Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 45 – A ciência do pós-morte – Parte 1

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Notas do autor: 1) Ainda não conhece Golem? Então comece acessando http://www.bearnerd.com.br/golem.

2) Sim, este capítulo borra os limites entre a ciência e o sobrenatural, mas isso só é válido no universo que inventei para Golem. Eu não acredito que o mundo real funcione conforme Aidan descreverá. No mundo real, não temos elementos científicos para ter qualquer certeza sobre o pós-morte, se é que existe algum. Existem, na verdade, inúmeras teorias e crenças sobre essa possível vida após a morte do corpo físico. O que escolhi como mecânica do pós-morte para o universo de Golem é só uma das inúmeras possibilidades para o funcionamento desse pós-vida, uma que não quero que vire crença ou religião de ninguém, uma que criei apenas para que você se divirta e pense, por alguns instantes, em outras possíveis mecânicas de vida após a morte além daquelas que as principais religiões ensinam.

A primeira coisa que Abeô sentiu, antes mesmo de abrir os olhos, foi aquela dor de cabeça. Parecia que seus miolos inchavam, empurrando os ossos do crânio com força. Pela primeira vez na vida, ele entendeu a expressão “parece que minha cabeça vai explodir”.

O balançar do carro, mesmo suave, provocava ondas de dor por trás dos olhos. O africano sentia como se tudo estivesse solto lá dentro, sendo jogado contra os ossos. Abrir as pálpebras foi um processo sofrido. A luz, mesmo pouca, parecia óleo quente lhe rasgando a mente. Entre os cílios, vislumbrou manchas violeta no céu. Praguejou mentalmente enquanto fechava os olhos de novo. Algo lhe dizia que a dor de cabeça seria excruciante quando o sol nascesse.

— <<Vá com calma, gigantão.>> – a voz grave de Aidan soou tão suave que Abeô quase não ouviu. O que no fundo foi bom. Algo lhe dizia que sons mais altos que aquele não seriam nada agradáveis.

Abeô sentiu o carro desacelerar e se mover para a direita. Enquanto isso, murmurou no mesmo tom do ruivo, incerto se seria ouvido:

— <<Já está amanhecendo?>>

— <<Já está anoitecendo.>> – respondeu Aidan num sussurro.

O carro parou em seguida e o africano sentiu a mão quente do tatuado pousar, suavemente, sobre a sua. O ruivo lhe virou a palma para cima, depositando nela dois comprimidos. Em seguida, ouviu uma breve sequência de estalos plásticos e Abeô sentiu Aidan colocar em sua outra mão uma garrafa de plástico, gelada.

— <<É um remédio para dor.>> – falou baixinho o ruivo – <<Tome os dois.>>

O negro colocou os remédios na boca e tomou dois goles da garrafa. Reconheceu o sabor de abacaxi com hortelã que, volta e meia, o tatuado lhe preparava no Thermopolis. Em seguida, sentiu na barba os dedos de Aidan brincarem suavemente. Aquilo o fez relaxar um pouco, mesmo que a cabeça ainda doesse. Ainda assim, sentia uma pontada de medo. Aqueles dedos eram os mesmos que tinham feito seu coração parar.

— <<Você me matou.>> – Abeô sussurrou.

— <<Por exatos vinte segundos.>> – Aidan respondeu.

Definitivamente, tinham sido mais do que vinte segundos, o africano tinha certeza. Porém havia outras questões mais inquietantes para sanar:

— <<Por que você fez isso? E se você não tivesse conseguido me trazer de volta?>>

— <<Eu tinha absoluta certeza que conseguiria. Já tinha feito isso antes milhares de vezes.>>

Abeô não soube se isso o deixava aliviado ou mais nervoso ainda. O ruivo, o seu ruivo, já tinha matado milhares de vezes. E revivido as vítimas. Essa era uma ideia com a qual, definitivamente, não estava pronto para lidar.

— <<E por que você fez isso? Por que você fez isso comigo?>> – o africano perguntou.

— <<E você teria acreditado se não tivesse vivenciado tudo aquilo?>>

O negro precisou admitir que não. Na verdade, não sabia nem se conseguiria imaginar aquele outro mundo se Aidan tivesse se limitado às palavras. Ainda de olhos fechados, respirou profundamente, já com leve melhora na dor de cabeça. Bebeu mais três goles do suco e indagou:

— <<E que lugar era aquele? O que era tudo aquilo?>>

Foi a vez do ruivo respirar fundo antes de responder:

— <<Aquele lugar tem muitos nomes. As pessoas comuns costumam chamar de pós-morte. Eu costumo chamar de “Teia Cerebral”. Não há um nome certo.>>

A expressão pós-morte parecia lógica para Abeô. E foi a ela que o ex-gogobear se agarrou, murmurando:

— <<Então você me levou ao inferno?>

Aidan bufou levemente, como se risse, antes de responder:

— <<Não. Não era o inferno.>>

— <<Também não era o céu. Era o purgatório?>>

— <<Nenhum desses lugares existe de verdade. São só histórias inventadas para tornar as pessoas mais obedientes.>>

Abeô bebeu um pouco mais do suco, remoendo aquilo. Queria acreditar que não havia inferno, nem purgatório, mas a ideia de não existir um céu também não era agradável. Se não havia inferno, isso significava que sua alma não seria condenada.

A palavra alma causou um estalo dolorido em seu cérebro. Mesmo assim perguntou:

— <<Eu… eu estava vendo minha alma. Eu era só uma alma?>>

— <<De certa forma sim.>>

— <<Por que de certa forma?>>

Aidan pensou um pouco antes de devolver a pergunta:

— <<O que você acha que é uma alma? O que te ensinaram que é uma alma?>>

O africano tentou lembrar o que o padre havia dito, nas poucas vezes em que visitara as minas na Nigéria. Havia pouco para lembrar, mas arriscou:

— <<É… é um presente de Deus… É a parte de nós que nunca morre?>>

O ruivo soltou um pequeno gemido antes de responder:

— <<Veja bem, Abeô… Sim, naquele momento você era só a sua alma. Era uma parte de você que continuaria existindo mesmo depois que seu corpo morresse. Mas isso não é presente de nenhum deus ou deusa. E também não há qualquer garantia que sua alma nunca será destruída.>>

O africano sentiu-se ainda mais confuso, mas não sabia exatamente o que dizer. Parte dele queria esquecer o que tinha vivido entre seu coração parar e voltar a bater. Outra parte queria entender tudo o que tinha acontecido. Uma terceira queria dormir mais antes continuar aquela conversa. E ainda havia a parte que queria saber o que toda aquela história tinha a ver com quem Aidan era de verdade.

Quase como se lesse esses pensamentos, o ruivo acariciou o couro cabeludo e a barba do negro, perguntando:

— <<Você ainda está muito cansado. Quer deixar para conversar depois? Temos ainda muito tempo até chegar a Manaus.>>

— <<Não.>> – respondeu Abeô – <<Eu quero entender agora. O quanto antes.>>

Aidan puxou a mão do outro e aplicou nela alguns beijos longos. Sentir aqueles lábios macios, o bigode e a barba roçando na sua mão fez o africano ficar um pouco menos tenso. Aquele gesto simples, mesmo que não registrado pelos olhos dele, significava muito. Alguém no mundo gostava dele. Alguém nutria um carinho que só agora ele dimensionava, alguém gostava de sua pele, de suas mãos, dele todo. E o melhor: esse alguém era o ruivo tatuado, barbudo, peludo e gordinho, por quem ele tinha se apaixonado meses atrás. E como ele, também era “um quântico”. Alguém que poderia entendê-lo completamente.

Alheio a tudo isso, Aidan continuou:

— <<Você percebe que tem a capacidade de receber ideias, informações e sensações? Que é capaz de criar novas ideias, novas informações, novos sentimentos, novas memórias a partir desse processo?>>

Abeô pensou que aquilo parecia meio óbvio, mas havia algo diferente na maneira como o ruivo colocava aquelas palavras. Era como se estivesse dando nomes para coisas que o negro sempre soubera que existiam, mas nunca tinha aprendido como falar daquilo.

Ainda com os olhos fechados, assentiu levemente e continuou a ouvir o ruivo:

— <<A parte do seu corpo que é responsável por isso é o cérebro, correto?>>

Novamente, o negro concordou, e Aidan prosseguiu:

— <<Acontece que quando seu coração parou de bater, seu cérebro começou a parar de trabalhar. A morrer, na verdade.>>

Abeô não entendia exatamente o porquê do cérebro parar quando o coração parava, mas fazia sentido. Apesar de ainda estar um bocado confuso, a dor de cabeça já tinha diminuído consideravelmente. Então, abriu os olhos e ficou boquiaberto. Sem perceber, tinha virado de costas para a janela e de frente para Aidan. Assim, a primeira coisa que viu foi a cabeleira e a barba do outro, as quais, sob a luz do poente, pareciam muito mais ruivas do que o normal.

Os olhos verdes de Aidan de apenas tristes passaram a angustiados. E enquanto Abeô se perguntava por quê, o tatuado indagou:

— <<Tudo bem, Abeô?>>

O africano precisou de alguns segundos para se recompor e responder:

— <<Tudo…!>>

–– <<Tudo mesmo?>>

— <<Tudo… eu só… nunca tinha visto você tão… ruivo.>>

Aidan soltou uma gargalhada breve e triste. Aproximou-se e beijou os lábios do negro, dedos passeando em sua barba. E foi nesse momento que Abeô percebeu que a cabeça não doía mais.

Ambos perderam a noção de quanto tempo o beijo durou, o que para Aidan era realmente raro. Quando separaram os lábios já havia escurecido, então enxergavam apenas vultos um do outro. O ruivo soltou uma leve risada e comentou:

— <<É melhor a gente voltar para a estrada. O tempo está apertado para chegarmos até Manaus.>>

O africano concordou e em seguida Aidan ligou o carro. Foi quando Abeô observou melhor onde estavam. O ruivo tinha estacionado num posto de combustível que parecia menor que o primeiro. Havia apenas um homem de macacão, perto de uma das bombas, encarando-os raivosamente. E o pior, ele parecia cada vez mais irritado, à medida em que Aidan dirigia para a bomba.

Indiferente à expressão do brasileiro, o ruivo estacionou ao lado da bomba, tirou duas notas azuis do bolso e apertou um botão que fez o vidro descer. Assim que o atendente o viu, murmurou em bom português:

— Encha o tanque, por favor.

Ainda com a carranca, o homem pegou as notas e foi para a traseira do carro. Aidan apertou um botão no painel e voltou-se para Abeô, perguntando:

— <<Tem certeza que não quer dormir mais um pouco? Eu posso explicar tudo depois.>>

O africano fez uma negativa com a cabeça enquanto dizia:

— <<Não. Você disse que eu não o conhecia o suficiente para decidir se fico com você ou não. Então quero saber tudo sobre você. O quanto antes.>>

Desconfortável, Aidan franziu os lábios antes de responder:

— <<Tudo bem, Abeô, mas vamos sair do posto primeiro, ok?>>

O brasileiro voltou com a chave e algumas cédulas. O africano analisou a expressão raivosa do outro, tentando entender o porquê da irritação. Em tão pouco tempo, era a segunda vez que alguém se mostrava tão hostil e, no fundo, Abeô não queria realmente enxergar o motivo de tais reações. Em alguma parte de seu íntimo sabia que seriam sentimentos demais para processar.

Aidan agradeceu e religou o carro, voltando para a estrada. Ao contrário da vegetação cerrada do Rio e de Manaus, aquela fazia Abeô lembrar de sua terra natal. Como nas minas, havia um mato baixo, a perder de vista, com uma árvore aqui e outra ali. Não havia as grandes colinas do platô, mas era o ambiente mais familiar que visitara desde que chegara ao Brasil.

A voz gravíssima do ruivo puxou-o de volta ao presente:

— <<Onde eu parei?>>

— <<Você tinha dito que quando meu coração parou de bater meus miolos começaram a morrer.>>

Ainda com os olhos na estrada, Aidan comentou:

— <<Mesmo assim, mesmo com o cérebro parando de funcionar, você continuou a receber ideias, sensações e informações. Continuou a criar novas ideias, emoções e memórias como se seu cérebro ainda estivesse funcionando normalmente. Na verdade, você até recebeu sensações que não pareciam suas, não é?>>

Por um breve instante, Abeô sentiu novamente que tinha se multiplicado em dois, os pensamentos começando numa de suas versões e sendo completados pela outra. Lembrou-se da vontade de usar um longo vestido branco e do desejo de ter muitos seios na boca, coisas que jamais tinham lhe passado pela cabeça até então.

O ruivo continuou:

— <<A grande questão é: como, mesmo com o cérebro parando de funcionar, você continuou a ter novas sensações, ideias e memórias? E de onde vieram as sensações que não pareciam suas?>>

Num primeiro momento, o africano imaginou que sua alma, o sopro de Deus em seu corpo, é que continuou a pensar e gravar novas memórias. Lembrou, porém, que Aidan lhe dissera que isso era função dos miolos. Além disso, a possibilidade de sua alma ser responsável por seus pensamentos e memórias não explicava os desejos bizarros que sentiu, muito menos suas duplicatas.

Aidan alternava a atenção entre Abeô e a estrada, enquanto dizia:

— <<A verdade era que sua alma continuava a usar miolos para que você continuasse a criar novas ideias, memórias e sentimentos. Mas não os seus miolos. Nem os meus.>>

Foi inevitável, ao africano, não arregalar os olhos, principalmente quando o ruivo continuou:

— <<Lembra dos gigantes de luz? Os de cabeça brilhante e corpo escuro?>>

Abeô  assentiu, surpreso por Aidan ter visto também algo que ele tinha visto. Na verdade, até então, o africano considerava que podia ter apenas sonhado, ou algo parecido. No entanto, não havia como o ruivo saber tantos detalhes do sonho. O que significava que Aidan, ou a alma dele, realmente estivera lá, com ele.

O tatuado falou devagar:

— <<Os gigantes eram os vivos. A luz que você via neles era das partes que, de alguma forma, carregavam pensamentos, sensações, sentimentos. Era com os cérebros deles que você continuou a pensar e a sentir, e a gravar novas memórias. As pessoas que você viu nos túneis de luz entre os gigantes eram as almas das pessoas mortas, que continuavam a pensar e existir usando partes dos cérebros dos vivos.>>

Aquilo soava extremamente insano aos ouvidos de Abeô, mas também parecia preencher todas as lacunas da visão que tivera.

— <<Você não foi nem ao céu, nem ao inferno, nem ao purgatório.>> – Aidan continuou – <<Você continuou no mundo físico, apenas o enxergava com outros olhos. Com os olhos de uma alma que depende dos cérebros dos vivos para continuar a pensar, lembrar, sentir e existir.>>

De repente, a possibilidade pipocou na mente de Abeô e ele teve perguntar:

— <<Então, se eu estou vivo, sou um dos gigantes agora? E tenho centenas de pessoinhas morando na minha cabeça? Eu tenho túneis de luz saindo dos meus miolos para os miolos de outras pessoas vivas?>>

O vulto do ruivo pareceu observá-lo, um pouco preocupado:

— <<Sim, você agora é um dos gigantes. Sim, você tem túneis de luz saindo do seu cérebro para o de outras pessoas vivas ao redor do mundo todo. E sim, você tem pequenas representações de pessoas no seu cérebro, mas elas não são pessoas inteiras. Há versões delas, espalhadas por vários outros cérebros do mundo, com parte dos pensamentos dessas almas acontecendo no seu cérebro, outras partes em cérebros na Nigéria, outras partes em cérebros do Japão e assim por diante.>>

— <<Então, eu também pareço congelado para elas?>>

O ruivo assentiu, ao que Abeô disparou várias perguntas de uma vez, mais por angústia do que curiosidade:

— <<Por que eu pareço congelado? E de que são feitos esses túneis? Na verdade, de que são feitas as almas? E também existe um sol embaixo de nós, e em cima dele outros gigantes, maiores que nós, todos feitos de luz? O que eles são? E por que…?>>

— <<Calma, gigantão.>> – Aidan interrompeu – <<Primeiro, não fique preocupado demais com isso, ok? Nada disso vai piorar o jeito que você vive o cotidiano. Na verdade, você só vai entender o mundo um pouco melhor e sentir menos culpa. Então, por favor, respire fundo e tente se acalmar.>>

O africano continuou apenas a observar o namorado por instantes, perplexo. Ia perguntar mais alguma coisa, mas o ruivo o interrompeu:

— <<Respire fundo e se acalme. Feche os olhos, sinta a vibração do carro, apoie os dois pés no chão, desacelere os pensamentos um pouco. Depois eu vou responder todas essas perguntas que você fez e, se tiver mais, faça uma de cada vez.>>

Meio que a contragosto, Abeô obedeceu. Fez com que as plantas dos pés estivessem totalmente apoiadas no chão. Fechou a porta, apoiou a mão na porta do passageiro e tentou prestar atenção na vibração. Finalmente, puxou o ar com força e soltou-o de vez, impaciente.

— <<Devagar, Abeô.>> – murmurou o ruivo – <<Respire fundo e devagar. Repetidas vezes.>>

Aos poucos, o africano sentiu uma calma brotar daquilo que o ruivo lhe pedia para fazer. Sem que percebesse, seu corpo relaxou. Sentiu braços, pernas, os músculos do rosto, do tronco e do pescoço pesarem, dormentes. E antes que ele se desse conta, um novo sono o tomou. Profundo como o anterior, sem sonhos, sem pensamentos, sem memórias ou preocupações com  pequenos pedaços de almas morando em seu cérebro.

 

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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