Abeô, em sua forma de golem, e Aidan, em chamas, se preparam para a batalha

Capítulo 48 – De paixão e pavor

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: 1) O capítulo atual reflete o mais fielmente possível os sentimentos do protagonista, mas não representam, de maneira alguma, a opinião do autor. Mesmo assim, o texto pode conter gatilhos de sentimentos realmente pesados para algumas pessoas.

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Naquela tarde, por várias vezes, Abeô quis gritar. Não queria gritar nada específico, apenas sentia aquela ânsia de vomitar toda frustração, raiva e angústia que sentia. Por mais de uma vez, pensou em abrir a porta e pular fora do carro, correr para longe, para qualquer lugar. Sabia, entretanto, que fugir não adiantaria. Não conseguiria mais fazer de conta que não sabia que as almas era apenas ideias, lembranças repartidas entre os miolos dos vivos. Como diabos esqueceria os gigantes caminhando sobre o sol, embaixo de todas as cabeças do mundo? O Deus a que seus pais serviam ainda seria a alma d e um mago que planejava matar quase toda a humanidade, para ser a única divindade existente. E principalmente: mesmo que fugisse, como é que conseguiria não sofrer a cada vez que pensasse na evolução da doença de Aidan?

Era angustiante imaginar o ruivo magérrimo, de olhos fundos, coberto por feridas negras e apodrecendo de dentro para fora. Presenciar, com certeza, seria muito pior do que imaginar. Em verdade, o africano sentia como se o tatuado já estivesse se decompondo naquele exato momento. Como se AIDS, câncer e sabe-se lá que outras doenças emanassem do suor, voz e respiração dele. Estar ali, tão perto de alguém tão doente, era assustador. Com o passar das horas, Abeô começou a encolher-se, cada vez mais, no seu lado do carro. Era difícil acreditar que alguém tão belo carregasse uma maldição tão terrível, capaz de fazer um ser humano vomitar sangue e bosta.

Era AIDS, caralho! Sim, não era AIDS pura, mas isso só tornava as coisas piores, só aumentava o medo de Abeô. Em sua terra natal, aidéticos e leprosos eram expulsos da vila. Como não lembrar de cada palavra que sua mãe lhe ensinara sobre a doença? “É a doença dos pecadores mais desprezados por Alá!”, “O sangue deles é podre, o suor deles é podre, não deixe que cheguem perto de você!”, “Se vir um deles, limpe-se o mais rápido possível. Lave-se todo com água bem quente e sabão, se esfregue com força e reze pela misericórdia de Alá, pra que não te amaldiçoe também!” Obviamente, o africano limitava-se, até então, a deixar que a voz de sua mãe lhe invadisse os pensamentos. Por um lado, parecia cada vez mais difícil não obedecer aquela voz. Por outro, era desesperador demais pensar em nunca mais sentir aquela pele quente, aquela barba ruiva, e nunca mais ver aqueles olhos ou beijar aqueles lábios. Era como se a própria vida tivesse decidido torturá-lo.

Ele nunca tinha se apaixonado daquela forma por ninguém. Nunca desejara ninguém com tanta intensidade, nem se sentira tão completo, tão viciado. E justo quando descobria que esse alguém também o desejava acontecia desse alguém ter AIDS. Era alguém de quem nunca mais poderia se aproximar, que nunca mais poderia tocar, sob risco de também se tornar um amaldiçoado, um imundo, alguém de quem todos teriam o mais profundo medo e nojo.

Como cuidaria de Shanumi caso a doença o pegasse? Imaginava o olhar de pavor e desprezo da pequena quando soubesse que seu irmão era um maldito. E isso doía, profundamente, muito mais do que se fossem seus pais a descobrir.

Quando anoiteceu, Aidan parou o carro na primeira cidadezinha pela qual passaram. Sem olhar para o africano, sussurrou, em hausa:

— <Vamos parar um pouco, tomar um banho, comer alguma coisa e dormir umas horas. Depois voltamos para a estrada.>

Abeô não respondeu. Não conseguiria. Então os dois continuaram ali, sentados no carro, parados, silenciosos, por mais alguns minutos. Até o ruivo continuar:

— <Fique tranquilo, Abeô. Amanhã chegamos a Manaus, você pega sua irmã e eu sumo da vida de vocês. Você nunca mais vai precisar me ver.>

Aquilo acertou o africano como um soco no estômago. Ele respondeu automaticamente, quase sem perceber:

— <Eu não estou pronto para nunca mais te ver.>

Aidan bufou de leve, irônico. Não disse nada, mas foi o suficiente para Abeô perceber: tinha passado a tarde inteira sem pousar os olhos no ruivo. O que, definitivamente, demonstrava o medo e  nojo que tinha do outro. Percebeu o quanto tal atitude devia magoar o tatuado, e então, meio que desesperado, voltou o olhar para o motorista.

Em meio às sombras da noite, viu o ruivo enxugar os olhos antes de encará-lo. Foi um gesto muito breve, porém mais que o suficiente para dimensionar a tristeza que o outro sentia. O que significava que, caso decidisse se afastar, além do sofrimento da doença, Aidan carregaria consigo a dor de não estar perto dele. E o pior: provavelmente sua última lembrança seria o nojo do africano diante da doença.

Até então, Abeô enxergava apenas o vulto do ruivo, mas quando um poste próximo se acendeu, o rosto gordinho, os olhos verdes e a barba vermelha voltaram a ficar visíveis. Por uma fração de segundo, o negro ficou extasiado com a visão. Então percebeu que, independentemente do que decidisse, não veria aquele homem assim por muito tempo. Se decidisse ficar com ele, o veria murchar, apodrecer e sofrer cada vez mais, a cada dia, até nunca mais vê-lo. Porém, se escolhesse cuidar da própria saúde e da irmã, provavelmente só o veria por mais aquela noite. O que era tão angustiante quanto alguém morrendo de sede ver o último copo de água ser derramado e evaporar nas areias do deserto.

O africano tentou conter as lágrimas, mas só conseguiu sufocar o grito, dolorido, na garganta. Olhar para Aidan doía tanto, em tantos sentidos, que Abeô começou a esmurrar o porta luvas, bufando, os lábios trêmulos. Foi quando sentiu sobre o ombro a mão quente e macia do ruivo. Como das outras vezes, veio aquela corrente de tremores e arrepios se alastrando da pele tocada para a espinha e o resto do corpo. Contudo, logo em seguida, vieram o nojo, o medo e a repugnância, ao que o africano encolheu o ombro, prendendo a respiração por segundos.

Mentalmente, Abeô xingou a si mesmo de todos os nomes possíveis. Sim, sentia o que sentia, mas Aidan não merecia aquela reação. Além disso, sentiu o calor afastar-se junto com a mão do ruivo, restando ao negro apenas um vazio abissal que engolia qualquer prazer e esperança.

Por que diabos não se decidia? Como podia desejar alguém e ter nojo ao mesmo tempo? Aflito, Abeô começou a socar a própria fronte, lágrimas salgadas nos lábios e um rugido escapando entre os dentes. A força das pancadas aumentou rapidamente, alcançando novos patamares de dor, mas o africano não ligou. Queria organizar os pensamentos, achar rápido uma solução para aquela confusão, deixar de ser puxado para lados tão opostos.

— <Para com isso, Abeô!> – a voz gravíssima de Aidan ribombou enquanto as mãos quentes seguravam os punhos do negro. Instintivamente, o africano escondeu o rosto no peito de Aidan abraçando-o com força. E nisso o prazer de sentir aquele corpo forte e gordinho contra seu rosto, o cheiro tão discreto quanto inebriante, a barba macia roçando sua cabeça raspada. E, novamente, a repulsa: a vontade urgente de se afastar, o desespero, o medo de que a podridão do ruivo se alastrasse para dentro dele. Dessa vez, porém, o negro não obedeceu sua mãe. Pro inferno com sua mãe, seu pai, com Shanumi! Estava cansado da dúvida. Talvez, no fim das contas, fosse melhor que a maldição o pegasse logo, pois talvez assim morresse com Aidan e não tivesse que se preocupar com viver sem ele.

Prazer e asco continuaram a se alternar, mas não soltou o corpo do ruivo. Segurou forte, talvez até com força demais, como se o outro fosse sua âncora no dilúvio. As lágrimas também continuaram intensas, minando pouco a pouco suas forças.

Abeô adormeceu sem perceber. E pelo menos por alguns minutos, a doença de Aidan não teve a menor importância para ele.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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