Capítulo 57 – A morte da esperança

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Ainda não conhece Golem? Então comece acessando AQUI.

 

Abeô estava tão boquiaberto quanto desesperado. Mais uma vez, via seu amado entre a vida e a morte, mas dessa vez a assassina era sua própria irmã. Pior ainda: nunca alguém o ferira de forma alguma, nem mesmo as balas e mísseis dos encouraçados doíam tanto quanto o poder quântico dela. Pela primeira vez na vida o africano via o próprio sangue.

Ele mal registrou quando a soltou, o que aconteceu simultaneamente a um monte de terra carregar Aidan para uns seis metros de distância. Enquanto a observava ser erguida pela armação de metal vivo, o golem pensava consigo que jamais imaginara que ela fosse capaz disso. A única vez que a vira fazer algo parecido fora perto das minas. Tinha sido um dia em que decidira perguntar por que ela sempre brincava sozinha, mas bastou observá-la para ter a resposta. Enquanto os dedinhos dançavam, uma pequena pedra flutuava acima da mão dela. Aos poucos a rocha, que mais parecia argila, assumiu a forma de uma esfera com a mesma textura da pedra. Então tornou-se mais e mais lisa, mais e mais transparente, até funcionar como uma lente. E de transparente o vidro passou a um tom amarelado, com aparência plástica. Enquanto os dedinhos continuavam a dançar, a esfera minguou e pétalas cresceram ao redor, dando ao conjunto a aparência de uma flor. O plástico das pétalas assumiu o aspecto de borracha amarela, que logo era o material da flor inteira. Em seguida, a flor assumiu a forma de um cachorrinho que, de borracha amarela passou a metal dourado, onde ela viu o reflexo do irmão boquiaberto. Assustada, deixou o cachorrinho de ouro caiu no chão tilintando contra as rochas. Nesse momento Abeô se aproximou, murmurando:

— <Ficou lindo o seu cachorrinho. O que mais consegue fazer?>

A pequena não respondeu de imediato. Deixou o irmão se aproximar e entregar-lhe o cachorrinho de ouro. Ela então se concentrou e a pequena escultura assumiu aparência porosa, num tom de rosa vivo como Abeô jamais tinha visto. Shanumi partiu o cachorrinho ao meio, colocou uma metade na boca e a outra metade na do irmão, e assim ele percebeu que perninhas, rabo e meia barriga de açúcar derretiam na sua língua.

Naquele dia, Abeô tinha se perguntado o que aconteceria se ela decidisse, em lugar de mudar a forma e o material de uma pedra, aplicar aquela habilidade num ser vivo. Com certeza seria capaz de machucar mas, a julgar pelo tamanho dos objetos que ela manipulara naquele dia, não seria o suficiente para matar alguém. Seria, no máximo, uma forma de se defender.

Era uma certeza que caía por terra naquele momento, quando ele sentira o poder invisível da irmã lhe arrancar nacos de pele das regiões em que a tocava, sangue jorrando abundante das feridas. Felizmente, junto ao sangue, surgiu o piche, cobrindo-o rapidamente. A dor, entretanto, continuou lancinante, já que o piche mais próximo a ela continuava a ser sugado, gotículas negras flutuando em direção a ela enquanto se transformavam na gaiola de metal vivo que a erguia. E a julgar pelo movimento e aparência dos filamentos ao redor dela e dos que perfuravam o ruivo, o metal perfurava o chão até enraizar-se dentro dele.

Foi com algum alívio que Abeô viu o namorado, apesar do longo grito de dor, acender suas chamas e criar uma bolha de labaredas com uns cinco metros de diâmetro. Mesmo assim, era possível ver o relevo do metal crescer sob a pele tatuada e a face. Após acender as chamas, o ruivo tentou pular, mas tudo que conseguiu foi saltar alguns centímetros, rasgando a carne que cercava o metal. Era óbvio que morrer sob um ataque daqueles era questão de segundos. Bastava que as raízes criadas pela menina lhe alcançassem o coração, pulmões ou mesmo o cérebro.

Medo e raiva transbordaram dentro do gigante de piche. Quando percebeu, já tinha concentrado toda força num golpe contra a armação metálica ao redor da menina. O golpe quebrou a conexão da estrutura metálica com o chão, arremessando Shanumi e sua gaiola viva para o alto e para trás. Com parte de seus olhos múltiplos, Abeô notou que ela não se machucaria. Automaticamente, novos filamentos metálicos parecidos com molas surgiram para amortecer o impacto ao redor da pequena. Foi atitude dele então foi abraçar Aidan e pular para longe dali.

O grito do ruivo ao ser arrancado dos filamentos pareceu doer em cada pedacinho de Abeô. Mesmo assim, sabia que apesar dos ferimentos que acabara de infligir, as chamas cicatrizariam tudo. Através do piche nas costas, registrou que a menina não fora arremessada a mais que uns vinte metros. Mais aterrorizante, porém, foi perceber que a armação ao redor dela ganhara patas, que já a carregavam como uma aranha veloz que pulava entre as árvores. Ela ainda precisaria fazer uma volta para desviar-se do incêndio que Aidan deixara para trás, mas os alcançaria poucos segundos após pousarem.

— <<Maldita homofobia!>> – o ruivo sussurrou entre as chamas, filamentos de sangue incandescente ainda brotando das feridas. Abeô não tentou entender o que aquela nova palavra inglesa significava. Assim que tocou o chão, saltou novamente. Com alguma sorte, conseguiria aumentar a distância entre eles e sua irmã.

No auge do segundo salto, o ruivo disse, já sem sangrar:

— <Desse jeito vão nos achar rapidinho. É questão de minutos até despejarem mais encouraçados aqui.>

Aidan calou-se enquanto o gigante pousava e saltava novamente. Pelo piche dos pés, Abeô enxergou, lá embaixo, as árvores serem ultrapassadas pela aranha metálica que carregava a irmã. Sem o grande incêndio do início, ela quase mantinha a distância entre eles. Com o rosto voltado para o movimento das árvores, o ruivo continuou:

— <No próximo pouso vou me esconder. Quando ela o alcançar, você precisa tirá-la daquela gaiola e segurá-la com o peito aberto na minha direção.>

Abeô considerou consigo que a ideia tinha tudo para dar errado. Bastava se aproximar dela para o piche ser arrancado de seu corpo, o que doía como o inferno. Como se não bastasse, teria que arrancar o metal ao redor dela enquanto nada a impediria de remontar a estrutura toda. Por fim, ainda precisaria segurá-la pelas costas, expondo o tórax da menina a sabe-se lá o que o ruivo planejava. Em qualquer outra situação, teria argumentado, mas tanto estava emudecido pelo piche quanto não tinha qualquer outra ideia. Sabia apenas que fugir não era a resposta. Não bastaria salvar a vida de Aidan. Se Shanumi não parasse, logo os encouraçados, ou talvez até novos magos, estariam ali. Não demoraria para descobrirem quem ela era de verdade, então providenciariam para que nem a alma dela sobrasse. Depois, quando a doença vencesse o último Assassino de Deuses, era só questão de tempo até Monus executar seus planos. E tudo indicava que Monus encarnado seria muito mais poderoso que os magos contra os quais o africano lutara. Definitivamente, ficava difícil acreditar que sobreviveria a um inimigo assim.

Quando Abeô estava a mais ou menos um metro do chão, o ruivo apoiou os pés no peito dele e saltou para cair ainda mais distante que o namorado. Ainda no ar, apagou suas chamas, girou a barriga para o chão e rolou as costas no chão, erguendo-se em seguida para saltar e continuar a correr. Segundos depois, quando Shanumi e a aranha metálica chegaram, ele já tinha desaparecido na mata.

— <Onde está aquele maldito?!> – a menina gritou enquanto o metal ao seu redor se contorcia para derrubar o irmão e levá-la adiante.

O golem, entretanto, não saiu da frente. Bastou as patas da gaiola se aproximarem para milhares de gotas do piche serem sugadas para a estrutura e convertidas em metal. Por uma fração de segundo, Abeô imaginou que transpirava sangue, que assim que suas mãos tocassem o metal, o piche seria totalmente arrancado de suas palmas e mãos. A pele provavelmente seria arrancada também, e da mesma forma a carne e os ossos. Mesmo assim, ele continuou com as mãos abertas, preparadas para aparar o avanço da estrutura.

Tocar as pernas da coisa foi tão dolorido quanto imaginava. Era como se o piche fosse cera de vela e o metal estivesse rubro de tão quente. A dor reverberava em todo líquido negro, que tremia com força, emitindo o som de dezenas de gritos. Porém, ao contrário do que temia, o piche entre suas mãos e a gaiola não desapareceu. Quanto mais o poder de sua irmã lhe arrancava piche, mais piche parecia lhe nascer no corpo, espessando a proteção negra. Apesar da dor, ele não apenas impediu o avanço da gaiola metálica como também começou a arrancar-lhe pedaços e atirá-los para a mata.

— <Por que você está fazendo isso, maninho?!> – a menina gritou – <Por Alá, a gente precisa salvar sua alma! A gente tem que matar aquele imundo que te corrompeu!>

Em parte, ela soava como a mãe quando falava da própria religião, em parte como o padre que às vezes visitava a mina. Enquanto isso, como o africano previra, os pedaços de metal arrancados cresciam quase tão rapidamente quanto ele os retirava. Era como se a aranha se cicatrizasse.

— <Pára, maninho!> – ela gritou enquanto garras surgiam do metal e tentavam lhe segurar os pulsos.

O golem não levou nem três segundos para rasgar aqueles novos constructos. Ao mesmo tempo, a estrutura principal da aranha se consertava mais lentamente, com certeza pela quantidade de metal que Shanumi concentrara na tentativa de imobilizar o irmão.

Ela gritou, mãos em garra apontadas para os punhos de Abeô. Foi quando o africano sentiu o piche ao redor dos punhos doer muito mais. Uma força invisível parecia puxá-los para cima, mas era como se o piche fizesse tudo escorregar. Em compensação, as gotículas negras que lhe eram arrancadas se tornaram muito mais abundantes naquela região. Formavam rastros que convergiam para acima da cabeça dele à medida em que avançava para desmantelar a gaiola ainda mais.

Aquilo doía muito, mas ele não parou. Shanumi gritou com mais força, retesou ainda mais as mãos apontadas para os punhos do golem. Urrou por mais cinco segundos até se calar, ofegante, braços desfalecidos dentro do que restava da gaiola. Quando o irmão ia finalmente tocá-la, juntou o que restava de forças para tentar novamente conter-lhe os punhos. Entretanto, antes que seu poder se manifestasse, Abeô fez suas mãos gigantescas cobrirem a da irmã. Seu maior temor era que que o contato direto com o piche a machucasse, mas quem se feriu foi ele. O líquido negro ao redor das mãos dela, rapidamente, se transformou em metal, que também criava tentáculos e tentava se enraizar para dentro dele. Entretanto, de alguma forma, aquele mesmo metal era dissolvido por sua defesa, que continuava a se espessar.

Enquanto isso, pelo piche na nuca e costas, Abeô viu Aidan surgir da mata, correndo para eles, em chamas. O que ele gritou, a princípio, não fez muito sentido:

— <Se ajoelhe e erga-a!>

A voz do ruivo fez com que Shanumi gritasse com mais força, debatendo-se. O africano, no fundo, temia o que Aidan faria, mas obedeceu. Apoiou um joelho no chão e ergueu a irmã acima da própria cabeça.

O tatuado, ainda em chamas, usou a panturrilha e as nádegas do gigante para escalá-lo, saltando em seguida. Enquanto subia, as chamas se estinguiram e, assim que se viu em frente à menina, ele disparou uma sequência de uns trinta golpes em diferentes pontos do tronco, pescoço e cabeça dela. Assistir aquilo através das milhares de perspectivas que o piche lhe permitia só deixou Abeô mais preocupado. Aquilo se parecia demais com o momento em que o namorado o matara, mas também era diferente. A sequência de golpes era mais longa e complexa. Talvez ele não estivesse parando o coração dela, mas talvez estivesse usando mais pancadas por a menina ser uma Assassina de Deuses.

A dúvida desapareceu quando a pequena parou de gritar. Rapidamente, o golem colocou-a no chão enquanto recolhia o piche. Não deu a mínima atenção para todos os ferimentos na sua pele terem desaparecido. Embora registrasse que restara uma fina camada de metal ao redor das mãos dela, Abeô queria saber se ela respirava, e não levou dez segundos para ter certeza que não. Imediatamente, gritou para o namorado:

— <Traz ela de volta!>

— <Eu não posso.>

— <Como assim não pode?!>

— <Não funciona assim.>

O ruivo ajoelhou-se e procurou alguma pulsação no pescoço dela. Ia murmurar alguma coisa quando o namorado gritou, desesperado:

— <Se você não pode trazê-la de volta, por que a matou?!>

— <Porque era a última chance de salvar o mundo!>

— <Então ela não morreu? Está viva?>

A expressão de Aidan tornou-se séria, triste, antes que respondesse:

— <Desculpa, gigantão. Ela está morta, mas não tenho como encontrar a alma dela e explicar tudo, como fiz com você. Eu não a veria até ela aprender a ficar visível na Teia Cerebral.>

— <E o que isso tem a ver com trazê-la de volta a vida? É só você aplicar os golpes e fazer o coração dela bater!>

— <Ela poderia ressuscitar completamente sem alma.>

— <Como assim, sem alma?>

— <Ela não seria mais uma Assassina de Deuses. Não lembraria de nada, nem de você, nem de mim. Não saberia falar, nem andar, nem comer, nem beber. Teria que aprender tudo de novo.>

Abeô arregalou os olhos e alternou-os entre a menina e o namorado antes de bradar:

— <Então como diabos isso ajuda a salvar o mundo?>

— <Eu desbloqueei as lembranças de todas as vidas passadas da alma dela. Quando conseguir organizar as memórias ela deve acordar sozinha.>

Por instantes, o africano calou-se, pensativo. Quem a menina seria quando acordasse? Aidan tinha mais de dois mil anos, e com certeza tinha vivido outras vidas antes disso. Isso significava que Shanumi teria memórias de milhares de anos, ainda mais antigas do que as do ruivo?

Os segundos arrastavam-se enquanto Abeô torcia para a irmã voltar a respirar.

— <Volta, Shanumi!> – murmurava.

Aos poucos, percebeu que a irmã ficava pálida, a pele esfriando rapidamente. O tórax permanecia estático e os dedos de Aidan continuavam no pescoço dela, procurando, cada vez mais agitados, uma pulsação.

— <Por que ela não acorda?> – o africano murmurou.

Aidan não respondeu. Continuou a procurar o pulso no pescoço dela. Abeô gritou:

— <Por que diabos não acordou ainda?!>

— <Porque são muitas memórias para ela aceitar e organizar. Isso pode levar tempo.>

— <E se o corpo dela morrer antes do processo terminar?!>

O ruivo respondeu com os dentes cerrados:

— <Eu tenho certeza que ela vai conseguir.>

Silencioso, o africano deixou as lágrimas escorrerem no rosto. Depois de dois minutos, Aidan juntou as palmas sobre o peito dela, mas conteve-se. Afastou-se ofegante, socou uma árvore várias vezes e voltou a procurar qualquer sinal de vida no pescoço dela.

Um minuto depois, Abeô começou a soluçar. E por mais cinco minutos, o ruivo continuou, em vão, a procurar qualquer sinal de batimento cardíaco no pescoço da menina. Os dedos tatuados não mais apertavam diferentes áreas do pescoço dela, agora apertavam todo o lado do pescoço quando Abeô notou as primeiras lágrimas descerem no rosto do ruivo. Com um longo e desesperado grito, o africano, sentado no chão, arrastou-se até ficar a alguns metros dos Assassinos de Deuses. Escondeu a cabeça entre as mãos e gritou, repetidas vezes, desesperado.

Mais um minuto se passou. Foi quando de repente o tatuado arregalou os olhos e, rapidamente, começou a massagear o peito da menina.

— <Abeô!> – gritou – <Precisamos de você.>

Enquanto o africano enxugava as lágrimas e corria para eles, Aidan tapou o nariz da menina e soprou forte em sua boca. Em seguida, voltou a massagear o peito dela enquanto dizia:

— <Continue soprando ar para ela! A alma está voltando, mas o cérebro já está morrendo!>

O africano obedeceu da melhor maneira que conseguiu. Não registrava o que o namorado fazia. Desesperado e em lágrimas, tentava manter o ritmo das baforadas de ar na esperança de que aquilo salvasse a irmã. Não iria falhar com ela. Não agora.

Até que Aidan o interrompeu, puxando-o enquanto murmurava:

— <Já chega, Abeô. Olhe!>

O africano afastou-se para observar a irmã. A cor retornava. O peito subia e descia, lentamente. Ela tossiu diversas vezes e abriu os olhos, ofegante, como se acordasse de um pesadelo. Virou-se para o ruivo e murmurou apressada, misturando inglês e hausa:

— <Aidan…! O escudo…!> <<A rastreadora, o transportador!>> <A ilusionista… o engenheiro… o dimensionador!> <<O multiplicador… a profeta…>> <A relativizadora… e o curandeiro…>

Logo em seguida ela desfaleceu, com respiração lenta e profunda, e os olhos movendo-se loucamente sob as pálpebras fechadas.

 

Epílogo da primeira temporada

No coração dos Estados Unidos, um menino de oito anos tentava mudar, minimamente, a posição em que passara os três últimos meses. As câimbras iam e vinham, contrações doloridas e formigamentos alternando-se constantemente. O braço, bem mais fino que no começo, tinha uma grossa crosta de pus e sangue coalhados ao redor de onde os cabos entravam e saíam da carne. As mesmas substâncias se espalhavam entre o chão e os joelhos, que desde o primeiro dia não tinham se erguido mais que alguns milímetros. Os lábios e a garganta doíam, de tão secos, e havia um constante soco no estômago, que só minguava uma vez por dia, quando lhe entregavam uma maçã. Por mais que tremesse de frio, torcia para que lhe jogassem aquele balde de água gelada e desinfetante. Afinal, a urina e as fezes lhe escorriam entre as pernas, fétidas. A vantagem do frio era que afastava as moscas. A desvantagem era que lhe faziam ter saudade das roupas, cujos restos apodrecidos já tinham escorrido com a mistura de sangue e merda que de vez em quando rapavam ao redor.

A porta metálica se abriu, então o característico cheiro de eucalipto refrescou o ar. Uma mulher de manto e capuz brancos entrou com rodo e um balde. Despejou a mistura gelada no tronco e lombo do menino. Em seguida, com o rodo, puxou os principais resíduos para escorredouros que o cercavam.

O menino sabia que o alívio era breve. Minutos depois, outras pessoas vestidas como a mulher entraram no recinto e, ao redor dele, entoaram os estranhos versos em árabe. Logo, o mais velho deles, o mesmo senhor de longa barba branca, mergulhou cada um dos dedos do prisioneiro em tinta vermelha. O rapaz não resistia mais. Não tinha mais força para tentar nada. Apenas chorava, calado, a respiração cada vez mais rápida e superficial.

O homem começou a girar a manivela três passos atrás do garoto. Como sempre, a esteira de linho branco começou a mover-se sob os dedos dele, assim como os cabos metálicos passaram a entrar e sair de seu antebraço. Enquanto o menino gritava, movimentos involuntários dos dedos deixavam centenas de marcas no tecido. Naquele dia, entretanto, o garoto sentiu uma intensa dor na cabeça, muito mais lancinante do que as novas feridas que os cabos lhe infligiam.

Havia raiva na nova dor. Poderosa, potente, que parecia estourar cada vaso em seu cérebro. E foi assim, sangrando pelo nariz, olhos e ouvidos, gritando com muito mais força do que jamais gritara naquele cativeiro, que o menino respirou pela última vez.

Apressado, o sacerdote analisou as marcas no pergaminho. Arregalou os olhos, surpreso. Em seguida, bradou. Relâmpagos surgiram ao redor dele, dançando enquanto explodiam uma dúzia de pontos na cela. Os magos mais jovens encolheram-se, assustados. Os mais velhos apenas apontavam a mão à frente, dissolvendo os raios antes que os atingissem.

O sacerdote acalmou-se e disse, em inglês:

— <<Os Assassinos de Deuses foram reunidos. E ela, como prevíamos, é autônoma. O que ninguém esperava era a extensão do seu poder. Pior ainda, que tivessem sucesso em varrer a esperança dela.>>

Todos os presentes na cela começaram a discutir, assustados e raivosos. O ancião respirou fundo e gritou por silêncio. Imediatamente atendido, falou, entre os dentes:

— <<O Altíssimo ordenou que iniciemos, imediatamente, o Armagedom Dimensional.>>

Uma nova agitação tomou conta dos magos. Medo e apreensão eram evidentes, mas não discutiam ou elocubravam. Vários desapareceram no ar, outros correram para a porta de saída, mas a maioria sacou o celular e começou a gritar ordens.

Todos sabiam que as consequências seriam devastadoras, mas fariam tudo, absolutamente tudo, pelo advento do Reino de Monus.