Golem – Capítulo 29 – Gogobear

Capítulo 29 – Gogobear

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: A tradução do título seria, ao pé da letra,  “Urso do vai-vai”, que é como a palavra realmente pareceria aos ouvidos de Abeô.

 


A música tocava animada, mas Abeô não se sentia à vontade. O traje que o senhor Albuquerque lhe entregara, para o novo trabalho, não passava de uma cueca slip branca e botas militares. Sim, ele até gostava de tirar a roupa enquanto dançava, mas aquilo já era ridículo.

— <<Isso é realmente necessário, senhor Albuquerque?>> – indagou Abeô, tentando ajeitar-se dentro da cueca sem ser indiscreto. Sentado no bar, ao lado do empresário, um homem de pele clara, olhos e cabelos escuros, magro e musculoso, olhava o africano de cima abaixo com um largo sorriso.

— <<Claro que é, Abeô!>> – o dono do local respondeu mexendo no celular – <<Todo rapaz do vai-vai tira e põe essa roupa de baixo várias vezes durante a noite.>>

Abeô sentiu o rosto formigar, quente. Apesar da cueca, sentia-se nu, tapando a genitália com as duas mãos, encolhido.

— <<Como assim tirar essa roupa?>> – perguntou.

Sem tirar os olhos da tela, Albuquerque estalou os dedos duas vezes em direção ao brasileiro e apontou para o negro.

— Mostra como ele tem que trabalhar a cueca, Jorjão! – disse em português.

O estranho ergueu-se e, sem qualquer cerimônia, tirou a camiseta e os sapatos sem meia, abriu o zíper e despiu a calça. Vestido apenas com uma minúscula cueca preta, começou a rebolar, os gomos da barriga serpenteando da direita para a esquerda. Aproximou-se de Abeô devagar, o sorriso ainda colado nos lábios e os olhos afiados passeando pelo corpo do africano, sempre com longas paradas  entre as pernas dele.

A proximidade deixou mais evidente a diferença de altura dos dois. Se olhasse para frente, o estranho daria de cara com o começo da barriga do negro. Porém o rapaz do vai-vai não parecia intimidado. Aproximou-se a ponto de em cada movimento seu corpo praticamente roçar o de Abeô que, discretamente, deu um passinho para trás.

Em dado momento, o tal Jorjão virou-se de costas e, no ritmo da música, começou a baixar a cueca. Contudo não o fez de uma vez. Despiu a slip preta apenas o suficiente para expôr as nádegas musculosas. Quando a música entrou num trecho mais lento, ele apoiou a mão direita, em concha, sobre a parte da frente cueca. Com a outra mão, puxou a lateral da peça até pouco abaixo do joelho e ergueu-o até quase o peito. Desvencilhou o pé e pronto: já tinha uma perna inteira fora. Trocou a mão que apoiava a parte da frente da cueca e repetiu o processo na outra lateral. Estava completamente despido, exceto pela parte da frente da slip, sempre apoiada por uma das mãos.

A música voltou a agitar-se e o brasileiro dançou mais um pouco. Às vezes virava a bunda para Abeô, outras fazia pequenos malabarismos com a cueca, mas sempre escondia a genitália com tecido. Mesmo o rapaz  não sendo seu tipo, o africano reparou que, de fato, o movimento das nádegas nuas era bem mais interessante. E que ver as laterais da virilha em movimento também parecia deixar muito mais interessante o que o moço ainda escondia.

Novamente, a música  ficou mais lenta, e dessa vez Jorjão recolocou a cueca e falou alto, em português:

— Muito bem, grandão! Sua vez!

Abeô entendeu o suficiente. Deu uma última olhada ao redor. Albuquerque continuava concentrado no celular e certamente não prestaria atenção neles. Já Aidan parecia nervoso, olhos correndo entre vários pontos próximos ao africano e os copos que secava. Parecia cansado, como se não tivesse dormido, olhos fundos e inchados. Vê-lo fez o negro lembrar da noite passada, do jeito que, apesar de ter dormido pesadamente, acordara como se o tivessem passado num moedor de carne. A outra vez em que tinha chorado tanto foi quando chegara ao Rio e Aidan o deixara sozinho no meio do mato. Mesmo assim, não tinha se sentido tão exaurido quanto dessa última vez.

Vamo lá, grandão! Dança pra eu ver! – o rapaz do vai-vai insistiu.

Abeô não estava com a mínima vontade de dançar, mas precisava. Ganharia cinco vezes mais, o que significava que traria a pequena Shanumi mais cedo para perto de si. Então resolveu balançar as pernas mais ou menos no ritmo da música, as duas mãos ainda cobrindo a virilha. Jorjão aproximou-se mais e o fez tirar as mãos da frente do corpo. Afastou-se um pouco e ficou observando o volume que fazia o tecido branco dançar entre as pernas de Abeô. Aproximou-se, novamente, e começou a acariciar os pelos da barriga e peitorais do negro. Não demorou para o mesmo parar de dançar e cobrir novamente a genitália sob a cueca, olhos arregalados, fixos no brasileiro.

— <<O que você acha que está fazendo?>> – perguntou, mesmo sem ter certeza se seria compreendido.

— Calma, chefia, calma! – respondeu o rapaz do vai-vai mostrando as palmas das mãos – Eu entendi, tá bom? Não vou mais fazer isso. Sorte sua que agora a gente dança naquelas caixas ali. – e apontou para as caixas de espelho semi-transparente.

Abeô analisou o recinto criado pelos espelhos. Imaginou que talvez, lá dentro, fosse ficar meio tonto pela quantidade de reflexos de si mesmo dançando ao seu redor.

O brasileiro tirou-lhe dessas preocupações:

— Mas olha, uma vez ou outra tu vai ter que dançar no palco. E aí a galera vai mesmo querer passar a mão no teu pau, na bunda…

Abeô entendeu mais ou menos o que o outro disse, mas preferiu não se aprofundar na tradução. Até porque Jorjão continuou falando e gesticulando:

— Vai lá, chefia, solta esses braços, relaxa e dança gostoso até tirar a cueca.

O negro forçou-se a tirar a mão da cueca e rebolar no ritmo da música. Tentou sorrir e fazer movimentos mais amplos, mais parecidos com os de quando estava no banheiro. O brasileiro caminhava ao redor, estimulando que se soltasse.

— Eu vi tu dançar no banheiro, rapá. Tu consegue te soltar muito mais. – disse em certo momento.

— Solta essa cintura…! – insistia noutros.

— Tá, finge que tu tá dançando sozinho com a mina ou o cara que tu mais gosta nesse mundo! Tem que pôr sensualidade aí, bicho! – Jorjão aconselhou enfim.

Abeô não entendia tudo, mas captou a ideia geral. Não queriam que fosse apenas um dançarino: precisaria também, de alguma forma, ser ator. Tinha que convencer os clientes de que estava tranquilo, feliz, que gostava de dançar de cueca, ou até sem, para eles. E com certeza, isso ficaria muito mais fácil se imaginasse que o viam dançar com o homem de seus sonhos.

O problema era que esse homem estava longe de retribuir seus sentimentos. E estava ali no balcão, naquele momento, secando copos enquanto o olhava fixamente, lábios franzidos como se algo o irritasse. Depois de uns cinco segundos que se olhavam, Aidan abriu um sorriso forçado, fingiu que batia palmas e baixou o olhar para os copos que secava.

O africano também voltou o olhar para baixo por alguns instantes. O ruivo estava sendo educado, só isso. Não merecia aquele desrespeito, mas não havia outra opção no momento. Então, Abeô fechou os olhos alguns momentos e imaginou-se num quarto, sozinho, dançando com Aidan, ambos apenas de cuecas.

Imaginou o ruivo passeando as mãos por seu peito e barriga, pescoço, barba, cabeça. Virou-se 180 graus, como se fosse para as mãos tatuadas lhe acariciarem as costas e nádegas.

— Isso mesmo! – aplaudiu Jorjão – Agora tira a cueca!

Enquanto o negro baixava a minúscula slip, Aidan ouviu o senhor Albuquerque dizer, em português:

— Ele vai ser um ótimo gogoboy.

— Gogobear, você quer dizer.

— Não me venha com essa história de urso! – resmungou o empresário – Mais do que nunca tá chovendo gordo querendo vir hoje à noite.

— E daí?

— Daí que não quero baixar o nível do Thermopolis! – rosnou Albuquerque, enquanto se virava para o balcão e largava o celular, irritado – Sempre me orgulhei de oferecer um ambiente de altíssimo nível para os meus clientes!

— Abeô é a prova de que seus clientes têm uma visão diferente sobre o que seria alto nível.

O brasileiro respirou fundo e olhou mais uma vez para Abeô, que já dançava de olhos abertos, a cueca solta, presa ao corpo com uma mão apenas.

— Ele é um urso, Guilherme Albuquerque. E eu garanto que se você trouxer mais ursos pra cá tanto ele vai dançar melhor quanto seus clientes vão ficar mais satisfeitos, quanto você vai lucrar muito mais do que já imaginou.

Aidan deu uma rápida olhada de cima a baixo no africano praticamente nu, de costas para o bar. Antes que o outro se virasse, o ruivo gesticulou pequenos “nãos” com a cabeça e baixou o olhar. Guardou a última taça sob o balcão e saiu para a cozinha, engradado a tiracolo, para buscar mais taças na lavadora.

Naquela noite, antes da música começar, o ruivo deu uma última passada no quartinho. Abeô andava de um lado para outro, estalando os ossos das mãos. Mal olhou para o colega, que vestia as luvas brancas e máscara que usava no bar.

— <<Não sei se consigo fazer isso, Aidan.>> – murmurou enfim.

Já totalmente coberto, o ruivo colocou-se à frente dele e respondeu:

— <<Consegue sim. É só você achar, na multidão, o cara para o qual você realmente gostaria de dançar apenas de cueca.>>

— <<Meu tipo de cara nunca aparece aqui!>>

Aidan não respondeu nada. Apenas quando já saía para a porta, virou-se para Abeô e pediu:

— <<Apenas fique de coração aberto, ok?>>

O ruivo saiu em seguida, fechando a porta. Como rapaz do vai-vai, o africano só deveria entrar na pista de dança às onze da noite, ou quando a casa estivesse quase cheia, o que acontecesse primeiro.

Surpreendentemente, às 22h, um dos rapazes da recepção abriu a porta do quartinho e anunciou, em inglês:

— <<Você entra em cinco minutos!>>

Abeô colocou-se de pé e respirou fundo. Conforme tinham lhe orientado, foi para a entrada de serviço, sob a pista de dança, para o elevador de sua cabine. Os outros rapazes do vai-vai já estavam posicionados, quando o mestre de cerimônias, lá em cima, anunciou em português:

— Bem vindos, senhores e senhores, a mais uma noite de sábado no Thermopolis Dance Club! É com muito prazer que lhes apresento o fabuloso, misterioso e já famoso Mascarado do Bar!

Os aplausos dos convidados foram muito mais altos do que o africano jamais ouvira. O mestre de cerimônias continuou:

— E para seu deleite e animação nesta noite, dêem as boas vindas à nossa equipe de rapazes do vai-vai!

Todos os elevadores, exceto o de Abeô, subiram. A confusão, no entanto durou pouco. Logo após as palmas do público, o mestre de cerimônias gritou:

— E pela primeira vez, no Thermopolis Dance Club, Ébanus, o nosso uuuuurso do vai-vai!

A ovação foi ensurdecedora lá em cima. E quando o elevador terminou de subir, de dentro da caixa de espelhos transparentes, Abeô finalmente viu e entendeu o que Aidan dizia. Havia homens de todos os jeitos naquela noite. Havia os tradicionais musculosos depilados, mas também gordinhos lisos, gordinhos peludos, homens com as mais variadas combinações de músculos, gordura e pêlos. Havia homens de cabelos, barbas e pelos totalmente grisalhos, outros rechonchudos com maquiagem feminina e salto alto, havia magros e sem músculos, e caras de todo jeito com roupas de couro imitando cães, além de imensos homens com trajes militares e de motoqueiros.

Naquela noite, Abeô não teve dificuldade para dançar. Pela primeira vez na vida se sentia realmente em casa, num lugar ao qual realmente pertencia. Pela primeira vez, era palpável a esperança de ser feliz de verdade, de apaixonar-se por alguém que também se apaixonasse por ele.

E foi com esse pensamento que ele dançou, a noite toda, de olho no brasileiro de barriga farta e peito grisalho, descamisado, dançando aos pés da caixa em que ele estava.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.