Golem – Capítulo 55 – A verdadeira face do inimigo – Parte 2

Capítulo 55 – A verdadeira face do inimigo – Parte 1

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Obs: Péra! Pára tudo! Você ainda não conhece Golem, a saga super megalomaníaca que mistura literatura, tesão ursino e toda uma reconstrução imaginativa do mundo, do universo e tudo mais? Ficou sem ler algum dos capítulos da primeira temporada? Então não perca tempo: clique AQUI , visite nosso ÍNDICE e comece a aproveitar  (eu disse ) essa história que já está dando muito o que falar entre os ursinhos aqui do Bearnerd. Você pode ler tanto aqui no Bearnerd (desde que você nos ajude compartilhando, pelo pagsocial,  que você está lendo Golem) ou pode adquirir o seu único e exclusivo pdf (com a primeira temporada completinha), todo formatado para ler no celular, pela bagatela de R$ 3,95 , na lojinha deste autor que vos fala (que também tem outros livros meus, impressos, para seu deleite).

 

Próximo à casa, o homem segurava o pulso de Shanumi. Aidan havia parado o carro a uns vinte metros deles. Naquele momento, tinha o corpo voltado para o namorado, olhos molhados, fixos nos dele enquanto murmurava:

— <Eu não sabia, Abeô. Juro que não sabia.>

Abeô repetia mentalmente que tinha ouvido errado mas, no fundo, sabia exatamente o que o ruivo dissera. Shanumi era como Aidan. Tinha os mesmos inimigos que ele. Seria perseguida como ele. Num piscar de olhos, relembrou cada situação em que vira o tatuado próximo à morte. Viu o arpão das serpentes metálicas perfurar-lhe a barriga. Contudo, não era mais Aidan que via trespassado. O corpo do qual emergia a lança se tornara menor, magro, com pele negra e ossos frágeis. Tão rápida quanto surgira, a imagem foi substituída pela do ruivo, apontando uma pistola para o próprio queixo. Logo em seguida, não era mais o ruivo que se preparava para estourar os próprios miolos: era a irmã caçula de Abeô, olhinhos arregalados, arfante, a mão menor que a própria arma. Assim como Aidan tivera que fugir de metralhadoras e constructos de magos voadores, o africano via a menina saltando entre os tiros e desviando-se como conseguia. E algo dentro dele gritava que, quando não conseguisse salvá-la, ela também posicionaria a testa bem em frente a uma bala.

— <Você só pode estar mentindo.> – o gigante respondeu com a voz embargada – <Ou estar enganado, ela é muito nova, eu não…>

— <Eu queria estar mentindo. Queria estar errado, mas… É ela, sem dúvida é ela!>

Ainda incrédulo, Abeô voltou o olhar para Shanumi. Ela mal conseguia se desvencilhar de um brasileiro comum. Como é que o ruivo queria que aqueles bracinhos de palito matassem Deuses?!

Aos pés do africano, a imagem de Norma comentou, em inglês:

— <<Não sei o que …cês est…vam discut…ndo na sua língua materna, nem porque voc… imaginou sua irmã se matando, mas… eu não consig… ler a mente dela!>>

O africano não disse nada. Apenas virou o rosto em direção à imagem tremeluzente. A mulher continuou:

— <<A únic… outra pessoa no mundo com quem isso …contece é o seu namor…do.>>

Qualquer esperança de que sua irmã não fosse a alma que Aidan procurava ruiu naquele momento. Na frente do pequeno carro, Aidan desferiu, bufando, pequenos socos no volante. Indiferente, o tal Cão ainda dormia, coberto pelo chapéu e o lençol. Lá fora, o olhar da menina rapidamente se tornava aflito enquanto ela usava mais força para tentar se desvencilhar.

— <Vá buscá-la, Abeô.> – o ruivo murmurou, em hausa – <Depois a gente conversa sobre o que isso vai significar na vida dela.>

— <Não.> – Abeô rosnou enquanto as lágrimas lhe surgiam – <Eu já sei que isso significa que se os seguidores de Monus souberem dela, vão tentar matá-la também. Que vão mandar os encouraçados atrás dela, que ela vai ter que se desviar de metralhadoras, que…>

— <Eu vou ter que treiná-la, gigantão. Nos dois meses que me restam, preciso treiná-la.>

O tom com que Aidan pronunciou aquelas palavras era, no mínimo, sombrio. Sem se dar conta, o africano começou a imaginar como diabos seria o treinamento de um Assassino de Deuses. Será que incluía fazer malabarismos com cem facas? Desviar-se de mil flechas com os olhos fechados? Ou o treinamento era feito com dezenas de metralhadoras disparadas contra o aluno ao mesmo tempo? Fosse o que fosse, não parecia bom. E soava totalmente impossível que o ruivo ensinasse tudo o que sabia em apenas dois meses.

Do lado de fora, a menina gritava pelo irmão, desesperada. O brasileiro a continha sem dificuldade, mas era crescente a irritação com que olhava para o nigeriano. Ainda retribuindo o olhar, Abeô indagou:

— <Quanto tempo o seu treinamento levou?>

Enquanto enxugava as lágrimas e desviava o olhar para a janela do motorista, o ruivo bufou:

— <Apenas pegue a mochila com o dinheiro e vá buscar sua irmã. Agora não é hora de…>

— <Quanto tempo?>

Pelo retrovisor, os olhos verdes do tatuado cruzaram-se rapidamente com os do africano enquanto respondia:

— <Quinze anos, mas pode ser realizado em bem menos tempo.>

— <Você quer que Shanumi aprenda quinze anos em dois meses?>

— <Ela já fez isso outras vezes.>

— <Em dois meses?>

— <Em seis.>

Abeô franziu as sobrancelhas, desconfiado. Algo não cheirava bem naquela história, então perguntou:

— <Então, por que seu treinamento não foi feito em seis meses também? Ou dois?>

Pensativo, Aidan limitou-se a observar a pequena cunhada chorar lá fora. O nigeriano insistiu:

— <Por quê?>

O tatuado respirou fundo antes de novamente virar o corpo para o namorado e responder:

— <Eu não vou mentir dizendo que vai ser fácil ou agradável ensinar tudo em dois meses. Mas agora você precisa parar de fazer perguntas e buscar…>

— <Fácil e agradável? Então você quer dizer que vai ser difícil e… doloroso?>

O ruivo calou-se, novamente observando a paisagem da janela do motorista.

— <Quão doloroso?> – o africano insistiu. Como o outro não esboçou qualquer reação, decidiu mudar a pergunta para o inglês – <<Eu perguntei quão doloroso vai ser reduzir o treinamento da minha irmã para dois meses.>>

Sem olhar para Abeô, Aidan engatou o carro e aproximou-se, devagar do casarão. Apreensiva, Norma indagou com sua voz intermitente:

— <<Não é de treinam…nto de Assassin… de Deuses que vocês es… falando, é?>>

Abeô nem olhou para a imagem tremeluzente antes de novamente tentar extrair algo do namorado:

— <<Por que diabos você tem esses segredinhos de merda que…?>>

Independente do que o africano falava, a mulher transparente continuou:

— <<Porque se for, você não pode deixar ele fazer isso de novo.>>

Aquilo definitivamente captou a atenção de Abeô. Aidan já tinha parado o carro defronte a casa e tomado, sob as pernas do africano, a sacola de dinheiro. Do lado de fora, na janela do outro lado de Norma, Abeô vislumbrou a mãozinha de Shanumi colada ao vidro, as bochechas molhadas e os olhos confusos da menina tentando entender o que acontecia com o irmão. Ele, entretanto, estava mais atento ao que Norma dizia:

— <<O último mordomo dele, Henwood, passou os últimos anos de vida sendo interrogado aqui. Eu li na mente dele que da última vez que Aidan acelerou o treinamento de uma Assassina de Deuses, os cérebros dos dois quase entraram em colapso…>>

Boquiaberto, o africano correu os olhos entre a irmã e Aidan, que já tinha saído do carro e se apresentava ao brasileiro. O gigante saiu do veículo o mais rápido que conseguiu e a irmã lhe abraçou as coxas. Indiferente, o ruivo passava para o outro homem uma boa parte do dinheiro da mochila. Norma continuava a falar, mas Abeô não conseguia prestar atenção. Bastava-lhe saber que se deixasse Aidan seguir seus planos, provavelmente ficaria sem as duas pessoas que mais amava na vida.

O africano se sentia, definitivamente, o mais azarado dos seres humanos. Que mais poderia dizer daquela coincidência bizarra? Com tanta gente no mundo, logo ele, irmão de uma futura Assassina de Deuses, encontrara e se apaixonara pelo outro único Assassino de Deuses restante no planeta?

A não ser, é claro, que não fosse coincidência. A cada vez que alternava o olhar entre a pequena e o ruivo, o africano se sentia mais e mais idiota. Tinha sido usado, desde o começo. A única explicação possível era que Aidan sabia de tudo. Afinal, se conseguia reconhecer uma Assassina não treinada só de olhar, nada garantia que não pudesse fazer o mesmo com o irmão dela. No final das contas, tudo que Abeô conseguia formular era que o ruivo o seduzira com o propósito de aproximar-se de sua irmã. Por que mais alguém tão bonito, tão rico, tão poderoso e inteligente se interessaria por um Zé Ninguém como ele?

O africano tinha certeza de que, no fundo, Aidan não estava doente coisa nenhuma. Provavelmente, naquele momento em que o tinha pego cheirando sua camiseta, no Thermopolis, o ruivo estava apenas confirmando que o negro era irmão da alma que ele procurava. E tinha sido apenas por isso que inventara aquela história de morrer em dois meses.

Nada daquilo tinha importância naquele momento, entretanto. Abeô já tinha aceitado, por anos, a ideia de que um lixo humano como ele jamais seria amado de verdade. O que não podia, no entanto, aceitar, era que alguém, qualquer pessoa, colocasse a vida de sua irmãzinha em risco. Ninguém, nem mesmo Aidan. Foi por essas certezas que o africano, antes que perdesse a coragem, pegou a pequena Shanumi no colo e, com toda a força, pulou centenas de metros para dentro da mata.

Ouvir o ruivo gritar aquele “não” desesperado doeu como uma bala dos encouraçados direto no peito. O choro assustado da pequena, em seus braços, fez com que ele ao mesmo tempo lamentasse e tivesse certeza de que fazia a coisa certa. Ela estava assustada agora, mas ele fazia isso para evitar sofrimentos muito maiores no futuro. Ela era a única da família que chorara quando tinham tentado linchá-lo. Não podia deixar que ela corresse riscos, muito menos por alguém que tinha mentido para ele por tanto tempo.

No ponto mais alto do salto, entretanto, a visão de Abeô foi totalmente tomada pelas trevas. E assim que ele temeu pelo quanto a irmãzinha se feriria quando aterrisasse às cegas, uma mulher loira começou a brilhar na escuridão. E, flutuando na direção dele, ela murmurou, triste e cansada:

— <<Se você está vendo esta mensagem, é porque as coisas deram muito errado a ponto de você tentar impedir meu treinamento.>>

Comentários

Facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.