Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 46 – A ciência do pós-morte – Parte 2

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Notas do autor: 1) Ainda não conhece Golem? Então, antes de ler este capítulo, clique AQUI e visite a página da série.

2) Sim, este capítulo borra os limites entre a ciência e o sobrenatural, mas isso só é válido no universo que inventei para Golem. Eu não acredito que o mundo real funcione conforme Aidan descreverá. No mundo real, não temos elementos científicos para ter qualquer certeza sobre o pós-morte, se é que existe algum. Existem, na verdade, inúmeras teorias e crenças sobre essa possível vida após a morte do corpo físico. O que escolhi como mecânica do pós-morte para o universo de Golem é só uma das inúmeras possibilidades para o funcionamento desse pós-vida, uma que não quero que vire crença ou religião de ninguém, uma que criei apenas para que você se divirta e pense, por alguns instantes, em outras possíveis mecânicas de vida após a morte além daquelas que as principais religiões ensinam.

Abeô despertou com a voz gravíssima do ruivo lhe sussurrando ao pé do ouvido:

— <<Boa tarde, gigantão!>>

Ele não abriu os olhos de imediato. Queria que a vida continuasse a se resumir às trevas do sono e à voz densa de Aidan. Entretanto, o tatuado insistiu:

— <<É importante que você coma alguma coisa, gigantão. Comprei carne assada, arroz, salada e suco de laranja para você.>>

O africano nunca era de sentir fome, mas a lista de alimentos lhe parecia estranhamente apetitosa. Em verdade, sentia-se fraco e trêmulo como só recordava de ter se sentido no fundo do rio Amazonas, antes de ser tomado pelas chamas do ruivo. Bem antes de saber que o outro morreria nos próximos sessenta dias.

Tal lembrança fez Abeô abrir os olhos assustado. Por um breve momento, julgou que a voz de Aidan vinha de uma névoa brilhante com sua forma. Felizmente, o ruivo continuava ali, bem sólido, lhe estendendo uma marmita de isopor e um grande copo com um canudo.

— <<Coma, gigantão.>> – Aidan insistiu.

O africano terminou de abrir os olhos e sentou-se direito no banco do passageiro. Olhou ao redor por alguns instantes, localizando-se. O sol estava alto e, novamente, tinham parado num posto de combustível. Porém, ao contrário dos anteriores, aquele lugar não tinha cimento. Marcas de pneus se acumulavam numa mistura de barro e areia, poças de água aqui e ali denunciando a chuva recente. Ao fundo, atrás de Aidan, uma trilha negra revelava a rodovia como a única parte asfaltada visível na cidade.

Abeô pegou a marmita e o copo. Sugou um bocado do líquido açucarado e abriu a marmita. O cheiro lhe atiçou a fome, de forma que mal conteve o gemido quando começou a mastigar. Também não percebeu o quão apressadamente comia tudo. Só se deu conta quando o ruivo lhe pousou a mão quente na nuca, murmurando:

— <<Calma, Abeô. Cuidado para não engasgar.>>

O africano automaticamente voltou-se para o namorado, envergonhado. Imaginava um olhar repreensivo, duro, sério. O que encontrou, porém, foi um sorriso terno, o par de olhos verdes fixos nele, maravilhados como se não quisessem perder um segundo sequer.

— <<Você não vai comer?>> – Abeô perguntou.

— <<Daqui a pouco. Prefiro a comida mais fria.>>

O africano não entendeu como Aidan poderia preferir comida fria, mas essa era só uma das coisas que ainda não entendia. Um detalhezinho mínimo perto das outras perguntas que tinha. Assim, antes da próxima colherada, perguntou:

— <<E então?>>

O ruivo nem piscou ao devolver:

— <<Então?>>

— <<Então eu pareço um gigante congelado, com a cabeça brilhante e o restante do meu corpo escuro?>>

— <<Sim.>> – respondeu o ruivo enquanto tirava os tênis e colocava os pés sobre a poltrona, abraçando os joelhos – <<O brilho indica as partes do seu corpo que carregam pensamentos, sensações, emoções… As partes que as almas, de alguma forma, podem usar para continuar existindo.>>

— <<E por que eu pareço congelado?>>

— <<Porque os pensamentos são muito mais rápidos do que qualquer coisa do mundo físico. Porque você pode pensar um bilhão de coisas num único piscar de olhos, mesmo que não se dê conta.>>

O africano não demorou a questionar:

— <<Como assim, eu penso sem perceber? E o que isso tem a ver com eu ser uma estátua congelada?>>

Enquanto o namorado dava outra colherada, Aidan coçou a própria barba e respondeu:

— <<Sim, todo mundo pensa sem prestar atenção em tudo que está pensando. Mesmo agora você está analisando quais movimentos fazer com a colher, qual quantidade de comida colocar na boca, como movimentar a língua para distribuir o alimento, se a comida não está estragada e muito mais coisas. A única diferença entre essas análises todas e a análise que você está fazendo das minhas palavras é que você está está prestando muito mais atenção no que falo e nenhuma, ou quase nenhuma, nas escolhas que precisa fazer enquanto come.>>

Aquilo parecia estranho para o negro, mas ainda fazia algum sentido. De qualquer forma, não iria gastar muito tempo pensando nessa parte. Havia outras questões naquela jornada, muito mais inquietantes. Por isso ele retomou a pergunta:

— <<E porque é que eu pareço congelado para as almas?>>

— <<Todos os vivos se movem tão menos rápido que as almas que, para elas, é como se estivessem parados. Elas são tão rápidas quanto um pensamento porque não são feitas de carne e osso, só de pensamentos. O que para nós parecem minutos para elas podem parecer anos ou até décadas.>>

— <<Almas são feitas de pensamento puro? Como é que algo pode ser feito apenas de pensamentos?>>

— <<Do que é feito um sonho? Melhor: do que é feita uma história?>>

Abeô engoliu, pensativo, antes de responder:

— <<De palavras?>>

— <<E quando as palavras não estão sendo ditas… A história deixa de existir? Ou ela continua a existir apenas como uma sequência de ideias, de pensamentos, no cérebro de quem vai contá-la? O que é mais importante para a história? A sequência de palavras ou a sequência de ideias e sentimentos?>>

Ambos permaneceram silenciosos enquanto o africano bebia mais do suco. As coisas pareciam um pouco mais claras, mas Abeô tinha que ter certeza se estava entendendo direito:

— <<Então almas são… como histórias? Apenas uma sequência de ideias? E é isso que vou ser quando morrer?>>

— <<Sim e não, gigantão. Uma história é muito, muito simples, quando comparada a uma alma. Se fosse para transformar uma alma inteira, com todos os seus detalhes, em um livro… Bem, esse livro seria maior que uma cidade… talvez até maior que o mundo.>>

— <<E os túneis de luz? Também são feitos de pensamentos?>>

— <<Sim, tudo o que você viu enquanto estava morto era feito apenas de pensamentos. Mas assim como a maioria dos pensamentos, aqueles túneis são a representação simbólica de algo que existe no mundo real.>>

— <<E o que os túneis representam?>>

Aidan suspirou e pegou sua própria marmita no painel do carro. Abriu-a pensativo e em seguida indagou:

— <<Lembra quando eu falei que alguns cientistas chamam pessoas como eu, você e sua irmã de quanticamente ativos?>>

Foi a vez de Abeô ficar introspectivo, tentando lembrar da conversa de semanas atrás. Assentiu positivamente e o ruivo continuou:

— <<Então… o que esses cientistas não sabem é que todos os seres humanos são quanticamente ativos.>>

— <<Todos os seres humanos têm poderes como nós?!>>

— <<Não, não foi isso que eu disse. Pessoas quanticamente autônomas, como eu e você, são raras, mas todo ser humano é quanticamente ativo. Todo ser humano produz pelo menos umas cem substâncias quanticamente ativas. Dessas cem, 93 são exatamente as mesmas na grande maioria das pessoas. São elas que permitem que, mesmo sem perceber, cada pessoa tenha um canal de transmissão e recepção de pensamentos com todos os outros cérebros do mundo. Os túneis de luz que você viu são a representação mental do funcionamento desses canais.>>

Devagar, as peças começaram a se encaixar na mente do africano. Antes de colocar o último pedaço de carne na boca, ele perguntou:

— <<Então, mesmo sem perceber, toda pessoa recebe e manda pensamentos para todas as outras pessoas do mundo?>>

Aidan assentiu enquanto mastigava uma colherada de sua marmita fria. Abeô pensou um pouco e indagou:

— <<Então há uma teia, uma rede de cérebros ao redor do mundo, que transmitem pensamentos entre si e permitem que as almas, as sequências de pensamentos e memórias de cada pessoa que já viveu, continuem a existir.>>

— <<Isso mesmo.>> – o ruivo respondeu entre uma colherada e outra.

— <<E aqueles gigantes, maiores que os vivos, que você me mostrou embaixo da terra? Aqueles que caminhavam naquele tipo de sol no centro do mundo?>>

Aidan franziu os lábios e pronunciou com uma cautela que deixou o africano preocupado:

— <<Aqueles, Abeô… eram… os Carcereiros dos Deuses.>>

O africano engasgou. Foi necessário que o tatuado lhe aplicasse leves tapas nas costas até que ele conseguisse respirar normalmente de novo. Depois disso, ficou alguns instantes encarando o ruivo, perplexo, antes de perguntar:

— <<Carcereiros dos Deuses?>>

— <<Sim.>>

— <<Mas você tinha dito que Deus não existia.>>

— <<Não, Abeô. Eu disse que nenhum Deus ou Deusa criou a sua alma.>>

Sim, o africano lembrou-se que essa tinha sido de fato a afirmação do ruivo. Mesmo assim, meneando uma série de negativas, ele indagou:

— <<Mas deuses não podem todas as coisas? Como é que eles têm carcereiros? Como é que eles ficam aprisionados?>>

— <<Deuses podem muitas coisas, mas não todas.>> – Aidan respondeu, antes de beber mais um gole de suco – <<No fim das contas, eles também são almas, também são sequências de ideias e sentimentos que só continuam a pensar usando pedaços de cérebros das pessoas vivas. Eles também já foram pessoas vivas, já viveram e morreram algumas vezes. O que faz com que eles sejam tão poderosos é o fato de conseguirem manipular, ao mesmo tempo, os cérebros de praticamente todas as pessoas vivas do planeta.>>

De novo as coisas se complicavam na mente de Abeô. A dor de cabeça, na verdade, ameaçava voltar. Ele chegou a pensar em deixar para conversar depois, mas insistiu:

— <<Então os deuses podem manipular o meu cérebro? E o seu?>>

— <<Mais ou menos. Por causa da prisão e dos Carcereiros, eles só podem manipular algumas partes do seu cérebro. Mais especificamente, as que controlam o uso das substâncias quanticamente ativas que não sejam aquelas noventa e três que permitem ao seu cérebro se ligar aos outros do planeta. No seu caso, devem ser mais de mil, mas no caso dos que não são quanticamente autônomos, devem ser umas dez ou quinze. Separadas, essas substâncias não têm qualquer utilidade quântica. Mas quando alguém consegue fazer com que um grande grupo de pessoas use, mesmo sem perceber, as suas substâncias quânticas em conjunto e de maneira organizada, então quase todo tipo de “milagre” é possível.>>

Abeô já tinha terminado de comer. Massageou a cabeça raspada, tentando colocar as ideias em ordem. Perguntou enfim:

— <<Então os deuses podem fazer milagres?>>

— <<Está mais para os deuses serem capazes de organizar os cérebros do mundo para funcionarem como uma gigantesca máquina quântica que nos mantém a salvo de invasores de outros planetas ou de montanhas de pedra que estariam em curso de colisão com nosso mundo.>>

— <<E eles usam o seu cérebro e o meu e o de todo mundo para isso.>>

— <<Eles usam o de todo mundo. Menos o meu.>>

Tudo até então parecia difícil de acreditar, mas fazia sentido. Aquela última informação, no entanto, parecia ser a mais formidável de todas. Pelo menos até Abeô lembrar-se que, ao contrário das outras almas que vira nos túneis de luz, Aidan não estava sempre brilhando. A imagem dele era a única que piscava, alternando-se entre visível e invisível. Os tais Carcereiros dos Deuses cumprimentavam Aidan, curvando-se respeitosamente.

Havia também os fatos estranhos sobre Aidan no mundo físico. Como é que alguém conseguia cortar e amassar frutas no ar, em quinze copos diferentes, sem sujar o balcão? Como é que ele sabia tanto de praticamente tudo? Como é que ele falava português, inglês e sabe-se lá quantas outras línguas? Como é que ele falava hausa, como se tivesse nascido na mesma vila que Abeô?

À medida em que se dava conta desses fatos, a dimensão de quem Aidan era passou a assustar o africano. O ruivo estava envolvido no pós-morte de uma forma que o negro só havia começado a imaginar.

Foi nesse momento que a pergunta voltou aos lábios de Abeô, porém carregada de um peso totalmente novo:

— <Quem é você…?> – ele perguntou em hausa – <De verdade?>

O ruivo abriu aquele sorriso triste antes de responder na língua materna do namorado:

— <Eu sou o último Assassino de Deuses, gigantão. E é por isso que, depois que você estiver com sua irmã, vocês dois precisam fugir e se prepararem para o Apocalipse!>

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    o/ WOOOOOOOOOOW !!!! Tudo ficando confuso de novo haha eu tô com um nó na cabeça, em um sentido positivo haha mt bom !! XD

    • Osíris Reis

      Eheheheeheheheh que bom que é em um sentido positivo! Mas qualquer dúvida, me avisa aí, beleza?

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