Capítulo 41 – Demônio

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Abeô não teve tempo para reagir. Foi tudo questão de milionésimos de segundo. Aquela força invisível surgiu do nada, imensa e até dolorida, empurrando cada minúsculo pedaço de seu corpo em direção ao chão. Diante dela, o demônio acima dele, mesmo repleto de chifres serrilhados, não tinha mais qualquer importância. Tudo em que o africano conseguia pensar era em preparar-se para a queda, que certamente seria muito pior agora que estava sendo empurrado para baixo. Porém, antes que alcançasse o solo, a mesma força invisível o fez parar.

Quando deu por si, Abeô estava de barriga no chão, um círculo de chamas na mata ao redor. Dentro do círculo estava a criatura que, se tivesse olhos, estaria lhe encarando. Porém, de cada órbita brotava um robusto feixe de chifres, ou talvez espinhos, curvados para cima e para trás, alcançando pelo menos dois palmos acima da cabeça. Estruturas semelhantes cobriam praticamente todo o corpo da criatura, principalmente ombros, quadris e mãos. Era difícil imaginar como aquele ser se movia sem perfurar tudo ao redor, ou como conseguira posicionar os trapos que lhe cobriam a nudez. Era, na verdade, quase impossível acreditar que aquela coisa estivesse viva.

Contra todas as expectativas, a criatura falou em português com um sotaque carregado, a voz multitonal, como se cinco ou seis pessoas diferentes falassem ao mesmo tempo:

— Nossa Sinhora mandô sucorrê ocê.

Rapidamente, o africano ergueu-se e se preparou para lutar. Pelo susto ou pelo sotaque, não compreendeu uma única palavra do que o demônio lhe disse. A criatura, porém, pareceu entender a reação dele. Ergueu as mãos como se pedisse calma e murmurou, aparentemente assustada:

— Eu num vim brigá, sô. Carma! Sei que pareço o cão, mas eu sô cristão, sô! Carma!

Abeô ficou um pouco mais tranquilo quando percebeu que conseguia intimidar o demônio de alguma forma, mas não se moveu. Manteve-se preparado para brigar, punhos erguidos, queixo baixo. Estava preparado para socar a criatura para longe, caso precisasse.

— Nossa Sinhora me mandô, sô! Ela mandô ajudá ocê! – o demônio insistiu – Eu tô aqui pra ajudá ocê!

Pela primeira vez, o africano conseguiu compreender duas palavras do que aquela coisa dizia. “Ajudar você”, era isso que tinha entendido, apesar da falta de alguns sons. Receber qualquer ajuda do demônio parecia assustador, mas, no fim das contas, talvez fosse real. Afinal, a ajuda dele parecia ser a única explicação para não ter sentido qualquer impacto na queda.

Mesmo com os punhos ainda erguidos, Abeô relaxou um pouco a postura. A criatura pareceu sorrir, ao que emendou, olhando ao redor:

— Qual o nome do sinhô?

A pergunta pareceu banal demais para o africano. Sabia que não responderia a menos que recolhesse o piche, o que definitivamente não se sentia propenso a fazer. Por outro lado, outros assuntos voltavam a fervilhar em sua mente. Aidan. Os encouraçados. Thermopolis. A horas dali. Apenas a coluna de fumaça, o incêndio no meio do Rio de Janeiro marcando o local para onde precisava voltar, urgentemente.

Sim, apesar do círculo de fogo ao redor deles, Abeô ainda conseguia enxergar, através do piche nas costas, o incêndio no Thermopolis. À sua frente, o demônio se calara. Parecia prestar atenção a um espaço vazio à direita, inclinando levemente a cabeça naquela direção, concentrado. Até que, devagar, ele balbuciou:

— Têiqui… de… tar… ófi.

Foi inevitável ao africano não franzir as sobrancelhas, surpreso. Porém, apenas quando o demônio repetiu, com a pronúncia um pouco melhor, foi que Abeô teve certeza que ele tentava falar, em  inglês:

— <<Tira… o… piche… fora.>>

O demônio girava o rosto entre o africano e aquele ponto vazio, à direita dele, repetidas vezes, como se alternasse o olhar entre Abeô e algum outro ser invisível.

— <<Tira o… piche fora.>> – a criatura insistiu, com a pronúncia ainda mais clara.

O pedido só aumentou a resistência do negro. Como diabos aquele ser sabia do piche? E para que cargas d’água queria que o africano retirasse a proteção?

Até que o discurso do demônio mudou. Ele passou a repetir uma única palavra, olhando fixamente para o mesmo ponto vazio, como se algo ali lhe ajudasse a melhorar a pronúncia:

— <<Espera… Espera…>> – repetia.

Então, devagar, o ser ergueu os braços, “olhos” fixos no horizonte atrás de Abeô. Rapidamente, relâmpagos surgiram dos espinhos de seu corpo, criando um círculo ao redor de ambos. Tão rapidamente quanto surgiram, os raios cresceram até perfurarem as nuvens do céu. E, num piscar de olhos, aquela força invisível puxou-os para cima.

O borrão mal durou um piscar de olhos. Foi como se, através de um tubo de relâmpagos, Abeô tivesse viajado até acima das nuvens e, logo em seguida, descido novamente para o chão. Só que não estava mais na mata. Estava de volta à cidade, no meio da rua, o incêndio do Thermopolis poucos metros à frente. O círculo de relâmpagos aterrissara sobre cinco encouraçados, agora incapacitados, ao redor dele e do demônio. E um pouco à direita estava Aidan, nu e perplexo, ainda com o cano da pistola apoiado no queixo, o dedo no gatilho.

A visão do ruivo com a arma apontada para a própria cabeça fez Abeô perder a cabeça. Quando deu por si, já tinha retirado o piche, corrido até o tatuado, tirado a arma de sua mão e gritado:

— <<Você ia se matar?!>>

Aidan não respondeu nada. Continuava embasbacado, olhos correndo entre o demônio e Abeô. O negro ia gritar mais alguma coisa, mas uma voz feminina o interrompeu:

— <<Era… único… jeit…>>

Apenas trechos das palavras eram ouvidos. Pareciam vir da imagem transparente de uma mulher, que aparecia e desaparecia ao lado do demônio. A criatura coberta de chifres continuava a alternar a atenção entre Abeô e aquele ponto à direita, mas agora sorria, convencido de que o africano também enxergava a mulher ao lado dele.

A mão quente do ruivo puxando-o pelo braço e a voz gravíssima dele fizeram Abeô parar de prestar atenção na aparição:

— <<A gente conversa depois, gigantão! Temos que ir embora da…>>

Ao mesmo tempo, a mulher fantasmagórica comentou alguma coisa em português com o demônio. Quase imediatamente, novos relâmpagos surgiram dos espinhos da criatura, formando um círculo que cresceu ao redor deles. E antes que Aidan percebesse, ele, Abeô e a estranha criatura coberta de chifres estavam no meio da mata, rodeados por um círculo de chamas.

O ruivo ainda olhou ao redor alguns segundos, tentando entender o que acontecera. Enquanto isso, a mulher da imagem intermitente, postada ao lado do demônio,  murmurava para Abeô:

— <<Prazer… conhec… Abeô! Meu no… é Norma. Est…mantida co… prisioneira dos … você chama … couraçados.>>

Nesse meio tempo, o ruivo correu para o africano e abraçou-o com força, murmurando-lhe no ouvido:

— <<Pensei que não fosse mais  ver você nessa vida, gigantão!>>

Logo em seguida, Aidan beijou-lhe os lábios afoito, como se não houvesse mais nada no mundo. Nos primeiros instantes, Abeô deixou-se levar por aquele calor gostoso, o arrepio na espinha, aquela moleza que parecia dissolver tudo que o negro percebia ao redor. Pelo menos até o demônio bradar:

— Tu num é Nossa Sinhora coisa ninhuma!!!

O grito era direcionado à tal Norma, cuja imagem desapareceu por vários segundos e, mesmo quando voltou, parecia bem mais transparente do que antes.

— Eu… ca disse… era! – ela respondeu em português, a voz tão intermitente quanto a imagem.

— Tu me feiz salvá esses veado, sua fia do cão! – continuou o demônio a gritar, sem que Abeô entendesse quase nada do que dizia.

Então, sem qualquer aviso, a criatura fez centenas de relâmpagos surgirem dos espinhos de suas mãos e braços. Esses raios, entretanto, não formaram um círculo ao redor deles, como das outras vezes. Voaram diretamente contra Aidan, exatamente às costas dele, num ângulo que ele jamais perceberia até que fosse tarde demais.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

  • Vandson Carvalho

    kkkk e vamos maratonar :3 <3

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