Capítulo 35 – De urgência e desilusão

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Para ler os capítulos anteriores, acesse http://www.bearnerd.com.br/series/golem. E por favor, relevem a falta de conhecimento de Abeô sobre viver com HIV.

 

Tinham se passado apenas algumas horas desde que Abeô sonhara com a irmã. De manhã, Aidan conversara com o senhor Albuquerque, mas não conseguira nenhum adiantamento, nem autorização para Abeô trabalhar na limpeza quando não estivesse dançando. Então, naquela tarde de quinta, Abeô caminhava de um lado para outro, em frente ao escritório do patrão.

— <<Abrir um buraco no chão não vai ajudar a convencer Albuquerque a nos dar um adiantamento.>> – disse o ruivo num suspiro.

Sentado numa cadeira, Aidan mantinha olhos fechados e dedos entrelaçados à frente do corpo. Mesmo com a seriedade usual, não parecia preocupado, o que deixava o negro ainda mais desesperado, um tanto irritado até. E apesar da gentileza com que o outro lhe tratava, Abeô tinha certeza que o ruivo não acreditava nele. Ou não ligava para a vida de sua irmã.

O barman abriu os olhos e encarou o negro por alguns instantes antes de falar:

— <<Respire fundo, Abeô. Sente-se. Acredite em mim, eu consigo o dinheiro na semana que vem.>>

— <<Semana que vem minha irmã vai estar morta. Temos que fazer alguma coisa agora, tirar ela de lá o quanto antes.>>

— <<Eu sei que você está com medo, Abeô, mas você tem que pensar na possibilidade de essa história toda ter sido só um sonho.>>

— <<Não foi só um sonho!>> – o africano disparou, um pouco mais alto do que gostaria, ao que acrescentou quase sussurrando – <<Eu tenho certeza que não foi só um sonho.>>

— <<Desculpe, gigante. Você não tem como ter certeza.>>

Abeô ia responder alguma coisa, mas Albuquerque abriu a porta pelo lado de dentro e fez sinal para que entrassem. Enquanto caminhava, o africano adiantava o assunto:

— <<Nós precisamos, urgente, de treze mil reais, senhor Albuquerque.>>

O brasileiro soltou uma pequena gargalhada antes de se sentar e responder:

— <<Wow! E posso saber o porquê dessa urgência toda?>>

O gogobear se preparava para responder, mas Aidan se adiantou:

— <<São problemas de saúde na família dele.>>

Não era bem o que diria, mas Abeô teve que admitir que era tão bom quanto. O que Albuquerque disse em seguida, entretanto, não era nada bom:

— <<Como eu disse para seu amigo hoje mais cedo, Abeô, eu não tenho como ajudar vocês. O Thermopolis fez investimentos muito pesados nesse último mês, então estamos fazendo o possível para economizar.>>

O africano trocava olhares com Aidan que, a princípio, mantinha a tranquilidade no olhar. Até que, ainda fitando o colega, o ruivo arregalou os olhos, assustado. Então, antes mesmo de se questionar sobre o motivo do susto do outro, o negro não enxergava mais o escritório ao redor. Não estava mais com os dois brancos, e sim no topo de uma colina, ao anoitecer. Ao redor, havia apenas poeira amarelada e fina, tão fina que a brisa era suficiente para erguer pequenas porções de pó aqui e ali. No entanto, assim que olhou ladeira abaixo, percebeu uma nuvem de poeira que subia rapidamente. E havia os gritos, primeiro indiscerníveis, mas logo Abeô reconheceu o hausa da terra natal:

— <Mata a feiticeira!>

— <Filha do demônio!>

— <Quebra os ossos dela!>

— <Não deixa ela fugir!>

— <Arranca os cabelos dessa desgraçada!>

— <Queima essa maldita!>

Quase ao mesmo tempo em que o gogobear sentiu a boca do estômago regelar-se, seu corpo arqueou-se em direção às vozes. Antes mesmo que pensasse, sentiu as pernas repuxarem com o esforço de empurrar o chão. E enquanto corria, quando pousou os olhos naquelas pernas e bracinhos magros, deixou o grito rasgar-lhe a garganta:

— Shanumi!!!

Ela trazia no corpo o vestido sujo com que sempre andava. Porém havia manchas novas, rubras, no que seria a saia, provavelmente do mesmo sangue que lhe manchava as pernas. A pequena corria em direção ao irmão, mas não parecia ouvi-lo. O olhar desesperado fitava algum lugar atrás dele, o topo da colina, a saída da vila. Até que, num piscar de olhos, ela virou o rosto para trás, provavelmente para medir a pequena distância entre si e a multidão. Foi o suficiente para tropeçar. Foi só o que precisou para cair de barriga no chão. Mais que depressa, virou-se para os que a perseguiam. Gente com que convivia desde que nascera, homens e mulheres nos quais aprendera a confiar, quase como se fossem da família. Estavam a poucos passos agora, porretes, picaretas, facões em punho, olhos arregalados, repletos de fúria e raiva dela. Restava muito pouco para ela fazer além de encolher-se e gritar, implorando para que, de alguma forma, a perdoassem e voltassem a protegê-la do mundo.

Abeô percebeu claramente quando a irmã desistiu, mas ele ainda estava longe de fazê-lo. Correu com mais força, gritou com ainda mais intensidade até sentir o rosto e, logo em seguida, o corpo, chocar-se contra algo que não devia estar ali. Então, imediatamente, toda a força com que corria para baixo transformou-se na força dolorosa que o jogou para trás, de costas no chão.

O gigante ergueu-se o mais depressa que pôde. Gritando o nome da irmã golpeou, repetidamente, a espessa camada de vidro que, de alguma forma, não tinha percebido antes. Mesmo sem tirar os olhos de Shanumi, a visão periférica lhe dizia que aquele muro se estendia a perder de vista para cima, para a direita e a esquerda. Não pararia para ter certeza. A atenção estava voltada em tentar, de alguma forma, localizar a irmã, agora já cercada pelos mineradores e esposas. Continuou a golpear o muro e gritar o nome da irmã, e também praguejar, principalmente quando ergueram a pequena, ainda viva apesar dos vários golpes que recebera.

As cenas que ele presenciou, a partir dali, dificilmente seriam esquecidas. Incluíam tudo que os bastardos tinham gritado e coisas ainda piores, muito piores. Tudo parecia acontecer em câmera lenta, mas ao mesmo tempo rápido demais frente ao desejo dele de impedir aquilo. Ele não não soube quando, mas os músculos do corpo se contraíram em agonia tão grande que ele simplesmente parou de respirar. Porém sabia, com toda certeza, que na última imagem que captou, o tronco da irmã não tinha mais qualquer aparência humana.

Quando os desejos de gritar e respirar se chocaram, Abeô percebeu que engasgara. Deu-se conta também que não tinha saído do escritório de Albuquerque. Aidan ainda tinha o mesmo olhar surpreso e assustado com que o vira da última vez. O ruivo, em verdade, estava na mesmíssima posição de antes, pelo menos até o mesmo se apressar para lhe aplicar pequenos tapas nas costas. Porém foi a voz do brasileiro que o trouxe, definitivamente, de volta à realidade:

— <<Quer um pouco d’água?>>

Abeô tossiu mais umas quatro vezes antes de conseguir dizer:

— <<Não preciso de água. Preciso de um jeito de conseguir treze mil reais ainda hoje.>>

— <<Como disse ao seu amigo tatuado…>> – respondeu Albuquerque, olhando displicentemente algumas anotações na agenda – <<… tem um monte de gente oferecendo uma grana boa por uma noite com você.>>

Abeô engasgou de novo. Mesmo assim, voltou-se imediatamente para Aidan, que estava pálido como o papel no qual o brasileiro escrevia.

— <<Como assim uma noite comigo?>> – disparou o africano.

— <<Você não precisa fazer isso, Abeô!>> – emendou o ruivo quase ao mesmo tempo.

— <<Deixa o cara decidir, Aidan!>> – disse Albuquerque ao barman, voltando-se para o negro em seguida – <<Serviço de acompanhante. Uma noite de sexo com você.>>

— <Eu consigo o dinheiro para amanhã, Abeô!> – disparou Aidan, no mais perfeito hausa – <Vender sexo é uma coisa de que você pode se arrepender amargamente, você não precisa disso agora!>

Albuquerque franziu as sobrancelhas surpreso por um breve instante, mas logo voltou a escrever na agenda. Já o gogobear gaguejou algumas vezes, como se todas as perguntas tentassem sair ao mesmo tempo. Até que indagou, no idioma materno:

— <Você fala hausa?>

— <Eu falo muitas línguas.> – respondeu o ruivo – <Mas essa não é a questão. A questão é que…>

— <Hausa…? De todas as línguas que você podia ter aprendido antes de me conhecer, você aprendeu hausa?>

— <Isso não tem importância, Abeô. O que importa…>

— <Não, não tem mesmo importância.> – o africano metralhava as palavras – <O que importa é que você não me contou que eu podia já ter trazido minha irmã pra cá, e que agora você está querendo roubar os treze mil só porque acha, sabe-se lá por quê, que eu vender sexo é algo perigoso, ou muito complicado ou…>

— <O que sua irmã vai pensar se souber disso que você está querendo fazer?>

O gogobear calou-se, confuso. Tinha muita coisa para processar ao mesmo tempo, nem sabia por onde começar. Sim, tinha medo do que Shanumi pensaria sobre o que estava prestes a fazer, sobre o que fazia como trabalho, sobre o fato de se apaixonar por homens mais redondos. Porém o medo de que o que enxergara dela, minutos atrás, já estivesse se cumprindo, era muito maior. Não havia muito pouco o que decidir, na verdade.

— <<Quanto estão oferecendo?>> – perguntou o africano para o empresário.

— <<Mil, mil e quinhentos reais. Tem até um que ofereceu dois mil.>>

— <Eu só peço até amanhã de manhã, Abeô.> – insistiu o ruivo, em hausa.

O negro até pensou em retrucar alguma coisa, mas preferiu ignorar o colega e continuar conversando com o patrão, em inglês:

— <<E quantos eles são?>>

— <<Uns trinta pelo menos.>>

— <<E quantos eu posso atender ainda hoje?>>

Dessa vez os dois brancos arregalaram os olhos, perplexos. Rindo, Albuquerque respondeu alguma coisa sobre o gogobear poder atender tantos quantos conseguisse, mas o tom severo do hausa de Aidan se sobressaiu:

— <Nem a pau você vai fazer isso, Abeô!>

— <Eu preciso!> – o outro respondeu.

— <Não precisa, eu já disse que amanhã te entrego o dinheiro!>

— <E eu já disse que não quero o seu dinheiro roubado de não sei quem! E eu preciso do dinheiro hoje! Agora!>

— <<Vocês parecem um casal!>> – gargalhou Albuquerque, em inglês.

O comentário deixou Abeô ainda mais perdido, a ponto de sentar-se numa das cadeiras do escritório. Aidan, ao contrário, ficou ainda mais irritado e retrucou:

— <<Eu estou só tentando cuidar dessa criança, pra quem você não dá a mínima se ele vai ferrar a cabeça dele pra você lucrar!>>

— <<Ele é bem grandinho pra ser seu filho, não é?>> – ironizou o brasileiro – <<E não se parece nada com você, papai urso.>>

Nesse meio tempo, o africano conseguiu colocar a cabeça em ordem para dizer:

— <<Marca para agora quantos forem necessários para eu ter os treze mil até as onze, e  pagar o que quer que você precise por eu usar o Thermopolis para atender esses caras.>>

— <Não, Abeô!> – protestou o ruivo.

— <<Doze, se atender uma hora cada um, até as duas da manhã.>> – anunciou o empresário.

O próprio africano assustou-se. Imaginou doze homens na sala de espera do clube, de todos os formatos, cores, cheiros e tamanhos. E se todos quisessem que ele fosse fêmea? E se nenhum deles quisesse usar os tais preservativos?

Não havia outra saída. Morrer de AIDS era algo muito pequeno perto da morte que vira a irmã enfrentar, há pouco. E pensando nisso ele respondeu:

— <<Pode mar…>>

— <<Não marque!>> – interrompeu o ruivo – <<Chame todos ao anoitecer para um leilão. Diga que Abeô só vai fazer isso uma única vez, hoje à noite, e depois nunca mais. Diga que os lances começam em quinze mil.>>

O africano calou-se, perplexo. Albuquerque, apesar de surpreso, conseguiu, enquanto procurava o primeiro nome na agenda e discava no smartphone, articular:

— <<Pra quem não queria que ele se vendesse, você conseguiu transformá-lo num belo pedaço de carne.>>

Aidan limitou-se a mostrar o dedo médio para o empresário, enquanto saía do escritório. Abeô, por sua vez, continuou sentado, pasmo, enquanto o brasileiro fazia bem mais do que trinta ligações.

Assim que anoiteceu, o africano tomou um banho e, ao retornar ao quarto, recebeu do ruivo uma camisa vinho, além de sapatos, meias, calça, camisa e blazer pretos. Foi orientado a dirigir-se à pista de dança assim que se vestisse.

O local tinha passado por algumas mudanças. Ao lado da pickup do DJ, que tocava músicas bem mais calmas, havia uma espécie de palco com uma bela cadeira. Calado, Aidan indicou que o africano se sentasse nela, ao que lhe amarrou uma gravata dourada à gola. Em seguida, o barman serviu-lhe uma dose de whisky e afastou-se.

Logo em seguida, mesmo com as luzes acesas, dezenas de homens começaram a entrar. Eram bem menos do que nas noites em que Abeô dançava, e não dançavam. Pediam bebidas no bar, passeavam ao redor do africano, conversavam entre si, sentavam-se nas cadeiras mais ao fundo. Como Abeô previa, eram dos mais variados tamanhos, formas, idades, cores e formatos. Contudo, o que definitivamente o gogobear não imaginava era que, entre eles, entrasse Miguel. E o pior: de braços dados com um rapazote magro e musculoso, de uns vinte e cinco anos.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Krory Vermillion

    Ai meu coração…Osíris que isso cara, ate o fim dessa obra eu morro…#Aidan

  • Osíris Reis

    eheheheheheheh É…. tem mais uns dois anos e meio aí eheheheheheh