Capítulo 54 – A verdadeira face do inimigo – Parte 1

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Lava parecia borbulhar dentro da cabeça, braços e pernas de Abeô. Com os punhos cerrados, mesmo contra sua vontade, corria em direção a Aidan. Era como se, em meio a toda dor que o invadia, os membros tivessem vida própria. Ainda estava surpreso demais tentando entender aquilo, quando ouviu uma voz feminina gritar em inglês:

— <<…bra-se …che! Agora!>>

O africano reconheceu a voz de Norma, a fantasma transparente que falara com ele quando o demônio atacara o ruivo. Por instinto, tentou virar o rosto em direção ao som, mas nem isso conseguiu. Por um lado, parecia que tinha perdido toda a força nos braços e pernas. Por outro, ainda sentia a potência do impacto de cada pé no chão, a intensa pressão dos dedos na palma das mãos. Aquela força, entretanto, não parecia ser sua. Ao mesmo tempo, sentia ossos, articulações, tendões e pele doerem. Sabia que havia imensa força em seus músculos, mas nunca a ponto de machucar a si mesmo.

— <<Cub… de pi…! É sua… ca chan…!>> – Norma insistia.

Desde o começo, Abeô sabia que corria para Aidan. A aproximação, no entanto, deixava cada vez mais evidente algo que ele não queria encarar. Aquela força invisível que o possuía estava totalmente focada no ruivo. E a julgar pelo crânio esmagado do soldado dentro do encouraçado… o africano nem queria imaginar.

O tatuado ainda se concentrava em verter areia sobre as fraturas fumegantes nos chifres do demônio. Abeô tentou gritar, avisar o amado de alguma forma, mas a garganta não obedeceu. Os pés golpearam o chão com mais força, impulsionando o negro num longo salto. Não era difícil prever onde sua trajetória terminaria, e o braço direito dolorosamente puxado para trás deixava tudo ainda mais claro.

Nos próximos segundos, o africano cairia sobre Aidan e golpearia o que quer que encontrasse, com uma força que nem sabia possuir.

A imagem intermitente de Norma surgiu entre os dois amantes, palmas subindo e descendo como se tentasse colocar um capacete enquanto gritava:

— <<… che, pi… Abe… colo…  piche!>>

O conselho da mulher fez sentido tão rapidamente quanto um relâmpago do demônio. O africano concentrou, então, toda a força que não conseguia exercer com os músculos para exteriorizar o piche que se escondia sob a pele. Então, tão repentinamente quanto surgiu, a força que lhe roubava o controle dos músculos desapareceu. O africano aterrisou no exato instante em que Aidan, assustado, virou-se. E com um poderoso grito mental, o golem de piche interrompeu o soco a milímetros do rosto do ruivo. Este, entretanto, não fitava os olhos de Abeô. Não pareceu buscar qualquer explicação, nem pareceu assustado quando viu o punho do namorado tão perto do nariz. Em vez disso, seus olhos passeavam, curiosos, ao redor do piche, murmurando:

— <<O piche… blinda sua mente!>>

Imediatamente, a areia e o asfalto cederam. Num piscar de olhos, o golem e o demônio afundaram no solo. O primeiro surpreendeu-se ao perceber que estava enterrado até o peito e que o segundo, inconscientemente, tinha sido soterrado. Aidan, felizmente, executou uma sequência de piruetas para trás, o suficiente para colocá-lo na beirada da cratera quando a areia parou. O ruivo não relaxou, e foi só por isso que conseguiu desviar-se dos tiros disparados do céu. Centenas de estrondos pareciam cercá-lo do céu enquanto igual quantidade de projéteis voavam, de todos os lados, em sua direção. Por sua vez, parte dos milhares de olhos de Abeô permitiam-lhe ver que o namorado não tinha sido atingido, e outra parte buscava, no alto, as fontes dos disparos. E o que viu foi tão assustador quanto inesperado.

A vinte e cinco metros do chão, cinco homens e duas mulheres com roupas militares negras, coletes à prova de balas, capacetes e sobretudos voavam em círculo ao redor de Aidan. Todos portavam metralhadoras e, na maior parte do tempo, disparavam contra o ruivo. A cada segundo, um deles parava de metralhar para atirar uma pedra invisível em direção ao Assassino de Deuses. Cada um daqueles gestos, aparentemente inúteis, tinha efeitos catastróficos. Abeô viu nitidamente quando, um pouco acima do círculo dos atiradores, num piscar de olhos, dezenas de lanças metálicas se materializaram e choveram sobre o ruivo. Mal Aidan terminou as acrobacias que o salvaram das lanças e metralhadoras, uma gigantesca gaiola materializou-se e caiu sobre ele. O ruivo correu de volta para as lanças, pegou uma delas e continuou a correr. Escapou por pouco da armadilha, mesmo assim atirou a lança contra o homem que preparava sua pedra invisível. Uma teia de luz se formava entre os atacantes, mas quando o homem juntou as palmas das mãos em frente à lança, aquela energia se concentrou para deter o ataque.

Tudo aconteceu tão rápido que só nesse instante o golem teve presença de espírito para agir. Aqueles eram magos, sem dúvida. O que não fazia muito sentido já que, segundo Aidan lhe dissera, Assassinos de Deuses impediam magia perto de si. De qualquer forma, não era hora para pensar naquilo. Enquanto o namorado se desviava das balas e tomava outra lança, Abeô tentava se desenterrar. Um esforço vão, já que quanto mais abria a areia mais seu corpo afundava. Um pouco distante, o ruivo continuava a desviar-se dos tiros, mas conseguira acertar a lança no peito de uma das mulheres, que já despencava para o chão. O tatuado, imediatamente, pulou para ela, mas novos disparos das metralhadoras obrigaram-no a parar.

Ao redor de Abeô, a familiar espiral de relâmpagos desceu do céu. Num piscar de olhos, o africano percebeu-se voar acima das nuvens, ainda cercado de areia, e aterrissar em segurança próximo à carcaça do carro. Assim que os pés tocaram o asfalto, a areia ao redor espalhou-se revelando o demônio, arfante, deitado no chão. Apesar da agonia, parecia melhor. O golem, então, não se deteve nele. Correu até o carro e o atirou em direção aos magos.

Três homens e a mulher restante perceberam o perigo e voaram mais alto. Os outros homens ainda viraram, tentando entender do que os outros fugiam, mas não tiveram tempo de escapar. Abeô não soube se morreram com o impacto ou com a queda, mas não se importava. Tinha se tornado  assassino e o seria quantas vezes fosse necessário para salvar Aidan.

Novos tiros foram ouvidos do solo, em quatro sequências curtas. Quando Abeô viu, outros três magos caíam, entre eles a segunda mulher que, apesar do tiro no ombro, ainda recitava latim e fazia gestos rituais em direção ao chão.

O último dos magos imediatamente voou em fuga. Com os múltiplos olhos do piche, o africano viu Aidan, nu e com metralhadora em punho, correr para o carro que Abeô tentara parar. A família dentro do veículo tinha saído do torpor e, com as mãos para o alto, desembarcavam. Enquanto faziam isso, o ruivo gritou, em hausa:

— <Pegue-o e entre no carro!>

O africano temeu antes de recolher o piche, mas sabia que, de outra forma, não poderia tocar o demônio sem feri-lo ainda mais. Felizmente, voltar à aparência humana não o fez perder domínio do corpo. Sem problemas pegou o demônio semiconsciente e carregou-o para o carro.

Entrar no pequeno veículo foi mais difícil. No fim das contas, precisou colocar o estranho no banco do passageiro e enfiar-se no banco de trás, deitado, cercado de lençóis, sacolas plásticas, uma bola de couro e um chapéu. Pouco depois, Aidan assumiu o lugar do motorista e disse, apressado:

— <Jogue três maços de dinheiro pela janela.>

O ruivo deu a partida e o africano jogou os maços. Enquanto o carro derrapava, antes de continuar a viagem, Abeô viu o pai da família recolher o dinheiro.

Olhando pelo retrovisor, Aidan perguntou:

— <Você está bem?>

— <Sim. Confuso, mas bem. Aqueles eram magos?>

Aidan assentiu:

— <Exato. Foram eles que dominaram seu corpo antes de você se cobrir de piche. Foi muita sorte sua habilidade quântica também lhe blindar a mente. Você pode colocar aquele chapéu e o lençol cobrindo nosso aliado?>

Enquanto o ruivo tomava uma estrada de terra, o africano tentava assimilar a nova informação e tentava esconder, da melhor maneira possível, a aparência inumada do estranho. Assim que terminou, a imagem tremeluzente de Norma surgiu como se estivesse sentada aos pés de Abeô.

— <<Diga que …cê está me vendo.>> – murmurou – <<Di… que sou prisionei… dos seguidores de Monus, mas que posso inform… quando vão atacar e as posições deles.>>

A voz e a imagem dela ainda falhavam, mas bem menos. E como, definitivamente, era um ótimo negócio saber de que lado vinha o inimigo, o africano não demorou a falar, em inglês:

— <<Estou vendo uma mulher chamada Norma. Ela diz que é prisioneira dos encouraçados e pode nos dizer onde eles estão e quando vão atacar. Foi ela que enviou o demônio para me salvar quando fui pego pelo avião.>>

Aidan olhou para Abeô, pelo retrovisor, e disse:

— <<Obrigado, Norma. Por que estão mantendo você presa, e como conseguiu nos contatar?>>

Abeô olhou para o vazio acima de suas pernas por vários instantes antes de falar:

— <<Ela também é autônoma, como nós. O talento dela é rastrear o potencial quântico de cada pessoa, mesmo à distância. Ela diz que isso lhe permitiu descobrir telepatia e magia ainda muito pequena, que foi quando os magos tentaram sequestrá-la. Ela conseguiu fugir até a adolescência, quando prenderam o cérebro dela numa máquina, e isso deu para eles o poder de rastrear autônomos no mundo todo. Ela diz que a telepatia dela é muito mais potente e discreta que a de qualquer mago, e por isso ela não demorou a aprender sobre o pós-morte e você. Quando tentaram prender o demônio, que ela diz se chamar… “Caon”, a facilidade dele em captar energias possibilitou que ele a percebesse mais fácil e ela o ajudasse a fugir.>>

— Cão? – o ruivo indagou, em português.

— <<Ela diz que sim.>> – o africano respondeu – <<Segundo ela, em português é alguma mistura de cachorro e diabo. Ela quer saber se vamos ajudá-la a escapar.>>

— <<Ainda não sei, Abeô.>> – Aidan falou para o retrovisor – <<Vamos resgatar sua irmã e ver como “Cão” se recupera, antes de decidirmos. Fora isso, preciso encontrar a Assassina de Deuses que falta, pelo menos assim vocês terão alguma ajuda para resgatá-la depois que eu morrer. Por enquanto, durma um pouco e peça para ela te avisar se estiverem chegando muito perto.>>

Abeô sentiu um nó na garganta quando o namorado falou da própria morte, mas não comentou nada. Apesar do quanto tinha dormido no dia anterior, ainda se sentia cansado e muito sonolento. Mal percebeu quando dormiu.

Acordou horas depois com Aidan chamando seu nome. Já era dia. O carro tinha voltado ao asfalto e acabavam de entrar em Manaus. O ruivo indagou onde encontrariam o mercenário que resgataria sua irmã, e o africano recitou o endereço que tinha decorado há meses. O tatuado pediu que lhe passasse a última muda de roupas que tinha e, mesmo dirigindo, vestiu-se numa sequência de contorcionismos impensável para qualquer outra pessoa.

O carro contornou Manaus até uma área afastada, do outro lado da cidade. Entraram numa estrada de terra e avistaram uma casa e tratores. Assim que se aproximaram, Abeô viu a pequena Shanumi, de mãos dadas a um homem, tentar correr em sua direção. O homem a conteve. Não a soltaria até pegar a segunda parte do dinheiro, o que não estava ruim para o africano. Contudo, ver pelo retrovisor Aidan pálido e boquiaberto era algo que Abeô realmente não esperava.

— <O que aconteceu?> – indagou.

Aidan murmurou algo em sua língua nativa, ininteligível para o negro. Abeô insistiu:

— <O que está acontecendo, Aidan?>

— <Desculpa, Abeô. Eu não tinha como saber… A idade não batia, eu não planejei, eu não tinha como saber…>

— <Saber o quê?!>

Aidan virou-se para trás, olhos mareados, fixos nos do namorado enquanto murmurava:

— <Que a sua irmãzinha… é a Assassina de Deuses que eu procurava!>

 

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