Capítulo 28 – Go! Go! Go!

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: A tradução do título seria “Vai! Vai! Vai!!”, frase frequentemente usada por militares de língua inglesa.

 


Cumé que é??? – indagou o brasileiro surpreso, mas ainda assim sussurrando. Era um rapaz com uns 19 anos, mulato, magro, estatura mediana para os brasileiros.

Aidan respondeu no mesmo tom, mas num português mais formal, provavelmente o mesmo que um âncora de TV usaria:

— Eu disse que este lugar não é mais seguro para você. Que tem gente muito barra pesada vindo te buscar.

— Do que que tu tá falando, mermão?

De repente, o ruivo arregalou os olhos e voltou-se meio para o chão, meio morro abaixo. Sua resposta agora veio apressada:

— Eu tou falando que se sair comigo, agora, ainda posso te salvar. – e voltou-se para o rapazote, avaliando-lhe o olhar –  Você falou pra alguém onde você fez o assalto?

— Que assal…?

— O do homem de piche!

Foi a vez do brasileiro erguer as sobrancelhas, pasmo:

— Como é que você…?

— Falou ou não falou? – o ruivo insistiu.

— Não, eu… a galera ia zoar mui…

Novamente, Aidan concentrou-se em alguma coisa morro abaixo, embora, para os convidados parecesse que ele olhava alguma coisa no chão.

— Muito bem, garoto. – a voz profunda soou – Posso te levar pra um lugar seguro, mas tem que ser agora.

O brasileiro estava tão confuso quando desconfiado:

— Como assim?! Como é que você espera que eu…?

— Tique-taque. Eles estão chegando. Vão fritar seu cérebro independente da resposta que você der.

— Que pedra foi que tu fumou?!

Os outros presentes agora olhavam desconfiados a discussão. Alguns, discretamente, sacavam suas armas. Indiferente, o estrangeiro parecia agora acompanhar alguma coisa com o olhar, da direita para a esquerda. Murmurou:

— Última chance, rapaz. Quer viver ou não?

— Vai à mer…!

Como das outras vezes, o brasileiro não teve a chance de terminar a resposta. Aidan lhe agarrou o rosto enquanto uma perna lhe puxava o calcanhar. Numa fração de segundo, o ruivo empurrou a nuca do outro contra a laje com uma pancada tão forte que uma estrela de sangue desenhou-se no chão. E, antes que os traficantes entendessem, Aidan já tinha erguido a cabeça do outro e a golpeado contra o chão vezes o suficiente para afundar-lhe o crânio até pouco depois das orelhas.

Quando os tiros começaram, o ruivo já tinha corrido para trás de um dos locais que estava armado com uma metralhadora. O coitado levou todas as balas destinadas ao ruivo, que logo surgiu atrás dele, já com a arma do finado em punho. As rajadas vieram curtas e precisas, oito a doze tiros no meio da testa de cada brasileiro na laje. Por fim, Aidan apoiou a arma na nuca de seu escudo e disparou mais alguns tiros.

Enquanto o som da porta lá embaixo foi ouvido, o ruivo vestiu o capacete e pulou para o vão da escada, rolando para baixo entre as balas. Parou em pé, de novo disparando precisamente contra as testas dos guardas do tráfico, enquanto corria para fora. Não olhou ladeira abaixo. Colocou a alça da metralhadora por cima da jaqueta e pulou para cima da moto. Pelo retrovisor, avistou a mulher norte-americana de longos cabelos loiros, acompanhada de outra mulher, asiática, e um homem negro. Surpresos,  eles sacavam pistolas enquanto Aidan ligava o veículo. Entretanto, as balas vieram apenas quando ele já tinha percorrido os primeiros três metros.

Aidan acelerou morro acima, desviando-se de mulheres que gritavam desesperadas, crianças assustadas, homens e idosos. Atrás dele, a voz da loira disparava, em inglês:

— <<Vai, vai, vai, vai, vai!>>

Rapidamente, o morro ficou silencioso, exceto pelos tiros. Pelo retrovisor, o ruivo reparou que as mulheres, que antes gritavam desesperadas, agora permaneciam paradas, braços ao longo do corpo, caladas. À frente, as próximas pessoas que ele encontrou apresentavam o mesmíssimo comportamento, olhos vazios, distantes. Foi bem, bem mais complicado desviar delas nos becos apertados do morro. Miraculosamente, nenhum outro dos moradores locais se feriu.

Assim que chegou ao topo da favela, Aidan empinou a moto e bateu com a roda da frente em uma das portas, dirigindo para dentro do barracão. Sem diminuir a velocidade, guiou o veículo para a cozinha e de lá para a varandinha. Então, em linha reta, fez a moto pular para o telhado de uma casa do outro lado do morro, um pouco abaixo.

Surpreendentemente, os tiros continuavam, agora vindo muito de cima. Aidan fez a moto saltar daquele telhado para outro, depois outro, e até para cima da mureta de uma laje. Os disparos persistiam e, o pior, só não o acertavam porque, de alguma forma, a cada tiro o ruivo fazia uma manobra que o tirava da linha de fogo. Mesmo na metade da descida do morro, as balas ainda o perseguiam de muito perto, forçando-o a realizar manobras mais abruptas e longas. Não importava onde estivesse. Podia ser num telhado de telhas de cerâmica, ou por cima do que seria a viga principal sob telhas de amianto. Numa laje ou no parapeito dela, se houvesse. Às vezes quicava na roda da frente, outras só na de trás, ou girava entre elas, telhas e lascas de tijolos arrancadas para as vielas do lugar. Ali, entre as casas, todas as pessoas permaneciam paradas, estáticas, fitando o vazio. Várias eram baleadas no processo, mas Aidan sabia que não podia parar. Qualquer decisão errada, naquele momento, poderia colocar tudo a perder.

Ao longe, com o canto do olho, ele avistou uma pequena floresta. Era um morro próximo que, talvez, no futuro fosse se transformar em outra favela. Agora, poderia ser exatamente o que precisava para despistar seus perseguidores, de preferência antes que os encouraçados chegassem. A moto já estava quase no limite e precisaria dela para voltar sem ser filmado. Mesmo assim, acelerou até o talo. O veículo praticamente voou entre os telhados saltando para a mata.

Enquanto se aproximava do ponto mais alto do salto, Aidan projetou as pernas para trás e deixou-se ficar apenas com a mão esquerda apoiada no guidão. Estava praticamente ereto sobre a moto, mas de cabeça para baixo, o que lhe deu uma visão bem clara de seus inimigos. Com a mão direita, alcançou a metralhadora e disparou algumas balas em direção à asiática, que naquele momento fechava os olhos para se concentrar. Calculou onde ela estaria quando a bala se aproximasse e disparou uma rajada de 6 balas, de forma que, independentemente de como ela tentasse desviar a cabeça, não conseguisse.

Em seguida, ainda enquanto a moto se aproximava das árvores, o ruivo mirou no negro. Ele estava mais atento, de forma que seria mais difícil cercá-lo em suas possibilidades de desviar-se. Uma rajada no tórax, nesse caso, teria mais chance de feri-lo. Não esperou as balas acertarem o homem. Voltou a montar na moto, inclinando-a para trás, para que a roda traseira chegasse à copa das árvores primeiro.

A descida entre os galhos foi tudo, menos fácil. Ele ouviu nitidamente, a mangueira da gasolina romper-se, assim como os amortecedores e a roda empenando nas pancadas mais fortes. Sentiu os músculos dos ombros e abdôme doerem, reclamando do esforço para manter o equilíbrio. Ainda assim, quando a primeira roda tocou o chão, saltou para fora dela e rolou entre os troncos, afastando-se rapidamente do local. Retirou o capacete e arremessou-o longe, e só então escorregou por uma grande pedra lisa, descendo mais um andar antes que a loira e negro chegassem. Rapidamente, deitou-se no vão sob a rocha e esperou.

Como previa, os inimigos não repararam no vão. Estavam muito no alto para isso, então apenas passaram direto. Bastou um tiro na nuca do negro. Na mulher, entretanto, disparou apenas nos dois ombros. Precisava de informações.

Ela caiu a uns cento e cinquenta metros, gemendo de dor. Aidan correu para ela e disparou, dessa vez na pistola que ela tentava novamente empunhar. Quando a alcançou, pisou-lhe a mão esquerda, que tentava alcançar a arma, e em seguida, de leve, sobre a nuca dela.

— <<Muito bem, sargento Mars>> – ele rosnou – <<Agora você vai me dar algumas respostas!>>

 

 

Navegação<< Golem – Capítulo 27 – Confissões à morte iminente  ---  Golem – Capítulo 29 – Gogobear >>
         

About author View all posts Author website

Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    e retomando Golem <3

%d blogueiros gostam disto: