Golem – Capítulo 30 – O grisalho

Capítulo 30 – O grisalho

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Abeô dançava com olhos fixos no desconhecido de peito e cabelos grisalhos. Em verdade, não conseguia desviar o olhar, mesmo quando o outro se voltava para pedir uma bebida ou cumprimentar um conhecido. Tudo que captava eram breves mas constantes vislumbres do outro. Afinal, embora a visão do outro fosse nítida, se ficasse parado, Abeô não veria nada além do próprio reflexo. Ou reflexos, para ser mais preciso, alguns mais e outros menos transparentes. O segredo, no caso, era dançar de forma a que os reflexos mais transparentes passassem mais vezes por onde o grisalho estava. Isso, é claro, sem prejudicar a fluidez da dança.

O sorriso vinha fácil aos lábios do africano, principalmente quando o grisalho sorria de volta ou fazia o olhar percorrer-lhe o corpo. Os clientes aplaudiam com frequência, e pareciam não perceber em quem exatamente Abeô prestava atenção. Amontoavam-se ao redor da sua caixa de espelhos semitransparentes, uma pequena multidão de mãos e braços erguidos balançando no ritmo da música.

Tudo ia bem até a plataforma em que o africano estava começar a baixar. Aquilo deixou Abeô um pouco perdido, fora do ritmo da dança naqueles últimos instantes. O que só piorou quando o grisalho deu as costas para Abeô e começou a subir as escadas, em direção à saída, junto com vários outros. Mesmo assim, ele manteve a atenção naquela direção até a plataforma descer quase completamente e o teto se fechar acima dele.

Foi exatamente nesse ponto que o grito de um garoto do vai-vai chamou-lhe a atenção poucos centímetros à frente dele:

— Seu filho da puta!!! – foi o que colega gritou, tentando alcançar o africano. Só não conseguia porque Jorjão e outro garoto do vai-vai o seguravam.

Abeô analisou-o, surpreso. Era um negro bem mais alto do que os outros, o suficiente para o topo da cabeça estar na altura do pescoço do africano. Uma montanha de músculos grandes, rijos e bem definidos, completamente depilado, cabeça também raspada.

— Esse balofo de merda roubou toda atenção com essa comédia que ele chama de dança!!! E nem se deu ao trabalho de tirar a cueca, caralho!!!

— Até parece, Rick! – gritou de volta Jorjão – O cara tá salvando o Thermopolis!

— E ele ainda é novidade! – emendou o outro que ajudava Jorjão a segurar o nervosinho – É normal a geral prestar mais atenção nele.

Abeô compreendia o suficiente para ter alguma ideia do que discutiam. Contudo, aquilo não teve tanta importância quando o senhor Albuquerque entrou correndo no recinto e abraçou-o. Muito menos quando quase caiu de joelhos, segurou-lhe a barriga e começou a beijá-la repetidas vezes, dizendo:

— Bendita barrigona! Bendita barrigona de ursão!!!

Não foi só o africano que ficou pasmo. Em verdade, todos ficaram. Mesmo assim, Abeô fez o empresário erguer-se e perguntou em inglês:

— <<Nós vamos voltar lá hoje, não é?>>

— <<Relaxa, grandão!>> – respondeu Albuquerque, contente da vida – <<Já são três e meia da manhã. Vai descansar! Você merece!>>

— <<Não! Eu preciso dançar mais! Deixa eu voltar lá! Eu…>>

— <<O povo já está indo embora, Abeô. Você pode ficar dançando aqui em baixo, se quiser.>>

— <<Então eu preciso ir lá fora, eu quero…>>

— <<Você quer o povo arrancando seu pau, isso sim!>> – respondeu o empresário, gargalhando – <<Não, não, você já causou comoção demais por uma noite só. >> – ele agora caminhava de costas, em direção à saída – <<Toma um banho, vai descansar, Abeô. Semana que vem tem mais!>>

O africano ficou perdido por alguns instantes, pensando no que fazer. Tentava imaginar um jeito de encontrar o brasileiro grisalho quando um coturno lhe acertou a genitália.

Aquilo doeu como Abeô jamais tinha imaginado ser possível, principalmente para ele. Sentiu o piche tentando lhe sair do corpo e, com muito custo, o conteve. Encolheu-se tanto por reflexo quanto para trancar o segredo quântico dentro de si. Embora a pele toda parecesse arder, a dor mais concentrada no sexo passou rápido. E antes que percebesse, segurava, com uma das mãos, o tal Rick a uns dois centímetros do teto enquanto preparava o outro punho para desferir um soco.

O “Ai” de Jorjão, que tentou lhe segurar o punho, foi que o fez parar. Surpreso, olhou o garoto do vai-vai baixinho, que já quase considerava amigo. Ele massageava o próprio bíceps e o ombro com uma careta. Provavelmente tinha distendido tudo ali.

Foi assim que Abeô lembrou da própria força. O que pretendia fazer afinal? A imagem mental dos miolos de Rick nos nós de seus dedos quase o levou a vomitar. Soltou o outro negro imediatamente, deixando-o cair no chão, tossindo. Voltou-se para Jorjão e pronunciou no melhor português que conseguia:

— Desculpe!

Jorjão sorriu, apesar da dor, e fez um rápido não com a cabeça, dizendo que não se preocupasse. Lá em cima, do outro lado do teto, a música eletrônica ainda tocava, a laje ribombando com os passos e pulos dos clientes.

Antes de sair, Abeô voltou-se para Rick, que ainda tossia no chão, e rosnou para ele, fazendo-o encolher-se, assustado. Então praticamente correu para o quartinho e vestiu a calça e a camisa que Aidan lhe dera na noite em que tinham chegado ao Rio. De lá foi para a escada de serviço que o levaria a recepção. Porém, mal começara a subi-la e a porta em cima abriu-se, com um dos funcionários descendo. Era o mesmo rapazote loiro que os tinha recebido da última vez. Chamava-se Marcelo, conforme Abeô tinha aprendido.

— Bofe do céu, desce essa escada já! – ele exclamou com sua característica voz delicada – A bicharada lá em cima tá doida te procurando. Vai ser um furdunço só se souberem que você tá aqui!!!

O africano não entendeu completamente, mas recuou à medida que outro descia e lhe bloqueava a passagem. Quando chegaram embaixo, Marcelo continuou bloqueando o acesso à escada, com uma pequena bolsa de lona nos braços cruzados enquanto dizia, batendo o pé com o calcanhar apoiado no chão:

— Não entendeu, não, né, bofe? Tá, vamos lá tentar diferente! – então passou para um inglês quase tão alienígena quanto o português – <<Clientes pra cima doidos se você pra cima. Muito ruim. Muito, muito ruim. Você… não…. pra cima… Entender?>>

Abeô não queria acreditar, mas compreendeu. Mesmo a contragosto, voltou para o quartinho, tirou a calça comprida e a camisa, vestiu a bermuda verde e deitou-se com um frio na barriga. Morria de medo que o grisalho não aparecesse mais, que nunca mais o visse. Dormiu tentando encontrar alguma maneira de entrar em contato com ele novamente.

Enquanto isso, no balcão, Aidan, totalmente coberto pela máscara, as luvas e as roupas compridas, fatiava morangos e abacaxis no ar, distribuindo-os em cinco coqueteleiras. Aquela noite, novamente, os pedidos tinham voltado a deixá-lo realmente ocupado, mas já estavam novamente ficando menos frequentes. Entretanto, mesmo que tivesse de fazer vinte drinks, ainda teria percebido o ancião com o qual Abeô flertara a noite inteira voltando, tristonho, para a pista de dança.

O ruivo não pôde deixar de sorrir pelo quão irônico era pensar naquele brasileiro como um ancião.

Terminou os drinks e falou, no ouvido de um dos garçons que atendia os clientes no balcão externo, que faria uma pequena pausa. Raramente parava e, quando o fazia, era mais para não chamar tanta atenção dos clientes. Daquela vez, entretanto, o motivo era diferente.

Ele passou pelas duas portinhas dos balcões e caminhou para a cozinha. Pegou uma pequena caixa de presente e deu a volta para a entrada de serviço próxima ao banheiro, perto da escada. Como esperava, saiu poucos metros atrás do homem grisalho. Não precisou caminhar muito para tocar-lhe o ombro e atraí-lo até passarem a porta de serviço.

— Acho que sei quem você está procurando. – disse o barman em bom português – Só preciso saber se você é solteiro.

O brasileiro franziu as sobrancelhas cinzentas e respondeu:

— Sim, eu terminei…

Aidan não esperou a resposta. Murmurou um siga-me e caminhou para o quartinho. Antes de entrar, verificou que de fato o ancião o tinha seguido, e murmurou:

— Espere aqui.

O ruivo entrou no cômodo e, antes mesmo de acender a luz, encontrou um Abeô, surpreso, já se sentado no colchão. Ficou mais surpreso ainda ao ver o belo embrulho de formas vermelhas, principalmente quando o estendeu e disse:

— Prometa que não vai fazer nada se ele não concordar em usarem meu presente.

O africano ia perguntar algo, mas Aidan insistiu.

— Apenas prometa.

O gogobear assentiu e Aidan saiu, deixando a porta aberta. Voltou para o bar e continuou o restante da noite fazendo drinks. Quando amanheceu, limpou e organizou o bar, subiu para o terraço, tirou a máscara, as luvas, e a camiseta preta de mangas longas. Foi ali que passou o resto da manhã, aplicando as mais diversas formas de chute contra a viga mais grossa da caixa d’água.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.