Capítulo 40 – Céu noturno

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Tudo girava loucamente. Após uma miríade de pancadas em telhados, paredes e prédios, Abeô ainda rodopiava ao redor dos arpões cravados nas costas. Mesmo assim, através dos milhares de olhos no piche, atrás de si, ele conseguia perceber as centenas de metros de cabo metálico que o puxavam. Estendiam-se até a ponta de um avião de fuselagem escura, triangular, quase imperceptível no céu noturno, exceto pelas pequenas luzes nas asas.

Enquanto isso, num piscar de olhos, as ruas e avenidas do Rio minguaram até se tornarem veios de luz dourada abaixo dele. Quando deu por si, o incêndio no pátio interno do Thermopolis era apenas uma coluna de fumaça ao longe. O que significava que levaria horas para voltar até onde vira Aidan pela última vez. Não imaginava que o ruivo conseguisse escapar de outra bomba de arpões venenosos. Tinha que começar a pensar na possibilidade de que, se voltasse, dificilmente o encontraria ali.

Perfeito! Tinha convivido quase dois meses com o ruivo, desejando-o desde o fundo dos ossos. Acabara de, na mesma noite, ter um breve vislumbre do que seria estar com ele e receber a notícia de que só o teria por mais dois meses. Agora, lá estava ele sendo puxado em velocidade vertiginosa para longe de Aidan, provavelmente para nunca mais reencontrá-lo.

A menos, é claro, que conseguisse fazer o avião dar meia volta. Certamente não seria fácil, mas era a única escolha que lhe restava. As outras seriam tentar se soltar, despencar sabe-se de que altura e, se sobrevivesse, levar horas para voltar ao Thermopolis, ou ficar parado e ver para onde o avião o levaria.

Foi nesse momento que percebeu que, dentro do piche, os arpões minguavam. Era algo discreto ainda, mas Abeô tinha certeza. Nos próximos minutos, o piche, de alguma forma, faria os arpões desaparecerem. Ao mesmo tempo, o piche se alastrava cabo acima, envolvendo o metal em direção ao avião. Porém não havia como saber se isso seria suficiente para que, quando os arpões desaparecessem, continuasse seguro aos cabos. O que o africano sentia como mais plausível era que estava numa contagem regressiva para a queda.

Precisava alcançar os cabos, com as mãos, antes que os arpões desaparecessem completamente. A grande questão seria alcançá-los. Por mais que torcesse e retorcesse os braços, as mãos não chegavam nem perto das cordas metálicas que o ligavam ao avião. Não demorou a perceber que seria inútil continuar tentando daquela forma. Restava-lhe apenas mover braços e pernas com força para tentar, de algum jeito, dar uma pirueta ou virar-se, de forma a que as mãos passassem mais perto dos cabos.

Logo percebeu que havia um padrão no seu movimento. A corda o fazia subir e descer repetidas vezes, primeiro em trechos mais curtos, mas que, felizmente, foram se tornando mais amplos à medida em que se movia. O passo seguinte foi sincronizar os movimentos de braços e pernas com as vibrações da corda, de forma a subir o mais alto possível e descer o mais baixo possível. A partir de certo momento, a cada vez que passava no ponto mais alto do balanço dos cabos Abeô tentava virar as pernas acima da cabeça, como se fosse dar um salto mortal.

Foi nesse ponto que um grande estrondo aconteceu, de algum lugar à frente do avião. A velocidade aumentou drasticamente e, com ela, o vento. As oscilações do cabo agora eram muito mais curtas e rápidas, tornando impossível, a despeito da força que o africano fazia, girar o corpo no ar.

O cérebro do africano disparava. No horizonte ainda via, minúscula, a coluna de fumaça, o único referencial que ainda tinha de onde Aidan estava. Dentro do piche, os arpões já estavam com a metade do tamanho original. Teria que se preparar para cair, o que deixava duas perguntas. A primeira era se sobreviveria à queda. Comparado a isso, mesmo a soma de cada soco e explosão que enfrentara até o momento não seria nada. Seria como receber um imenso golpe, no corpo todo, com uma força que sequer conseguia imaginar. A segunda era: quando caísse, cairia reto, no exato ponto em que o avião o deixaria, ou se continuaria “caindo” para frente, na mesma direção que o avião, ou se seria empurrado para trás. Qualquer que fosse o caso, tinha que tentar usar a queda para, de alguma forma, diminuir a distância que precisaria percorrer para voltar ao Thermopolis.

Felizmente, abaixo dele, não havia luzes naquele momento. Ele ainda tinha alguma chance de sobreviver à queda sobre a casa de alguém, mas o mesmo não poderia ser dito desse alguém e sua família.

Abeô ainda pensava nisso quando ouviu um novo estrondo. Ou melhor: uma sequência de estrondos. Diferente da vez anterior, o vento não aumentou, nem a velocidade. Pelo piche nas costas, o africano vislumbrou a causa do som. Eram relâmpagos, raios à frente do avião. Começavam longe, mas sucediam-se, dois a dois, como que caminhando em direção a eles. E quanto mais se aproximavam mais o africano tinha certeza: não eram relâmpagos normais. Eram feixes de dezenas, talvez até centenas de raios. Perfuravam as nuvens, como se fossem as pernas de um gigante elétrico que caminhava em direção ao avião.

O piloto pareceu perceber o mesmo que Abeô e, num piscar de olhos, fez o avião girar para a esquerda, numa longa curva que os afastaria ainda do mais mar. O africano chegou a pensar que talvez, dependendo do quanto se mantivesse a curva, o avião voltasse para mais perto do Thermopolis. A esperança, infelizmente, durou pouco. A curva aumentou ainda mais a força do vento e o embalo do movimento anterior acabou por atirá-lo em direção aos relâmpagos. E nesse ponto os três arpões se quebraram dentro do piche.

Abeô percebeu-se voando em direção aos raios. Os estrondos ficavam cada vez mais poderosos, anéis de fogo queimando no chão a cada vez que os raios desapareciam. Enquanto isso, o africano despencava em queda livre, tentando imaginar se atingiria o solo primeiro ou se os raios o acertariam.

Então, num piscar de olhos Abeô vislumbrou no chão, em meio aos raios, a silhueta de um demônio. Sim, só podia ser um demônio. Tinha dois grandes chifres serrilhados no que seria a cabeça, e poderosas garras na ponta de cada dedo, além de afiadas e longas pontas nos ombros e cotovelos. No instante seguinte, a coisa tinha desaparecido junto com o raio.

Foi quando uma nova descarga elétrica furou o céu, caindo em direção a Abeô. E no meio dos raios, por meio de seus milhares de olhos, o africano vislumbrou o homem de chifres serrilhados caindo em sua direção.

A mais ou menos trinta quilômetros dali, Aidan tentava pensar rápido. Tinha apagado as chamas, o que lhe permitia improvisar um escudo de madeira com uma pedaço da porta. Era a única coisa que o impedia de ser acertado pelas bombas elétricas. Aquelas armas eram novas, mas os arpões eletrificados tinham se tornado a principal forma de os “encouraçados” o perseguirem. Sabia exatamente o porquê da escolha e o que significaria se o pegassem vivo. E era exatamente por isso que não deixaria, de jeito nenhum, isso acontecer.

Precisava achar uma forma de sair dali, e rápido. Estava totalmente acuado, cercado por escombros atrás de si e pelo menos três encouraçados à frente. Eles não paravam de disparar as bombas elétricas, que Aidan dava um jeito de aparar com o escudo. Isso porque, assim que a madeira as parava, as centenas de arpões que voariam em sua direção cravavam-se na porta. Do outro lado, aquelas coisas disparavam livremente, formando uma teia que deixava a movimentação do escudo cada vez mais restrita.

Felizmente, a mesma teia que quase impedia Aidan de manipular o pedaço de porta também, aos poucos, dificultava a chegada de novas bombas elétricas. Era só questão de tempo, e um pouco de inteligência e agilidade do ruivo, para que houvesse tantos fios na entrada do escritório que nenhuma outra bomba entraria no que restava do recinto. Nesse ponto, os encouraçados provavelmente teriam de abrir caminho entre os fios, individualmente, e esse seria o tempo que teria para fugir.

Assim que os encouraçados pararam de disparar as esferas de arpões, Aidan correu para o ponto oposto às esferas e reacendeu as chamas. Já não estavam tão fortes quanto antes, mas teriam de bastar. Ele gritou com toda força e projetou as chamas, a partir das mãos, em direção à parede oposta. Não demorou para a parede começar a derreter. Infelizmente, mesmo mais afastada, a teia de arpões e fios de cobre também era banhada pelas chamas, e logo começaria a derreter também.

Quando o buraco na parede atingiu exatos 71 cm de diâmetro, a primeira bomba elétrica atravessou a teia atrás de Aidan. Ele pulou em direção à abertura sem ligar se seus braços raspariam a mistura de vidro e calcário derretido. Apenas impulsionou o corpo perfeitamente na horizontal, deixando o recinto meio segundo antes dos dardos serem disparados em todas as direções.

Do outro lado, o ruivo rolou no banheiro dos funcionários. Atrás de si, ouviu os passos pesados dos encouraçados, que, provavelmente, já atravessavam a teia de bombas elétricas. Era questão de segundos antes que quebrassem a parede para alcançá-lo. Ainda em chamas, Aidan chutou a porta do banheiro, abrindo caminho para o corredor, enquanto ouvia os tijolos se quebrarem atrás, mas agora tinha para onde escapar.

Correu em direção à pista de dança, pelo menos até ver a bomba elétrica voar acima de sua cabeça, formando um arco que a faria quicar perto da porta. Imediatamente ele correu de volta, em direção aos encouraçados, e atirou-se ao chão, para passar por baixo do pé de um deles, milésimos de segundo antes de ser pisoteado.

Aquele encouraçado levaria um tempo até virar-se e voltar a persegui-lo. Os outros, entretanto, mal tinham saído do banheiro dos funcionários, e já se preparavam para atirar novas bombas elétricas contra o ruivo.

Aidan chegou no  pátio interno do clube e correu escada acima, para a recepção. Apagou as chamas e, mesmo nu, correu para a rua, saindo do clube, no exato momento em que os bombeiros chegavam.

Já havia policiais afastando a multidão de curiosos. No momento em que o viram, sacaram as armas contra ele, ordenando que se deitasse no chão. Como não obedeceu e continuou a correr em direção aos fardados, começaram uma saraivada de tiros. Desviar-se não foi tão difícil. A questão era se conseguiria pegar uma arma antes que os reais inimigos chegassem.

Com dois golpes conseguiu pegar a arma de um policial, correndo em seguida para longe do Thermopolis. Um alívio que durou pouco, pois mais cinco encouraçados caíram do céu, ao redor dele, cercando-o.

O que lhe restava era apenas puxar o cão da pistola e apoiar o cano no queixo. E foi exatamente isso que ele fez, já com o dedo puxando o gatilho.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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