Capítulo 32 – Riscos

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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— <<Acorda, Abeô.>> – a voz gravíssima soou.

Abeô despertou apertando contra o peito o lençol embolado. Ainda sentia a maciez da pele de Miguel contra a sua, mas o brasileiro não estava mais lá. Havia apenas o vazio, uma espécie de frio mesmo no calor quase insuportável do Rio. E sentado no colchão do outro lado do quarto, um homem ruivo com semblante cansado, olhos fixos nos seus.

— <<Você nem abriu a caixa, Abeô.>> – disse, assim que foi percebido.

Aidan girava, entre as mãos, a caixa embrulhada no papel vermelho que emitia minúsculos reflexos da lâmpada acesa. O africano sentia certa vergonha pela falta de consideração, mas estava muito mais embaraçado por estar nu. Por isso, apenas murmurou um rápido “desculpe”, enquanto desembolava o lençol e se cobria.

— <<Não é questão de pedir desculpa, Abeô.>> – rosnou o ruivo – <<É pra você mesmo. Pra sua irmã. Você não pode correr esse tipo de risco assim!>>

Abeô voltou-se surpreso para o barman, confuso.

— <<Do que você está…?>> – ia perguntar quando o ruivo arremessou a caixa contra ele, gritando:

— <<VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO, CARALHO!!!>>

A caixa acertou-o no rosto, mas não foi por isso que o africano sentou-se depressa. Havia algo muito errado com Aidan. A força com que fechava o maxilar, os discretos tremores no rosto, os olhos fundos, embaçados, encarando-o como nunca tinham feito antes.

Analisar o colega não traria respostas, então Abeô rasgou o papel da caixa e abriu-a. Encontrou seis envelopes plásticos, quadrados, colados entre si em dois grupos. O primeiro, com envelopes menores, parecia um pouco com os que recolhia no chão da sala escura. O outro era de um tipo que nunca tinha visto antes, com envelopes  quase tão largos quanto o controle remoto da TV. Havia também um tubo plástico parecido com pasta de dente, porém mais largo e comprido.

— <<O que são essas coisas?>> – indagou, voltando-se para o ruivo.

— <<São a diferença entre você viver ou morrer.>> – respondeu Aidan, finalmente baixando o olhar. Cobriu o rosto com as duas mãos, respirou fundo e deitou-se. Indagou, a voz abafada entre os dedos, mais calmo – <<Você não sabe mesmo do que estou falando, não é?>>

O africano murmurou um “não” desconfiado. Não conseguia pensar em qualquer situação em que aquelas coisas fossem a diferença entre viver e morrer.

— <<Leia as embalagens.>> – o ruivo resmungou.

Abeô fitou os objetos por algum tempo. De fato, havia letras nos mesmos, bem desenhadas, nítidas. Contudo, como todas as outras letras, não lhe diziam nada. Não passavam de riscos de tinta no plástico.

— <<Você não sabe como, não é?>> – Aidan insistiu.

— <<São produtos de limpeza.>> – o africano respondeu rapidamente, devolvendo os objetos à caixa.

O ruivo sentou no colchão e perguntou:

— <<Por que nunca me disse que não sabia ler?>>

Abeô não respondeu. Enrolou-se no lençol e caminhou até onde estavam a cueca e a bermuda verde. Vestiu-as sob o lençol e desvencilhou-se dele, largando-o na cama.

— <<Já ouviu falar de AIDS?>> – indagou Aidan.

O africano continuou o que fazia, sem olhar o colega de quarto. Separou uma nova bermuda, marrom, nova cueca e camiseta. Não disse uma única palavra. A mente, entretanto, corria a mil.

AIDS era uma maldição, como a lepra. Leprosos e aidéticos moravam juntos, longe dos trabalhadores das minas, fora da vila. Ambos eram imundos, mas aidéticos eram ainda mais, já que, frequentemente também pegavam lepra. Não viviam muito tempo. A maldição levava apenas alguns anos para apodrecer completamente os corpos das vítimas.

— <<Você pode ter pego AIDS essa noite, Abeô. Pode estar pegando agora, neste momento. Entende o que estou dizendo?>>

A resposta de Abeô acabou saindo mais agressiva do que pretendida:

— <<Quem é você para dizer uma coisa dessas? É algum tipo de bruxo, ou deus, ou demônio para me amaldiçoar desse jeito?>>

— <<Sou só um médico, Abeô. Um cientista que cuida da saúde das pessoas. E AIDS não tem nada a ver com maldição. É uma doença, um vírus, nada mais que isso.>>

O africano não respondeu nada de imediato. Não conseguia entender o comportamento do ruivo, mas também não conseguia acreditar nele. Separou o balde, a toalha, o sabonete, a escova de dentes.

— <<O que você fala não faz o menor sentido.>> – disse, abrindo a porta do quartinho.

— <<Você penetrou ele ou ele penetrou você?>> – disparou o ruivo, antes que o outro saísse.

O gogobear parou exatamente onde estava, o rosto tomado por um formigamento quente, quase dolorido. Sentiu vontade de rir e de gritar, de mandar o outro à merda. Por que diabos Aidan queria saber daquilo? Que direito ele tinha de saber?

— <<Não é da sua conta.>> – rosnou enquanto dava o primeiro passo para fora do banheiro.

Entretanto, antes que se afastasse demais, sentiu a mão quente do ruivo em seu bíceps. Quis, com todas as forças, puxar o braço com força e desvencilhar-se. Talvez quebrasse um osso do barman, talvez até lhe arrancasse a mão. Contudo, não conseguiu se mover, não com aquele calor que lhe inundava pele e músculos, não com aquele arrepio, aquele tremor na espinha. Sentia a raiva derreter-se, principalmente quando a voz gravíssima soou atrás dele, o hálito como brasa lhe acariciando os pelos:

— <<Desculpe ter assumido que você sabia ler. Desculpe não ter explicado direito. Foi tolice minha embrulhar os preservativos e o gel. Eu só… só queria ajudar… de alguma forma… a fazer a noite passada especial pra você. E segura.>>

Havia uma nota amarga, dolorida, na última frase. Dava vontade de virar e abraçar o ruivo, bem apertado, pegá-lo no colo e dizer que estava tudo bem. Porém não estava. Por muito tempo, quisera que a última noite acontecesse com Aidan. E por mais que gostasse de Miguel, por mais que tivesse sido maravilhoso, não deixava de se ressentir que o barman não o desejasse. E agora ele vinha com aquele papo de que queria “ajudar, de alguma forma, a fazer a noite passada especial”. A raiva tinha se dissipado completamente, mas isso não fazia aquelas palavras deixarem de parecer alguma forma de tortura.

Aidan continuou:

— <<Ainda há uma chance de você não pegar essa doença. Mas pra saber quais remédios você vai tomar, eu preciso, realmente, saber, se ele enfiou o pau em você.>>

Abeô fechou os olhos e puxou o braço devagar. E enquanto saía para o banheiro, murmurou, sem olhar para trás:

— <<Sim. Isso aconteceu.>>

O africano arrastou-se para o banheiro, confuso. As palavras do ruivo não saíam de sua cabeça. “Queria ajudar, de alguma forma, a fazer a noite especial”, repetia mentalmente enquanto esfregava a bucha ensaboada no peito e barriga.

Aidan tinha algum carinho por ele, era o significado que tinha medo de encontrar naquelas palavras. Porque querer tornar a primeira vez especial era algo que também sentia por sua irmã, embora jamais desejasse ser o pivot da primeira vez dela.

Quando voltou ao quarto, o ruivo não estava mais lá, o que deu ao africano a chance de deitar-se e tentar dormir. Sentia-se fraco, esgotado, sonolento. Não queria mais pensar em nada, queria apenas sucumbir a um sono sem sonhos e despertar quando Miguel voltasse. Se é que voltaria, o que por si só lhe dava um enorme nó na garganta.

Pouco depois, Aidan retornou ao quartinho, trazendo dois potes de plástico branco. Retirou uma grande pílula de cada e ofereceu-as ao negro, que engoliu sem qualquer resistência. Na meia hora seguinte, o ruivo explicou como usar os preservativos e o gel. Repetiu, várias vezes, que sempre precisaria usá-los para estar protegido contra AIDS e outras doenças transmitidas através do sexo.

O africano não percebeu quando dormiu, profundamente e sem sonhos como gostaria. A única coisa que seu cérebro continuou a registrar, de alguma forma, foi a sensação dos comprimidos na garganta. Como se tivessem se recusado a descer. Como se o convocassem a pensar em algo que, simplesmente, queria esquecer.

 

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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