de dançar. Os pés doíam, as pernas, costas e braços doíam, mas ele não iria parar. Tinha medo de perder aquele sentimento, aquela energia, aquela coragem de ser sincero consigo mesmo, com Rodrigo, com Aidan. Cada novo passo doía no fundo dos ossos, mas também gravava, mais fundo neles, aquela celebração e os motivos dela. Não lhe importava mais se Cristo ou Alá acreditavam que era uma ofensa, maldição ou doença. Tinha cansado de lutar consigo mesmo, de complicar as coisas, de tentar mudar e adaptar o que sentia. E se um bocado mais de dor era o preço para lembrar que não mais tentaria controlar por quem se apaixonava, que fosse. Se esse era o preço para lembrar que, quando apaixonado, só lhe restava arriscar na sinceridade, que assim fosse. Dançaria até a música acabar ou até desmaiar. O que acontecesse primeiro.

Abeô perdeu a conta de quantas músicas dançou. Quando o DJ anunciou, no microfone, que tocaria a última da noite, o africano dançou com ainda mais intensidade. E quando o último acorde soou, deixou-se cair de joelhos ali mesmo, no chão do banheiro, arfante, olhos fechados. Não prestou atenção à onda de aplausos e ovações. Deixou, devagar, a coluna dobrar-se para baixo, apoiando a testa um pouco à frente dos joelhos, braços estendidos para trás. Registrou os tapinhas dos brasileiros em suas costas e ombros, com o que pareciam felicitações. Ouviu a voz do senhor Albuquerque falar, em inglês, que tinha conquistado um novo emprego, mas que por ora descansasse, conversariam na noite seguinte.

Pouco depois veio a voz do capitão Rodrigo:

— <<É… não sou mais o único a saber o quanto você dança bem.>>

Abeô ergueu o tronco devagar, mas manteve os olhos baixos. Ouviu os passos do policial da porta até a sua frente, os tênis neon logo abaixo de seus olhos. Sentiu a mão do outro pousar em sua cabeça, o afago tão agradável quanto o de sua irmãzinha, mas também tão sedutor quanto.

— <<Vamos pra minha casa?>> – o brasileiro perguntou.

Um nó inchou dentro da garganta do africano. Parte dele queria gritar logo o que tinha ensaiado mentalmente em cada música que dançara aquela noite, mas outra temia muita coisa. Tinha medo da reação do brasileiro, medo de estar jogando fora sua última oportunidade. Medo de que, com a notícia desagradável, o policial deixasse de fechar os olhos para a semelhança entre ele e o golem da noite do tiroteio. Temia até que Rodrigo percebesse o jeito como ele olhava para Aidan, temia…

— <<Não é justo com você. Nem comigo.>>

Houve um período de silêncio, apenas as gotas de algumas torneiras ressoando no banheiro. Abeô fitava as próprias mãos apoiadas no chão, o rosto angustiado parcialmente refletido na pedra escura. O que estava esperando afinal? Que ficasse mais fácil pronunciar o que precisava dizer? Que ficasse menos difícil para o outro ouvir aquilo? Que seus sentimentos mudassem em relação ao brasileiro? A mão dele, parada sobre sua cabeça raspada era o único sinal que precisava para saber que não mudaria. Não havia aquele calor que o derretia por dentro como o toque de Aidan em seu ombro, antes da massagem, algumas noites atrás. O que lhe lembrava que, se aquela conversa era difícil, a próxima ainda seria muito mais.

O africano ergueu os olhos devagar, encarando os do brasileiro, cinzentos e inquietos. Rodrigo mexia os lábios nervosamente, ora tentando articular alguma palavra, ora tremendo-os de leve, ou fechando-os com força.

— <<Você é um homem muito bacana…>> – Abeô murmurou.

— <<Mas…>>

O faxineiro não conseguiu evitar baixar o rosto mais uma vez, mas ergueu-o em seguida, fitando os olhos do outro:

— <<Mas eu não consigo me sentir atraído por você. Não o suficiente para levarmos isso à frente.>>

O capitão Rodrigo meneou pequenos “sim” com a cabeça, tentando esboçar sorrisos que não disfarçavam a tristeza. Ele respirou profundamente várias vezes, tentando articular a fala. Um ou dois minutos depois, desistiu. Saiu sem dizer nada, sem olhar para trás.

A primeira conversa difícil da noite tinha terminado. Abeô não conseguia evitar sentir certa culpa, mesmo sabendo que tinha evitado sofrimentos maiores depois. Talvez porque, no fim das contas, sabia que dali a alguns instantes estaria na mesma situação do brasileiro. Mesmo assim, ergueu-se e foi até uma das pias. Lavou o rosto e a cabeça, secando-os com toalhas de papel. Vestiu a camiseta amassada e olhou-se no espelho, acariciando a barba. Ainda precisava limpar o banheiro, mas só o faria depois. Não podia correr o risco que o outro dormisse antes de conversarem.

O africano apagou as luzes do banheiro e saiu. Não deixaria brecha para a indecisão. Por mais que doesse, precisava, realmente, de uma resposta direta. E nada, absolutamente nada, o impediria de obtê-la naquele amanhecer.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Finalmente Golem retornou em grande estilo! Excelente capítulo!!! Ansioso para ver como será a conversa com o Aidan.

    • Osíris Reis

      Que bom que está gostando, moço! E pode deixar, vou fazer de tudo pra ansiedade valer a pena! ^_^