Capítulo 36 – Leilões

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Para ler os capítulos anteriores, acesse http://www.bearnerd.com.br/series/golem.


Abeô bebeu um pouco do whisky, torcendo para aquilo fazer efeito. Nunca tinha tomado bebida tão cara, então havia uma esperança de que, ao contrário das nigerianas, aquela o deixasse tonto por mais de cinco segundos. Ledo engano. Beber aquilo ou água era a mesma coisa. Sentado na poltrona, engravatado, copo na mão, continuava pensando no homem que tivera nos braços, que sentira dentro de si e que, agora, parecia nem enxergá-lo. Apesar do terno, do palquinho, do leilão, Miguel não tinha olhado uma única vez para o africano. Passou o tempo todo com os olhos fixos nos do namorado de zero barriga. Então Miguel, além de não aparecer por duas semanas, quando aparecia o fazia no famigerado leilão e com um musculoso a tiracolo? O grisalho estava ali para dar lances por uma noite com ele? Se fosse uma noite atrás, o africano jamais cogitaria receber qualquer dinheiro por isso. Agora, mesmo que quisesse, não poderia. Não sabia exatamente o que aconteceria, mas se descesse do palco e corresse para os braços dele, dificilmente o leilão aconteceria. E, apesar do frio na barriga, do desespero de ver Miguel aos beijos com o meninão, Abeô precisava que aquele esquema funcionasse. Shanumi precisava que tudo ali funcionasse.

Aidan aproximou-se, garrafa na mão, e completou o copo do colega. Murmurou, com voz mole, lenta, mas ainda gravíssima, junto ao ouvido:

— <<Que cara amarrada é essa, Abeô?>>

O africano não respondeu nada. Não conseguiria. Junto com a voz, o gogobear recebeu, na nuca, o hálito quente e doce do ruivo. Por alguns instantes, Abeô sentiu que se desmanchava. Chegou mesmo a imaginar-se estendendo a mão para trazer para mais perto aquela barba cor de fogo. Má ideia, péssima ideia, desastre total, sabia muito bem. De qualquer forma, era de se estranhar que Aidan trabalhasse sem usar a máscara nem cobrir as tatuagens. Não que Abeô sentisse falta delas. Regata branca, jeans apertados, tatuagens contrastando com os pelos vermelhos eram algo que poderia ficar olhando o dia todo.

O ruivo abriu um sorriso cansado para o colega, insistindo:

— <<As coisas vão dar certo agora, Abeô. Você vai conseguir trazer sua irmã. Vai conseguir viver tranquilo com ela, talvez até com o cara com quem você ficar hoje à noite, se ele lhe agradar.>>
Aquelas palavras trouxeram um nó à garganta do negro. Apesar de tudo de bom que Aidan dizia, havia algo naquele futuro que lhe soava desesperador.

— <<A única coisa que pode dar errada é o pessoal ficar com medo dessa sua cara raivosa. Ok que os mais assanhados adoram um negão com cara de mau, mas eles são poucos.>> – o ruivo disse ao se afastar.

Abeô bebeu mais um grande gole do whisky, pensativo. Aquela noite era para se vender. Era para isso que estava sentado naquele palquinho, vestindo um terno pela primeira vez na vida. Tinha que fazer aqueles homens o desejarem, o suficiente para pagarem quinze mil reais por uma noite com ele. Na prática, duvidava que qualquer coisa no mundo valesse tantos meses de trabalho. Lembrava que demorou alguns dias para acreditar no preço que o intermediário lhe dera para trazer a irmã para o Brasil. Não fazia ideia, nos primeiros dias, por quanto estava trabalhando, mas nas minas da Nigéria gastaria anos para juntar aquilo. Provavelmente era dinheiro equivalente ao que a vila inteira ganhava num mês. Era inevitável não sentir-se um tanto culpado por tentar ganhar aquilo numa única noite.

Mesmo assim, tentar, com todas as forças, era a única coisa que podia fazer por Shanumi. Fechou os olhos e, por um minuto, perguntou-se o que gostaria de ver se estivesse no meio da plateia. Que tipo de homem acharia atraente naquela situação? Acabou imaginando Aidan, mas não podia dar-se ao luxo de se recriminar por isso no momento, então continuou a pensar. Se o ruivo quisesse lhe tirar o chão, como poderia fazê-lo se estivesse sentado naquela cadeira, observando-o entre os outros homens? Teria de ser algo discreto, que os demais não percebessem, porém poderoso e marcante, e que funcionasse à distância. Algo como olhar diretamente nos olhos e esboçar um sorriso. Não um sorriso sério, nem cansado, e nem forçado, como os que vira de Aidan até então. Tinha que ser um sorriso sincero. Ou pelo menos, o mais sincero possível.

Abeô deixou, então, o olhar passear entre os homens reunidos ali. Buscava os olhos deles, sorria largamente, como gostaria que o ruivo sorrisse para ele. Era um pensamento útil para ajudá-lo a deixar o rosto mais afável, mas tinha seu preço. Por mais que tentasse evitar, sua atenção sempre recaía sobre o barman. E foi numa dessas vezes que percebeu o colega sorver uma generosa dose de whisky, num único gole. Os outros podiam não notar a diferença, mas o gogobear distinguia como os movimentos do ruivo, apesar de ainda fantásticos, ficavam mais lentos. Continuavam a ser mais que o suficiente para atender aos clientes, mas não deixava de ser mais uma preocupação para o negro. Afinal, eram facas e garrafas que Aidan atirava ao ar, vários metros acima da própria cabeça. Se errasse um movimento sequer…

Abeô tratou de não pensar nisso. Precisava continuar sorrindo, mesmo ao imaginar que, talvez, naquele exato momento, Shanumi também estivesse sendo leiloada. Claro, além da imensa diferença de preço, havia todo um conjunto diferenças entre os dois leilões. Primeiro, ele era adulto, enquanto ela não tinha vivido sequer uma década. O preço que pagariam por ele seria muito diferente do dela. Os homens que via à frente estavam bem arrumados, perfumados até. Os que disputariam a virgindade de sua irmã, definitivamente, não se preocupariam com esses e outros “detalhes”.

Foi aí que Abeô percebeu que os olhos de Miguel estavam fixos nele, arregalados. O namorado não estava mais perto, provavelmente tinha ido ao banheiro ou algo assim. Contudo, o movimento dos lábios do grisalho, apesar de totalmente sem som, não deixava dúvida sobre o que o brasileiro queria dizer:

— <<Ele não sabe.>>

Quase imediatamente, o brasileiro olhou em direção ao banheiro e abriu um grande sorriso para receber o namorado. Novamente, não olhava mais, de maneira alguma, para outro lugar além dos olhos do musculoso magro. O africano passou os próximos minutos tentando não chorar. Que diabos Miguel dissera afinal? Ele parecia assustado, pelo menos o bastante para esconder do magrelo que sequer conhecia Abeô.

Pouco depois chegou Marcelo, um dos outros funcionários. Como sempre, fez festa ao ver o africano, enquanto fingia tirar fiapos inexistentes dos ombros dele:

— Bofe de Deus, você ficou lindo com esse terno! Nooooosssa! Eu duvidava que seu amigo tatuado fosse acertar assim sua numeração só de olhar, mas ele foi pre-ci-so! Ai, que homão dos sonhos você ficou…! E essas cores! Que escândalo! Tenho que usar mais combinações de preto, vinho e dourado, pra ver se arranjo um bofe desses aí pra mim!

Abeô entendia quase tudo, mas não ligava. Nesse ponto, Marcelo percebeu o olhar do outro fixo no grisalho e seu namorado. Recostou-se ao ombro do negro e continuou:

— É… Richard e Miguel. Lindos, né? Richard já frequenta aqui há muito tempo, e desde o começo eu sabia que ele fica num casa-separa com o Miguel, que só ouvia falar. Mas desde que, graças a você, os ursos invadiram o Thermópolis, Miguel tem vindo mais vezes que o próprio Richard! Bofe, se precisar de mim é só acenar, tá? Vou ali avisar que já chegou todo mundo. Boa sorte!

Marcelo se dirigiu ao bar e deixou Abeô digerindo aquelas informações. Agora entendia, embora não gostasse, que Miguel investira nele provavelmente enquanto estava separado de Richard.  O que não conseguia entender, contudo, era por que o grisalho não lhe avisara que não iam mais se ver, e que cargas d’água faziam ali se estavam, de fato, casados.

As divagações cessaram quando o senhor Albuquerque, com um microfone sem fio, colocou-se ao lado dele no palquinho e dirigiu-se aos presentes:

— Boa noite, senhores e senhores! É com imenso prazer que inicio os trabalhos desta noite.

Os convidados deixaram as bebidas no bar e aproximaram-se do palco, ansiosos. O dono do estabelecimento continuou:

— Como os senhores bem sabem, aqui será decidido quem vai experimentar uma noite de sexo ardente e selvagem com o novo tesouro do Thermopolis, o nosso gogobear Abeô Bankole!

Sob aplausos animados do grupo, o africano pôs-se de pé e dobrou-se para frente, cumprimentando-os. Quando voltou a sentar-se, viu que Aidan agora estava atrás do palco, sentado, servindo whisky para o colega e para si.

— Vale fazer alguns lembretes simples. – continuou o empresário – Primeiro, que essa é uma oportunidade única: ele só vai fazer isso hoje. Um sortudo vai passar uma noite íntima com ele, e os demais vão ficar só com a imaginação.

Risinhos nervosos ecoaram entre os homens, com uma nova salva de palmas. Quando cessaram, Albuquerque prosseguiu:

— Segundo, a pedido do nosso gogobear, o lance vencedor deverá ser honrado em dinheiro vivo nos minutos seguintes ao fim dos lances. Só depois disso a noite com Abeô começará, aqui na nossa suíte vip. Terceiro, qualquer atividade sexual só será realizada com camisinha, nada de pele na pele. E, finalmente, os lances começam em quinze mil reais.

— Dezesseis mil! – alguém ao fundo gritou de imediato. o que fez Abeô empalidecer de susto.

— Dezessete e quinhentos! – outro emendou.

— Calma, gente! – gargalhou Albuquerque – Vão devagar pra gente anotar tudo aqui. Tá, calma nada! Eu ouvi vinte e um mil?

— Vinte e um e quinhentos! – disse um senhor magro e sem músculos, asiático, com grandes óculos.

— Vinte e dois! – disse um gordinho jovem, também negro, com pouca barba.

— Vinte e dois e setecentos! – insistiu o asiático.

— Vinte e três e quinhentos! – disparou um urso de barba loira, na casa dos quarenta anos.

Abeô estava embasbacado. Aquilo estava acontecendo de verdade. Por mais irreal que parecesse, com vários dos homens participando, logo disputavam uma noite com ele por mais que o dobro do que precisava. O que certamente daria para começar uma nova vida com a irmã.

— Trinta e cinco mil! – respondeu o gordinho negro, para desgosto do asiático.

— Eu ouvi trinta e seis? – insistiu Guilherme Albuquerque!

— Aqui! – gritou um homem branco de boa barriga e barba cerrada, negra.

— Trinta e sete! – bufou o de barba loira.

— Quarenta e sete mil reais! – anunciou Richard, deixando todos embasbacados, inclusive Miguel.

Mil coisas se passaram na cabeça do africano naquele momento. Mesmo que Richard não fosse namorado de Miguel, Abeô já não se sentia exatamente atraído por aquele tipo de musculatura rachada. Além disso, como é que seria olhar para Miguel depois?

— Eu ouvi quarenta e oito? – perguntou Guilherme, depois que desengasgou.

— Quarenta e nove! – respondeu o branco de barba escura.

— Oitenta mil reais! – disparou Richard.

Albuquerque engasgou de novo, antes de anunciar:

— Muito bem, senhores! Alguém deseja dar um lance maior? Alguém?Então vamos lá! Em um… dois… três! Fica oficializado que o senhor Richard Aguiar deu o maior lance da noite. Vamos conferir a quantia e voltamos, logo mais, para anunciar se o lance é válido.

Um burburinho tomou conta do grupo, enquanto Albuquerque e o namorado de Miguel saíam para outro cômodo. Atrás de Abeô, o ruivo murmurou, visivelmente embriagado:

— <<Você não precisa ficar com quem quer pagar mais, Abeô.>>

O africano voltou-se para ele, surpreso. O barman continuou:

— <<Você não está se vendendo, Abeô. Você não está se tornando escravo de ninguém. Você ainda é gente, tanto quanto antes. E tem direito a não transar com quem você não quiser transar, independentemente do dinheiro que oferecerem. Você pode, durante o sexo, desistir do dinheiro e do sexo, pode desistir disso tudo agora, porque é direito seu. Ninguém pode, em momento algum, te obrigar a fazer sexo com ninguém. Você tem todo direito de só fazer sexo com quem você ainda tem alguma afinidade.>>

O ruivo aproveitou que o outro tinha se virado e pousou-lhe a mão na nuca, colando a sua testa à do negro enquanto dizia:

— <<Você pode perfeitamente escolher passar a noite com o delicioso urso de pele clara e barba negra, que ofereceu quarenta e nove mil reais. Principalmente se o riquinho magrelo disser que quer que o Miguel também participe da noite. Pense, Abeô. É melhor você dispensar alguém que vai pagar muito, mas que vai ficar frustrado quando você não estiver animado no sexo, ou mesmo não conseguir ficar excitado. É melhor prevenir do que remediar.>>

O tatuado soltou Abeô devagar e bebeu uns cinco goles de whisky direto da garrafa, em seguida oferecendo-a desajeitadamente ao colega. Foi com o coração dolorido que o africano acompanhou, com o olhar, o amigo voltar para o bar. Nunca o tinha visto beber, muito menos ficar tão embriagado. Havia algo nisso que parecia um imenso desperdício, como se o ruivo se reduzisse, naquele momento, a apenas uma sombra do que era.

— <<Por favor, não conta pra ele!>> – era Miguel quem dizia, perto do palquinho – <<Eu ia te ligar, mas a gente acabou reatando… e ele só não é ciumento quando fazemos as coisas juntos.>>

— <<Você também é ciumento quando transam separados?>> – Abeô indagou.

O grisalho não respondeu nada. O que já era uma resposta.

Quase em seguida, Albuquerque e Richard retornaram, ambos com imensos sorrisos. Abeô adiantou-se e disse ao empresário, em inglês:

— <<Desculpe, o namorado dele estava animado para transarmos os três. E esse não foi o acordo.>>

Albuquerque estalou a língua antes de dizer:

— <<Que isso, Abeô! É só um detalhe!>>

— <<Não é um detalhe, se eu não conseguir ficar excitado. Eu preciso, pelo menos, ficar excitado.>>

O dono do Thermopolis soltou novo muxoxo antes de conversar com o cliente. A conversa logo tornou-se uma discussão, ao que o africano aproximou-se e disparou:

— <<Está decidido. Vou passar a noite com o cavalheiro que ofereceu 49 mil reais. Assim que confirmarem que ele está com o dinheiro.>>

O urso de pele clara e barba negra comemorou, enquanto Miguel e seu namorado discutiam. Pouco depois, Abeô recebeu a notícia de que o dinheiro estava ok, ao que tomou a mão do cliente e deixou-se levar para fora, entre palmas e vaias dos demais presentes.

Porém, antes que saísse, Abeô ouviu o brado de Aidan, no bar, quando ele ergueu a garrafa quase vazia e anunciou, com a voz alterada pelo álcool:

— <<Seja feliz, Abeô! Faça do resto de sua vida uma vida muito feliz! Tudo, tudo de bom você!>>

Depois que o gogobear saiu, a pista de dança esvaziou-se rapidamente. Aidan dirigiu-se, cambaleante, ao quartinho. Fechou a porta atrás de si e chorou, silenciosa e convulsivamente, por exatos noventa segundos. Secou as lágrimas em seguida, ao que pegou uns trezentos reais na mochila e começou a recolher suas roupas numa velha sacola. Quando terminou, pegou papel e caneta, escreveu algumas palavras, das quais as últimas eram:

“Você não precisa mais da minha ajuda, gigante. Espero que eu tenha sido útil de alguma forma. Seja feliz. Vou fazer todo o possível para atrair nossos inimigos para longe do Rio de Janeiro. Do amigo que te ama muito mesmo, Aidan.”

O ruivo deixou o dinheiro sobre a cama do colega, secando as lágrimas mais uma vez. Ao fazê-lo, puxou uma camiseta que o outro deixara, aproximou-a do nariz e inspirou com força. Aquilo o fez chorar mais um pouco, mas não por muito tempo. Logo se ergueu e virou-se para a porta, disposto a sair e nunca mais ver Abeô naquela vida.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    puts, eu nem sei mais nada. u.u” </3

    • Osíris Reis

      Bom, daqui a pouquinho saberás….. peças se encaixando a partir de agora!

  • Krory Vermillion

    Ai meu coração, agora que eu vou…..

    • Osíris Reis

      Calma, moço! Tudo a seu tempo… E garanto que vou me esforçar para a agonia valer a pena, ok?

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