Capítulo 42 – Relâmpagos

Autor: Osíris Reis
Arte: Osíris Reis e Marco ByM

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Enquanto observava os relâmpagos voarem para as costas de Aidan, os pensamentos de Abeô se aceleraram a mil por hora. Ele gritava para que seus músculos obedecessem, berrava consigo mesmo que precisava abraçar o ruivo e girar o corpo de forma a dar as costas para os raios. Sabia que precisava ser rápido, precisava ser o escudo para Aidan, mas não houve tempo. Ninguém conseguiria se mover tão rápido. Em questão de milésimos de segundo, os relâmpagos acertaram as costas do tatuado, faíscas e cheiro de carne queimada se espalhando do contato entre pele e luz.

Ao mesmo tempo, o africano sentiu aquele estranho tremor brotar de Aidan para ele. Era o mesmo tremor intenso e dolorido que os arpões das serpentes metálicas emanavam, o que ele considerara, na época, como o veneno delas. Isso não importava tanto agora. O que importava era que, como quando foi atacado por elas, Aidan contraiu todos os músculos do corpo, agonizando antes de desmaiar. Não havia dúvida: o demônio, de alguma forma, injetara, através dos raios, aquele estranho tremor em Aidan, e por ele passara para Abeô. E como com as serpentes metálicas, no primeiro momento aquilo doía, porém mesmo sem o piche o africano se sentia mais forte, mais alerta com aquilo. Os raios duraram apenas uma fração de segundo, mas logo em seguida Abeô já puxava o corpo inerte do ruivo, os músculos obedecendo tudo que tinha mandado antes de os relâmpagos chegarem.

— Para… isso..! – gritava, intermitente, a voz da mulher transparente, em português.

Abeô não entendeu o que ela dizia, nem mesmo tentou. Já se cobria de piche quando virou-se para o demônio. Mesmo antes de fazê-lo, já via, por meio dos milhares de olhos do líquido negro, novos relâmpagos brotarem dos espinhos do demônio para ele. Repreendeu-se quando acertaram um pedaço da mochila que trazia no peito provocando chamas no tecido e no dinheiro dentro dela, pouco antes do piche cobrir tudo.

Pelo menos dentro do piche as chamas se apagaram. O dinheiro para terminar de pagar o resgate de Shanumi estaria a salvo.

Mesmo coberto de feixes de espinhos, o rosto do demônio parecia preocupado. Apesar dos conjuntos de relâmpagos que atirava contra o africano ele, indiferente, continuava a caminhar em sua direção. Entretanto, antes que fosse alcançado, todos os chifres do demônio emitiram raios para o céu e, num piscar de olhos, ele subiu para as nuvens.

Se fosse um humano normal, Abeô não teria percebido quando, quase imediatamente, um feixe de relâmpagos desceu uns cinco metros atrás dele. No meio dos mesmos, desceu o demônio coberto com seus feixes de espinhos. De novo, nos chifres que lhe cobriam os braços, ele fez relâmpagos nascerem, mas não os direcionou para Abeô. Lançou dois feixes de raios em direção à mata, e logo em seguida outros dois emergiram dela, à direita e à esquerda do africano. Confluíram para ele, como se tentassem, de alguma forma, segurá-lo.

Isso não assustou Abeô. Já tinha se acostumado à força que os raios lhe davam, e se a intenção (sabe-se lá por quê) do demônio era feri-lo, não iria funcionar. Contudo, menos de um segundo depois de os relâmpagos o envolverem, objetos grandes e pesados começaram, rapidamente, a serem lançados da floresta para ele. Coisas grandes como casas, duras como ossos, rápidas como balas, primeiro da direita, depois da esquerda, depois pela direita novamente e assim por diante. Não fosse a resistência extra que os relâmpagos lhe davam, Abeô, com certeza, estaria em péssimos lençóis. Na prática, os golpes eram muito doloridos, mas não pareciam capazes de matá-lo. Assim, quando acertado pela quinta vez, ele teve certeza. Eram árvores, inteiras, com raízes e tudo, voando pelos raios para ele.

— Para com… luquice! Eles vão… lizar vocês! – a aparição da mulher continuava a gritar.

O demônio coberto de espinhos não ouvia. Emitia um grito longo, que tinha picos de intensidade pouco antes de cada árvore voar contra Abeô. Ao acertá-lo, elas o arrastavam pelo menos uns dois metros, porém rachavam e se partiam. Aos poucos, uma nuvem de toras e farpas de madeira se dispersava ao redor do africano, incendiando-se nos relâmpagos. Era só questão de tempo até o fogo tomar toda aquela área.

Felizmente, o demônio não parecia capaz de manter aquele esforço por muito mais tempo. Uma dúzia de segundos e umas vinte árvores depois, ele calou-se e deixou os braços desfalecerem por segundos. Os raios desapareceram e as árvores pararam de golpear Abeô. E foi nesse instante que ele correu, com todas as forças, em direção ao demônio.

O africano estava para lá de fulo. Não fazia ideia do motivo para os ataques, mas tinha certeza que tinha que pará-los. Tinha dois ou três segundos antes de aproximar-se o suficiente para fazer alguma coisa. O instinto era, independentemente dos milhares de espinhos e chifres, de cobrir a criatura de socos e pontapés. Não era nada bonito ter essa intenção com quem o tinha ajudado a escapar dos encouraçados e até salvar a vida de Aidan, mas o ruivo estava inconsciente naquele instante por causa dele. Abeô não tinha ideia do que seus golpes fariam ao ser, mas não iria parar para pensar. Afinal, também não sabia o que mais o demônio poderia fazer. Então, cerrou os punhos e, num salto, desferiu um soco em direção ao inimigo.

Todavia, enquanto Abeô ainda estava no ar, a estranha criatura percebeu o que aconteceria e prendeu a respiração. Novamente, relâmpagos surgiram, dessa vez em todos os espinhos e chifres dele, um túnel de relâmpagos subindo para as nuvens. Se pudesse emitir sons enquanto estava coberto de piche, o africano teria gritado um palavrão quando viu o vulto do demônio subir em direção às nuvens. No entanto, a frustração desapareceu quando o piche chegou aos relâmpagos. Foi como se toda aquela luz tivesse sido sugada pelo líquido escuro ao redor de Abeô, aquela onda de ânimo preenchendo o africano. E foi por meio do piche que, mesmo sem erguer a cabeça, percebeu que o demônio despencava das nuvens, sem raios ao redor.

Ele não atingiu o solo. Antes que isso acontecesse, a criatura novamente invocou seu túnel de raios, ligando terra e céu e, antes que Abeô tivesse tempo de se virar, o demônio subiu para as nuvens e não retornou mais em qualquer lugar visível.

Imediatamente, Abeô recolheu o piche e correu para Aidan. Ele estava cercado pelas chamas da mata, mas ao contrário do que o africano temia, não parecia se queimar. Era um bom sinal?

— Aidan? – o africano chamou enquanto retirava as mochilas e as colocava num local mais ou menos longe das chamas.

As queimaduras que haviam surgido onde os relâmpagos tinham atingido a pele tatuada fechavam-se bem devagar, mas ainda a olhos vistos. A má notícia era que o som de helicópteros se intensificava no céu. O africano não tinha ideia de como aquelas máquinas se chamavam, mas tinha visto um, uma vez, nas minas. E, definitivamente, já havia tido mais que sua cota de máquinas voadoras naquela noite.

Devagar, aproximou a mão das chamas, tentando avaliar o que sofreria. Era dolorosamente quente, mas a pele não parecia se machucar. Por outro lado, cobrir-se de piche não era uma opção. O que queria era tocar em Aidan, acordá-lo. E já vira o que o piche era capaz de fazer à carne do ruivo. Então, apesar da dor das chamas, foi sem qualquer proteção que ele apertou, de leve, o ombro do ruivo, balançando gentilmente enquanto chamava de novo:

— Aidan?

O ruivo despertou com um gemido de dor, ao mesmo tempo em que as chamas ao seu redor se tornavam mais alaranjadas. As feridas nas costas se fecharam quase automaticamente, deixando cinco grandes falhas nas tatuagens das costas. E as chamas ao redor do ruivo voltaram à cor natural do fogo, enquanto ele se levantava apressado, olhando para o céu.

— <<Nós temos que sair daqui, Abeô!>>

— <<Sim, temos.>>

— <<Cadê aquele cara estranho que estava com você?>> – perguntou Aidan, enquanto saía das chamas.

— <<Ele foi embora. Não acho que vá voltar.>>

O ruivo correu até as mochilas, colocou a rasgada na frente do corpo, jogou a outra para Abeô e emendou:

— <<A gente tem que correr, gigantão. Agora.>>

O africano não precisou ouvir mais nada antes de correr atrás do ruivo, seguindo-o floresta adentro. Apesar da escuridão e, mesmo descalço e nu, ele corria de forma assustadoramente rápida entre as árvores. Na verdade, em vários momentos, ele claramente parava por segundos até Abeô diminuir a distância entre eles.

Correram uns trinta minutos, subindo e descendo algumas vezes, em outras cruzando estradas que, mesmo asfaltadas, só poderiam ser percorridas por pedestres. Até que começaram a ouvir o som do mar. Foi quando Aidan parou e perguntou:

— <<Como ficaram os arranjos para salvar sua irmã?>>

— <<Pedi que o Albuquerque transferisse metade do dinheiro. Mais uns dois dias e ela deve estar lá em Manaus. Precisamos chegar lá antes e…>>

— <<Isso significa que vamos precisar de um carro. Mas primeiro vamos sair do Rio de Janeiro. Eles devem estar vigiando quase todas as estradas. Devem estar vigiando as praias também, e deve haver dezenas de robôs na água.>>

— <<Robôs?>> – Abeô não conhecia a palavra.

— <<As máquinas que nos atacaram no rio Amazonas. As que davam choques elétricos.>>

O africano já tinha ouvido falar, umas duas vezes, de choques elétricos, mas nem sabia direito em que situação aconteciam. No fim das contas, não era veneno o que as serpentes metálicas injetavam, eram choques elétricos que Abeô recebera, sem nem ao menos se dar conta. Mais um bocado de perguntas que teriam que ficar para depois.

Aidan aproximou-se dele e o abraçou apertado, o corpo quente, nu e coberto de pelos macios. Beijou-lhe nos lábios suavemente, mas aquilo foi mais que suficiente para fazer o africano, por alguns instantes, esquecer de todo o restante. Até que o ruivo afastou-se e comentou:

— <<Vamos ter que pular na água, mas sem usar nossas capacidades quânticas. Quando mergulharmos, você se cobre de piche e eu acendo as chamas. Daí eu te guio até a próxima cidade. Vamos ter que nos mover do mesmo jeito que quando fugimos dos robôs no rio Amazonas, ok?>>

Abeô assentiu e Aidan aplicou-lhe um segundo beijo nos lábios, mais rápido. Ele então se agachou e, devagar, moveu-se para a beirada da mata, para avaliar a situação. Fez um sinal para que o africano o acompanhasse, que foi quando ele entendeu melhor o local. Após as árvores, havia um platô de pedras e, sabe-se lá quantos metros abaixo, o mar. O ruivo explicou:

— <<Vamos correr e pular dali. Nos vemos no fundo. Vamos no 3?>>

O africano concordou e o tatuado contou de um a três. Então os dois correram até o final das pedras e atiraram-se para o mar.

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Osiris Reis

Osíris Reis zanzou da Medicina à Mecatrônica antes de assumir a tara por Ficção Fantástica. Formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, é autor de “Treze Milênios” (ficção científica vampiresca), dos contos “Madalena” (Paradigmas 1), “Alma” (Imaginários 1), “Queda” e “Companheiros de Armas” (Fantástica Literatura Queer) e da coletânea de contos “Sobre humanas fúrias”, condecorada com o Prêmio Cassiano Nunes do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.

É o baixo do grupo Supertronica, animador 3d, editor de vídeo e do BNCast, empreendedor, compositor, além de, para os íntimos, consultor tecnológico.

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