Capítulo 34 – De prazer e culpa: contagem regressiva

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: O termo “Cum” (Gozo, gozar, usando tanto para sêmen quanto para orgasmo), aos ouvidos de quem não conhece tal gíria, geralmente é entendido como “Come” (vir, chegar).

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Como nas duas últimas semanas, Abeô passava mais uma tarde sentado no pequeno colchão do quartinho, o telefone ao lado. Já havia parado de comer há alguns dias, o que definitivamente despertava as suspeitas dos outros funcionários. Pior ainda seria se descobrissem que não dormia há uma semana. Aidan, felizmente, não parecia preocupado com isso. Continuava a trabalhar e, a cada noite em que a pista de dança funcionava, guardava o salário de ambos na velha mochila que o negro trouxera de Manaus.

O africano nunca vira o outro tirar dinheiro da mochila. Tinha esperança de que, no fim das contas, Aidan também estivesse juntando dinheiro para trazer a pequena Shanumi ao Brasil. Contudo, nunca tivera coragem de perguntar. Depois da última briga, então, aquele era um assunto no qual definitivamente não tocaria.

Enquanto observava o colega dormir deitado de costas para ele, Abeô pensava consigo que, briga e paixão não correspondida à parte, estava muito agradecido pela presença de Aidan em sua vida. Sem as chamas dele, provavelmente as serpentes teriam encontrado uma forma de capturá-lo embaixo do rio. Sem a experiência do ruivo, provavelmente sua imagem teria sido capturada assim que saísse do mar, atraindo os encouraçados. Aidan também lhe conseguira emprego, abrigo, comida e roupas. Tinha lhe apresentado o mundo dos ursos e, não fosse a insistência do colega, jamais teria pensado em assumir, para si mesmo, que gostava de homens cheios e peludos.

Então, sem qualquer aviso, o telefone tocou. O coração do gogobear deu um pulo, e mal atendeu o telefone, disparou a pergunta:

— <<É você, Miguel?>>

Houve silêncio do outro lado da linha. Ouvia-se um leve respirar e o som de música eletrônica tocando baixinho.

— <<Miguel?>> – Abeô insistiu, coices doloridos ribombando no peito.

— <<Boa noite, grandão!>> – a voz do brasileiro respondeu enfim – <<Tudo bem com você?>>

O africano até pensou em despejar uma série de reclamações. Não achava normal o sumiço, queria dizer o quanto tinha sofrido, que era muito tempo. Entretanto, parecia que toda essa história ficara no passado. Só queria o brasileiro em seus braços novamente, abraçar aquele corpo macio e peludo, então limitou-se a responder:

— <<Estou melhor agora.>>

A música eletrônica do outro lado da linha cessou. Ouvia-se agora apenas os passos e a respiração do brasileiro, calado. Abeô matutou se deveria ou não perguntar, mas por fim não resistiu:

— <<Quando você vem me ver?>>

A resposta foi um pequeno riso do grisalho, que continuava sem dizer uma única palavra, aparentemente caminhando. Aquilo deixou o gogobear desorientado, com mil perguntas na ponta da língua. A que deixou escapar, entretanto, foi apenas uma:

— <<Por que você riu?>>

Novamente, a gargalhada discreta. Contudo, desta vez, a porta do quartinho abriu-se revelando a silhueta de Miguel, enquanto ele dizia:

— <<Porque eu já vim aqui só pra ver você.>>

Quando deu por si, Abeô já tinha tomado o brasileiro nos braços, erguendo-o do chão num abraço tão apertado que fez os ossos do outro estalarem.

— <<Desculpe!>> – murmurou, soltando o  grisalho, que tinha uma expressão mista de dor e risada. Ele não disse nada. Apenas pulou no pescoço de Abeô e fez as pernas lhe envolverem a cintura. Encarou os olhos do africano por alguns segundos, sorridente, e finalmente o beijou.

Uma onda de prazer, relaxamento, calor e urgência percorreu o corpo do gogobear. Tudo a seguir aconteceu num borrão. Abeô levou o brasileiro para o colchão e ajoelhou-se, ao que o outro despiu a camiseta e deitou-se. O africano também tirou a camiseta e reclinou-se para beijá-lo, fascinado pela forma como os pelos do peitoral dele acariciavam os seus. Outro êxtase era sentir o falo dele pulsando contra sua barriga, cada nova pressão aumentando uma fome nova no africano. Ele não chegou a pensar direito: rasgou a calça e cueca do brasileiro, expondo o membro inchado, rubro. Felizmente a roupa rasgada não incomodou o grisalho. Principalmente quando Abeô começou a ordenhar, com os lábios e a língua, aquela mamadeira rodeada de pelos grisalhos. Também não se incomodou quando o africano lhe lambeu demoradamente as bolas e entre as pernas, nem quando fez a mesma coisa com o ânus. Entretanto, quando o gigante terminou de despir-se e encostou ali a ponta do próprio membro, Miguel deixou escapar uma breve gargalhada nervosa:

— <<Wow, wow, grandão! Sinto muito. Sou muito pequeno pra você. Melhor a gente fazer o contrário.>>

Mesmo um pouco frustrado, Abeô concordou. Já estava feliz demais por estar junto com ele. A curiosidade sobre como seria estar dentro de outro homem poderia, perfeitamente, ficar para depois. Como da outra vez, o brasileiro lhe lambeu longamente a porta por onde entraria. O africano fez-se penetrar sem dificuldade, extasiado por sentir novamente o outro dentro de si. Cavalgou-o, deliciando-se com as expressões no rosto dele, registrando na memória cada pulsar do membro dele. Até ouvir um soluço abafado. Um som angustiado, dolorido, que lhe golpeou o peito como o projétil explosivo que o arremessara para o rio em Manaus.

De novo o soluço ecoou no quarto, e só então Abeô percebeu que o ruivo continuava ali, de costas para eles. Contudo, não mais dormia. Era ele quem soluçava e, apesar do esforço para não ser ouvido, ombros e costas denunciavam-no a cada som que deixava escapar.

 

Um milhão de coisas se passaram na mente do africano. Se havia uma coisa que jamais imaginara, era o ruivo chorando. A simples ideia era de perder o chão, saber que aquilo estava acontecendo enquanto ele se divertia era absolutamente desesperador. Chamando o nome do colega, Abeô tentou se levantar. Porém, para sua surpresa, Miguel o segurou.

— <<Me solta!>> – o africano rosnou – <<Não quero machucar você!>>

— <<Calma, grandão! Deixa só eu “chegá” dentro de você!>> – foi o que o brasileiro respondeu.

Aquilo irritou profundamente Abeô. Como assim, o outro não ouvia os soluços? Como conseguia não se incomodar? Fosse como fosse, não queria se deter naquilo. Segurou as mãos com que o grisalho lhe prendia pelas coxas e aplicou um pouco de força para soltar-se.

Não demorou a perceber que um pouco de força não iria mover Miguel, que sorria para ele, displicente. Então, entre os soluços, a voz grave de Aidan soou rouca e embargada, abafada como se o ruivo falasse apenas para si mesmo e para a parede à frente dele:

— <<Você é um tolo, Abeô. Um tolo cego que não consegue perceber as verdades mais óbvias ao seu redor.>>

Havia algo amargo naquelas palavras, uma agonia que lhe acertava os ouvidos, como milhares de socos de encouraçados. O gogobear, entretanto, não se deteve para pensar nelas. Apenas aumentou um pouco mais a força com que tentava se libertar.

— <<Como é que você não percebe, Abeô?>> – Aidan continuou a sussurrar, entre os soluços, deitado de costas para os outros dois – <<Como é que você não percebe o jeito que eu olho para você?>>

Abeô estremeceu. O pensamento do que o ruivo poderia falar teimou em saltitar em seu cérebro, mas não queria nem mesmo pensar nessa possibilidade. Doía demais. Já tinha doído demais. Não queria voltar àquele sofrimento inútil nunca mais. Lentamente, tratava de aumentar a força que aplicava para libertar-se das mãos do brasileiro, mas elas, assim como sorriso de miguel, não se moviam nem um milímetro. No outro colchão, Aidan deixou o pranto explodir num grito longo e gutural, seguido de soluços soltos, perfeitamente audíveis.

Foi então que o barman virou-se de frente para o colega, rosto molhado, olhos vermelhos, lábios trêmulos murmurando:

— <<Como é que você não percebe o quanto cada pedacinho meu nasceu para desejar e amar você, Abeô?>>

Foi nesse ponto que o desespero inundou o africano. A garganta apertou-se, dolorida, gelada. As lágrimas lhe invadiram os olhos, ganhando rosto e barba. Afoito, ele aplicou toda a força para erguer-se, mas foi em vão. Embaixo dele, Miguel gargalhava vez mais intensamente a cada vez que o outro tentava se libertar. Até que, de súbito, Aidan soltou outro grito, encolhendo-se enquanto apertava o ventre com as duas mãos.

— <<Aidan?!>> – foi tudo que o africano conseguiu gritar.

Porém, não era mais o ruivo e sua voz gravíssima quem estava lá. Quem gritava, encolhendo-se de dor, era uma menina negra, de uns 8 anos, magérrima, vestindo uma camisola encardida e cheia de rasgos. E rapidamente, antes que Abeô tivesse tempo para raciocinar, o sangue escorreu entre as pernas dela, abundante, uma poça vermelha espalhando-se rapidamente no colchão e no chão.

— <<Shanumi!!!!>> – o africano gritou, erguendo-se da cama.

Quase imediatamente, sentiu no ombro a mão quente e macia do barman, a voz grave sussurrando o mais suave que conseguia:

— <<Calma, Abeô! Foi só um pesadelo. Calma!>>

Arfando, o africano olhou ao redor. Amanhecia. Nem Miguel nem Shanumi estavam no quarto. Não havia qualquer traço de sangue no chão.

— <<Quer me contar seu sonho?>> – Aidan perguntou, ainda acariciando o ombro do colega.

Não, ele não queria contar. Não queria pensar. Agarrava-se apenas à última imagem. De alguma forma tinha certeza, principalmente quando verbalizou:

— <<Minha irmã… ela teve o primeiro sangue das mulheres.>>

O ruivo encarou o colega, sobrancelhas erguidas, pensativo.

— <<Nós temos só alguns dias para mandar buscá-la!>> – disparou o gogobear apressado, num único fôlego, enquanto se erguia e corria para a mochila – <<Agora são só alguns dias até minha família descobrir e leiloarem ela entre os mineiros, e quando tentarem forçá-la a dormir com o vencedor ela vai, com certeza, usar seus talentos quânticos e vão…>>

Rapidamente, Abeô contou o dinheiro da mochila. Havia quase 17 mil reais. Pouco mais da metade do que precisava.

De novo, o africano sentiu a mão macia de Aidan em seu ombro e a voz profunda indagar:

— <<Faltam treze mil, não é?>>

Abeô assentiu. Deixou-se desabar sentado, de costas para a parede, pensando no que poderia fazer.

— <<Isso é pouco mais de um mês de trabalho. Vou falar com o Albuquerque para ver se conseguimos um adiantamento, ok?>> – murmurou o ruivo antes de vestir uma camiseta e sair.

O africano ficou ali, parado no chão, o cérebro desesperado avaliando as mais variadas possibilidades de conseguir o dinheiro ainda naquele dia, no máximo no seguinte. Não teria muito mais tempo que isso. Se quisesse salvar a vida da irmã pequena, teria que conseguir dinheiro rápido, muito mais rápido do que jamais julgara possível.

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Krory Vermillion

    Esse sonho acabou comigo….esperando que ele se realize sem o Miguel é claro….#Aidan

    • Osíris Reis

      Eheheheheheeheheh Então existe um Team AbeAidan? eheheheheheh

      • Krory Vermillion

        Primeiro a favor dos dois…

  • Vandson Carvalho

    CARACA, depois desse sonho quero nem ver esse miguel de novo! acho que nunca fiquei tão aflito, ainda bem que era um pesadelo. u.u”

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