Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 47 – Os últimos segredos

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Notas do autor: 1) Ainda não conhece Golem? Então, antes de ler este capítulo, clique AQUI e visite a página da série.

2) Sim, este capítulo borra os limites entre a ciência e o sobrenatural, mas isso só é válido no universo que inventei para Golem. Eu não acredito que o mundo real funcione conforme Aidan descreverá. No mundo real, não temos elementos científicos para ter qualquer certeza sobre o pós-morte, se é que existe algum. Existem, na verdade, inúmeras teorias e crenças sobre essa possível vida após a morte do corpo físico. O que escolhi como mecânica do pós-morte para o universo de Golem é só uma das inúmeras possibilidades para o funcionamento desse pós-vida, uma que não quero que vire crença ou religião de ninguém, uma que criei apenas para que você se divirta e pense, por alguns instantes, em outras possíveis mecânicas de vida após a morte além daquelas que as principais religiões ensinam.

Abeô passou alguns instantes boquiaberto, mil pensamentos zumbindo em seu cérebro. Não estava certo se tinha entendido direito, portanto, assim que conseguiu rearticular as palavras, indagou em hausa:

— <Você mata em nome dos deuses?>

Aidan mantinha a marmita de isopor sobre as pernas, estudando o negro. Colocou a vasilha e o suco sobre o painel do carro, enquanto respondia:

— <Não, Abeô. Eu mato deuses, Quando necessário, quando eles escapam dos Carcereiros.>

O africano desejava não acreditar, mas não conseguia. Sabia, de alguma forma, que o outro dizia a verdade, que aquilo explicava tudo o que o africano ainda não sabia do namorado. O ruivo não era apenas um “autônomo quântico”, era alguém que matava divindades. Mesmo assim, as duas palavras não pareciam caber na mesma frase.

— <Como é que deuses podem morrer?>

Aidan respondeu sem tirar os olhos do namorado ou piscar:

— <Hoje eles podem morrer de duas formas: a nova e a antiga. A antiga acontece se a quantidade de cérebros do mundo diminuir tanto, e tão rápido, que a rede mundial de cérebros se enfraqueça como um todo. Nos segundos que a rede levar para se readaptar, os deuses mais lembrados pelos vivos conseguiriam destruir os demais.>

Aquela primeira forma de matar deuses parecia assustadora para o africano. Algo no olhar do ruivo lhe dizia que para isso seria necessário que muito mais do que a metade das pessoas do mundo morresse num único segundo. Pensar nisso fez Abeô arregalar os olhos, surpreso, ao que o ruivo continuou:

— <É, essa forma de matar divindades não faz nada bem para a humanidade. E o pior de tudo é que, se dependesse de Monus, todos os outros 367 deuses seriam destruídos dessa forma.>

— <Monus?>

— <É o nome pelo qual os outros deuses chamam o deus judaico-cristão. É aquele que você costuma chamar de deus com “d” maiúsculo.>

De repente, as passagens bíblicas que o padre lia nas minas pareciam ganhar outros significados para Abeô. Significados bem mais sangrentos e egoístas. Sentidos que agora lhe despertavam revolta. Seus pais matariam a ele e sua irmãzinha apenas para obedecer a esse deus. E, no fim das contas, seus progenitores e quase todas as outras pessoas do mundo seriam exterminados para que esse ser satisfizesse o capricho de se tornar o único deus da humanidade. O que quer que uma entidade tão cruel e egoísta fizesse a partir daquele ponto era algo que o africano nem queria imaginar.

A voz gravíssima do ruivo trouxe Abeô de volta à conversa:

— <Foi por causa dele e de outros parecidos que a mais antiga entre os deuses criou a prisão no centro da teia de cérebros. Ela era a única que sabia como guardar segredos das outras divindades, então se dividiu em seis almas. A parte maior continuou sendo a deusa da biologia, a que mais sabe sobre o funcionamento de todos os seres vivos. Porém, assim como os outros deuses, ela não seria mais capaz de esconder pensamentos dos demais. Outra parte dela se tornou o Cárcere, aquele ‘sol’ que você viu abaixo dos vivos. As outras quatro partes restantes se tornaram as almas dos Assassinos de Deuses. Almas que, quando encarnadas, habitariam sozinhas os cérebros de seus corpos. Almas que seriam blindadas contra o restante da teia e a influência de qualquer divindade.>

A imagem dos gigantes de luz se curvando diante de Aidan voltou imediatamente à memória do africano, levando-o a perguntar:

— <Então sua alma… já foi um pedaço da mais antiga das Deusas? Da deusa de todas as coisas vivas?>

— <Sim.>

— <E há outros três de você.>

— <Havia. Um dos outros Assassinos de Deuses enlouqueceu, e foi preso no centro do cárcere. Outra foi destruída pelos seguidores de Monus. E a terceira está desaparecida.>

— <Os seguidores de Monus mataram um dos Assassinos de Deuses?>

Aidan pegou de volta a marmita com a comida fria e, antes de colocar uma garfada na boca, respondeu:

— <Na verdade, ao longo da história, eles sempre nos mataram em algum momento ou outro. Mas nossas almas sempre voltavam, em seguida, para o cérebro de outro bebê, e renascíamos. O que aconteceu nos anos 80 é que eles descobriram uma forma de destruir nossas almas. Eles já destruíram uma das três almas que restavam. A outra deve ter encarnado ainda nos anos 80 ou 90, mas ainda não conseguiu entender quem realmente é. E eu, enquanto procuro por ela, fujo dos seguidores de Monus. Não posso deixar que me peguem de maneira alguma, porque se me pegarem vivo poderão destruir minha alma.>

Com um nó na garganta, Abeô lembrou-se da cena de Aidan apontando a pistola para sua própria cabeça. A ideia de ver o ruivo morrer ainda lhe parecia péssima, mas com certeza seria pior ainda se os seguidores de Monus o capturassem e nem mesmo sua alma sobrevivesse.

— <Os encouraçados…> – o negro perguntou – <Eles trabalham para Monus?>

— <Eles são uma das tecnologias de ponta do exército dos Estados Unidos, usados para vários outros fins. Os seguidores de Monus são magos infiltrados nos altos escalões…>

— <Magos?> – o africano indagou, incrédulo.

— <Sim, magos. São pessoas, geralmente vivas, que conseguem usar o próprio cérebro para influenciar outros cérebros a usarem um conjunto suficientemente grande de substâncias quânticas e gerar algum efeito que pareça sobrenatural. Algumas almas, mesmo sem um cérebro próprio, conseguem efeitos semelhantes aos de um mago vivo, mas elas costumam ser exceção. Todos os deuses já foram magos vivos algum dia. Magos que, mesmo mortos, se tornaram tão habilidosos em manipular os cérebros dos vivos que hoje são capazes de afetar todos os cérebros do planeta ao mesmo tempo.>

— <E os seguidores de Monus são magos?>

— <Sim.>

— <E eles são capazes de fazer coisas sobrenaturais?>

— <Não existem coisas sobrenaturais de verdade, Abeô.> – o ruivo respondeu antes de fazer uma breve pausa para um gole de suco – <Magos e deuses fazem coisas que apenas parecem sobrenaturais. E para fazerem isso precisam usar substâncias quanticamente ativas no cérebro de muitas pessoas. A única diferença entre você e eles é que você consegue fazer uma variedade muito menor de efeitos quânticos. Em compensação, você não precisa de usar cérebros de outras pessoas para isso. Você já nasceu com substâncias quanticamente ativas para fazer sozinho o que faz.>

Abeô pensou um bocado no que o namorado dizia. Conseguia compreender mais claramente como deuses e magos não eram tão sobrenaturais assim, afinal ele próprio não era. Mesmo assim, pensar que poderiam fazer muito mais coisas que ele era assustador. Lembrou-se do demônio coberto de espinhos e chifres em lugar de olhos, e de como o estranho tinha incapacitado Aidan com um único golpe. O estranho, se fosse verdade o que Aidan dizia sobre não existir nada sobrenatural, não seria um demônio, e sim apenas um autônomo quântico. Alguém que, como ele próprio, nascera com mais substâncias quanticamente ativas do que a maioria das pessoas.

A questão que mais assustava o africano, naquele momento, era pensar que tivera sorte na luta contra o tal “demônio”. Lutar com magos deveria ser algo bem diferente, já que eles seriam capazes de muito mais efeitos do que ele, Aidan e o demônio. E foi por isso que Abeô indagou:

— <Então há seguidores de Monus capazes de, com um simples toque, congelarem você?>

— <Não, gigantão. Um dos meus poderes como Assassino de Deuses é que consigo impedir que os cérebros a alguns metros de mim influenciem o uso de substâncias quânticas através da rede. Ou seja, se estiver próximo a mim, nem um mago, nem mesmo um deus que tenha roubado o cérebro de um vivo, conseguirá fazer qualquer efeito quântico. É como se eu impedisse o uso de magia.>

O africano esperou o ruivo dar mais algumas colheradas, só então indagou:

— <E que outros poderes um Assassino de Deuses tem?>

— <Bem, basicamente, conseguimos usar toda a capacidade de nossos cérebros. Aprendemos muito mais rápido, nunca nos esquecemos de nada, não erramos qualquer movimento, por mais difícil que seja…>

— <E vocês sabem todas as línguas do mundo?>

— <Não, mas aprendemos línguas com muito mais facilidade.>

Pensativo, Abeô observou o ruivo terminar de comer. Nesse meio tempo, ficou raciocinando sobre o que o namorado tinha comentado instantes atrás. Quando o outro engoliu a última porção de alimento, perguntou:

— <Há quanto tempo você luta contra os seguidores de Monus? Há quanto tempo você foge dos encouraçados?>

— <Fugir, realmente, desde os anos 80, quando destruíram a alma de uma Assassina. Lutar contra eles é algo que faço há bem mais tempo.>

— <Quanto tempo?>

Aidan encarou o negro sério, enquanto respondia:

— <Eu comecei a lutar contra os seguidores de Monus e outras ameaças quando eu tinha 23 anos. Isso foi há 2178 anos.>

Abeô permaneceu silencioso, embasbacado. Após alguns segundos, o ruivo continuou a explicar:

— <Eu nasci no que que hoje é o norte da Escócia, no Reino Unido, mais de dois séculos antes dos primeiros romanos chegarem. Fui o primeiro Assassino de Deuses a ser também um autônomo quântico. Assassinos de Deuses costumam viver uns cento e cinquenta anos, mas as minhas chamas regenerativas, de alguma forma…>

— <Como é que alguém que viveu tanto vai morrer daqui a dois meses?>

Aidan respirou fundo antes de responder:

— <Os seguidores de Monus já possuíam meu sangue em algumas armas antigas. E quando compreenderam melhor a ciência para isso, conseguiram criar, com magia, uma doença específica para meu cérebro, meus ossos, meu sangue e minhas substâncias quanticamente ativas. Nos anos 90 conseguiram injetar essa doença em mim e… até Manaus eu tinha conseguido remédios que adiavam o avanço dela, mas…>

Abeô virou o rosto para a janela, escondendo a expressão transtornada pelo choro. O ruivo não deixou de perceber, mas decidiu-se por respirar fundo e prosseguir:

— <Quando chegamos ao Rio e voltei a tomar a medicação ela não fazia mais efeito… Na noite em que você rompeu com o capitão Rodrigo eu… eu lutei contra magos seguidores de Monus…>

Os soluços de Abeô estavam bem audíveis agora. Mesmo assim, o ruivo continuou, disposto a terminar aquilo o mais rápido possível:

— <E foi assim que eu consegui interrogar uma delas… e… e descobri os detalhes dessa doença que tinham criado… quanto tempo de vida me restava… e como eles usaram a doença para me rastrear com tanta facilidade.>

Por alguns minutos, apenas os soluços do africano foram ouvidos dentro do carro. Lá fora, quase não havia ninguém. O sol do início da tarde era motivo mais do que suficiente para os locais evitarem sair de casa.

— <Deve haver alguma coisa que possa salvar você.> – Abeô murmurou enfim, ainda escondendo o rosto – <Você se cura com suas chamas… Você é um cientista curandeiro… Deve…>

— <Não fossem minhas chamas, eu não teria resistido tanto tempo à doença. Quanto à ciência… ela ainda não tem respostas nem para as doenças que eles usaram para criar a minha.>

O africano enxugou o rosto e voltou-se para o namorado antes de perguntar:

— <Usaram doenças para criar a sua?>

Aidan assentiu, silencioso. Rapidamente, juntou as marmitas e copos enquanto dizia:

— <Temos que voltar para a estrada, Abeô, ou não chegaremos a tempo de receber sua irmã.>

O negro não disse nada. Deixou que o ruivo lhe colocasse o cinto de segurança, inclinou o corpo para trás, tapou os olhos com uma mão e tentou esquecer da vida. Ouviu a partida do carro, sentiu o leve balançar do veículo retornar e tentou se concentrar na brisa gelada que saía do painel à frente.

Nunca, em momento algum, teria imaginado que o objeto de sua paixão tivesse uma vida tão complicada, com inimigos tão poderosos e tão pouca esperança para o futuro. Na verdade, quando pensara em passar os dois meses seguintes com ele, ainda tinha esperanças de que, no fundo, a situação ainda se revertesse, de alguma forma. Um destino impossível de evitar era algo sobre o qual realmente não tinha parado para pensar.

Pela primeira vez, Abeô tentava se imaginar no leito de morte do tatuado. Lembrou-se dos avisos que o ruivo lhe dera, antes de se beijarem pela primeira vez. “Não vai ser uma morte rápida…”, “Vai ser feio!”, “Você vai sofrer muito…”

O africano abriu os olhos e analisou, brevemente, a paisagem ao redor da rodovia. A vegetação ficava cada vez mais parecida com a de Manaus, o que significava que logo estaria com a irmã. E, quando isso acontecesse, Aidan não teria mais qualquer razão para ajudá-lo. Se iria enfrentar aqueles meses com o ruivo, se iria fazer sua irmã acompanhar aquela morte também, precisava saber melhor o que os esperava.

— <Como a doença vai matar seu corpo?> – perguntou.

— <Como assim?>

— <O que você vai sentir? Quais sinais vão aparecer?>

— <Pra ser sincero, eu ainda não sei, Abeô.>

— <Como assim?>

— <O micróbio dessa doença nunca infectou ninguém além de mim.>

— <Mas esse micróbio foi criado a partir de doenças que já existem, não é?>

Aidan não respondeu. Dirigia com os olhos fixos na estrada, maxilar cerrado. O africano insistiu:

— <Essas doenças podem dar uma pista do que você vai sentir nos próximos meses, não é?>

A resposta de Aidan foi um sussurro:

— <Já disse que não quero que você acompanhe isso.>

Abeô respondeu no mesmo tom:

— <E eu já disse que isso não é escolha sua.>

— <Você não sabe do que está falando.>

— <Então me conta! Me conta para que eu possa decidir por mim mesmo.>

Mesmo com as mãos firmes no volante e os olhos fixos na via, o ruivo deixou uma lágrima escorrer para a barba antes de dizer:

— <Eu não quero nem que você saiba o que essa doença vai fazer comigo.>

— <Você tem o direito de querer.> – o negro respondeu – <Mas isso não tira o meu direito de saber e decidir por mim mesmo.>

Aidan enxugou a lágrima e continuou a dirigir, silencioso. Após alguns instantes, o africano decidiu arriscar:

— <Lepra?>

A reação do ruivo foi um suave bufar de deboche que deixou claro que o outro não tinha chegado nem perto.

— <Ebola?> – o gigante insistiu.

— <Eles queriam que minha morte fosse lenta e incapacitante, Abeô. Fora isso, se tivessem usado Ebola, provavelmente nem eles sobrevivessem.>

Nos instantes seguintes, nenhum dos dois disse nada. Até que o africano decidiu perguntar:

— <Câncer?>

Aidan não respondeu nada e nem olhou para o outro, mas seu lábio começou a tremer. O que aquela reação representava pesou no peito do negro, mas por mais desesperador que fosse, sabia que ainda não tinha terminado.

— <AIDS?>

De súbito, o ruivo virou o carro para o acostamento e freou. Virou-se para o outro, lágrimas nos olhos, e disse entre os dentes:

— <Sim, eles usaram câncer. Nas próximas semanas eu devo desenvolver câncer no cérebro, no fígado, no pulmão, nos intestinos, na pele. Devo ficar coberto de pústulas negras, perder peso até ficar pele e osso, devo vomitar sangue e fezes. Eles também usaram os mecanismos mais agressivos das doenças autoimunes, o que significa que cada vez mais partes do meu corpo devem atacar cada vez mais partes de si mesmo, como se fossem a origem da doença. Meu corpo, braços, dedos, coluna e pernas deverão ficar retorcidos, vou perder a capacidade de controlar quando evacuo e urino, mas isso não deverá ter importância, porque devido ao câncer de estômago e intestino dificilmente conseguirei ingerir alguma coisa. E sim, Abeô, eles usaram AIDS, o que significa que além de eu acumular as mais variadas doenças nas próximas semanas, o vírus que é a fonte da minha doença está armazenado nos meus gânglios linfáticos, na medula dos meus ossos e até no cérebro, e a química dessa doença muda tanto que o remédio que me servia ontem não me serve de nada amanhã.>

Abeô sentiu-se murchar. Encolheu os ombros e, atônito, manteve o olhar fixo à frente, no porta-luvas. Aidan enxugou as lágrimas, respirou fundo e pisou no acelerador. E pelo resto da tarde, eles nem mesmo olharam um para o outro.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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