Capítulo 55 – A verdadeira face do inimigo – Parte 1

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Ainda não conhece Golem? Então comece acessando AQUI.

Próximo à casa, o homem segurava o pulso de Shanumi. Aidan havia parado o carro a uns vinte metros deles. Naquele momento, tinha o corpo voltado para o namorado, olhos molhados, fixos nos dele enquanto murmurava:

— <Eu não sabia, Abeô. Juro que não sabia.>

Abeô repetia mentalmente que tinha ouvido errado mas, no fundo, sabia exatamente o que o ruivo dissera. Shanumi era como Aidan. Tinha os mesmos inimigos que ele. Seria perseguida como ele. Num piscar de olhos, relembrou cada situação em que vira o tatuado próximo à morte. Viu o arpão das serpentes metálicas perfurar-lhe a barriga. Contudo, não era mais Aidan que via trespassado. O corpo do qual emergia a lança se tornara menor, magro, com pele negra e ossos frágeis. Tão rápida quanto surgira, a imagem foi substituída pela do ruivo, apontando uma pistola para o próprio queixo. Logo em seguida, não era mais o ruivo que se preparava para estourar os próprios miolos: era a irmã caçula de Abeô, olhinhos arregalados, arfante, a mão menor que a própria arma. Assim como Aidan tivera que fugir de metralhadoras e constructos de magos voadores, o africano via a menina saltando entre os tiros e desviando-se como conseguia. E algo dentro dele gritava que, quando não conseguisse salvá-la, ela também posicionaria a testa bem em frente a uma bala.

— <Você só pode estar mentindo.> – o gigante respondeu com a voz embargada – <Ou estar enganado, ela é muito nova, eu não…>

— <Eu queria estar mentindo. Queria estar errado, mas… É ela, sem dúvida é ela!>

Ainda incrédulo, Abeô voltou o olhar para Shanumi. Ela mal conseguia se desvencilhar de um brasileiro comum. Como é que o ruivo queria que aqueles bracinhos de palito matassem Deuses?!

Aos pés do africano, a imagem de Norma comentou, em inglês:

— <<Não sei o que …cês est…vam discut…ndo na sua língua materna, nem porque voc… imaginou sua irmã se matando, mas… eu não consig… ler a mente dela!>>

O africano não disse nada. Apenas virou o rosto em direção à imagem tremeluzente. A mulher continuou:

— <<A únic… outra pessoa no mundo com quem isso …contece é o seu namor…do.>>

Qualquer esperança de que sua irmã não fosse a alma que Aidan procurava ruiu naquele momento. Na frente do pequeno carro, Aidan desferiu, bufando, pequenos socos no volante. Indiferente, o tal Cão ainda dormia, coberto pelo chapéu e o lençol. Lá fora, o olhar da menina rapidamente se tornava aflito enquanto ela usava mais força para tentar se desvencilhar.

— <Vá buscá-la, Abeô.> – o ruivo murmurou, em hausa – <Depois a gente conversa sobre o que isso vai significar na vida dela.>

— <Não.> – Abeô rosnou enquanto as lágrimas lhe surgiam – <Eu já sei que isso significa que se os seguidores de Monus souberem dela, vão tentar matá-la também. Que vão mandar os encouraçados atrás dela, que ela vai ter que se desviar de metralhadoras, que…>

— <Eu vou ter que treiná-la, gigantão. Nos dois meses que me restam, preciso treiná-la.>

O tom com que Aidan pronunciou aquelas palavras era, no mínimo, sombrio. Sem se dar conta, o africano começou a imaginar como diabos seria o treinamento de um Assassino de Deuses. Será que incluía fazer malabarismos com cem facas? Desviar-se de mil flechas com os olhos fechados? Ou o treinamento era feito com dezenas de metralhadoras disparadas contra o aluno ao mesmo tempo? Fosse o que fosse, não parecia bom. E soava totalmente impossível que o ruivo ensinasse tudo o que sabia em apenas dois meses.

Do lado de fora, a menina gritava pelo irmão, desesperada. O brasileiro a continha sem dificuldade, mas era crescente a irritação com que olhava para o nigeriano. Ainda retribuindo o olhar, Abeô indagou:

— <Quanto tempo o seu treinamento levou?>

Enquanto enxugava as lágrimas e desviava o olhar para a janela do motorista, o ruivo bufou:

— <Apenas pegue a mochila com o dinheiro e vá buscar sua irmã. Agora não é hora de…>

— <Quanto tempo?>

Pelo retrovisor, os olhos verdes do tatuado cruzaram-se rapidamente com os do africano enquanto respondia:

— <Quinze anos, mas pode ser realizado em bem menos tempo.>

— <Você quer que Shanumi aprenda quinze anos em dois meses?>

— <Ela já fez isso outras vezes.>

— <Em dois meses?>

— <Em seis.>

Abeô franziu as sobrancelhas, desconfiado. Algo não cheirava bem naquela história, então perguntou:

— <Então, por que seu treinamento não foi feito em seis meses também? Ou dois?>

Pensativo, Aidan limitou-se a observar a pequena cunhada chorar lá fora. O nigeriano insistiu:

— <Por quê?>

O tatuado respirou fundo antes de novamente virar o corpo para o namorado e responder:

— <Eu não vou mentir dizendo que vai ser fácil ou agradável ensinar tudo em dois meses. Mas agora você precisa parar de fazer perguntas e buscar…>

— <Fácil e agradável? Então você quer dizer que vai ser difícil e… doloroso?>

O ruivo calou-se, novamente observando a paisagem da janela do motorista.

— <Quão doloroso?> – o africano insistiu. Como o outro não esboçou qualquer reação, decidiu mudar a pergunta para o inglês – <<Eu perguntei quão doloroso vai ser reduzir o treinamento da minha irmã para dois meses.>>

Sem olhar para Abeô, Aidan engatou o carro e aproximou-se, devagar do casarão. Apreensiva, Norma indagou com sua voz intermitente:

— <<Não é de treinam…nto de Assassin… de Deuses que vocês es… falando, é?>>

Abeô nem olhou para a imagem tremeluzente antes de novamente tentar extrair algo do namorado:

— <<Por que diabos você tem esses segredinhos de merda que…?>>

Independente do que o africano falava, a mulher transparente continuou:

— <<Porque se for, você não pode deixar ele fazer isso de novo.>>

Aquilo definitivamente captou a atenção de Abeô. Aidan já tinha parado o carro defronte a casa e tomado, sob as pernas do africano, a sacola de dinheiro. Do lado de fora, na janela do outro lado de Norma, Abeô vislumbrou a mãozinha de Shanumi colada ao vidro, as bochechas molhadas e os olhos confusos da menina tentando entender o que acontecia com o irmão. Ele, entretanto, estava mais atento ao que Norma dizia:

— <<O último mordomo dele, Henwood, passou os últimos anos de vida sendo interrogado aqui. Eu li na mente dele que da última vez que Aidan acelerou o treinamento de uma Assassina de Deuses, os cérebros dos dois quase entraram em colapso…>>

Boquiaberto, o africano correu os olhos entre a irmã e Aidan, que já tinha saído do carro e se apresentava ao brasileiro. O gigante saiu do veículo o mais rápido que conseguiu e a irmã lhe abraçou as coxas. Indiferente, o ruivo passava para o outro homem uma boa parte do dinheiro da mochila. Norma continuava a falar, mas Abeô não conseguia prestar atenção. Bastava-lhe saber que se deixasse Aidan seguir seus planos, provavelmente ficaria sem as duas pessoas que mais amava na vida.

O africano se sentia, definitivamente, o mais azarado dos seres humanos. Que mais poderia dizer daquela coincidência bizarra? Com tanta gente no mundo, logo ele, irmão de uma futura Assassina de Deuses, encontrara e se apaixonara pelo outro único Assassino de Deuses restante no planeta?

A não ser, é claro, que não fosse coincidência. A cada vez que alternava o olhar entre a pequena e o ruivo, o africano se sentia mais e mais idiota. Tinha sido usado, desde o começo. A única explicação possível era que Aidan sabia de tudo. Afinal, se conseguia reconhecer uma Assassina não treinada só de olhar, nada garantia que não pudesse fazer o mesmo com o irmão dela. No final das contas, tudo que Abeô conseguia formular era que o ruivo o seduzira com o propósito de aproximar-se de sua irmã. Por que mais alguém tão bonito, tão rico, tão poderoso e inteligente se interessaria por um Zé Ninguém como ele?

O africano tinha certeza de que, no fundo, Aidan não estava doente coisa nenhuma. Provavelmente, naquele momento em que o tinha pego cheirando sua camiseta, no Thermopolis, o ruivo estava apenas confirmando que o negro era irmão da alma que ele procurava. E tinha sido apenas por isso que inventara aquela história de morrer em dois meses.

Nada daquilo tinha importância naquele momento, entretanto. Abeô já tinha aceitado, por anos, a ideia de que um lixo humano como ele jamais seria amado de verdade. O que não podia, no entanto, aceitar, era que alguém, qualquer pessoa, colocasse a vida de sua irmãzinha em risco. Ninguém, nem mesmo Aidan. Foi por essas certezas que o africano, antes que perdesse a coragem, pegou a pequena Shanumi no colo e, com toda a força, pulou centenas de metros para dentro da mata.

Ouvir o ruivo gritar aquele “não” desesperado doeu como uma bala dos encouraçados direto no peito. O choro assustado da pequena, em seus braços, fez com que ele ao mesmo tempo lamentasse e tivesse certeza de que fazia a coisa certa. Ela estava assustada agora, mas ele fazia isso para evitar sofrimentos muito maiores no futuro. Ela era a única da família que chorara quando tinham tentado linchá-lo. Não podia deixar que ela corresse riscos, muito menos por alguém que tinha mentido para ele por tanto tempo.

No ponto mais alto do salto, entretanto, a visão de Abeô foi totalmente tomada pelas trevas. E assim que ele temeu pelo quanto a irmãzinha se feriria quando aterrisasse às cegas, uma mulher loira começou a brilhar na escuridão. E, flutuando na direção dele, ela murmurou, triste e cansada:

— <<Se você está vendo esta mensagem, é porque as coisas deram muito errado a ponto de você tentar impedir meu treinamento.>>