Capítulo 27 – Confissões à morte iminente

Autor: Osíris Reis
Arte: Marco ByM e Osíris Reis

Nota do autor: Apesar do que o protagonista acredita, homossexualidade não é maldição, nem doença, nem aberração. Pelo contrário: é um fenômeno absolutamente normal em inúmeras espécies da natureza. Na verdade, existem cada vez mais estudos sobre as vantagens evolutivas da homossexualidade, vide este link

 


Abeô arrumou rapidamente as coisas no banheiro e foi direto para a cozinha. Aidan não estava lá, nem na despensa. O africano então caminhou apressado para o quartinho, surpreso com o quão rápido o colega tinha se desocupado. Ao chegar lá, deparou-se com o ruivo já vestido, apenas com o pequeno short azul, deitado no colchão à esquerda da entrada.

Como sempre, Abeô sentiu o coração acelerar, apertado, ao ver as tatuagens sob os pêlos ruivos, abundantes. Sempre ficava hipnotizado por aquela barriga volumosa e peluda, subindo e descendo lentamente, como que emprestando vida a cada desenho na pele. Da barriga seu olhar correu para o peito, de onde geralmente passava à barba e aos olhos verde musgo do barman. Dessa vez, entretanto, Aidan tapava os olhos com o antebraço, o que deixou o negro pesaroso. Embora, por outro lado, aquela posição deixasse os fios ruivos da axila absolutamente convidativos.

Abeô murmurou o nome do outro, ao que obteve um gemido como resposta. Foi sua deixa para perguntar:

— <<Posso falar com você um instante?>>

— <<Fale.>> – Aidan respondeu, preguiçosamente, sem se mover.

O negro respirou fundo e virou-se de costas para o outro, pensando em como começar aquela conversa. Tirou as botas de borracha texturizada e as meias. Foi quando comentou:

— <<Aconteceram coisas importantes comigo hoje, Aidan.>>

O outro murmurou uma interjeição que, pelo tom, significaria algo como “Continue*. E foi o que Abeô fez, apesar do medo inchado na garganta:

— <<Eu sei que pode parecer besteira, mas uma música falou comigo hoje.>>

— <<Não é besteira…>> – O ruivo sussurrou num bocejo. Pelo som, parecia que, enquanto falava, ele tinha virado de lado na cama, de costas para o africano.

Houve silêncio por quase um minuto. Ainda virado para seu próprio colchão, Abeô calçou os chinelos, pegou a bermuda, desamarrou as mangas do macacão e terminou de despir a peça, ficando só de cuecas. Sentia um calor às costas, como se Aidan tivesse acendido suas chamas e elas estivessem prestes a lhe lamber. Era, na verdade, uma mistura de intensos vergonha e desejo, a tensão entre ansiar que o outro o olhasse e a culpa por querer isso.

Enquanto vestia a bermuda, pensando no que falar em seguida, a voz do ruivo soou, sonolenta:

— <<E o que a música lhe disse?>>

O africano ficou imensamente grato pela pergunta. Virou-se para o ruivo e sentou no colchão, apoiando as costas na parede. O outro, de fato, estava deitado de lado, de costas para ele. Deixou o olhar percorrer os pelos ruivos naquelas costas robustas antes de responder:

— <<Que eu preciso descomplicar. Que não adiantar tentar mudar o que sinto, nem por quem me apaixono ou deixo de me apaixonar. Que tenho que ser sincero comigo… e com os outros.>

Abeô fez uma pausa e passou as duas mãos pela cabeça raspada, como se limpasse suor. Aidan não emitia outro som além da própria respiração, lenta e leve, quase inaudível. Diante do silêncio do outro, soltou um sussurro tão suave que mais pareceu um gemido:

— <<E?>>

O africano tinha agora o queixo quase colado ao peito, as mãos entrelaçadas sobre a nuca. Sim, sabia que estava tentando se esconder. Mesmo assim, continuou:

— <<Que nada é mais importante que o amor, mesmo entre dois homens. E que diante dele, não há decisão a ser tomada além da sinceridade. De encarar aquele momento em que os dois têm que dizer se a paixão veio dos dois lados ou não.>>

Aidan prendeu a respiração, ao que Abeô o olhou por alguns instantes, apreensivo. Porém, logo em seguida, aquele som suavíssimo retornou. O negro apoiou as mãos nos joelhos erguidos e olhou para a fresta da cortina, um fio de luz do dia cortando o quarto. Mal percebeu quando pronunciou as palavras:

— <<Eu contei. Contei para o capitão Rodrigo que não daria certo entre nós.>>

A respiração do ruivo permaneceu inalterada. Talvez só estivesse audível daquela forma por ecoar muito próxima à parede, sabe-se lá. Abeô não olhou para ele. Manteve os olhos fixos naquele fio de luz, o raiozinho de esperança, de ousadia para sonhar. Continuou:

— <<Foi difícil, principalmente porque me fez entender, um pouco, a situação em que talvez eu tenha colocado você assim que chegamos ao Rio, entre aquelas árvores.>>

Ali estava o momento do qual a música falava. Não tinha mais para onde fugir, nem onde se esconder. Nem queria. Não aguentava mais a incerteza, tinha cansado daquilo. Além do mais, não era decisão dele, nem de Aidan. Tudo que podia fazer era colocar o que sentia para fora e descobrir a verdade. Olhou fixamente para o colega, para a cabeça dele, para caso ele se virasse se olhassem nos olhos. E continuou:

— <<Mas o talvez não serve mais pra mim. Então, por mais desagradável que seja, por mais que você tenha dito que é o cara errado, eu preciso por isso pra fora e ter certeza que você me entendeu e que eu o entendi. Eu vou ser sincero com você. E, realmente, que você seja sincero comigo mesmo que isso me machuque.>>

A respiração suave do ruivo cessou, assim como qualquer movimento dele. Abeô pensou em esperar alguma reação dele, mas estava farto de esperar. Articulou as palavras com calma, em alto e bom som, a sinceridade em cada sílaba:

— <<Eu estou apaixonado por você, Aidan McNaught. E preciso saber se você sente o mesmo por mim.>>

Quase imediatamente após o africano pronunciar a última palavra, a respiração do barman retornou. Respirações longas, profundas, com o som tão claro e calmo quanto as palavras do negro. E naquele som, Abeô teve sua resposta.

Não, nem de longe Aidan sentia o mesmo por ele. Se o ruivo lhe recitasse aquelas mesmas palavras, por mais que estivesse cansado, a ansiedade para ouvir cada palavra lhe soterraria qualquer vestígio de sono.

As lágrimas brotaram abundantes e rápidas nos olhos de Abeô. Junto com elas, veio o desejo de gemer, gritar, praguejar. Contudo, não emitiu um único som. Embora a dor na garganta crescesse a cada soluço contido, não deixou nada escapar. Lidar com aqueles sentimentos era problema seu, não do ruivo. E a última coisa que precisava era que o outro acordasse e o visse naquele estado.

Deitou-se de lado, encolhido, abraçando a si mesmo. Virou-se para a parede e, quando as lágrimas empaparam um palmo do lençol, quando cada músculo se cansou da força dolorida que silenciava os soluços, adormeceu.

Um minuto depois, quando a respiração do negro sincronizou-se à do ruivo, sem ruído algum, o último virou-se para o colega. Seus olhos, inchados e vermelhos, ainda minavam em abundância, gotas que logo marcaram o colchão. Ainda com apenas o ressonar de Abeô a quebrar o silêncio, Aidan levantou-se devagar e enxugou as lágrimas com as palmas das mãos. Ajoelhou-se ao lado do amigo e passou a mão acima da cabeça dele, depois acima dos ombros, braços e costas, como se o acariciasse sem tocar. Mudos, os lábios articularam as posições de um “sinto muito, gigantão”. Em seguida o ruivo ergueu-se e voltou para seu lado do quartinho. Pegou um pacote de notas de cem de dentro do travesseiro, trocou os shorts por calça, camiseta azul de manga comprida e gola rolê, e tênis velhos e surrados. Amarrou o cabelo firmemente, escondeu-o numa touca de lã e então, em completo silêncio, saiu do recinto.

O barman subiu as escadas até a suíte VIP e ainda mais um, até uma porta trancada com um cadeado. Com dois finíssimos arames, abriu-o sem dificuldade ou ruído, a luz das dez da manhã inundando o recinto. Silenciosamente, entrou no terraço sujo, fechou a porta atrás de si e prendeu-a com a corrente e o cadeado. Então, sem qualquer preparação aparente, correu para a beirada e pulou do prédio de quatro andares.

A construção ao lado era quase dois metros mais alta e ficava a outros cinco de distância. Mesmo assim, as pontas dos dedos tatuados se apoiaram na beirada e, sem qualquer sinal de tremor ou desconforto, içaram o corpo volumoso para cima da laje. O processo se repetiu mais algumas dezenas de vezes, às vezes para prédios mais altos, outras para mais baixos. Até que, em um dos prédios, ele se dirigiu para outra porta, que também tinha um cadeado aberto voltado para fora. Entrou no prédio e desceu as escadas em silêncio absoluto, um andar de cada vez, evitando até que detectores de presença acendessem as luzes quando ouvia moradores no andar de baixo.

Aidan desceu até o estacionamento. Foi a um pequeno armário e destrancou-o com o mesmo par de arames. De lá sacou um capacete de viseira escura, um par de luvas de couro e uma jaqueta preta. Dirigiu-se a uma das motos, um modelo possante e caro, aproximou uma das mãos e acendeu-a com chamas azuladas. Em frações de segundos, as chamas mudaram de cor drasticamente, e várias vezes, ao que a moto emitiu dois bipes. O ruivo apagou as chamas e, com os arames, deu a partida no veículo. Vestiu uma das luvas, colocou o capacete e dirigiu até o portão de saída. Com a mão nua, repetiu o truque das chamas coloridas nos dedos e esperou o portão eletrônico abrir enquanto apagava as chamas e calçava a última luva.

Pilotou por algumas horas, até um dos morros mais pobres da cidade. Quando foi parado por traficantes armados, falou em português com sotaque idêntico aos dos mauricinhos locais:

— Vim comprar uns ice. – comentou, mostrando o pacote de notas de cem – Mas só se for do top.

Perto de Aidan, os locais eram nanicos magrelos. Contudo, estavam armados, o que os  permitiu gargalhar.

Num tem essas treta aqui não, cumpádi. – respondeu um deles – Aqui nóis só vende branco, pedra, preto…

— Tá chamando Eme Ci Devasso de caozêro, mermão?

A expressão dos traficantes ficou séria. Um deles fez sinal com a cabeça, apontando morro acima. Aidan subiu algumas ruas, até o barraco mais alto, onde estacionou ao som de funk e gargalhadas. Tirou o capacete e entrou.

Sua pele branca e cabelos ruivos chamaram atenção imediata. Era um churrasco com oito homens armados com metralhadoras, mais umas vinte garotas. O estrangeiro caminhou para o mais velho dos presentes, mostrou o pacote de cem e sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. Quando o homem relaxou, os outros o imitaram e a festa continuou como antes.

O mais velho pegou o celular e fez um breve telefonema. Disse que a mercadoria estava a caminho e convidou o estranho a sentar-se. Aidan perguntou onde era o banheiro e ausentou-se por alguns instantes. Quando voltou, postou-se ao lado de um dos rapazotes mais altos e lhe segredou:

— Não é por nada não, mermão, mas este lugar não é mais seguro pra você!

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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