Capítulo 49 – Golpes e pancadas

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Notas do autor: 1) O capítulo atual reflete o mais fielmente possível os sentimentos do protagonista, mas não representam, de maneira alguma, a opinião do autor. Mesmo assim, o texto pode conter gatilhos de sentimentos realmente pesados para algumas pessoas.

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Marcante como café, a voz grave lhe sussurrava o nome. Tendencialmente, ela o teria despertado rápido colocando-o, prontamente, em estado de alerta. Entretanto, havia algo de tão suave e doce nela que o sono de Abeô se dissipou bem aos poucos.

A primeira coisa que sentiu foi um calor gostoso que parecia lhe acariciar o rosto, as costas e os braços. Havia também o cheiro tênue, quase imperceptível, que não parecia com nenhuma outra coisa. Ao mesmo tempo, era um aroma tão familiar e reconfortante que tornava toda a existência tranquila, perfeita como um bocejar. E havia aquela textura macia no rosto, na barba, milhões de minúsculos abraços que lhe diziam que era amado.

— <Abeô?> – a voz repetiu.

Dessa vez o africano reconheceu o timbre. Voltaram-lhe à mente o vermelho alaranjado dos cabelos e da barba, as formas fortes e arredondadas, a barriga macia, as tatuagens, os olhos verdes. Aidan. O Aidan das chamas que o banhavam de energia. O ruivo que também era um autônomo quântico como ele. O Assassino de Deuses. A beleza que morreria em dois meses. De AIDS.

Parte dele queria abrir as pálpebras e se refrescar naquele sorriso, no verde vivo daqueles olhos. Porém, ao mesmo tempo, retornava o medo, o nojo. Como se vermes viajassem por baixo da pele do ruivo, esperando apenas a oportunidade certa para mergulhar, também, em sua carne negra.

A voz de Aidan continuou:

— <Nós precisamos tomar banho, gigantão, e seguir caminho. Vamos lá?>

Sim, o medo se fazia bem presente. Parecia que tudo em Abeô gritava que se afastasse, que fugisse dos vermes, antes que pegasse AIDS, câncer e sabe-se lá o que mais. Por outro lado, ele sabia que, sem aquele abraço, viver se tornaria ainda mais desesperador. E o pior: não sabia mais se, caso se afastasse, teria novamente coragem de voltar àquele contato. Sem perceber, abraçou o outro com mais força, tentando afundar o rosto mais profundamente naqueles pelos e barriga. Pelo menos até ouvir os ossos estalarem e o gemido de dor.

— <Devagar, gigantão!> – Aidan murmurou, soltando-se – <Você é muito mais forte do que pensa…>

Abeô não ofereceu resistência quando o tatuado se soltou. A última coisa que queria era machucá-lo. Preferia, mil vezes, morrer antes de provocar qualquer sofrimento no outro. E foi essa constatação que o fez lembrar da última cena que presenciara antes de adormecer: o vulto de Aidan enxugar as lágrimas antes de encará-lo.

A mesma tristeza o inundou de novo, dolorida, no fundo do peito e da garganta. O ruivo pareceu não prestar atenção. Vestiu novamente a camiseta, pegou uma das mochilas no banco traseiro e passou-a para Abeô, sem fixar o olhar nele. Pegou a outra mochila, abriu a porta do motorista e saiu do veículo. O africano ainda passou alguns instantes ali, parado, pensativo. Talvez, no fundo, se gostasse de verdade de Aidan, devesse se afastar o mais rápido possível. Porém como viveria sem a presença dele? Como teria qualquer tipo de paz quando imaginasse que, sabe-se lá onde, o ruivo sofria e morria, provavelmente sozinho?

Abeô abriu a porta quando viu, lá fora, o companheiro de viagem parar e encarar o carro. Assim que deixou o veículo, o africano ouviu o carro bipar uma vez e peças estalarem nas portas. O ar era morno e úmido como em Manaus, o que indicava que já estavam perto. De qualquer forma, o nigeriano não prestou tanta atenção nisso. Chamou-lhe muito mais atenção o fato de Aidan esperar que ele se aproximasse mas, antes que o alcançasse, voltar a caminhar em direção à casinha com a lâmpada amarelada na porta. Antes mesmo que o africano entrasse, o ruivo conversou algo com a atendente. Entregou uma nota de cinquenta reais, pegou uma chave e caminhou para um corredor dentro da casa.

Enquanto seguia o outro, Abeô pensou em como aquele lugar lembrava as construções nas minas. Ok, nunca tinha visto uma casa pintada de azul em sua terra natal, mas isso só parecia realçar as rachaduras, teias de aranha e manchas gordurosas na parede. Havia também as bolhas esverdeadas na tinta, que se quebravam e soltavam finas cascas no chão.

Aidan abriu uma das portas e entrou, deixando-a aberta. O africano o seguiu em tempo de vê-lo soltar a mochila em uma das duas camas do cômodo, pegar uma toalha que estava sobre a mesma e entrar apressado num recinto dentro daquele. O ruivo fechou a porta rapidamente e ouviu-se o trinco do lado de dentro da porta. Pouco depois, o som do chuveiro se fez ouvir, dúzias de jatos d’água no chão.

Abeô ficou parado em frente às camas por instantes, pensativo. Sentia-se fraco, esgotado. Queria dormir novamente, deixar toda aquela história para trás e esquecer de tudo. Deixou a mochila junto à de Aidan e sentou-se na outra cama. Os estalos na madeira não o deixaram muito confiante, então levantou-se. Com uma das mãos, tirou o colchão da cama. Com a outra, ergueu a armação de madeira e prendeu-a nas vigas da casa. Devolveu o colchão para o chão e ajeitou mais ou menos o lençol antes de tirar a camiseta já suada e os tênis. Deitou-se de barriga para cima, panturrilhas sobre o chão vermelho e fresco. Ainda suava bastante, mas pelo menos aquele frio o ajudaria a dormir.

De olhos fechados, o africano ouviu alguns soluços se elevarem acima do ruído do chuveiro. Foi algo breve, muito rápido, mas que ele rapidamente entendeu. Conhecia muito bem aquele som. Era o mesmo que ele próprio tentara abafar ao confessar, pela primeira vez, que estava apaixonado por Aidan.

Antes que percebesse, estava à porta do banheiro, os nós dos dedos ressoando na madeira enquanto murmurava:

— <Aidan?>

Não houve qualquer outro som além do chuveiro. De jeito nenhum isso surpreendeu o negro. A julgar por sua própria experiência, a última coisa que Aidan queria era atrair qualquer tipo de piedade ou pena. Mesmo assim, aquele silêncio doía de maneira amarga e inaceitável. Abeô sabia muito bem por que o ruivo chorava. Isso fazia com ele se odiasse.

— <Aidan?> – insistiu – <Abre a porta.>

Novamente, apenas o som do chuveiro. E isso fez o africano se odiar ainda mais. Aquilo era culpa sua. A dor que ele e Aidan sentiam era culpa sua. Ele não sabia como, nem exatamente o que isso significaria no futuro, mas tinha que consertar aquilo. Tinha, no mínimo, que mostrar que se importava.

Ele empurrou a porta de leve, sem efeito. Lentamente, aumentou a força, até ouvir a madeira ranger.

— <Para com isso, Abeô!> – a voz gravíssima, embargada, superou o som da água e da madeira.

— <Então abra!> – respondeu, sem perceber que a própria voz saía espremida – <Abra essa maldita porta!>

Quase imediatamente, o chuveiro foi fechado. Mais uns vinte segundos, e o africano começou a ouvir pancadas surdas dentro do banheiro, rapidíssimas, agrupadas em dúzias.

— <Aidan?> – o africano indagou angustiado.

— <Já estou saindo, ok?>

Houve mais alguns grupos de pancadas surdas antes de, após alguns instantes de silêncio, o ruivo abrir a porta. Estava enrolado na toalha, peito e barriga nus, olhos inchados e vermelhos, apesar do rosto sereno. No entanto, o que realmente chamou atenção de Abeô foi o conjunto de manchas roxas que formavam uma linha do peito ao pescoço do ruivo. O tatuado caminhou como se fosse sair do banheiro, mas o negro não se moveu. Continuou a estudar as manchas, perplexo, até indagar:

— <Você… estava batendo em você mesmo?>

Aidan não respondeu nada. Apenas apoiou a mão no peito do negro e empurrou, tentando forçar passagem. O que foi, obviamente, em vão.

Apesar do silêncio do outro, as peças se juntaram rapidamente no cérebro de Abeô. Lembrou-se das pancadas que o ruivo lhe aplicara, pancadas que o tinham matado. Quem saberia o que mais o Assassino de Deuses seria capaz de fazer com aquelas sequências de golpes?

Independente do motivo, aquelas manchas pareciam erradas demais aos olhos de Abeô. Era como se as pancadas tivessem sido em sua garganta, e não na pele do ruivo. Instintivamente, como a criança que leva o dedo cortado à boca, o africano aproximou os dedos da maior das manchas. Tê-la-ia tocado se a mão tatuada, rapidíssima, não o tivesse desviado.

Surpresos, seus olhos encontraram os do ruivo. Estavam tomados de raiva, revolta e tristeza. Tremiam, com uma nova camada de líquido transparente formando-se rapidamente. Então, antes que mudasse de ideia, antes que Aidan o impedisse, o africano inclinou-se e beijou-lhe os lábios de leve.

Instantaneamente, sentiu paz. Como é que ele não não lembrava do quanto ansiava por aqueles lábios? Entretanto, num piscar de olhos, Abeô voltou a enxergar os vermes pútridos passeando sob a pele branca e os pelos ruivos. AIDS. Pronta para penetrar seu corpo na primeira oportunidade.

Antes que percebesse, estremeceu. Aidan já se afastava do beijo, mas certamente percebeu a rápida mudança na postura do outro. As lágrimas agora escorriam livres no rosto dele, a cabeça ruiva meneando negativas enquanto dava um passo para trás.

— <Você não precisa fazer isso, Abeô.> – sussurrou entre os dentes – <A última coisa que eu preciso é da sua piedade… ou do seu nojo.>

Agora eram os olhos do africano que tremiam, úmidos, desviando-se daquele verde vivo. Como é que Aidan ousava pensar que aquele beijo tinha a ver com piedade, quando tudo que desejava, apesar do medo, era a paz daqueles lábios? Sim, era uma paz logo seguida por medo e asco, mas era alguma paz. E talvez, no final, quando os vermes estivessem nele também, o nojo passasse enfim. E nesse caso, restaria apenas a paz.

Rapidamente, o negro abraçou o ruivo com força e colou seus lábios aos dele. E desta vez ele tinha certeza: só soltaria quando os vermes da AIDS tivessem tomado seu corpo.

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