Capítulo 33 – Suspense

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Perdoem, por favor, a ignorância de Abeô quanto ao HIV. Ele veio de um mundo repleto de misticismo e superstição, e ainda vai levar um tempo para entender a diferença entre doenças e maldições.


Abeô acordou ao anoitecer. Sabia disso apenas pelos reflexos violetas na janela, caso contrário não teria qualquer noção das horas. Parecia ter dormido duas noites seguidas, ou três, e de alguma forma o corpo ainda doía e pedia que dormisse mais. Talvez porque nunca tivesse dançado tanto, por tanto tempo. Porém havia aquela sensação estranha de algo que estava errado, de que algo doía sem que conseguisse discernir o que era.

A sensação dos comprimidos na garganta diminuíra bastante, mas ainda estava lá, nítida. Estava com medo? Será que estava, a partir daquele ponto, amaldiçoado? Teria que viver isolado, junto com os leprosos, apodrecendo aos poucos, de dentro pra fora? Será que seria punido, por Cristo ou Alá, daquela forma?

Ao lado da cama, ainda havia os tais preservativos que Aidan lhe mostrara na última noite. Agora, finalmente, os reconhecia como as pequenas bolsas de látex que recolhia do chão da sala escura. O que significava que, de fato, boa parte dos clientes as usavam. E que, se usavam, devia ser porque, de fato, aquelas coisinhas tinham algum poder contra a AIDS.

O que não conseguia entender, o que não parecia ter qualquer lógica, era como aqueles saquinhos poderiam impedir o poder de Alá ou de Deus. Mesmo assim, observá-los lhe trazia um gosto amargo à boca. Faziam-no lembrar dos momentos com o ruivo, na última noite. Na mente, dançavam as imagens dele lhe atirando a caixa vermelha, berrando com ele. Jamais imaginaria que algo assim poderia acontecer, mas agora tinha aceitar que, no fim das contas, talvez Aidan não fosse tão seu amigo assim. E talvez, depois de ter visto nele um amigo, e até quase um possível namorado, estar de novo sozinho no mundo fosse algo com que demorasse a se reacostumar.

Parou de divagar quando ouviu as leves batidas na porta e a voz delicada de Marcelo chamando-o. Colocou-se de pé devagar, músculos reclamando, enquanto dizia em inglês:

— <<Já estou indo.>>

— Bofe, você tá fazendo o maior sucesso!!! – anunciou o brasileiro assim que a porta abriu, puxando o confuso africano pelos corredores – A gente passou o dia todo recebendo ligações de gente querendo ver você, perguntando quanto você cobra, qual o teu dote e essas coisas que bicha adora perguntar! Mas agora à noite tinha um tal de Miguel que ligou umas duas vezes, e não perguntava nada dessas besteiras, sabe? Na terceira eu já ia desligar, porque seu Guilherme falou que não era pra te passar nenhuma ligação, mas aí o Aidan falou que você, com certeza, ia falar com esse Miguel e aqui estou eu – e interrompeu-se com uma risadinha nervosa – guiando você, esse bofe escândalo, até um lugar onde você possa conversar tranquilo com seu fã.

Abeô não entendeu quase nada além dos nomes dos envolvidos, mas foi suficiente para fazer o coração disparar. Quando o brasileiro puxou-o para o escritório do senhor Albuquerque, não quis entrar de imediato. Marcelo não insistiu. Apenas acendeu a luz, caminhou até a mesa, tirou o telefone do gancho e digitou alguns números. Segundos depois, falava com alguém do outro lado da linha:

— Sim, sim, ele já vai falar com você. – e estendeu o fone para o gogobear – Vem, bofe! Fala aí com ele. É o Miguel!

O africano ainda ficou parado alguns segundos. Não que não entendesse o que Marcelo dizia, entendia bem. O que não sabia, entretanto, era como reagir àquele momento, principalmente depois da conversa com Aidan na noite passada.

— Vem logo, Abeô! – o brasileiro insistiu, balançando o telefone com pequenos pulinhos – Para logo com esse suspense, bofe!

O negro pegou o gancho do telefone e colocou-o no ouvido devagar. Ouviu a voz meio rouca do grisalho cumprimentá-lo num inglês animado:

— <<Boa noite, grandão!>>

— <<Boa… boa noite!>>

— <<E então, como passou o dia?>>

Abeô não soube bem o que responder. “De manhã briguei com o homem que eu pensava que era meu único amigo, e ele acha que peguei AIDS. Depois disso, dormi o restante do dia e acordei com o corpo todo dolorido, e estou com medo de estar amaldiçoado mesmo. Mas obrigado por perguntar.” Não. Tinha que achar outra resposta para dar.

— <<Eu dormi bastante. Descansei.>> – respondeu enfim.

— <<Ah, bacana! Descansar é importante. Aliás, quase não consegui vir para o trabalho hoje. Ontem você realmente conseguiu me exaurir, seu rapaz safado!>>

Abeô não conseguiu conter um pequeno sorriso. Quase conseguia ver o rosto do brasileiro de barba branca ali, à sua frente, olhos desejosos, barriga macia colada à sua. Havia algo acalentador naquela visão, mas também havia medo. Medo da maldição a que Miguel o expusera na noite passada.

— <<Eu queria muito abraçar esse seu corpão super quente hoje…>> – o brasileiro continuou – <<Mas não consegui descansar nada ainda. Então, amanhã te ligo durante o dia e a gente combina de ir jantar num lugar bem bacana à noite, tudo bem?>>

— <<Hm… Ok… Er… obrigado!>>

Houve uma pequena pausa, após a qual Miguel indagou, uma nota de angústia na voz:

— <<Está tudo bem, grandão? Você parece… preocupado.>>

Abeô ergueu o olhar para Marcelo, que se ajoelhara em frente à mesa e apoiava o queixo entre as duas mãos, um sorriso sapeca nos lábios. Não parecia entender nada do que conversavam, o que deixou o negro mais à vontade para indagar:

— <<Eu… eu peguei AIDS ontem à noite?>>

Primeiro houve silêncio no outro lado da linha. Depois, o africano percebeu que Marcelo ergueu as sobrancelhas, surpreso, mostrando que havia entendido aquela palavra, mesmo em inglês.

— <<Que pergunta, grandão!>> – Miguel respondeu entre risadas breves, nervosas – <<Você está achando que eu tenho AIDS?>>

A pergunta pegou Abeô de surpresa. Não tinha parado para pensar nisso, mas agora, pensando no ponto de vista de Miguel, começava a dimensionar o quanto o outro devia se sentir ofendido.

— <<Não, eu… eu não quis dizer…>> – o africano despejou as palavras, nervoso – <<Eu só fiquei com medo porque não usamos preservativo, mas eu não acho que os deuses tenham te amaldiçoado ontem, porque a fêmea fui eu e…>>

— <<Calma, calma, calma!>> – interrompeu o grisalho – <<Tá, desculpa, eu devia ter vestido preservativo ontem, foi mal, eu me descontrolei. Mas olha, você não foi fêmea ontem, isso não existe. E meus exames estão em dia, eu sempre uso preservativo e eu garanto pra você que eu não tenho HIV, pode…>>

— <<HIV?>> – Abeô interrompeu-o, confuso.

Houve silêncio do outro lado. E então, um suspiro que o africano, nervoso, não conseguiu discernir nem como português nem como inglês. Houve outro silêncio e então, finalmente, o gogobear relaxou um pouco quando ouviu o discreto riso do brasileiro.

— <<Calma, Abeô. Fique calmo, ok? Tem muita coisa nessa história que você não entende ainda. Mas amanhã, quando a gente for jantar, eu te explico tudo direitinho, ok?>>

— <<Tá…>> – respondeu o africano, encabulado.

— <<Por ora, só fica tranquilo, ok? Você não está com AIDS. E amanhã a gente vai para um jantar gostoso, conversa direitinho, e depois eu vou poder abraçar esse teu corpão, e roçar minha barba na tua, e chupar…>>

À medida que ouvia a voz meio rouca do brasileiro, Abeô sentiu as preocupações se esvairem, pelo menos momentaneamente. Era fácil imaginar e sentir o que Miguel dizia, e tinha que admitir, ter o grisalho em seus braços, na noite seguinte, era tudo que precisava para sentir-se melhor.

Quando voltou para o quarto, viu que Aidan já estava deitado, olhos fechados, respirações profundas e lentas. O gogobear preferiu não acordá-lo, nem prestar atenção nele. Deitou-se virado para a parede e ficou se imaginando abraçado a Miguel até o sono voltar.

No dia seguinte, Abeô acordou assim que o sol nasceu. Aidan ainda dormia pesado, e provavelmente o faria até as nove. O sono havia passado completamente, deixando apenas o desejo de que o tempo passasse rápido, que a noite chegasse logo. Na verdade, não demorou para o africano perceber o que realmente queria: receber mais um telefonema do brasileiro de barba e cabelos grisalhos. Por isso, rapidamente, juntou seus apetrechos, tomou um banho e sentou-se numa pequena mureta do jardim, próximo ao escritório do senhor Albuquerque.

As  horas se arrastaram devagar, até Aidan aproximar-se com um prato e duas canecas. Sentou ao lado do africano e comentou, tentando esboçar um sorriso :

— <<Fiquei sabendo que você recebeu um telefonema especial ontem.>> – disse lhe estendendo o prato com saborosos pães de queijo e a caneca com leite achocolatado – <E que, aparentemente, vai receber mais um hoje.>>

Abeô encarou o outro por alguns instantes, analisando-o. Parecia cansado, olhos meio inchados e vermelhos, certamente fruto de muito trabalho na noite anterior. O número de drinks sempre aumentava semana a semana, mas nunca vira tantas caixas de frutas e bebidas indo para a cozinha.

— <<Parece que você encontrou o homem certo pra você.>> – emendou o ruivo – <<E acho que deveríamos brindar a isso.>>

O africano finalmente tomou a caneca, ao que Aidan empunhou a outra de forma a tocar a sua, murmurando:

— <<A Abeô e o brasileiro Miguel. Que sejam muito felizes juntos, por muitos anos, com a pequena Shanumi.>>

Abeô bebeu alguns goles do achocolatado perguntando-se porque Aidan não tinha se incluído no brinde. As perguntas se dissiparam quando o ruivo lhe estendeu dois grandes comprimidos, idênticos aos que tomara na manhã anterior, murmurando:

— <<Eu espero que Miguel realmente não tenha nada… Mas precisamos nos prevenir, ok?>>

O africano engoliu os comprimidos, que novamente pareceram passar um longo tempo na garganta. Aidan tomou o restante do leite calado, e calado afastou-se, deixando Abeô a sós. Voltou algumas horas depois com o almoço, no meio da tarde com o lanche e à noite com uma sopa. Foram horas arrastadas, nas quais o gogobear passou várias vezes entre a agradável antecipação de receber um novo telefonema de Miguel e os mais diferentes medos. O brasileiro podia ter sofrido um acidente. Podia estar chateado demais com a última conversa. Podia ter mentido sobre ele, Abeô, não estar com AIDS, e estar com nojo demais para telefonar.

Na manhã seguinte, novamente, Abeô sentou-se no mesmo ponto do jardim, o coração aos pulos a cada vez que o telefone tocava. Contudo, não o chamaram nenhuma vez. Aidan, como no dia anterior, lhe trouxe o desjejum, mas dessa vez não esperou que ele terminasse. Entrou no escritório, falou com o senhor Albuquerque e saiu depois para seus afazeres.

No almoço, o ruivo trouxe comida, mas também tinha uma caixa metálica na outra mão. Enquanto Abeô tentava comer alguma coisa, observou o outro puxar um fio negro do que seria a recepção, prendendo-o com pequenos pregos à parede. Continuou o processo até o quartinho, no qual cavou um furo e ali atravessou o fio preto. Entrou dentro do aposento e, minutos depois, convocou o africano para o mesmo. Mostrou-lhe que tinha acabado de montar um velho aparelho telefônico, perto do colchão do negro.

— <<Lembre que você não pode ligar para ninguém.>> – disse o ruivo, com seu sorriso cansado – <<Mas quando Miguel ligar, vão transferir para cá.>>

Assim, nos demais dias daquela semana, Abeô esperou, em seu próprio quarto, por mais um telefonema de Miguel. Mesmo na sexta, pouco antes de entrar na caixa espelhada, ele esperava no quarto que o telefone tocasse. Dançando para os clientes tentou, em vão, localizar o brasileiro de cabelos grisalhos. Esperou por um telefonema durante todo o sábado, procurou-o novamente na pista de dança à noite, e de novo esperou, durante todo o domingo, que o telefone do quarto tocasse. Mesmo na segunda-feira, quando Aidan se dispôs a lhe ensinar a ler, entre uma e outra letra que desenhava, o africano nutria a esperança de que, a qualquer momento, aquele telefone tocasse.

E foi assim que Abeô passou as duas semanas mais longas de sua vida.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.