Capítulo 38 – O porquê (NSFW)

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

Nota do autor: Para ler os capítulos anteriores, acesse http://www.bearnerd.com.br/series/golem. E lembre-se: este capítulo não é seguro para ser acessado no trabalho, já que tem cenas explícitas.

 


Lá estava Abeô, terno preto, camisa vinho, gravata dourada. De olhos baixos, Aidan soltou a camiseta do outro. Sabia que o gesto faria pouca ou nenhuma diferença agora. Mesmo assim, precisava tentar.

Precisava dizer algo, rápido, mas não conseguia pensar em nada. Antes que pensasse, ergueu os olhos o suficiente apenas para cruzá-los com os do africano. Péssimo movimento: sempre que o fazia, lembrava-se da primeira vez em que tinha visto aqueles olhos doces, que continuavam gentis mesmo com toda a indignação do momento. E sempre, como naquela noite, o ruivo sentia algo dentro de si desmoronar e ruir. Era absolutamente irônico, cruel até, que encontrasse alguém como Abeô logo naquele momento da vida, principalmente quando via tanto desejo nos olhos dele. Em Manaus conseguira fugir por uma noite, mesmo que a prostituta tenha estranhado contratá-la apenas para ouvir palavras frases chorosas em picto a noite toda.

Como Aidan queria voltar exatamente àquele momento! Se tivesse partido para a Venezuela naquela mesma noite…

— <<Por quê?>> – o negro insistiu.

O ruivo sentia aquele temor, aquela fraqueza, no fundo das vísceras, no cerne dos ossos. Queria sentar e chorar, pedir desculpas até, mas sabia que não podia. Era tarde demais. Precisava se recompor. Se realmente gostava de Abeô, precisava se recompor.

Aidan respirou fundo e reajustou a postura. Manteve os olhos baixos, não cometeria o mesmo erro de novo, nunca mais. Focou toda atenção nos sapatos lustrosos do outro. Bastava dizer que verificava se a camiseta precisaria ser lavada, que levaria a roupa até a máquina e que poderiam conversar quando o cliente estivesse satisfeito. Abriu a boca pronto para, mais uma vez, mentir.

As palavras, entretanto, lhe pesavam na língua. Estava cansado de mentir, para Abeô e para si mesmo. Sabia que não mais veria aquela luz no meio de tanta merda, provavelmente nem em outras vidas. As chances, todas elas, eram as piores possíveis. Talvez por isso tivesse sido tão egoísta, como peregrino no inverno que, mesmo com a fogueira prestes a se apagar, não consegue afastar as mãos de perto das chamas nem para buscar mais lenha.

Se ao menos não fosse recíproco…

— <<Não era para você ter se apaixonado por…>> – foi tudo que conseguiu dizer com a voz rouca, quase inexistente.

Antes mesmo que terminasse de falar, a resposta de Abeô chegou, entre dentes:

— <<Por que você podia e eu não?>>

Aidan encarou rapidamente para a porta antes de juntar coragem para murmurar:

— <<Eu não me apaixonei por você>>.

Foi quando o ruivo sentiu o peso do olhar do gogobear lhe percorrer o corpo todo, de cima abaixo, e de volta. Então, de súbito, o negro caminhou o suficiente para lhe agarrar a nuca de forma a que, de novo, encostassem as testas. Porém, desta vez, a respiração de ambos se misturava, e Aidan tremia a cada uma delas, olhos baixos enquanto tentava, devagar, se afastar.

— <<Eu sei que sou ingênuo, Aidan…>> – a voz do africano soou pausada, séria. – <<… mas nem tanto. Então, por favor, pare de mentir. Por que você podia se apaixonar por mim e eu não podia por você?>>

Aidan sabia que não conseguiria mais mentir. Sentia a alma exausta, dolorida, prestes a gritar. Tinha que se afastar, o mais rápido possível, antes que sucumbisse.

Foi assim que, sem qualquer aviso, ele explodiu. Tentou se soltar. Procurou abaixar o tronco e, com movimentos rápidos das mãos, golpeou os braços de Abeô em diversos pontos, principalmente nas articulações. No entanto, com um simples ajuste na posição dos polegares, o africano passou a ter as mãos envolvendo a cabeça do ruivo por todos os lados. A expressão no rosto do negro era de dor, mas ele não se moveu. Manteve os braços parados, até o menor dos dedos rígido como se ele fosse não um homem, mas uma estátua de titânio maciço.

Os golpes de Aidan prosseguiram cada vez mais fortes, rápidos e desesperados. Então, quando não conseguia mais prender a respiração, olhou nos olhos do africano e, enquanto as lágrimas voltavam a brotar, implorou:

— <<Você tem que me esquecer agora, gigantão!>>

— <<Eu não quero! Não vou!>>

— <<Eu tou tentando de proteger, porra!>>

— <<De quê?>>

Aidan não respondeu. Baixou o olhar de novo. Tentou se soltar de novo. Até ele sabia que, no fundo, não queria se libertar.

— <<De quê?>> – o africano insistiu.

Devagar, o ruivo ergueu os olhos e respondeu, gaguejando:

— <<De… sofrer… de sofrer com minha morte.>>

Abeô arregalou os olhos, mareados. O ruivo continuou:

— <<Eu morro em dois meses, gigantão.>>

Ambos continuaram de testas coladas, a respiração dos dois acelerando juntas. Então, num mesmo instante, o africano puxou o rosto do ruivo para o seu enquanto Aidan afundou indicador, médio e anelar entre os músculos do ombro de Abeô, tentando afastar-se. Não fosse isso, com certeza o africano o teria puxado como a um balão de ar.

— <<Que sejam só dois meses, então!>> – bradou o africano, entre lágrimas, o rosto retesado pelo esforço e pela dor dos nervos pinçados nos ombros.

— <<Não vai ser uma morte rápida, gigantão.>>

— <<Eu não ligo!>>

— <<Vai ser feio.>>

— <<Eu não ligo!>>

Apesar do incômodo, o africano conseguia, pouco a pouco, puxar o rosto de Aidan para junto do seu. O barman tentou argumentar:

— <<Você vai sofrer muito, Abeô! Não posso deixar que…>>

O africano explodiu, gritando:

— <<Sou eu quem decide, porrra!>>

Isso fez Aidan prender a respiração, perplexo, afrouxando de leve a pressão nos ombros do africano.

— <<E eu já decidi.>> – emendou Abeô segundos antes de colar os lábios aos do ruivo.

Nos primeiros instantes, Aidan não soube o que fazer. Limitou-se a ofegar, o choro mais intenso, enquanto o outro provava de sua boca. Depois, foi como uma explosão. O barman agarrou as costas do africano, afoito, beijando-o com força e profundamente.

Quase no mesmo instante, ele sentiu o líquido quente e viscoso pulsar por baixo das calças de Abeô. E junto com isso, sentiu o próprio pau inchar, numa ereção plena que se encaixou, automaticamente, entre as coxas do africano.

Os dois urravam e gemiam, as respirações misturadas no mesmo beijo. Roçavam seus corpos, músculos, gordura e genitálias, como bichos no cio, como se quisessem misturar as peles numa massa disforme de paixão e sexo.

Sem aviso, Abeô ergueu o ruivo no ar, fácil, como se ele não tivesse peso. Rasgou-lhe a camiseta como papel, expondo as tatuagens e os pelos cor de fogo. Virou-o e deitou-o no colchão, ajoelhando-se entre suas pernas entreabertas. Aidan fez menção de se erguer, mas o africano apoiou a palma no peito dele, prendendo-o ao colchão. Os dois olharam-se algum tempo, ofegantes, estudando-se. Até o negro afrouxar a mão, correndo os dedos, devagar, nos peitorais e naquela barriga redonda e macia que desejara por tanto tempo.

As mãos negras percorriam o corpo do ruivo alternando toques suaves com agarrões profundos. O barman, às vezes, arqueava o corpo, contraindo os músculos e gemendo quando os dedos de Abeô roçavam, bem de leve, alguma parte mais sensível do seu torso. Outras vezes, quando o africano apertava determinada área, Aidan projetava a região em direção ao amante, como se a oferecesse àquelas gigantescas mãos.

Os dois passaram quase dois minutos nesse jogo, até o africano voltar a beijar os lábios do outro, com fúria. Dos lábios, o beijo deslizou para a barba, da barba ao pescoço, do pescoço para os peitorais e mamilos. Aidan grunhia, olhos fechados, coluna arqueada, pau pulsando por baixo do jeans. Onde quer que Abeô o tocasse, o prazer crescia em ondas e lhe dissolvia os sentidos. Logo em seguida, no entanto, sua percepção se apurava a níveis absurdamente nítidos, exatamente quando chegava a nova carícia. Assim, com tato, visão e olfato pulsando entre existência e não-existência, o ruivo baixou as guardas a ponto de ter esperança novamente, de desejar ser feliz, amar e ser amado. Deuses! Como era gostoso o peso do africano sobre seu corpo! Como era formidável o abraço daquele gigante de ébano! Se estivesse vivo, o velho Henwood estaria jogando em sua cara aquela noite em que dissera que os deuses o fariam amar de novo nem que fosse à força.

O ruivo ergueu-se de leve e puxou a boca de Abeô para si. Beijou-o com suavidade agora, os lábios soltos, sem pressa. No mesmo ato, fez com que ambos rolassem, de forma a que ficasse por cima do africano. Sem cerimônia, desatou a gravata e abriu-lhe a camisa à força, botões voando para todos os lados. Então, enquanto Abeô gemia e urrava, Aidan desceu lambendo-lhe o queixo, o pescoço, os peitorais, a barriga grande e macia até a calça. Em êxtase, o barman já podia sentir o cheiro do sêmen do parceiro, que ainda jorrava de forma inexplicavelmente contínua, as calças já empapadas até os joelhos.

Apressado, abriu o botão e o zíper, puxando a calça e a cueca de Abeô até a metade das coxas. Parou alguns instantes, observando, o pênis, tão agigantado quanto o dono à sua frente. Afoito, lambeu as grandes gotas do creme que escorria e abocanhou o membro, engolindo-o inteiro.

Em vão, Abeô tentou abafar o rugido longo e profundo que lhe inundou o peito. Acabou por puxar o travesseiro para os lábios e mordê-lo com força enquanto sentia a garganta queimante do ruivo deslizar em seu pau, subindo e descendo. Não teve a menor noção de quanto tempo jorrou o líquido amarelo, nem se chegou a gemer alto demais a ponto de chamar atenção dos outros funcionários. Completamente subjugado, durante todo esse tempo ele apenas sentiu o ruivo, afoito, engolir todo o seu gozo. A única outra lembrança que teria daquele momento seria de quando conseguia largar o travesseiro e erguer o tronco para vislumbrar Aidan. Pela primeira vez, vislumbrava naqueles olhos verdes algo com que sempre sonhara, mas nunca captara: um sorriso imenso, sincero e leve, de alguém que realmente estava feliz.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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